Montfort Associação Cultural

27 de janeiro de 2005

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Ataque protestante: o celibato sacerdotal

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: José Luiz de Oliveira
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Protestante

Buscarás ao SENHOR teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. Deuteronômio 4:29

Caro professor Monfort,

Li todo o conteúdo da “conversação” do senhor com o pastor “Saul” da igreja Batista da Lagoinha. Percebi trocas de “gentilezas” entre os senhores, as quais, de ambos os lados demonstram que não existe sabedoria na questão do trato de doutrinas.

As escrituras dizem: ” Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós… ” I Pedro 3:15

Eu não gostaria de ficar aqui trocando farpas com ninguém, todavia, entendo que a Bíblia deve não ser apenas lida, como também estudada, pois, me parece que isso está escrito, como por exemplo:

Apocalipse 1:3 – “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.”

Salmo 1: 1à 2 – “BEM-AVENTURADO o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.
Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.

Agora, se me permite, eu gostaria de fazer algumas perguntas e dentro delas deixar uma posição que tenho entendido pelas escrituras. Pode ser? Gostaria que se possível, o senhor me respondesse dentro da própria Bíblia, usando dos Escritos Sagrados, tudo bem?

Bom, é o seguinte: É sabido de todos nós que aos padres foi vedado o casamento por ordem do Papa. Todavia, a Bíblia diz que quem aspira ao episcopado, boa coisa deseja. Entretanto, a Bíblia também diz que são necessários alguns pré-requisitos para aquele homem que tenha tal vocação. Podemos ver esses pré-requisitos em duas citações, as quais, transcrevo abaixo, e que conforme está escrito, essa Palavra é digna de toda aceitação:

I Timóteo 3: 1à 5

1 ESTA é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.
2 Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar;
3 Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento;
4 Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia
5 (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?);

Outra menção que a Bíblia faz relativo à esse ensinamento, se encontra em Tito 1: 5 à 9, quando o Apóstolo Paulo orienta à seu fiel amigo e discípulo Tito, para estabelecer Presbíteros nas igrejas e que características esses homens deveriam ter para ocupar tão nobre função. Vejamos:

QUALIFICAÇÕES DOS PRESBÍTEROS

5 Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei:
6 Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.
7 Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância;
8 Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante;
9 Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.

Sabemos todavia que, se tal homem, de livre e espontânea vontade, prefere ficar sem se casar, tudo bem. É até melhor, porque solteiro ele com certeza terá mais tempo e até mais liberdade para trabalhar na obra de Deus, não é mesmo? Todavia, se ele quiser se casar, entendo também que ele de igual modo deve ter a liberdade de optar, pois, como diz as escrituras : ” Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se. I Corintios 7:9

Essa foi a posição, inclusive que o próprio Apóstolo Paulo tomou, ou seja, ele optou por ficar solteiro, no entanto ele próprio reconhecia que poderia e tinha todo o direito de se casar, se assim, o desejasse. Veja o texto transcrito abaixo:

I CORÍNTIOS 9
OS DIREITOS DO APÓSTOLO PAULO

1 Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor?
2 Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor.
3 Esta é minha defesa para com os que me condenam.
4 Não temos nós direito de comer e beber?
5 Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?

Nessas passagens posso “entender” que o casamento não foi proíbido pela Bíblia aos Ministros de Deus, inclusive o próprio Apóstolo Pedro era casado, não é mesmo? Jesus até curou a sogra de Pedro certa vez ” E Jesus, entrando em casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, e com febre. Mateus 8:14

A Bíblia nos mostra que o casamento é algo honroso, que foi instituído por Deus. Então, por quê se proíbe o casamento aos Padres? Por quê saiu do vaticano tal ordenança, se a própria Bíblia não proíbe isso?

Será que houve algum equívoco por parte do santo padre? Ou ele pode, como “representante de Deus na terra”, mudar ou colocar outro fundamento além daquele que já foi colocado?

Fico ainda mais temeroso, quando lenho a seguinte passagem na Bíblia:

I Coríntios 4: 1 à 5

1 MAS o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios;
2 Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência;
3 Proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças;
4 Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças.
5 Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada.

Deus, em Sua Oniciência já nos falava, já naqueles dias, que virião tempos em que alguns “deixariam as sãs doutrinas, e dariam ouvidos à espíritos enganadores e à doutrinas de demônios, e a partir de então seriam ensinadas coisas e colocados normas e regulamentos que Deus não os tinha colocado. Isso não é estarrecedor? Será que isso tem acontecido realmente, ou não se vê isso em nossos dias?

Penso pelo exposto acima que, os padres têm todo o direito de se casarem, caso isso seja da vontade deles. Ninguém pode roubar-lhes o direito (como bem colocou o Apóstolo Paulo Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente), nem mesmo o seu líder – o papa.

Considerando que Pedro foi o “primeiro papa”, ele também teve sua mulher e companheira. E se isso fosse algum impecilho ao seu ministério, Jesus não lhe teria chamado para ser seu apóstolo, não é verdade? Todavia, temos visto muitos ensinamentos de homens sendo “empurrados goela abaixo do povo”, me desculpe a expressão, mas é isso que tem ocorrido ao longo dos anos.

Agradeço a paciência de ter lido todo esse comentário e me coloco à sua disposição para eventuais colocações.

Atenciosamente,

José Luiz

Prezado senhor José Luiz de Oliveira, Salve Maria.

Obrigado por sua consulta. O senhor demonstra que tem a bondade e a paciência de ler nossos trabalhos. Fica patente que o senhor me honrou lendo, não so a polêmica com o Saul Da Lagoinha, como também meu texto “Leia a Bíblia? “.
Fico-lhe agradecido.

Não tema minhas “gentilezas”, porque elas são apenas – como no caso do Saul da Lagoinha – uma resposta à altura e em legítima defesa. Como escrevi certa vez a um opositor atrevido, quem desafia para um debate, escolhe as “armas”, ou o tom desse debate.

O senhor escolheu um tom respeitoso e educado, e tem direito ao mesmo respeito e educação. O que me agrada sobremaneira.

Permita-me, antes de tudo, fazer um esclarecimento. Eu não disse que a Sagrada Escritura não devesse ser lida e estudada. Disse que ela não deveria ser lida por qualquer pessoa, desorientada, pois, para entende-la, é preciso ter certos conhecimentos. Afirmei que a Bíblia era lida pelos sacerdotes e rabinos para que a explicassem ao povo mais simples. E mais: a Bíblia não pode ser lida senão com a disposição de aceitar a interpretação dada pela Igreja através do Papa, sucessor de São Pedro, que recebeu de Cristo as chaves do reino dos Céus.. Nessas condições, é útil, bom e salutar ler a Sagrada Escritura, sabendo porém que nela não está toda a Revelação, como provei para o Saul da Lagoinha através das próprias Escrituras Sagradas.

Toda a sua carta, feita em termos respeitosos, mostra, entretanto, que o senhor não é católico, mas protestante, pois me pede que lhe responda apenas pela Bíblia. Contudo, o senhor só levanta contra a Igreja Católica a questão do celibato sacerdotal, que é um problema de disciplina, e não de fé.

Como justificar, mesmo usando apenas a Bíblia, que o celibato sacerdotal tem raiz nos Evangelhos?

A questão é muito simples!

Em primeiro lugar, antes de dar essa justificação, permita-me, senhor José Luiz, lembrar que, segundo a Escritura Sagrada, o matrimônio é santo e estabelecido por Deus. Digo “lembrar”, porque nisto devemos certamente concordar. Dispenso-me de citar os textos bíblicos que o senhor deve bem conhecer e que legitimam o matrimônio, como a instituição dele, por Deus, no princípio do mundo, e sua elevação a sacramento por Cristo, nas bodas de Caná. Disso não há dúvida.

Para encaminhar a questão do celibato sacerdotal, restaria discutir o que é superior: o matrimônio ou o estado de virgindade consagrada a Deus. E sua carta me deixa patente que o senhor, também neste ponto, concorda comigo, afirmando que, segundo as Escrituras, o estado de virgindade é superior ao matrimônio.

Lembro apenas, sobre este ponto, que a Sagrada Escritura é bem clara, pois o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos diz:

“Todo o que deixar por amor de meu nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as fazendas, receberá cento por um e possuirá a vida eterna” (Mt. XIX, 29).

É patente, por esse texto que Jesus aconselha alguns a deixarem a mulher para serví-Lo. E é o que fazem os sacerdotes católicos.

Bastaria esse texto do próprio Deus Homem, Cristo, para ter comprovado o valor e a liceidade do celibato sacerdotal. Mas, para atender melhor a seu pedido, cito outros textos.

O mesmo Cristo Jesus nos disse:

“Nem todos são capazes desta resolução, mas somente aqueles a quem isto foi dado. Porque há alguns eunucos que nasceram assim, do ventre de sua mãe; e há outros eunucos, a quem outros homens fizeram tais; e há outros eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor ao Reino dos Céus. O que é capaz de compreender isto, compreenda-o” (Mt. XIX, 11-12).

Evidentemente, Cristo não estava pedindo uma mutilação física, do mesmo modo que, quando disse que era melhor arrancar o olho do que pecar com ele, não estava incentivando que os homens se cegassem. Cristo, falando em “eunucos” voluntários, se referia àqueles que, por amor a Deus, renunciavam à mulher, como vimos na citação anterior.

E o próprio Cristo – Sacerdote por excelência — nos deu seu exemplo, não se casando. Devem os sacerdotes imitá-lo.

Também a sua Mãe Santíssima foi Virgem sempre. E São José nos deu o mesmo exemplo de castidade. O discípulo amado por Cristo era São João, que se manteve virginal. São João Batista, de quem Jesus disse não haver maior homem nascido de mulher, foi virgem também.

Meu caro senhor José Luiz, a Bíblia não nos ensina apenas com palavras, mas com exemplos de vida também.

O próprio São Paulo escreveu que o casamento era bom, mas que permanecer, como ele, “em estado de virgindade é melhor”.

“Digo também aos solteiros e às viúvas que lhes é bom se permanecerem assim, como também eu. Mas, se não tem o dom da continência, casem-se” (I Cor. VII, 8-9).

Portanto, São Paulo, nesse texto, se afirma solteiro, e diz que aos solteiros é bom permanecer como ele. E é à luz desse texto que se deve entender o outro texto que o senhor me cita:

“1 Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo SENHOR nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor?
2 Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor.
3 Esta é minha defesa para com os que me condenam.
4 Não temos nós direito de comer e beber?
5 Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?”

Evidentemente, se São Paulo afirmou que era solteiro e aconselhou os outros a manter-se como ele sem mulher, nesse texto que o senhor me cita, a palavra “esposa cristã” não significa esposa dele, São Paulo. Ele dizia que ele, como os demais apóstolos, tinha direito de levar consigo uma mulher casada, para ajudá-lo. Não era para cohabitar maritalmente com ele. Se São Paulo, que se disse solteiro, se arrogasse o direito de levar consigo uma esposa, estaria dizendo que tinha direito de levar consigo uma amante, o que é um absurdo, pois não há direito de fazer isso.

O senhor me alega ainda que uma das condições para ser escolhido para o episcopado era de ser casado (I Tim3, 1-5).

Permita-me que lhe faça uma distinção, sobre esse texto.

No princípio do Cristianismo, muitos pagãos se convertiam, e, entre os mais velhos deles, em geral casados e viúvos, é que se escolhiam os Bispos. São Paulo recomenda que se escolham os Bispos entre os homens que, tendo sido casados, tivessem sido casados uma só vez. É assim que se explica os textos a Timóteo e a Tito que o senhor cita.

E ainda que a princípio, os Bispos tivessem sido assim escolhidos, as palavras de Cristo sobre o valor dos que deixavam mulher por amor dele, e as palavras de São Paulo, aconselhando a ser como ele, levaram a Igreja, sempre guiada pelo Espírito Santo, a estabelecer a lei do celibato. Supor que a Igreja errou, estabelecendo a lei do celibato, seria negar a promessa de Cristo de que estaria com ela todos os dias, até o fim do mundo (Cfr. Mt XXVIII, 20). Ou que as portas do inferno prevaleceriam sobre a Igreja de Cristo. (Mt XVI, 18).

Quanto ao fato de que São Pedro fora casado, não há dúvida disso. Só que quando Cristo cura sua sogra, está dito que, tendo sido curada da febre por Jesus, “ela levantou-se, e pôs-se a serví-los” (Mt. VIII, 14) . Ora, se São Pedro ainda tivesse mulher, seria natural que esta, e não a sogra de Pedro, os servisse. Portanto, São Pedro já devia ser viúvo quando conheceu Cristo, e, por isso, nunca se fala da mulher dele.

A Igreja Católica sempre defendeu o matrimônio e o casamento como estabelecidos por Deus, e condenou as seitas gnósticas, maniquéias e cátaras que proibiam o casamento.

De modo que o senhor erra quando supõe que a Igreja, impondo o celibato aos sacerdotes, condena o casamento. Ela considera, com São Paulo, que casar é bom, mas não casar por amor a Deus é melhor. Por isso, ela criou a lei do celibato para os que livremente queiram ser sacerdotes de Cristo. Se o Sumo Sacerdote, Cristo, viveu virginalmente, os seus sacerdotes devem imitá-Lo.

Agradecendo o tom respeitoso e civil de sua missiva, e rogando que Nosso Senhor o reconduza à verdadeira Igreja de Cristo, subscrevo-me atenciosamente,

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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