Montfort Associação Cultural

20 de agosto de 2013

Download PDF

A última meditação do Conclave antes de eleger o Papa Francisco, a cargo do Cardeal não eleitor Prosper Grech

Fonte: Aci Digital

Comentário de Alberto Zucchi, no artigo

A meditação preparatória para o Conclave, a viagem do Papa ao Brasil

e o congresso da Montfort

VATICANO, 14 Ago. 13  (ACI/EWTN Noticias).- O Vaticano publicou o texto da meditação final que o Cardeal Prosper Grech, agostinho de 87 anos e portanto não eleitor, fez diante dos 114 cardeais que elegeram o Papa Francisco. O texto está no boletim oficial “Acta Apostolicae Sedis”.

Está escrito em latim, dado que os documentos reproduzidos lá estão em seus idiomas originais. Suas páginas podem ser lidas online no site do Vaticano. Desde 2003 se publica em fascículos mensais com as páginas numeradas a partir de janeiro. Seu último fascículo publicado é também o primeiro do pontificado do Papa Francisco.

O vaticanista italiano Sandro Magister assinala que neste último número se incluem, entre outras, as atas do conclave que em 13 de março de 2013 elegeu o Papa. A novidade deste boletim –anteriormente coberto pelo segredo– é o texto íntegro da meditação de 12 de março do Cardeal Grech no que o Cardeal expõe “o que Cristo quer de sua Igreja”.

A seguir uma introdução e dez importantes passagens da meditação divulgadas por Magister:

“Não tenho nenhuma intenção de fazer o identikit do novo Papa, e muito menos apresentar um plano de trabalho ao futuro pontífice. Esta tarefa delicadíssima é tarefa do Espírito Santo, quem nas últimas décadas nos presenteou com uma série de ótimos pontífices santos. Minha intenção é extrair das Sagradas Escrituras algumas reflexões para fazer entender o que Cristo quer de sua Igreja.

Evangelho sem ofertas

Após a sua ressurreição, Jesus enviou os apóstolos ao mundo inteiro, para fazer discípulos de todos os povos e batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 29, 19). A Igreja faz isto apresentando o Evangelho sem rebaixá-lo, sem diluir a palavra. […] Quando se descende a compromissos com o Evangelho acontece o esvaziamento do seu “dynamis”, como se se retirasse de uma granada o trinitrotolueno contido nela.

Não se deve ceder nem sequer à tentação de relativizar a necessidade do batismo, pensando que o Concílio Vaticano II abaixou a salvação também àqueles que estão fora da Igreja. Hoje se agrega a isso o abuso de tantos católicos indiferentes que esquecem ou recusam batizar os próprios filhos.

O escândalo da cruz

O anúncio do Evangelho do Reino de Deus se concretiza no anúncio de “Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1 Cor 2, 2). […] É justamente este escândalo da cruz o que humilha a “hybris” da mente humana e a eleva para que aceite a sabedoria que vem do alto. Também neste caso, relativizar a pessoa de Cristo pondo-a junto a outros “salvadores” significa esvaziar o cristianismo mesmo de sua substância.

Foi justamente a pregação do caráter absurdo da cruz a que em menos de trezentos anos reduziu ao mínimo as religiões do império romano e abriu a mente dos homens a uma visão nova de experiência e de ressurreição. Dessa mesma experiência está sedento o mundo de hoje, que sofre de depressão existencial.

Igreja de mártires

O Cristo crucificado está intimamente ligado à Igreja crucificada. É a Igreja dos mártires, dos primeiros séculos até a dos numerosos fiéis que, em certos países, expõem-se à morte simplesmente por ir à Missa dominical. […] Jesus prega: “Se me perseguiram, também vos hão de perseguir” (Jo 15, 20). Por isso, a perseguição é um “quid constitutivum” da Igreja, […] é uma cruz que deve nos envolver.

Mas a perseguição não sempre é física, existe também a perseguição da mentira: “Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim”. (Mt 5, 11). Recentemente vocês tiveram experiência disto, através de alguns meios de comunicação que não amam a Igreja. Quando as acusações são falsas não se deve levar em conta, embora causem uma imensa dor.

Quando as acusações dizem a verdade

Outra coisa é quando se diz a verdade que nos afeta, tal como aconteceu com muitas acusações de pedofilia. Agora é necessário humilhar-se frente a Deus e diante dos homens, e procurar erradicar o mal a todo custo, como fez Bento XVI com grande dor. É somente assim que se recuperará a credibilidade frente ao mundo e se dará exemplo de sinceridade. Hoje muita gente não chega a acreditar em Cristo porque seu rosto está escurecido ou escondido detrás de uma instituição que carece de transparência.

Mas se recentemente choramos por causa de tantos incidentes desagradáveis em que estiveram envolvidos sacerdotes e leigos, inclusive na casa pontifícia, devemos pensar que estes males, por mais graves que sejam, comparados com certos males do passado na história da Igreja não são mais que um resfriado. Assim como estes males foram superados com a ajuda de Deus, assim também se superará a crise presente. Também se deve curar bem um resfriado, para que não se converta em pneumonia.

A fumaça de Satanás na igreja

O espírito maligno do mundo, o “mysterium iniquitatis” (2 Tes 2, 7), esforça-se continuamente para infiltrar-se dentro da Igreja. Além disso, não esqueçamos a advertência dos profetas do antigo Israel de não procurar alianças nem com Babilônia nem com o Egito, mas seguir uma pura política “ex-fide”, confiando somente em Deus (cfr. Is 30, 1; 31, 1-3; Os 12, 2) e em sua aliança. Valentia! Cristo nos levanta o ânimo quando exclama: “Coragem, eu venci o mundo” (Jo 16, 33). […]

Cismas à espreita

Não menos fácil para o futuro pontífice será a tarefa de manter a unidade na mesma Igreja Católica. Entre os extremistas ultra tradicionalistas e os extremistas ultra progressistas, entre os sacerdotes rebeldes à obediência e os que não reconhecem os sinais dos tempos, estará sempre o perigo de cismas menores que não somente ferem a Igreja, mas vão contra a vontade de Deus: a unidade custe o que custar. Mas unidade não significa uniformidade.

É evidente que isto não fecha as portas à discussão intraeclesial, presente em toda a história da Igreja. Todos são livres de expressar o que pensam em relação à missão da Igreja, mas de tal forma que seja proposto na linha disso “depositum fidei” que o pontífice, junto a todos os bispos, tem o dever de custodiar. […]

Liberdade sexual e progresso

Infelizmente, a teologia padece hoje por causa desse pensamento débil que reina no âmbito filosófico, por isso necessitamos um bom fundamento filosófico para poder desenvolver o dogma com uma hermenêutica válida que fale uma linguagem inteligível ao mundo contemporâneo. Mas muitas vezes acontece que as propostas de muitos fiéis para o progresso da Igreja se baseiam no grau de liberdade que se concede no âmbito sexual. É certo que podem ser mudadas leis e tradições que são puramente eclesiais, mas não toda mudança significa progresso; é necessário discernir se tais mudanças servem para aumentar a santidade da Igreja ou para obscurecê-la. […]

Esse pequeno resto que não se ajoelha ante baal

No Ocidente, pelo menos na Europa, o cristianismo mesmo está em crise. […] Reina uma ignorância e um abandono não somente da doutrina católica, mas também do ABC mesmo do cristianismo. Por isso se sente a urgência da nova evangelização que começa com o kerigma puro e sem artifícios anunciados aos não-crentes, seguido por uma catequese contínua alimentada pela oração. Mas o Senhor nunca é derrotado pela negligência humana, e parece que enquanto na Europa lhe fecham as portas, ele as está abrindo em outros lados, especialmente na Ásia.

Mas também no Ocidente Deus não deixará de reservar um resto de Israel que não se ajoelhe ante Baal, um resto que encontramos principalmente em tantos movimentos leigos dotados com diferentes carismas e que estão contribuindo muito fortemente à nova evangelização. […] Mas estejamos atentos para que os movimentos particulares não achem que a Igreja se esgota neles. Em definitiva, Deus não pode ser derrotado pela nossa negligência. A Igreja é sua, as portas do inferno poderão feri-la no calcanhar, mas jamais a poderão extinguir. […].

A fé dos simples

Há outro fator de esperança na Igreja que não devemos descuidar: o “sensus fidelium”. São Agostinho o chama “o professor interior” em cada um dos crentes. […] Este sentido cria no íntimo do coração o critério de discernimento do verdadeiro e do falso, que nos faz distinguir instintivamente o que é “secundum Deum” do que vem do mundo e do maligno (1 Jo 4, 1-6). […]

A brasa da fé devota se mantém viva graças a milhões de fiéis simples que estão longe de serem chamados teólogos, mas que, a partir intimidade de suas orações, reflexões e devoções, podem dar profundos conselhos a seus pastores. São eles os que “destruirão a sabedoria dos sábios e rechaçarão a ciência dos inteligentes” (1 Cor 1, 19). Isto quer dizer que quando o mundo, com toda sua ciência e inteligência, abandona os logos da razão humana, o Logos de Deus brilha nos corações simples, que formam a medula da que se nutre a espinha dorsal da Igreja. […]

Sob a mão do Cristo Juiz

Embora professemos que o Espírito Santo é a alma da Igreja, nem sempre o tomamos em consideração nos nossos desígnios sobre a Igreja. Ele transcende toda análise sociológica e previsão histórica. Supera os escândalos, as políticas internas, os arrivismos e os problemas sociais, os quais –em sua complexidade– nublam o rosto de Cristo que deve brilhar também através de densas nuvens.

Escutemos a São Agostinho: “Os apóstolos viam Cristo e acreditavam na Igreja que não viam; nós vemos a Igreja e devemos acreditar em Cristo, a quem não vemos. Aderindo permanentemente ao que vemos, chegaremos a ver aquele que agora não vemos” (Sermão 328, 3). […]

Em 1961 João XXIII recebeu em audiência nesta Capela Sixtina ao corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé. Assinalou a figura dominante de Cristo juiz, pintado no afresco de Michelangelo, e lhes disse que Cristo julgará também o obrar de cada uma das nações na história. Vocês se encontram nesta mesma Capela, sob a figura desse Cristo, com a mão elevada, não para esmagar, mas para iluminar o voto de vocês, para que seja “secundum Spiritum”, não “secundum carnem”. […] É deste modo que o eleito não será só o de vocês, mas essencialmente o Seu.

 

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais