Montfort Associação Cultural

16 de setembro de 2004

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Alma de animais, Vaticano II, TFP e Montfort

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Luciana Amaral
  • Localizaçao: – Brasil
  • Religião: Católica

Participo de uma lista de discussão na Internet voltada para músicos católicos e surgiu o debate sobre se os animais teriam ou não alma. Eu afirmei que desacreditava veementemente desta afirmação, dando o embasamento teológico para isso. No entanto, o pessoal não acreditou. Por isso, peço que vocês também escrevam algo a respeito.

Outra coisa: tenho uma crítica a fazer ao site de vocês.
Na seção “Documentos” não há qualquer referência ao Concílio Vaticano II. Por que???
Tal Concílio marcou de forma profunda a Igreja, estabelecendo mudanças na forma de agir e de pensamento, especialmente no que diz respeito ao diálogo inter-religioso. Vocês são, por acaso, contra isso?
Em caso positivo, é uma pena, pois a Igreja hoje não mais condena ao Inferno aqueles que professam outra religião, como fazia antigamente. Antes de mais nada, procura ver o que há de bom e reto em cada uma das crenças e diz ainda que pessoas de outras religiões podem se salvar. Tudo vai depender de suas consciências e da reta intenção de cada um. Realmente, é muito difícil imaginar que um cara como Gandhi esteja no Inferno simplesmente por ser hindu, quando era alguém que defendia a paz, a justiça e a não-violência, ao contrário dos pseudo-cristãos ingleses que colonizavam a Índia.

Por último, mais uma perguntinha: vocês por acaso têm alguma ligação com o famigerado movimento TFP (Tradição, Família e Propriedade)? Sinceramente, espero que não.
Um abraço,

Luciana Amaral
Jornalista e católica praticante; membro do movimento “Comunidades Missionárias de Emaús”, de âmbito nacional.

Prezada Luciana,
salve Maria.

Fiquei contente com suas perguntas, porque elas vêm muito a propósito.

Como você me faz perguntas muito variadas, neste primeiro e-mail de resposta atenderei algumas delas — as mais simples — para respoder a mais delicada, com mais cuidado, em um email especial em que tratarei da teologia ecumenista e do Vaticano II. Sobre esse Concílio pastoral, peço-lhe que veja minha troca de cartas com o provecto, famoso e respeitado teólogo, a quem estimo pela sua elevação de caráter e de saber — Dom Estevão Bettancourt, OSB. (<http://www.montfort.org.br/veritas/destevao.html> )

Trataremos logo mais, no site Montfort, da questão da salvação ( <http://www.montfort.org.br/veritas/batismodedesejo.html> ), lembrando-lhe sucintamente, agora, que a Igreja jamais condenou ninguém às chamas do inferno, pois essa é uma sentença que cabe apenas ao juízo de Deus infinitamente bom e justo. A Igreja sempre ensinou — como DOGMA — que fora da Igreja não há salvação, mas que isto deve ser entendido do modo como a Igreja o entende. A Igreja ensina que pessoas que, por ignorância invecível, estão fora do corpo da Igreja , podem salvar-se por pertencerem à alma da Igreja através, por exemplo, da obediência à lei natural.

Mostraremos, ao tratar deste tema, que a Igreja condena tanto a tese rigorista do Padre Feeney, para quem não existia o batismo de desejo (erro condenado por Pio XII), quanto a tese liberal de que qualquer religião salva (erro condenado ainda recentemente por João Paulo II ao aprovar a Declaração Dominus Iesus).

*****

Você teve toda a razão, na discussão de que participou, ao dizer e defender a tese de que os animais “não têm alma racional”.

A alma é a forma metafísica do homem. Dizer que os animais têm “alma” leva a aceitar que não existe diferença metafísica entre o homem e os animais. Consequentemente, cai-se no materialismo crasso.

A alma humana é capaz de entender, de querer e de sentir.
Os animais, explica São Tomás, têm uma “alma” animal , que se confunde com a sua própria vida. A “alma” animal não é nem racional, nem imortal. Ela não é capaz de compreender abstratamente, nem de querer racionalmemte. O animal propriamente não entende, isto é, ele não é capaz de um conhecimento intelectual abstrato. O animal só “conhece” por reflexos condicionados. Eles têm ainda uma capacidade cogitativa, que lhes permite “calcular” certas coisas. Por exemplo, os elefantes, para beber água num rio em que há um barranco muito íngreme, que não lhes permite alcançar a água com a tromba, nem chegar perto da água, raspam o chão com as suas patas, para fazer uma rampa que lhes permita alcançar a água. Um pássaro “calcula”, pelo aspecto de um espaldar de cadeira, que ele pode servir-lhe de apoio para as patas. Mas ele não distingue um galho de um espaldar de cadeira, usando os dois como poleiro, sem compreendê-los.

Tampouco os animais têm “vontade” racional. Eles se movem apenas pelo apetite, que é um grau inferior de querer.

Também nós, homens, por sermos animais pelo nosso corpo, por vezes somos movidos por apetites animais.

Assim, vendo um sorvete enfeitado com cremes e cerejas, nos vem água à boca. É nosso apetite animal que se manifesta nessa “vontade” de comer tal sorvete. Mas, se nos avisam que aquele mesmo sorvete foi envenenado, e que quem o saborear morrerá, coibimos imediatamente nosso apetite — vontade animal — e recusamos comê-lo com nossa vontade racional.

Quanto ao sentir e às capacidades ligadas mais diretamente ao corpo (imaginação, memória), elas são comuns a nós e aos animais. Os animais irracionais também sentem, e têm memória, como podem imaginar, e, por isso, sonham.

Sentimos com a sensibilidade, que é uma potência de nossa alma racional, porém muito mais ligada ao corpo do que nossa inteligência e nossa vontade. Prova dessa ligação maior de nossa sensibilidade com o corpo animal são nossas lágrimas e nossos risos.

Ao conhecer com a inteligência que perdemos um bem que amávamos com nossa vontade racional, sentimos tanto, que nossa glândulas lacrimais entram a emitir lágrimas.

Para maior elucidação destes problemas recomendo-lhe que consulte a Suma Teológica de São Tomás ( I Q. 75 a 86). Na coleção da BAC, isso está no volume III – 2 ,da Suma Teológica de São Tomás de Aquino. Nesse volume da BAC, você encontrará também um estudo introdutório extenso (168 páginas), e bem interessante, sobre a alma humana, suas potências, e os sentidos humanos.

*******

Passo a responder sua última “perguntinha”: se temos “alguma ligação com o “famigerado” movimento TFP (Tradição, Familia e Propriedade).

Você não imagina quão oportuna é sua “perguntinha”!

Não !!!

Não !!! Mil vezes não !!!.

Não temos e nem queremos ter nenhuma ligação com a TFP

Grande parte do que o público veio a conhecer sobre os erros dessa entidade, foi por meu intermédio. Porém, já se passaram tantos anos que denunciei os delírios dessa sociedade que muita gente, não tendo acompanhado minha denúncia e a polêmica que se lhe seguiu, ignora qual a relação minha com a “famigerada” TFP.

Fui, durante anos, do grupo de Catolicismo (grupo que tinha esse nome pelo jornal de Dom Castro Mayer “Catolicismo“). Esse grupo, então apoiado pelo Bispo Dom Mayer, foi fundado por P.C. de Oliveira, e, mais tarde, deu origem à TFP.

Nunca pertenci à seita que se ocultava por trás da TFP. Nessa entidade pública, fui mantido no “gelo”, como lá se dizia, isto é, isolado e mal visto, porque se me acusava de “não ter o espírito de Dr Plínio”. Graças a Deus, nunca o tive mesmo.

PC de Oliveira, a partir de 1965, mais ou menos, começou a declarar-se Profeta. Era uma novidade surpreendente: um Profeta morando num apartameno, em Higienópis. Andando em carro de luxo, e comendo opiparamente.

Mais que profeta , ele se declarou inerrante.
O que já era paranóia.

Mais tarde fez acreditar que era imortal !

Proclamou-se o maior santo da História, superior até aos Apóstolos !

Prometeu fundar um “Reino de Maria” de tal modo milenarista, que nele haveria ruas de porcelana, e a “angelização” de seus sequazes. Os outros — os que ele apodava de “fumaça preta, e os pecadores – seriam animalizados.

Organizou um culto delirante para si mesmo e para sua mãe, Dona Lucília, usando para isso as manobras e astúcias de seu “discípulo predileto”: João Scognamiglio Clá Dias, aquele de quem o profeta de Higienópolis dizia que tinha “olhos redondos e andaluzes”, e que hoje está reduzido a maestro de banda da chamada Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima, esta sim descendente direta da TFP e de seus cultos absurdos.

Denuciei tudo isso, e saí do grupo de PC de Oliveira em 1983.

Pouco tempo depois, tive as provas — que publiquei –de que a TFP era, na verdade, uma sociedade secreta. Por trás da fachada da TFP existia uma sociedade que pouquíssimos membros da própria TFP sabiam que existia: a “Sempre Viva”.

Denunciei também a existência dessa sociedade secreta, e publiquei um trabalho sobre o culto delirante que nela se prestava, às escondidas, a PCO e a sua mãe (penso em publicar logo mais, no site, esse trabalho, editado há muitos anos, para acabar com confusões e calúnias que tentam me ligar à TFP, como se tenta ligar protestantismo e Catolicismo).

Fiz meu doutoramento em História na USP com uma tese intitulada “Elementos Esotéricos e Cabalistas nas Visões de Anna Katharina Emmerick”, que conta, em cerca de 800 páginas e centenas de livros consultados, as loucuras doutrinárias de uma freira patologicamente atormentada.

Perguntar-me-á você que tem isso a ver com a “famigerada” TFP .

É que Anna Katharina Emmerick era uma das fontes das idéias gnosticizantes cultvadas secretamente na TFP, tal qual a conheci, e claramente na Sempre Viva, que, enquanto estive “congelado”, jamais soube que existia.

Se você consultar em nosso site o trabalho “Origens do Romantismo”, você conhecerá o primeiro capítulo de minha tese de doutorado, e nele poderá encontrar informações sobre o romantismo… da TFP.

Logo mais publicarei uma biografia de Anna Katharina Emmerik — já foi escaneada para o site — em que você poderá conhecer muitas das idéias da “famigerada” TFP, como você a chama.

E haverá mais.

Outra pergunta que você poderia me fazer é por que, no site Montfort, se fez silêncio sobre a TFP.

Simplesmente porque, hoje, ela é “gato morto” à beira da estrada, pois toda sociedade secreta, quando denunciada sua existência, perde sua força maior.

Ademais, depois da morte do “imortal” profeta de Higienópolis, a TFP se dividiu em dois ramos. A divisão foi violenta. PC de Oliveira tinha deixado legalmente a autoridade para dirigir a entidade aos seu seguidores mais velhos– que lá são chamados de “Provectos”– enquanto todo seu carinho, proteção e elogios eram para seu “discípulo perfeito” João Scognamiglio Clá Dias.

A ruptura, ao que consta, foi feroz e judiciária. Dessa cisão a TFP saiu diminuída em número. Hoje, no Brasil, ela tem número muito reduzido de adeptos.

A ala que seguiu o “discípulo perfeito” de PC de Oliveira fundou a tal Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima. Esta, ao que parece, renegou as idéias que seus elementos haviam defendido durante quarenta anos, e passaram, sem a menor cerimônia, a defender idéias opostas. Como cobra que troca de pele, Scognamiglio, ao que dizem, se apresenta como o “Profeta maior”, enquanto seu mestre PC de Oliveira seria o “profeta menor”. Eu mesmo testemunhei um sequaz de Scognamiglio a dizer ;”Quis ut Joannes”? ( Quem é como João “Scognamiglio?), parodiando o grito de São Miguel: Quis ut Deus “( Quem é como Deus? ) Antes , na TFP, Scognamiglio fazia gritar: “Quis ut Plinius?” Mudaram de profeta, não de idolatria. Como a serpente que muda de pele, não de veneno.

É claro que a divisão enfraqueceu ambas as alas. Diz-se que as causa da divisão — não me interessei em saber mais deles — foi 1) pela chefia da entidade; 2) pelo fato de Scognamiglio querer se colocar no lugar de Plínio como Profeta (uma briga de manicômio); 3) pela aceitação de uma ala feminina por Scognamiglio, coisa que PC dos Ohs jamais aceitou; 4) por Scogamiglio aceitar contactos com o Vaticano.

Atualmente parece que a ala mista de Scognamiglio é apenas uma banda. Não sei se eles ainda cultuam Dona Lucília, de quem Scognamiglio escreveu uma biografia delirante e comprometedora, ou se ainda cultuam PC de Oliveira. Desconfio que não, embora, logo após a morte do Profeta Imortal, Scognamiglio lançassse uma revista em papel caro, com nome estranho para uma revista : “Dr. Plínio”. Sintomaticamente, a editora dessa revista mensal era “Ele voltará” ou “Ele retornará”– qualquer coisa desse naipe de fanatismo– indicando a expectativa de que o Profeta morto ressuscitaria e fundaria, então, o sonhado e romântico “Reino de Maria”.

A sua pergunta, porém, como a de outras pessoas — ainda hoje recebi outra carta perguntando a mesma coisa que você – me obriga a romper o silêncio, e falar de coisas mortas e enterradas. Tão mortas e tão enterradas quanto o “imortal” “profeta” de Higienópolis e seu quiliástico e fracassado “reino de Maria”, mil vezes anunciado e adiado, tal qual o fim do mundo dos Testemunhas de Jeová.

Se ficou alguma dúvida sobre este assunto, coloque suas questões, que de bom grado as responderei.

Se você for de São Paulo, convido-a a vir me cohecer pessoalmente, que lhe mostrarei os documentos e provas concretas do que afirmo. Se não se interessar por tema tão sem importância, hoje, deixe passar a questão.

Como disse Dante, ao falar de pessoas sem maior importância, “Non raggionam di loro, ma guarda e passa”…

In Corde Jesu, semper, e sempre oposto à TFP, como a qualquer outra sociedade secreta,

Orlando Fedeli

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