Montfort Associação Cultural

29 de junho de 2006

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A tentação é algo próprio do demônio?

Autor: André Palma

  • Consulente: Janio Cesar Barcellos
  • Localizaçao: Ibirité – MG – Brasil

o que significa a frase: Utrum tentare sit proprium diaboli?

Prezado Janio, Salve Maria.
 
     Santo Tomás utiliza em sua Summa Theologica uma metodologia própria da escolástica medieval.
     Os temas eram tratados em forma de perguntas (“quaestio”). Os alunos das faculdades deveriam encontrar as diversas respostas para a questão proposta pelo mestre, que então dava ao final a solução.
     Assim, no prôemio da questão 114 da primeira parte da Summa, entre outras é proposto o seguinte:
 
Utrum tentare sit proprium diaboli?” (“Se tentar é algo próprio do demônio?”)
 
     A solução ou resposta dada por Santo Tomás (artigo IV) é muito interessante. Ele diz que tentar quer dizer “provar”. Deste modo, a tentação é uma prova de nossa virtude. Se vencemos a tentação é sinal que temos virtude, do contrário não.
     Contudo, a tentação para o mal só pode vir do demônio, e neste sentido é própria dele:

Diabolus autem semper tentat ut noceat, in peccatum praecipitando” (O demônio sempre tenta o homem para que ele pereça, para que ele caia no pecado).

 
     Entretanto, no Gênesis (cap XXII) está escrito “tentavit Deus Abraham” (Deus tentou Abraão). Deus pode, então, nos tentar? Sim, todavia a tentação ou a prova de nossa virtude vinda de Deus nunca poderá ser para nossa perdição. A tentação que Deus nos envia sempre é para o bem, ou seja, para praticarmos um ato bom.
     A tentação é utilíssima para o homem, pois ela nos prepara a coroa da glória. 

beatus vir qui suffert tentationem: quoniam cum probatus fuerit, accipiet coronam vitae(Feliz o homem que sofre tentação: porque após ter sido provado receberá a coroa da vida“, S. Tiago  I,12)

 
     Por isso, Nosso Senhor quando nos ensinou a rezar, ensinou-nos a pedir para não cair em tentação, e não para que não tenhamos tentação.
     É importante também ressaltar que as outras fontes de tentação são, além do demônio: o mundo e a carne.
     A carne nos tenta instigando-nos ao mal fazendo-nos procurar suas deleitações, nas quais existe uma multidão de pecados (in quibus est saepe peccatum).
     O mundo nos tenta pelo desejo imoderado das coisas temporais, I Tim. VI, 10: radix omnium malorum est cupiditas (a raiz do todos os males é o desejo imoderado.)
     Quando pedimos no Pai-Nosso para não cair em tentação, pedimos para que o Espírito Santo nos conceda o dom da inteligência, afim de que possamos distinguir as coisas boas das más: Psal. XXXI, 8: intellectum tibi dabo, et instruam te (“Vos darei inteligência e vos instruirei”).
     Portanto, assim como a inteligência nos faz ver, assim como a vitória sobre a tentação preserva nosso coração, assim: Felizes os puros de coração porque verão a Deus.

Domine, ut videam
André Palma

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