Montfort Associação Cultural

12 de janeiro de 2007

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Associação Montfort e Vaticano

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: André Machado Coelho
  • Idade: 26
  • Localizaçao: SC – Brasil
  • Escolaridade: Pós-graduação concluída
  • Profissão: Advogado
  • Religião: Católica

Caro Professor Fedeli,

Estive nos últimos dias lendo alguns de seus artigos e respostas à alguma das inúmeras cartas que recebes. Nossa fé católica possui tantas riquezas a serem desbravadas e divulgadas, que seu trabalho é, sem dúvida, um instrumento para elevar nossa alma as coisas de Deus e encontrar boas respostas à dúvidas e acontecimentos que atigem nossa crença.

Porém, embora tenha procurado no site a resposta, não encontrei algo que, creio eu, seja importante. Existe algum vínculo entre a Montfort e a Igreja Católica? Digo, há alguma autorização (se é que é preciso) aprovação, ou algo do gênero que torne as informações aqui divulgadas, a maneira de interpretar o catecismo e entender certos acontecimentos, fonte de informação reconhecida pelo Vaticano?

Pergunto isso caro professor, porque, assim como a Montfort educa e doutrina com base no catecismo, emite juízos de valor em relação a atitude de movimentos, pastorais e pessoas ligadas a Igreja, ou melhor, até onde li, sempre que ouve menção à algum movimento, veio acompanhado de críticas um tanto quanto severas.

Embora leia seus textos e os ache de uma redação ímpar e rica, discordo de várias colocações da Montfort e também de algumas cartas publicadas, que, na minha singela opinião, servem apenas para levantar polêmicas inúteis, infundadas e que não ajudam a edificar nossa fé.

Repito nobre professor, admiro seu conhecimento evidente nas suas explanações, tanto que as pretendo usar nas palestras que darei à jovens católicos, e por isso o questionamento da “oficialidade” do site perante a Igreja.

Por fim, como ensina a Carta Apostólica, aproveito a oportunidade para exortá-lo, embora seja tão “Zé ninguém” quanto Ananias, aquele que orou por Saulo.

Admiro sua fé e sua defesa do que é tradicional, ou melhor, como o senhor descreve, do que “é eterno”. Porém me entristeci ao ler linhas pelo amigo escritas um tanto quanto agressivas e irônicas quando se referiu a movimentos católicos, e até pessoas, sacerdotes, alguns, até onde sei, com trabalhos lindíssimos e que enriquecem nossa Igreja.

Ousando opinar mais uma vez, creio que não só o tradiconal, o antigo é eterno. Nossa Igreja é eterna e composta por este belo mosaico de movimentos, pastorais, congrecações, comunidades leigas enfim, há diversidades que surgem e somem, e é isto que permite a nossa Igreja ir do antigo ao moderno acolhendo a todos, e mesmo na diferença sendo a mesma IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, una, santa e pecadora.

Como professor de história o senhor sabe muito bem como lideranças católicas cometeram erros graves, algumas defendo o antigo, não permitindo a “modernização” da Igreja. Em nome de Deus, muitos foram assassinados e martirizaram pessoas que hoje são santas em nossa Igreja. Gosto muito de história, e justamente por isso não ousava por os pés na Igreja fora de festividades como batismo, matrimônio, primeira eucaristia e crisma. Sempre achei uma barbárie os atos da inquisição e o comportamento de Papas e bispos diante daqueles que ousavam discordar ou apresentar uma nova maneira de ser Igreja.

Hoje professor, com a graça de Deus, sou membro da Igreja, gosto, amo e a defendo com todas as minhas forças. Compreendi que mesmo diante dos erros graves que até hoje permanecem, nossa Igreja é eterna. O que é eterno vem de Deus e o que é de Deus, ninguém detem. Mesmo diante da luxúria e arrogância vividas pela Igreja em alguns períodos, surgiram santos, dos quais cito aqui São Francisco de Assis, um enviado de Deus que mostrou a muitos que o caminho a ser trilhado é o inverso: levar Jesus aos humilhados e com eles comungar.

Toda esta dissetarção tem apenas um intúito. Pedir ao professor que, além da resposta a pergunta acima escrita, seja menos severo, sem esconder a verdade, quando for opinar sobre movimentos e pessoas ligadas a Igreja, em alguns trechos captei até mesmo um certo ar “inquisitor” nas suas palavras.

Temos que edificar nossa fé, sem, porém, petrificar o coração. Há sinal de Deus em tudo, claro existem erros e exageros que precisam ser corrigidos, porém, como está escrito, o que é Deus fica, portanto o que nele não estiver firmado, ficará pelo caminho.

Forte abraço
Nos encontramos na Eucarístia,

André

Muito prezado Dr. André,
Salve Maria.

    Agradeço-lhe sua opinião elogiosa sobre o trabalho que exercemos no site Montfort como católicos leigos conscios de seu dever de defender a Fé e de ajudar nosso próximo pela instrução e pela apologética.
    O vínculo entre os membros da Montfort e a Igreja Católica é o Batismo e a Verdade. E esse é um elo forte e suficiente para fazer o que fazemos.
    O site Montfort é de uma associação cultural de leigos católicos. O site Montfort não é um site oficial da Igreja.
    A Associação Cultural Montfort é uma entidade civil de orientação católica que tem como finalidade, entre outras, a difusão do ensinamento tradicional da Igreja e da cultura desenvolvida pela civilização cristã ocidental. Combatemos especialmente o modernismo e o liberalismo.
    Nós, membros da Montofrt, não falamos, e nem pretendemos ou podemos falar em nome da Igreja, pois não somos Bispos, nem sacerdotes. Agimos enquanto leigos católicos, sem qualquer autoridade, a não ser a de simples católicos.
    Nada mais fazemos do que reproduzir o ensinamento da Igreja, que estudamos com afinco.
    Somos leigos católicos que, como se pode ler em vários documentos recentes, inclusive do Concílio Vaticano II, têm o direito e o dever de defender a fé, usando de nossa livre iniciativa. Os documentos eclesiásticos mais recentes dizem que os Bispos devem aproveitar e incentivar as iniciativas dos leigos na defesa e expansão da religião.
    O senhor notou que criticamos “movimentos” católicos atuais.
    O senhor nunca encontrou críticas da Montfort a Ordens e Congregações religiosas enquanto tais. Os “movimentos” nasceram do Concílio Vaticano II com base nas doutrinas aggiornativas, isto é evolutivas, historicistas adotadas por esse Concílio pastoral.
    Movimentos católicos são aqueles admitem mudanças na Igreja, em sua doutrina, querendo adptá-la ao mundo moderno tal como o desejou o Vaticano II. Os movimentos querem evoluir com o tempo.
    As Ordens religiosas nunca foram movimentos. Elas eram estáveis fruto da Igreja que não muda, edificada sobre a rocha. O Vaticano II construiu sobre um fundamento móvel; o aggiornamento. E Nosso Senhor disse que quem constrói sobre a areia — que é móvel — constrói mal, e o que ele construiu desabará e será grande a sua ruína.
    A igreja nova construída pelo Concílio Vaticano II está se arruinando por toda a parte e arruinando tudo o que ela domina. Veja, Doutor, a decadência moral imensa. Veja a decadência religiosa.
    Como prova, cito-lhe alguns números que evidenciam a decadência da Igreja na França após o Concílio Vaticano II: 

    Hoje, só 51% dos Francesesse declaram-se católicos, enquanto eles eram 80% em 1990 e 69% no ano 2.000, destaca o Le Monde des Religions. E hoje, dos 51% dos católicos, só 10% são praticantes. Só 8% vão à Missa.

    Em 1975, havia 578.212 batismos para 724.000 nascimentos, isto é, 80% dos nascituros eram batizados. Em 2004, a cifra caiu para 357.262 batizados para 767.816 nascimentos, isto é, caiu de 80% para 46%.
    Quanto aos casamentos religiosos, eles eram 281.786 para 387.400 casamentos civis, em 1975, isto é, 72%.
    Em 2003, o número caiu para 96.863 em 271.600 casamentos civis, isto é, caiu para 36%. 
    Hoje, existem apenas 9.000 paróquias na França, em 36.000 municípios.
 
    Em 1970, havia 37.555 padres diocesanos cuidando de uma paróquia. 
Em 2004, há apenas 16.859 e a maior parte tem mais de 60 anos.
    A Igreja Católica está morrendo na França. O Concílio Vaticano II a matou.
    A Igreja nova do Vaticano II não é um belo mosaico. É um aglomerado caótico de coisas novas remendadas umas nas outras, sarapintada como uma roupa de arlequim, para usar uma comparação de Platão.

    Você me diz ”IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, una, santa e pecadora”. 
Caro Dr. André, isso não é católico. Isso não está no credo. No credo, cantamos ue a Igreja e Una Santa, Católica e Apostólica”.
    Dizer que a Igreja é santa e pecadora é contra a Fé, e é uma contradição absurda.

    Você me diz que gosta de História. Infelizmente, porém, comete um erro histórico grosseiro e ultraja a Igreja ao repetir uma calúnia histórica ao me escrever: 

Sempre achei uma barbárie os atos da inquisição e o comportamento de Papas e bispos diante daqueles que ousavam discordar ou apresentar uma nova maneira de ser Igreja”.


    Caro Dr. André, a Inquisiçao jamais fez o que você lhe atribui. S
e ela tivesse sido criminosa, como inúmeros santos a defenderam e a utilizaram. Li outro dia, num livro, uma carta de São Francisco Xavier — santo extraordinário — ao Rei Dom João III de Portugal, pedindo que estabelecesse a Inquisição nas colônias lusas do Oriente, para impedir a grande decadência religiosa dos católicos portugueses na Ásia (Carta de 16 de Maio de 1546).
    Escrevi inúmeras cartas mostrando as calúnias que correm, sem base alguma nos fatos, sobre os pretensos crimes da Inquisição.
    E você me cita São Francisco de Assis… Ora, ele tentou converter os maometanos do Egito, para evitar a guerra entre cruzados e mamelucos e não o conseguiu tendo que admitir o início da batalha.
    Por fim tenho que lhe agradecer ao me atribuir um “ar de inquisidor” que não tenho a honra de ser. Inquisidores foram São Pio V, São Pedro Arbués, e muitos outros santos favoreceram a Inquisição, como São Domingos, São Raimundo Nonato, São Luis, rei, São Francisco Xavier, e tantos outros.
    A sua boa vontade e sua boa intenção me fazem esperar que, tendo estudado melhor o que ensina a Igreja e o que dizem os livros de História escritos com isenção, você, compreenda o que digo, e venha ser um meu companheiro de combate na defesa da Fé.
    Hoje, muitos adotam o estilo diplomático, quando a Igreja precisaria de cruzados intelectuais para defender suas muralhas doutrinárias.
    Venha para a muralha da Fé combater o bom combate.
    Venha combater com a Montfort, Dr. André. 

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

Replica

Caro Professor Fedeli,

Gostaria primeiro de lhe agradecer pela prontidão com a qual respondeu meu questionamento. Ainda mais com duas mil e tantas cartas a responder.

Sua explanação foi bastante esclarecedora quanto a natureza e finalidade da Associação. Na verdade era o que estava no meu pensamento, queria apenas saber se havia algum vínculo entre a Monfort e o Vaticano, além do Batismo. Ratifico o que escrevi anteriormente, acho grandioso, válido e rico o trabalho desenvolvido embora, repito, discorde de alguns entendimentos.

Sobre as tristes constatações estatísticas redigidas, já eram do meu conhecimento, não em números tão exatos, mas o “abandono” dos católicos a sua fé, principalmente no velho continente, é visível.

Não concordo, no entanto, que o senhor atribua às mudanças trazidas pelo Vaticano II o único motivo dessas perdas. De qualquer forma, meus argumentos não terão o conhecimento demonstrado pelo senhor, então, para evitar “erros grosseiros”, lhe faço nova pergunta: Porque atribuir ao Concílio Vaticano II a causa dessas perdas?

Li alguns de seus artigos e respostas sobre o assunto, e vi sua posição contrária ao Vaticano II, dizendo ser ele inútil e obscuro, trazendo confusão à Igreja. Mas, até onde as idéias do Concílio perjudicaram a fé católica, ao ponto de perder fiéis? Não há então posições positivas trazidas pela Igreja do Vaticano II?

Quanto a Igreja “Una, santa e pecadora”, o senhor tem razão, o credo é outro. De qualquer forma, retiro o último adjetivo da Igreja, e atribuo aos fiéis, esses são pecadores, sem exceção ou estou equivocado novamente?

Em relação ao meu gosto pela história, vou lhe esclarecer. Afirmei que sempre gostei de história, porém, não sou estudioso no assunto. Quando escrevi “sempre gostei de história” estava me referindo aos bancos escolares, quando, de fato, era uma das minhas matérias favoritas.

Então, perdão professor pelo erro grosseiro que o senhor afirma ter eu cometido. No entanto, não posso deixar de destacar que o que ensinam nos bancos escolares, é que a Igreja quis demonstrar força com a Inquisição, perseguindo, matando e violando em nome de Deus, àqueles que a ela contestava. Também é a opinião defendida por alguns historiadores, ao menos os que conheço. Por isso até me surpreendi quando vi sua formação em história. Aproveito para lhe perguntar novamente: Estou equivocado?? O que alguns historiadores dizem sobre a Igreja/Estado medieval é errado?? Porque?

Por fim, estou sempre em busca de conhecimento, e com certeza irei em busca de informações, como tenho feito diariamente. Espero um dia chegar ao brilhantismo e pontencial com o qual o senhor responde e defende seu ponto de vista, espero, porém, alcançar argumentos suficientes para contrapor algumas de suas teses, às quais compreendo, porém discordo.

No mais professor, continuo com meu São Francisco, o de Assis. Até que prove o contrário, é um Santo pelo qual tenho apreço, ao menos dos livros que li de histórias/estórias a ele atribuídas, enxerguei nele forte presença divina.

Permita-me ainda lhe fazer mais dois questionamentos:

Gostaria de saber, à luz da verdade defendida pela Montfort, a opinião sobre o pontifício do Papa João Paulo II, e o que esperar de Bento XVI no que diz respeito à possibilidade de um novo Concílio.

Hoje (11/1/2007) verifiquei uma nota no canto esquerdo do site uma nota sobre a relação da Montfort com o Vaticano, acaso já estava ali, ou tem relação ao meu questionamento?

Nos encontramos na Eucaristia,
Forte abraço

André Machado Coelho

Muito prezado Dr. André,
Salve Maria.
 
    Fico muito contente que você tenha bem compreendido que não se pode dizer — como o fez Lutero — que a Igreja é santa e pecadora. Como você bem disse, pecadores somos nós. E a Igreja nos santifica, e nós não tornamos a Igreja pecadora.
    Assim como na Missa o sacerdote mistura vinho com uma só gota de água (que simboliza nossa lágrima de arrependimento, perdoando então nossos pecados venias ao abençoar essa gota de água), assim nós nos unimos a Crsito. A gotinha de água não vai aguar o vinho. Pelo contrário. É o vinho que vai “vinificar” a água dando-lhe sua cor, aroma e sabor.
    Assim também nós, unidos a Cristo, na Igreja, não o aguamos, mas Ele nos dá a cor, o perfume, e o sabor de suas virtudes. Nós não tornamos a Igreja pecadora como nós. Ela nos santifica, porque ela é santa e santificadora, da santidade que lhe vem de Crsito Deus, cabeça do Corpo Mística da Igreja.
 
    Louvo sua honestidade intelectual reconhecendo equivocos. Há uma verdadeira conspiração contra a Igreja na História, como houve uma conspiração contra Cristo que o levou à morte de Cruz.
    Os livros de história usados nas escolas mentem descaradamente.
    Como já tratei largamente desse ponto no site, permita-me pedir-lhe que leia, por exemplo, dois textos meus. Um se intitula “Mas que gente ignorante…“ e trata da questão se na idade Média se ensinava que a terra era plana. Um segundo texto, seria sobre ”A Vocação do Brasil“. Há também muitas cartas tratando da inquisição citando livros e autores europeus que desmentem as lendas que ainda correm no Brasil sobre a Inquisição.
    Permita-me dizer-lhe que não defendo “um ponto de vista meu”.
    Defendo a Igreja, defendo a Fé, e defendo a verdade histórica tal qual ela objetivamente foi.

    Qual o livro que você leu sobre São Francisco de Assis?

    Aquela nota sobre a Montfort e o Vaticano está lá há muito tempo já.
     
    Sobre o pontificado de João Paulo II e de Bento XVI escrevi muitos artigos e cartas. Hoje, para atendê-lo, pelo menos em parte, cito-lhe um dito que corria, em Roma:

João Paulo II enchia as praças e esvaziava as igrejas. Bento XVI esvazia as praças e vai encher as igrejas”.

    Nos últimos meses, esse dito tão inteligente que tem que ser de uma Cardeal peninsular, foi um tanto desmentido.
    Bento XVI tem conseguido uma audiência na Praça de São Pedro muito maior do que João Paulo II, apesar de não ter uma personalidade tão cativante quanto indubitavelmente tinha o Papa polonês. No fim de um longo pontficado, João Paulo II legou a Bento XVI uma igreja extremaente dividida. No Brasil, não há duas paróquais com a mesma missa. Não há dois grupos católicos que se entendam e que concordem entre si.
    O ecumenismo do Concílio Vaticano II não trouxe nenhum grupo herético de volta à Igreja — e nem pretende fazer isso – mas dividiu os católicos. 
    Sobre o Vaticano II peço-lhe que leia meus trabalhos: Resposta ao Institutto Paulo VI de Brescia e Eclesiologia do Vaticano II, provando como este concílio foi manipulado pelos hereges modernistas.
    Desejando aprofundar nossa amizade me subscrevo,
 
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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