Montfort Associação Cultural

20 de janeiro de 2005

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Anátema do Concílio de Trento

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Pedro Paulo
  • Idade: 23
  • Localizaçao: – Brasil
  • Escolaridade: Superior em andamento
  • Religião: Católica

Caro sr. Orlando Fedeli,

Primeiramente gostaria de parabenizá-lo por esse belíssimo site, que tanto e tão bem tem me esclarecido sobre a doutrina católica. O sr. parece ter um excelente conhecimento da nossa religião e, principalmente, um conhecimento que é exposto de uma forma que nos passa segurança de estarmos aprendendo a verdade, o que, hoje em dia e na maioria das vezes, não é possível nem consultando membros da hierarquia da Igreja. Gosto também, apesar das diversas críticas, da forma as vezes agressiva e irônica com que o sr. responde as consultas dos leitores. Confesso que me divirto bastante.

Eu já li quase tudo que há aqui, e recentemente reli alguns trechos do material sobre o Concílio de Trento presente no site. Gostaria de sanar algumas dúvidas.

O cânon 9 diz: “Se alguém disser que o rito da Igreja Romana que prescreve que parte do Cânon e as palavras da consagração se profiram em voz submissa, se deve condenar, ou que a Missa se deve celebrar somente em língua vulgar, ou que não se deve lançar água no cálice ao oferecê-lo, por ser contra a instituição de Cristo – seja excomungado”. Particularmente sobre a parte relativa à “língua vulgar”, a palavra “somente” parece-me poder dar dois sentidos a frase da forma como ela está aí.

A primeira seria a de que há a necessidade de existir um missal em latim que pode ser utilizado, mas nada impediria que houvessem traduções para línguas vulgares que também pudessem ser utilizadas.

E a segunda seria que não é permitido rezar a Missa inteira em língua vulgar, mas nada impediria que houvessem trechos da liturgia em língua vulgar.

Qual é o sentido desse anátema? É um desses dois ou é outro? Nas suas respostas o sr. me parece que recorre a esse cânon com um outro sentido que é o de proibição total de qualquer infiltração vernácula na liturgia.

Então, primeiro eu pergunto se esse anátema ainda vale. E depois: se vale e se o sentido é aquele segundo que eu citei ou se é o de proibiçao total, o papa Paulo VI não caiu nesse anátema? E os outros que seguiram a decisão dele?Independente disso quais seriam as consequencias da anatematização de uma papa? As decisões dele posteriores a isso valeriam?

Numa entrevista presente no site Montfort, o cardeal Ratzinger diz: “É evidente que a liturgia da Palavra, pelo menos, deve se fazer nas línguas vernáculas”. Evidente é que nós podemos discordar desse cardeal, mas o anátema de Trento proibe essa possibilidade?

agredecendo a atenção,

Pedro Paulo

Muito prezado Pedro Paulo, salve Maria!

Em primeiro lugar, quero lhe agradecer suas palavras, generosas demais, relativas à minha pessoa, e sobre o trabalho que fazemos no site Montfort.

Fico bem contente de que você aprecie o estilo que uso, porque agradar-se com a derrota do erro é sinal de amor ao bem e à verdade.

A ironia sempre foi utilizada contra a Igreja Católica. Ela sempre foi usada para propagar o mal.

Ora, Santo Inácio nos diz, nos Exercícios Espirituais, que todas as coisas que Deus fez, foi para o homem usar para servir a Deus, e que se as deve usar tanto quanto elas nos aproximem de Deus, e deixar de usá-las tanto quanto nos afastem dEle. E a ironia também deve ser vingada, usando-se dela — sempre sem odiar o inimigo, e visando a sua conversão e a sua salvação — como uma espada, para servir a verdade, para vingar a honra de Deus.

E que você se divirta com os “duelos” a florete ou a tacape, do site Montfort, me alegra. Afinal, gostar de combater é sinal de amor e de valentia, porque “quien ama, detesta, y quien detesta, pelea“, diz um belo e sábio ditado espanhol.

É claro que isso desagrada aos liberais, mas o Liberalismo é pecado, e você agradando-se com o combate por Deus, me prova que não é liberal.

***

Passo a responder sua pergunta.

É claro que o sermão, as leituras da Epístola e do Evangelho sempre foram em língua vernácula, porque são as partes didáticas da Missa, dirigidas especial e diretamente para instruir o povo.

Isso sempre foi lícito, conveniente e justo.

Por isso, o Cardeal Ratzinger disse com toda a razão: “É evidente que a liturgia da Palavra, pelo menos, deve se fazer nas línguas vernáculas” (O negrito é meu).

O que o Concílio de Trento condenou foi que as orações da Missa, que se dirigem a Deus, especialmente as do Cânon, sejam ditas em língua vulgar.

Os protestantes, e, depois, os jansenistas e os modernistas, queriam que toda a Missa fosse dita em língua vernácula, porque, para esses hereges, quem dizia a Missa, quem fazia o sacrifício, era o Povo e não apenas o sacerdote “in persona Christi”, na pessoa de Cristo. O erro visado pela excomunhão de Trento era esse: a idéia de que o povo é o sacerdote, o povo é que rezaria a Missa. Por isso a Missa deveria ser sempre dita em voz alta e na língua do povo.

E que esse erro está disseminado, hoje em dia, é comprovado pelo fato de que o atual Papa João Paulo II o condenou, mais uma vez, na encíclica Ecclesia de Eucharistia.

Uma segunda razão para a Missa ser dita em latim é que as palavras das línguas vivas mudam de sentido, e assim fica fácil a introdução de erros doutrinários graves, ou de sentidos ridículos.

Em terceiro lugar, convinha que, para o sacrifício de um Deus morto e ressuscitado, se usasse uma língua morta que a Igreja ressuscitou.

Quarta razão: assim como as roupas de Cristo, em contato com Ele, tinham o poder de curar — caso da hemorroíssa do Evangelho — assim também a língua com que a Igreja “vestiu” o milagre eucarístico durante 2000 anos adquiriu, por isso mesmo, um poder que afugenta o demônio e promove o bem (os exorcismos devem ser feitos em latim).

Por essas razões, e por várias outras, o Papa João Paulo II determinou que se voltasse a estudar latim, nos seminários…Por que será?

Haveria ainda outras razões a dar em favor do latim, mas julgo que, por hoje, bastam essas.

Quero responder uma objeção, muito comum entre pessoas mais ignorantes — infelizmente já a ouvi de sacerdotes: “mas o povo não entende latim”.

Mas o povo — e infelizmente até muitos padres, hoje — entende(m) o que é dito na missa, em português?

Os textos das epístolas de São Paulo são muito difíceis. Até São Pedro as dizia difíceis de serem entendidas, tão alta é sua teologia. Será que o povo entende as epístolas paulinas em português?

E quantos padres saberiam explicar o que é o Verbo de Deus?

E quem, hoje, sabe explicar o que significa “Deus do universo”; o que significa “Deus dos Exércitos” e por que se trocou esta segunda fórmula pela primeira?

E quem sabe explicar o que quer dizer: “Ele está no meio de nós”?

Como no “meio“?

Que significa aí “meio“?

E mais simplesmente, o que significa: “O Senhor esteja convosco”?

Dizer que o povo, hoje, entende o texto da Missa em português, é uma falácia.

Recentemente, dei uma palestra numa paróquia, e só uma pessoa sabia o que era a Missa. E os participantes eram, em geral, estudantes de nível superior.

Você me pergunta se o anátema de Trento ainda vale.

É claro que sim, porque o que a Igreja condenou como erro, continua condenado sempre como erro. Quem defende então esse erro conscientemente, cai sob essa excomunhão do Concílio de Trento.

Outra questão é saber, em concreto, quem defende esse erro, consciente, explicita e contumazmente, — que são as condições para que um anátema seja aplicado a uma pessoa concreta.

Isso quem julga oficialmente é a autoridade da Igreja. Um fiel pode apenas constatar que alguém está ensinando, ou defendendo, uma tese já condenada, sem ter poder de aplicar a sanção dos cânones.

Finalmente, você me pergunta a respeito do Papa Paulo VI.

Os sedevacantistas — que a meu ver são certamente cismáticos e provavelmente hereges — afirmam que Paulo VI deixou de ser Papa ao defender doutrinas condenadas.

Isso é um absurdo, porque ninguém pode julgar um Papa. Se houvesse alguém na terra, ou um poder que pudesse julgar e condenar um Papa, este já não seria o Supremo Pastor da Igreja. E negar que o Papa tenha o poder supremo é heresia.

Nem um Concílio pode julgar e condenar um Papa. Essa tese é condenada como heresia conciliarista, pois coloca o Concílio acima do Papa, o Concílio como tendo o supremo poder na Igreja. E isso é contra a Fé.

Os teólogos, estudando a possibilidade teórica de um papa cair em heresia, dizem que isso é possível. O próprio Cardeal Journet admite essa hipótese.

Mas grande parte dos teólogos dizem que um Papa, mesmo que caísse em heresia, não perderia o cargo, pois que ninguém pode julgá-lo.

Posteriormente, um outro Papa poderia condenar o papa herege, ou que favoreceu uma heresia, e, nesse caso, todos os decretos e decisões do Papa herege seriam declaradas nulas, a posteriori.

Na história houve o caso do Papa Honório, que foi condenado por “ter permitido que a Fé Imaculada fosse maculada” (Condenação do Papa Honório I, pelo Papa São Leão II, Cfr Denzinger, Sch. 561). Isto é, ele foi condenado como favorecedor da heresia, não como herege.

Esperando ter satisfeito suas dúvidas, me despeço atenciosamente,

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

Replica

Caro sr. Orlando Fedeli,
 
Quero agradecer sua atenção em responder minha mensagem. Terei prazer, se houver oportunidade, em conhecê-lo pessoalmente. Quando estiver no Brasil – Recife, no caso, minha cidade – tentarei entrar em contato com o sr.
 
Por hora, gostaria, se me permite, de esclarecer um ponto de sua resposta.
 
O sr. disse logo no início que “é claro que o sermão, as leituras da Epístola e do Evangelho sempre foram em língua vernácula, porque são as partes didáticas da Missa, dirigidas especial e diretamente para instruir o povo. Isso sempre foi lícito, conveniente e justo”. 
 
Eu nunca tive a oportunidade de assistir a uma Missa Tridentina, mas já conversei sobre o assunto com minha avó, e, segundo ela, todas as leituras, da Epístola e do Evangelho, eram feitas em latim. O sermão claro, era na língua vernácula. E além disso, o sacerdote ficava virado para o altar durante as leituras. Isso não indicaria que também as leituras são dirigidas a Deus e não ao povo? O sr. deixou-me na dúvida: a liturgia de Pio V, ordenava as leituras no latim ou em línguas vernáculas?
 
agradeço novamente,
Pedro Paulo

Muito prezado Pedro Paulo,
salve Maria!
 
Outrora, as leituras eram todas em latim, mas depois, eram lidos os textos em vernáculo. A informação da senhora sua avó é então procedente.

Mas creio que não havia nenhuma proibição de ler os textos da Epístola e de Evangelho em vernáculo para o povo. Com a decadência da instrução, pelo abandono do latim nas escolas, foi-se tornando comum a leitura desse textos em vernáculo.

Sendo essas leituras puramente instrutivas e meditativas, eles não eram para Deus, e sim para os fiéis, é evidente.

Esperando tê-lo esclarecido, e aguardando sua visita, me subscrevo atenciosamente

in Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.

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