Montfort Associação Cultural

3 de outubro de 2011

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Arte sem regras?

Fábio Vanini

Para os antigos, sempre foi muito clara a ideia de que a beleza, quando representada por meio das artes, deve ser orientada por um cânone de regras definidas e objetivas. Tanto a beleza material, quanto a formal, obedecem a premissas estéticas que são universais e independem do sujeito contemplador. Este apenas pode contemplar mais ou menos profundamente uma obra de arte, de acordo com seu nível intelectual e cultural. Mas a beleza, quando existe, está num objeto artístico do mesmo modo em que a verdade está realmente numa sentença.

 

            Essa obediência às regras de beleza foi uma constante na História, atingindo sua maior profundidade e elevação na Arte Medieval, permitindo o surgimento do Estilo Gótico, o cume das excelências nas artes. Foi nas catedrais góticas que a estética da Arquitetura atingiu seu nível mais sublime, em consonância com a Filosofia escolástica. Naquelas, há verdade para o intelecto, amor para a vontade e agrado à sensibilidade tanto quanto se pode contemplar na Filosofia de  São Tomas e São Boaventura.

 

            No entanto, no Renascimento, a arte foi desvinculada da moral, passando a obedecer a regras racionais para a inteligência e voltadas para o agrado à sensibilidade, sem a preocupação em educar as pessoas para a virtude e para a santidade. Inicia-se um processo de decadência estética. O  Estilo Barroco é apenas uma extensão racionalista dessa fase, enquanto o Maneirismo seria sua vertente gnóstica irracionalista, rompendo o antigo compromisso com a proporção material e abrindo as portas para o Romantismo vindouro.

 

            Já o Período Romântico abriu mão da racionalidade, permitindo que “o coração” e o sentimento prevalecessem sobre a verdade e o bom amor. Nada de virtudes ou preocupação com as regras ordenadas e proporcionais da matéria. Importavam apenas o sentimento e as impressões que o sujeito captou ao contemplar uma obra de arte. O Romantismo é o irracionalismo na arte. Em outras palavras, é a gnose na arte.

 

            Porém, havia que se destruir o que ainda sobrava de bom no homem e não lhe foi poupada nem mesmo a sua sensibilidade. A Arte Moderna, consequência direta do Romantismo nessa decadência escalar, pregou o “feio” e impingiu o gosto forçado pelo desagradável. Não havia mais regras na arte, ao menos em teoria ou em ideologia.

 

            Teoria? Pra que teoria ou conjunto ordenado de ideias e princípios em um “estilo” que não se preocupa com cânones e com o belo? É o que prevalece hoje no ambiente intelectóide e universitário quando se trata de produção artística.

 

             Foi nesse contexto – no inicio do século XX – de revolução total na arte, fase final de sua destruição, que apareceu Igor Fiódorovitch Stravinski.

Igor Stravinsky em 1948

 

 

            O compositor nasceu em Oraniembaum, Rússia, em 1882. Foi considerado um dos mais influentes compositores musicais do século XX. Há quem o faça como precursor erudito do rock dos anos 70. Suas composições são tidas por ritmicamente revolucionárias e, em sua fase final, chamada “serialista”, também melodicamente revolucionárias, devido à marcante influência dodecafonista de Arnold Shönberg, por meio da amizade com seu aluno Anton Webern.

 

            Em sua composição “História do Soldado”, de 1918, que narra um pacto de um soldado com o diabo, o trecho “Dança do Diabo” é um característico exemplo de uma quebra das tradicionais unidades rítmicas. Há uma imprevisibilidade revolucionária na sequência das fórmulas de compassos, de extrema dificuldade para os músicos, como que representando o ódio que o diabo tem da ordem, no caso pela ordem musical. O mesmo se percebe nas dissonâncias. Obviamente, o compositor quis mostrar que é próprio de uma arte diabólica a rebelião contra a ordem musical tradicional, que apenas refletia a ordem natural criada por Deus e seguida pelos compositores dos séculos passados. Melodicamente, as selvagens dissonâncias da “Sagração da Primavera”, ballet fauvista de 1912, representam um ataque frontal a todos os períodos anteriores da História da Música e à sua ordem tonal ou modal.

 

            Enfim, foi um importante artista moderno que participou de um movimento mundial, na História da Arte, de revolução que preparava e desferia a última estocada contra um “belo” artístico moribundo, contra as regras clássicas da arte. Não é a toa que Stravinski colaborou com Pablo Picasso, Coco Chanel, André Gide,  na difusão dessa nova mentalidade destrutiva.

 

            Obviamente, todo esse movimento, ao odiar o belo na arte, odeia a Deus, causa do universo e de sua beleza objetiva. “Façamos corajosamente o “feio” em literatura, e matemos de qualquer maneira a solenidade (…). É preciso cuspir cada dia no Altar da Arte ! (…) Eu vos ensinei a odiar as bibliotecas e os museus, preparando-vos para odiar a inteligência, despertando em vós a divina intuição (…)” (F.T. Marinetti, Manifesto do Futurismo, Milano, 1912, apud G. M. Teles , op cit. p. 93).

 

            Era de se esperar, ao menos, que um artista como Stravinski tivesse alguma honestidade intelectual, defendendo em teoria, e aplicando em suas criações, a mesma ausência de regras na arte defendida como principio deste movimento revolucionário do inicio do século XX. É a mesma ideologia que se ouve de qualquer artista contemporâneo adepto desses efêmeros estilos que se veem em bienais pelo mundo afora… Mas, eis que nos deparamos com uma confissão espantosa, desesperada e, porque não, com muitas verdades, em sua Poética Musical:

 

            “Quanto a mim, sinto uma espécie de terror quando, no momento de começar a trabalhar e de encontrar-me ante as possibilidades infinitas que se me apresentam, tenho a sensação de que tudo é possível. Se tudo é possível para mim, o melhor e o pior, se nada me oferece qualquer resistência, então qualquer esforço é inconcebível, não posso usar coisa alguma como base, e consequentemente todo empreendimento se torna fútil (…)

            Não tenho uso para uma liberdade teórica. Deem-me algo de finito, definido – matéria que pode prestar-se a minha operação apenas na medida em que é proporcional às minhas possibilidades. Devo, de minha parte, impor minhas próprias regras. E, assim, chegamos, querendo ou não, ao terreno da necessidade. No entanto, quem de nós ouviu falar de arte como outra coisa senão o reino da liberdade? Essa espécie de heresia esta uniformemente difundida, porque se imagina que a arte está fora dos limites da atividade ordinária. Bem, em arte, como em tudo o mais, só se pode construir sobre uma fundação resistente: aquilo que cede constantemente à pressão acaba por tornar o movimento impossível.

             Minha liberdade, portanto, consiste em mover-me dentro da estreita moldura que estabeleci para mim mesmo em cada um dos meus empreendimentos.

            De tudo isso, concluímos pela necessidade de dogmatizar sob pena de perder nosso objetivo…”

            (Igor Stravinski, 1942, apud  Ernst Widmer e o ensino de Composição Musical na Bahia, Paulo Lima Costa, 1999, destaques nossos)

 

            Portanto, até mesmo um revolucionário nas artes musicais reconhece que sem as regras de arte, “definidas” e “dogmatizadas”, “todo empreendimento torna-se fútil”. É verdade que ele tenta salvar a situação, recorrendo a regras próprias, por ele criadas. No entanto, admite a necessidade de se construir uma fundação resistente de princípios sólidos. Ora, só é sólido o que é verdadeiro.

 

            Se Deus fez o homem livre, mas obrigado a viver sob Dez Mandamentos para poder viver bem, porque a verdadeira liberdade na arte, fruto do intelecto humano, também não precisaria de leis? Se a verdade liberta o homem, como ensina Nosso Senhor no Evangelho, porque não esperar que a produção artística humana seja tanto mais livre e, consequentemente, mais bela, quanto mais submissa for a princípios objetivos e fundados na verdade?

 

            No Coração de Maria Santíssima,

 

            Fabio Vanini

 

           

 

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