Montfort Associação Cultural

25 de agosto de 2004

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Arca de Noé e idade de Adão

Autor: Fábio Vanini

  • Consulente: Leo
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Católica

Tenho uma pergunta:

A Bíblia diz que a arca de Noé conteve casais de todos os animais terrestres do mundo. Os não-cristãos nos criticam dizendo que a Bíblia está errada por três motivos:

i) pela diversidade de espécies existentes na Terra, seria impossível caber numa arca um casal de cada espécie de animal terrestre existente na Terra, sem contar o problema de sua alimentação e defecação ( e a decorrente intoxicação do ambiente na arca);

ii) pela existência de animais terrestres exclusivamente americanos que possuem fósseis mais antigos que o primeiro homem e que existem ainda hoje.

Isso provaria que Noé não poderia ter colocado todos os animais na arca, porque Noé não conhecia a América.

Também impugna a tese de que Deus teria criado esses animais no pós-dilúvio;

iii) Se tivesse havido tal coisa, os fósseis existentes relativos a um curto e pontual espaço de tempo no passado pré-histórico seriam proporcionalmente muitíssimo mais abundantes do que os fósseis das épocas normais de desenvolvimento animal. Ora , isso não ocorre !

Tenho outra pergunta além disso:

A Bíblia diz que Adão viveu 930 anos. O projeto genoma já descobriu que o Homem tem um gene que determina o desmonte de seu próprio corpo via incentivo aos radicais livres e que esse gene comum a todos e basilar determina na prática que ninguém consiga viver mais de 140 anos. Ora, esse gene só pode ter vindo do primeiro homem, porque está presente em todas as pessoas. Muito improvável teria sido uma mutação geral que tivesse criado esse gene em todos.

Como então compreender essa idade de Adão sem cair na heresia modernista ?

Gostaria que alguém da área biológica fizesse uma análise detalhada de todos esses pontos, pois tenho contato constante com ateus e não-cristãos, que colocam sua desilusão com o Antigo Testamento como motivo de sua descrença.

Confesso que tais dificuldades exegéticas são muito grandes e que me sinto impotente para ajudá-los a ter fé.

Acho que o modernismo teve muito sucesso por oferecer uma falsa esperança exegética a essas passagens que frustram a fé de muitos homens da Ciência e porque os estudos de Sagrada Escritura no lado católico tradicional são muito raros e superficiais. Espero que Deus esteja com vocês e vocês consigam me dar uma definitiva explicação para tais coisas. Por favor, não deixem de me responder.

Prezado Leo, salve Maria,

Não se perturbe se algumas explicações científicas, ou mesmo exegéticas, nos faltarem para que algumas passagens das Sagradas Escrituras nos fiquem tão claras quanto gostaríamos. É fundamental que tenhamos claro em nossas consciências que:

I) Sendo nossa inteligência limitada, é natural que não saibamos muitas coisas; II) Mesmo que tivéssemos as respostas exatas, ainda assim muitos não se converteriam, pois a conversão depende da vontade, e não apenas do intelecto; III) Os nossos argumentos não surtem efeito algum se Deus não os unge com a sua Graça; por isso, é preciso defender e propagar a fé não apenas estudando, mas também orando.
IV) As Sagradas Escrituras não são um livro de Historia Natural; tampouco foram escritos para cientistas.

O problema de um ateu que busca contradições na Bíblia é propriamente o desejo de filtrar um mosquito, acabando por engolir camelos, tartarugas de Galápagos, o “Beagle”, etc. Como biólogo, tenho visto muitos pseudo-cientistas engolirem esses sapos.

A questão central do dilúvio e da sobrevivência de Noé e sua arca é compreender que Deus desejava punir os homens por causa de seus pecados, e puni-los com a morte. A extensão da pena aos animais mostra que o desagrado de Deus com a condição do homem é tal que até mesmo estes bens lhe seriam retirados. Assim como outrora Adão “dava nomes convenientes a todos os animais” (Gn2,20), e ficou senhor deles, agora seriam exterminados, com exceção da família de Noé, todos os que usurparam sua condição de filhos de Deus e senhores da terra, junto com seus animais.

Noé, que era justo, foi salvo e pode levar consigo aqueles de quem era senhor, desde sua família até suas posses animais, pois foi ele um bom senhor do que lhe foi dado.

Daí temos que não era necessário que Noé salvasse animais de que não era propriamente senhor, como animais da América, ou de regiões que ele não dominava. Além disso, não era absolutamente necessário que Deus punisse com o extermínio animais que não pertenciam à terra habitada, pois o castigo era necessariamente para o homem. E não é em vão que o texto do Gênesis diz “Deus vendo que era grande a malícia dos homens sobre a terra” (Gn 6,5), “… arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra” (Gn 6,6), e que “…a terra estava corrompida” (Gn 6,11 e 12).

“Sobre a terra”, expressão utilizada muitas vezes em seguida nesse trecho do Gênesis, é uma designação da área que estava corrompida e que sofreria o castigo divino – o dilúvio – e que era a área habitada pelo homem. Logo, conclui-se, sem prejuízo da interpretação literal bíblica, que a terra em questão é a terra habitada.

Portanto, apenas uma determinada região foi inundada, e desta região, todos os animais terrestres foram exterminados. Certo é que depois do sétimo dia da criação, Deus não criou mais animal nenhum, ainda que Ele pudesse tê-lo feito. Os animais da América não foram atingidos pelo dilúvio.

Noé, por sua vez, fez entrar na arca um determinado numero de casais de animais, conforme a ordem de Deus. Seria uma loucura, um despropósito e até mesmo uma tolice imaginar que Noé, escrupulosamente, teria eliminado todas as pulgas e vermes intestinais dos animais, restringindo-os a apenas um casal, ou ainda passado um anti-cupim na madeira da arca, reservando para si apenas um casal desses insetos. Mesmo porque, alguns animais têm sistemas reprodutivos complexos e diversificados, como certos escorpiões que só apresentam indivíduos fêmeas.

Noé foi um homem de grande sabedoria, e como sábio Deus o tratou. Assim, ao ordenar que o justo Noé construísse a arca e nela fizesse entrar “todos” os animais, não foi preciso Deus explicar a Noé que era desnecessário tratar das pulgas dos leões. Os fatos do dilúvio e extermínio dos animais, bem como a reserva dos casais de cada espécie, se deram para expressar a Vontade Divina em símbolos dos pontos de vista moral, doutrinário, histórico, profético. E não científico cartesiano.

Além disso, do ponto de vista prático, seria necessário que Noé tivesse à sua disposição, após o dilúvio, os animais que seriam úteis a ele e aos outros homens de sua descendência, bem como os que seriam necessários para recolonização da terra. São os animais selváticos e domésticos.

Quanto à alimentação no ambiente da arca, durante o dilúvio, o texto traz claramente que Noé tomou “de todas as coisas que se podem comer”, servindo a ele e aos animais (Gn 6,21).

Já em relação à limpeza, não é necessário ou conveniente tratar de um assunto prosaico como esse num texto sagrado, pois qualquer marinheiro sabe como cuidar da limpeza de um navio. Água para isso não lhes faltava.

Esses problemas “logísticos” da arca, apontados pelos cientistas ateus, são facilmente contornados pelo homem, haja vista os valentes marinheiros que enfrentavam situações também muito pouco confortáveis nas caravelas, nos tempos das navegações, nos séculos XV e XVI.

Com relação à Idade do Homem, de fato não encontrei referências ao tal gene descoberto pelo projeto genoma. Gostaria que me enviasse mais informações. O que encontrei foram referências a experimentos que mostram uma relação entre a idade celular (e o numero de células produzidas durante a vida) e componentes genéticos, além da produção de radicais livres e de danos oxidativos. Mas são estudos com base em C. elegans e D. melanogaster. No homem, a determinação genética da longevidade ainda está em fase de estudos intensivos (veja o site www.infoaging.org/redesign/b-human-4-how.html).

Contudo, devemos considerar que, embora a humanidade descenda de Adão, Noé é o patriarca mais próximo, pois todos descendemos obrigatoriamente também dele. Seria de se esperar, portanto, que essa longevidade a que você alude em sua carta fosse, ao menos, comum aos homens pós-diluvianos.

Ora, ao se referir aos castigos que dará ao homem corrompido, no tempo de Noé, Deus diz: “E os seus dias serão cento e vinte anos” (Gn, 6,3).

Portanto, essa determinação divina casa perfeitamente com o resultado que o senhor nos apresenta em sua carta. Eis aí um camelo para a ciência moderna, atéia.

Espero poder ter ajudado,

In Corde Iesu,
Fábio Vanini

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