Montfort Associação Cultural

13 de junho de 2010

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Ao Professor, com eterna gratidão

  • Consulente: Marcel Ozuna
  • Localizaçao:
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Profissão: Servidor Público Federal
  • Religião: Católica

No último dia 29 de maio, tive a oportunidade de estar na festa de aniversário da Montfort. Mesmo sendo o ambiente mais de lazer, pude aprender bastante nas conversas que lá tive com alguns de seus membros, e até mesmo conversar em particular com os professores Orlando e Alberto. Ainda que recebesse alguns alertas, estes professores se dirigiram a mim de forma sempre cordial e, ainda por cima, devotando uma confiança que poucas vezes percebi pessoas mais velhas devotarem a mim.

Isto me motivou, logo que voltei a Campo Grande, a escrever-lhes uma carta de agradecimento. Mas tive uma dúvida: era o momento de agradecer tão solenemente a eles? E a carta esperou…
Anteontem, à tarde, recebi um telefonema do Eder, meu amigo de grupo de estudos:

– O professor faleceu.

Pensando ser outra pessoa, perguntei quem tinha falecido. Ao que Eder voltou a me dizer que o professor Orlando tinha falecido. Surpreso, perguntei se era mesmo o professor Orlando de quem ele falava. E daí ouvi o resto dos comentários que o prof. Alberto tinha feito a ele.

* * *

Meus padrinhos de batismo sempre foram ausentes quanto ao ensinar a fé católica. Em casa, a coisa não foi muito além de me ensinarem as primeiras orações. A moral de meus pais, no entanto, sempre esteve na média das famílias que eventualmente vão às Missas e encaram os padres como senhores cujo ensino não responde a contento às necessidades humanas. Fato este que mudou relativamente nos anos 1990, quando, por um tempo muito breve, meu pai atuou como “agente de pastoral”. Na filosofia modernista do Concílio Vaticano II, obviamente.

Motivado por uma catequese ultra-sentimental (à RCC), decidi ir um pouco adiante, quase sempre contrabalançando as duas tendências das reformas conciliares, só aparentemente opostas entre si – a ultra-racional e a ultra-intuitiva. Curiosamente, dava eu mais azo ao clero que o resto de minha família, malgrado o contratestemunho de um padre que há pouco se demitira da Congregação Salesiana para se responsabilizar pela gravidez inesperada de uma mãe solteira.

De “movimento” em “movimento”, fui colhendo decepções. Mas também – e motivado por minha fidelidade aos sacerdotes enquanto meus pastores de almas – desvendando sãs alternativas. Um destes padres – que muito bem me fez com sua teologia moral correta, direta e sem rodeios, embora seja ele defensor da chamada “letra do Concílio” – um dia esqueceu à sacristia um folder de um conhecido site apologético, porém defensor da “letra”… O folder atacava, com argumentos tão imbatíveis quanto simples, as mentiras do espiritismo. Além do ineditismo da defesa dos dogmas católicos (que muito me satisfez, em meio a tantos padres adeptos do “paz e amor”), causou-me espécie a entrevista de um senhor denunciando os delírios ocultos numa tal “Tradição, Família e Propriedade”. Até então, pensava eu que o problema da TFP eram seus ataques à teologia da libertação e suas propostas de (sic) “uma sociedade mais justa e igualitária”. Fiquei de queixo caído ao aprender, pela palavra deste professor, que a mesma sociedade que combatia uma heresia escondia outra.

Isso foi mais ou menos no ano 2000, quando então já tinha enfrentado e a enfrentar uma série de dificuldades materiais, e (na falta de uma expressão mais adequada) talvez existenciais.

Algum tempo depois, procurei num site de busca o nome deste professor (Orlando Fedeli), talvez para ver se achava algo mais sobre a TFP. Foi quando percebi que ele também mantinha um site “apologético”. Já começava eu a tomar ciência do vazio doutrinal dos padres, primeiramente pelo relativismo emocional da RCC. Escrevi então a carta “Sobre a fraqueza doutrinária de Pe. Jonas Abib” (se não me engano, escrevi a carta para comentar o protestantismo enrustido deste padre), à qual o professor Orlando me respondeu sem demora.

Depois fiquei sem internet em casa, mas, logo que retomei os acessos, voltei a ler o site Montfort. Embora estranhasse os ataques à Missa nova (pensava então eu que Missa nova e Missa de sempre tivessem as mesmas orações, diferenciando-se só no latim e na postura do padre e do coro), a defesa da fé me atraía.

E a defesa da fé me atraiu mesmo em meio a uma crise “pastoral” que enfrentei numa Associação leiga com fama de “antiga” e na qual até então eu era muito antigo. Esta crise, verdade seja dita, se deveu muito a exageros meus, mas os quais, talvez, não tivessem surgido se eu tivesse uma educação 100% católica, sem quaisquer novidades “adaptadas ao mundo presente”. Por sinal, os grandes “dirigentes” que me puniram eram todos embebidos da teologia da libertação muito ensinada em São Paulo, a mesma São Paulo onde morava e trabalhava o professor Orlando; e quase todos os meus exageros estavam pautados na “dinâmica da ação”, aquela mesma que define que, para se ser católico praticante, deve-se necessariamente “fazer algum trabalho pastoral”, mesmo que sob pena de comprometer deveres de estado.

Escrevi então ao professor Orlando para comentar tais problemas. Esta carta, de novembro de 2003, nunca foi publicada no site Montfort – talvez por prudência – mas considero-a a mais importante que ele me respondeu. Além de me dar algum consolo de cunho familiar, o professor me propôs formar um grupo diferente, tomando como exemplo o que já era feito em São Paulo, pela Montfort, há algumas décadas. Convidou-me para participar de uma jornada de estudos – à qual me lamento profundamente por não ter ido; minhas incertezas (talvez covardias) falaram então mais alto.

Já tinha eu buscado realização pessoal num “intelectualismo de sala de provas escolares”, numa “dinâmica de pastoral”, e estava às portas de buscar realização na “via político-filantrópica” (com a qual me iludi por uns dois ou três anos). Em vão… Mas minha fé católica não se dissipava. Sem carro e outros valores “mundanos”, a fé católica era tudo o que eu possuía.

Não me custava nada então continuar lendo o site, no que pesasse uma e outra divergência. E fui com gosto ao primeiro ciclo de aulas do professor Orlando em Campo Grande (enfim alguém tomou coragem de organizar tais aulas!). Foi quando conheci os primeiros amigos da Montfort campo-grandenses, nos quais chama-me até hoje a atenção o fato de terem conhecido bem depois de mim o site. Pudera, eram muito mais convictos que eu no “praticar a fé”, foi a impressão que aos poucos passei a ter deles à medida que os conhecia melhor.

Não foi um começo fácil para quem quase fora expulso da Legio Mariæ e até mesmo de uma Diretoria de executiva estudantil. Uma decepção amorosa posterior ao meu ingresso no grupo de amigos da Montfort quase pôs tudo a perder; comecei a desconfiar que a praxe religiosa deles me atrapalhava em questões pessoais. Mas “semelhante atrai semelhante”, e aos poucos percebi que o problema não era o comportamento de meus amigos, e sim a minha insistência em imitar os “filhos do mundo” que diziam ser meus amigos, com os quais, desde que me entendo por gente, jamais – jamais… – tive qualquer semelhança significativa.

Ademais, tudo o que o professor Orlando ensinou a mim sobre História e Doutrina Católica no primeiro ciclo de aulas, no começo de 2006 – muito pouco ainda – bastou para perceber o óbvio que até então não enxergava. Minhas decepções pessoais não tinham fundamento pessoal; diziam respeito a uma fé mal conduzida, ao que sabia ser doutrina católica e me era escondido, ou mal praticado, pelos que assumiram a modernidade.

* * *

Ano passado o padre capuchinho que me batizou faleceu. Tinha ele, por óbvio, aderido ao Concílio Vaticano II uma década antes. Mas toda esta história de meu “caminho de pedras” rumo à descoberta da verdadeira doutrina cristã, por certo, se iniciou com meu batismo por este padre. Fui ao velório deste padre, a quem devo o começo de minha fé, pelo primeiro Sacramento que todo católico recebe.

Não consegui ficar mais que um minuto em frente à câmara ardente onde estava o corpo do frei. Fui para fora da igreja onde há pouco menos de trinta e três anos, num onze de setembro, fui batizado. E lá fora fiquei, só e escondido, enquanto as lágrimas desciam, refletindo sobre como o Batismo deste padre, embora padre modernista, tinha ao longo destes anos operado a graça de me manter a vontade de ser católico. Tudo isto, no que pese a tibieza de meus padrinhos e a ignorância de meus pais.

Só neste dia fiquei mais triste do que na quarta passada, quando fui comunicado da morte do professor Orlando.

* * *

Tendo já me programado para assistir à Missa do Sagrado Coração de Jesus, lá fui eu. Mais motivado ainda fui diante do fato de não poder ir a São Paulo me despedir, pela última vez, de um velho senhor que, embora de comportamento bem diferente do meu, tinha idade para ser meu avô (e meus avós paternos morreram antes de eu nascer) e do qual talvez possa ousar dizer que tenho como o padrinho e o catequista que me faltaram.

Porém, alguns dias antes de ir à Missa, dei-me ao trabalho de imprimir e ler as partituras gregorianas do Próprio do Sagrado Coração de Jesus. Ontem, ao colocar um CD de Canto Gregoriano com várias peças da Quaresma, fui surpreendido pelo fato de a letra e as notas do Ofertório do Domingo de Ramos serem quase todas as mesmas do Ofertório do Sagrado Coração de Jesus.

Incrível! Uma peça de um Próprio Festivo é a mesma peça de outro Próprio centrado na tristeza gerada pela morte de Cristo! Mesmo comemorando a misericórdia deste Sagrado Coração, é tipicamente cristão que o que nos faz valer a alegria cristã é o sofrimento do Coração de Jesus, como também acorrermos a Ele para partilhar deste sofrimento enquanto os demais O abandonaram…

Diz o aludido Offertorium:

Improperium exspectavit cor meum, et miseriam:
Et sustinui qui simul contristaretur, et non fuit:
Consolantem me quæsivi, et non inveni:
Et dederunt in escam meam fel, et in siti mea potaverunt me acesto.

(O meu coração foi oprimido pelo impropério e pela miséria;
E esperei quem também se contristasse, e não veio (ninguém);
Procurei quem me consolasse, e não achei;
E puseram fel em minha comida, e à minha sede serviram-me vinagre.)

Este Ofertório foi tirado do Salmo 68, 22-23. Estas palavras prefiguram o abandono que Cristo sofreu de praticamente todo mundo ao ser preso, condenado e morto.

A melodia é particularmente triste, em consonância com o sofrimento de Cristo.

Hoje em dia – e até hoje – o Sagrado Coração de Jesus continua oprimido, mais que nunca, pelo impropério e pela miséria dos que desdenham de Seu Evangelho.

O mesmo Coração a que o professor Orlando fazia menção no final de suas cartas:

“In Corde Jesu, semper,…”

Similar sofrimento têm os que defendem o Evangelho que Cristo mandou fosse pregado a toda criatura. Não sou exceção. O professor Orlando não o foi, em meio a tantos ataques que sofreu por defender a verdade que ele não criou, mas a qual Deus mandou fosse ensinada.

E, após tanto defender a Igreja – e tanto ensinar (a tantos) que a defendessem, e como a defender – o professor Orlando se foi. Vítima de uma dor de coração. E como fizera tantas outras vezes, se esquecendo de sua própria dor para, através da aula que estava para ser gravada, procurar aplacar a dor sofrida pelo Coração de Jesus.

E tanto desejo – e rezo – que Deus permita que nosso professor Orlando, após este ter seu coração oprimido pela doença, o permita ir ao Céu, para consolar o Coração de Jesus, mais do que nunca oprimido pelo impropério e pela miséria espiritual dos maus.

Permitai isto, Senhor, ao professor Orlando, que em vida não quis Te deixar só.

Tal como ele escreveu a mim, um dia, quando ainda não sabia existir quem, em minha mesma idade, pensasse como eu:

“No Carnaval, a Montfort vai fazer um Congresso, em São Paulo, sobre Arte, Beleza, Filosofia e Religião. Creio que se você pudesse vir a esse Congresso, não só você aprenderia muito, mas constataria que há muitos q que pensam como você. VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ.”

O professor Orlando se foi. Mas não deixou só a nenhum de seus alunos. Muito menos a mim, que, mesmo tendo ele partido deste mundo, a mim, além da fé católica, deixou amigos de verdade e que comigo partilham a verdade católica. E, mais ainda, deixou-nos, através dos ensinamentos que a Igreja lhe deu, a certeza de que Coração de Jesus, mesmo em meio à opressão dos maus, não deixa sós a mim e a meus amigos.

Razão pela qual manifesto, por esta longa, chata e cansativa, mas sincera, carta, minha eterna gratidão ao professor Orlando.

E mais ainda aos Corações de Jesus e Maria, que, atentos à minha fome e sede de doutrina, permitiram que eu não ficasse só, permitindo que o professor Orlando me ensinasse a verdade em lugar de quem o deveria ter feito, mas não o fez.

In Corde Jesu.
Semper.

Marcel Ozuna
Campo Grande/MS, 11 de Junho de 2010, na Festa do Sagrado Coração de Jesus.

 

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