Montfort Associação Cultural

22 de novembro de 2004

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A igreja e a desigualdade

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Tyler
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil
  • Religião: Outras – escreva abaixo

Todos nós temos ciência dos males que afligem a população carente e o operário comum. Sabemos que o mundo nunca foi justo e que as consequências de anos de desigualdade social, de anos de concentração de renda nas mãos de poucos provocou males diversos, como miséria, fome, desemprego, etc. Sabemos também que existem uma série de ONGs, instituições de voluntariado(muitas das quais até faço parte) e outras que tentam insistentemente reduzir um pouco a carga de malefícios despejadas sobre o cidadão que não faz parte da elite. A história nos provou que as classes dominantes (clero e nobreza) sempre mantiveram e concentraram em suas mãos o conhecimento e a riqueza. A história hoje nos prova novamente que a situação atual não mudou. Por que os 10% mais pobres continuam com 0,7% do capital enquanto os 10% mais ricos com 48%? Sejamos realistas. Mesmo que evangelizemos todas as pessoas do planeta terra, sabemos muito bem que esta situação pouco se alterará. Por que enfim a elite burguesa e a classe dominante, impõe com mão de ferro a submissão espontânea que o proletariado deve apresentar perante os seus senhores. A sociedade moderna é a prova total do consumismo e da futilidade. Financiada por países ricos, que sendo católicos ou não, continuam com suas políticas imperialistas e de escravização da América Latina. Vimos também o comunismo soviético sucumbir frente ao imperialismo yankee e sua burocracia lacinante. O estado e qualquer de suas atribuições sempre leva a isso. Seja o estado burocrático soviético, que tomou o papel de estado capitalista, concentrando toda o poder de uma ditadura nefasta ou seja os pretensos países civilizados e religiosos. Sabemos que as mudanças provocadas pela religião podem ter sido até relevantes. Mas no âmbito social, sabemos que foi um desastre. Agindo sempre como paliativo, a religião ora ou outra doa alimentos, fornece cursos, promove campanhas de agasalhos etc. Coisa positiva. Mas a longo prazo sabemos de sua inutilidade. Até quando o pobre viverá entre as migalhas j!

ogadas de uns poucos? Será eterna esta dívida de gratidão com a demagogia religiosa?

Os meios de produção são o caminho para nossa igualdade. O capitalismo está baseado numa injustiça histórica. Não estou defendendo o Marxismo, socialismo ou o que quer que seja. Só estou mostrando de forma sintetizada, que a solução de nossos problemas não está em algum “ismo” da vida. Está sim na destruição desse sistema falido. Ou alguém ainda acredita na democracia representativa? Numa pesquisa recente em The Second Coming Of The Church de George Barna (Word Publishing, 1998), relata-se que as diferenças morais dos seguidores religiosos para os ateísta não são muito discrepantes.

O autor, um sociólogo cristão renascido, é o fundador e o presidente do Grupo de Pesquisa Barna (Califórnia), que edita muitos resultados expressivos de pesquisas.

Embora a maior parte do livro de Barna seja um sermão para os ministros cristãos sobre como a igreja recuperaria sua condição perdida, ele contém algumas francas estatísticas mostrando como a presente igreja tem “falhado” na sua missão. Os números são baseados nos próprios estudos de Barna e outras pesquisas nacionais.

Barna compara os comportamentos e atitudes de cristãos e de não-cristãos (veja as tabelas abaixo) e conclui: “Nós pensamos e nos comportamos igualmente a qualquer outra pessoa.”

Exemplos de similaridade de comportamentos entre cristãos e não-cristãos(de The Second Coming Of The Church, pág. 6, lista parcial)

Divorciou-se (entre aqueles que casaram-se) Cristãos renascidos: 27%; Não-cristãos: 23%

Deu dinheiro a uma pessoa desabrigada ou pobre, no último 1 ano Cristãos renascidos: 24%; Não-cristãos: 34%

Tomou drogas ou medicamentos prescritos para depressão, no último 1 ano Cristão renascidos: 7%; Não-cristãos: 8%

Assistiu a um filme pornô, nos últimos 3 meses Cristãos renascidos: 9%; Não-cristãos: 16%

Doou qualquer quantia para uma organização sem fins lucrativos, no último mês Cristãos renascidos: 47%; Não-cristãos: 48%

Comprou bilhete de loteria, na última 1 semana Cristãos renascidos: 23%; Não-cristãos: 27%

Participou de uma reunião comunitária sobre uma questão local, no último 1 ano Cristãos renascidos: 37%; Não-cristãos: 42%

Exemplos da similaridade de Atitudes entre Cristãos e Não-cristãos (de The Second Coming Of The Church, pág. 21, lista parcial)

Sente-se completamente ou muito bem sucedido na vida Cristãos renascidos: 58%; Não-cristãos: 49%

É impossível prosperar por causa de suas dívidas financeiras Cristãos renascidos: 33%; Não-cristãos: 39%

Você está ainda tentando descobrir o propósito de sua vida Cristãos renascidos: 36%; Não-cristãos: 47%

Está satisfeito com sua vida hoje em dia Cristãos renascidos: 69%; Não-cristãos: 68%

Sua situação financeira pessoal está melhorando Cristãos renascidos: 27%; Não-cristãos: 28%

Barna também ilumina a definição de “Deus” que a maioria dos norte-americanos afirmam crer:

De acordo com Barna, um terço dos norte-americanos realmente não acreditam em “Deus” de qualquer jeito. Apesar de todos os sermões sobre como a crença faz a diferença na vida, os números mostram que os cristãos não são melhores que os descrentes. Pelo menos um sociólogo renascido foi honesto o suficiente para admitir isso..

Dan Barker é um membro da Freedom From Religion Foundation e um ex-ministro renascido.

Ou já não sabíamos disso?

Não estou pregando o ateísmo. ou pregando a fé cristã. Só estou mostrando com dados que a igreja está sempre agindo como paliativo. Á transformação individual é importante sim. Não sei se o caminho certo é a religiao. Ou um simples humanismo. Mas a trasformação individual nao mudará os meios de produçao. Precisamos de uma alternativa coletiva. E se a igreja participasse de movimentos populares revolucionários que possam acabar com esse sistema falido, talvez a situação se modificasse.

Não podemos viver de paliativos para sempre.

Respondam essa carta. Mas sem os preconceitos e visões características de sempre. Não me venham criticar o marxismo achando que eu sou marxista(não sou mesmo!!!). Comentem este carta sem cobrir um erro apontando outro. Estou falando de soluções! Soluções!!! DEFINITIVAS!!! NãO PALIATIVAS!!!

Meu caro jovem “Onguista”, de instrução superior e incompleta, salve Maria.

Muito lhe agradeço os dados de pesquisa da tal Barna, que comprovam que os cristãos “renascidos” se comportam quase exatamente como os ateus. De onde concluo que esse cristianismo “renascido” parece tão defunto quanto o ateísmo.

O que você deveria concluir daí, prezado Tyler Durden — esse nome já me passou várias vezes pelo monitor — é que nem todos os que se afirmam algo, o são. Esses “cristãos renascidos” se dizem cristãos , mas agem como ateus. Logo, não são nem renascidos, nem verdadeiros cristãos.

Você deve ter tido conhecimento de que Cristo afirmou certa vez : “Nem todo o que diz “Senhor” entrará no Reino dos Céus”.

Se existem até teólogos ateus, que se dirá de “cristãos” “renascidos”, cantando rock pra louvar o “Senhor”!…

Meu caro, nem tudo o que reluz é ouro…

E nem todo aquele que nega ser marxista, de fato não o é.

Há marxistas que negam sê-lo, para melhor enganar tolos. Eles se apresentam a jovens sem instrução completa, e os enganam, ensinado-lhes marxismo com outro nome.

E não é este o seu caso.

Você não é um instrutor marxista disfarçado de outra coisa.

Mas há também marxistas que são marxistas sem o terem percebido. Foram doutrinados e “conscientizados” por um marxista — que negava ser marxista para melhor enganar –, geralmente tendo a condição de Padre ou de Professor. E este caso de vitimados por marxistas disfarçados é o seu caso.

Assim como há cancerosos que se julgam sadios, há os infectados de marxismo que nem se aperceberam que lhes metera, na cachola de instrução superior incompleta, um marxismo pintado de qualquer outra cor que não a vermelha.

E este é o seu caso.

Você é marxista sim. É marxista sem o saber.

Quer as provas?

Estão na sua carta.

1) O marxismo ensina que na História existe uma luta de classes, em que alguns — os exploradores — exploram outros — os proletários.

Você me escreve: “A história nos provou que as classes dominantes (clero e nobreza) sempre mantiveram e concentraram em suas mãos o conhecimento e a riqueza”.

Portanto, você tem uma visão marxista da História.

2) Para Marx , “a religião é o ópio do povo”, pois aliena o homem e o leva a aceitar a exploração das classe dominantes Você me escreve: “Agindo sempre como paliativo, a religião ora ou outra doa alimentos, fornece cursos, promove campanhas de agasalhos etc. Coisa positiva. Mas a longo prazo sabemos de sua inutilidade. Até quando o pobre viverá entre as migalhas j!jogadas de uns poucos? Será eterna esta dívida de gratidão com a demagogia religiosa?”

3) Para Marx, os meios de produção tem que ser mudados, para que se faça a revolução que acabe com a exploração capitalista.

Você me escreve: “Os meios de produção são o caminho para nossa igualdade”

4) Marx afirma que o capitalismo realiza uma grande injustiça histórica.

Você me escreve: “O capitalismo está baseado numa injustiça histórica”.

5) Marx condena, por princípio, a democracia representativa.

Você me escreve: “Ou alguém ainda acredita na democracia representativa?”.

6) Marx disse que só com o coletivismo o proletariado será libertado.

E você me escreve: “Mas a transformação individual não mudará os meios de produção. Precisamos de uma alternativa coletiva”.

7) A teologia da Libertação definida pelo ex-Frei Boff como marxismo na Teologia , afirmava que era preciso dar ao marxismo uma mística religiosa, através das comunidades de base — hoje se diria através de certas ONGS — para acabar com o capitalismo.

Você me escreve: “E se a igreja participasse de movimentos populares revolucionários que possam acabar com esse sistema falido, talvez a situação se modificasse. Não podemos viver de paliativos para sempre.”.

De tudo isso se conclui que você é marxista mesmo. Ainda que você me grite: “Não me venham criticar o marxismo achando que eu sou marxista (não sou mesmo!!!)”.

Você é marxista mesmo.

E nem percebeu que foi doutrinado. Que foi “conscientizado” graças à sua “instrução superior incompleta”. Fizeram de você, meu caro Tyler, um marxista desapercebido, membro de várias ONGS.

Quais são essas ONGS a que você pertence?

Gostaria de saber.

Que Deus tenha piedade de você. E creio que Ele a terá, já que o próprio Cristo pediu a Deus perdão por você também ao dizer na Cruz: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que dizem. ” Desculpe, enganei-me! A frase de Cristo é diferente: “pois não sabem o que fazem”.

Ou …o que escrevem?

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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