Montfort Associação Cultural

3 de setembro de 2012

Download PDF

A entrevista póstuma do Cardeal Martini

 

A morte do Cardeal Martini, o jesuíta Cardeal-Arcebispo emérito de Milão, é ocasião para a imprensa de lembrar daquele que poderia ter sido o grande opositor ao Cardeal Ratzinger no conclave, se não tivesse sido revelada anteriormente sua doença – o Mal de Parkinson, que o matou, sete anos depois. Sua primeira medida como Papa, conforme se anunciara na época, teria sido a mudança da Santa Sé de Roma para Jerusalém…   
Pois o Cardeal Martini, uma das últimas flores do modernismo teológico, deixou um veneno na cauda. Nessa entrevista póstuma, a ser publicada após a notícia de sua morte ter chamado a atenção da mídia, ele louva os santos da Teologia da Libertação, ataca a estrutura e a moral da Igreja, as leis e o direito canônico, defende a comunhão dos divorciados… e prega uma espécie de “refundação”, a partir da escolha de “doze pessoas incomuns” para os postos de direção da Igreja.
O cansaço e o esvaziamento da Igreja que ele aponta existem sim, mas foram causados pela “espírito” do Vaticano II que ele tenta relançar agora. E brasas escondidas sob as cinzas, ardendo no amor de Deus, vão sendo recuperadas pela volta à sã doutrina e à tradição litúrgica da Igreja, promovida pelo Papa Bento XVI.
Entrevista publicada pelo Corriere della Sera
Tradução Montfort a partir  do  jornal La Croix
Comentário Lucia Zucchi

A Igreja está atrasada em 200 anos


“A Igreja está cansada. Nossa cultura envelheceu, nossas igrejas são vastas, nossas casas religiosas estão vazias, e o aparelho burocrático da Igreja se fez crescer. Nossos ritos e nossos hábitos são pomposos(…) Nós no encontramos na situação do jovem rico que se afasta, cheio de tristeza, enquanto que Jesus o chama à tornar-se seu discípulo. Eu sei bem que é difícil deixar tudo… Mas, ao menos, poderíamos buscar homens livres e atentos ao próximo, como o foram Dom Romero e os mártires jesuítas do Salvador.  Onde estão os heróis que poderiam nos inspirar? Em nenhum caso, não deveríamos nos manter nos limites da instituição. (…) Na Igreja hoje, eu vejo tantas velas que escondem as brasas,  que me sinto frequentemente tomado de um sentimento de impotência. Como podemos liberar essas brasas para revigorar a chama do amor? (…) Eu aconselho ao papa e aos bispos de procurar, para os postos de direção, doze pessoas “incomuns“, próximas dos pobres, cercadas de jovens, que experimentem coisas novas. Precisamos desse contato com homens que ardam, para que o Espírito possa se difundir por toda parte.


Meu primeiro conselho é a conversão. A Igreja deve reconhecer seus próprios erros e empreender um caminho radical de mudança, a começar pelo papa e os bispos. A começar pelas questões colocadas sobre a sexualidade e o corpo. (…) Devemos nos perguntar se as pessoas escutam ainda os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda, nesse domínio, uma autoridade de referência ou somente uma caricatura para as mídias?

Meu segundo conselho é a escuta da Palavra de Deus (…) Só aquele que recebe esta Palavra em seu coração pode ajudar na renovação da Igreja e saberá responder com justeza às demandas pessoais. (…) Nem o clero nem o direito canônico podem se substituir à interioridade do homem. Todas as regras, as leis, os dogmas só nos são dados para clarificar a voz interior e ajudar no discernimento do Espírito.

Enfim, os sacramento são para mim, não instrumentos de disciplina, mas um apoio à cura dos homens tomados nas fraquezas da vida. Levamos os sacramentos àqueles que tem necessidade de uma força nova? Eu penso em todos os divorciados e nas famílias recompostas. Eles precisam de uma proteção especial. A Igreja sustenta a indissolubilidade do casamento. É uma graça quando um casamento e uma família alcançam isso. (…) A atenção que levamos às famílias recompostas será determinante para a proximidade da Igreja com a geração de seus filhos. Uma mulher abandonada por seu marido encontra um novo companheiro que se ocupa dela e de seus filhos. Esse segundo amor tem êxito. Se essa família é discriminada, a mãe e seus filhos se afastarão. Se esses pais se sentem estrangeiros na Igreja, não se sentem sustentados por ela, a Igreja perderá as gerações futuras. (…) A demanda de acesso dos divorciados à comunhão deve ser levada em conta. Como a Igreja pode vir em ajuda, com a força dos sacramentos, daqueles que vivem situações familiares complexas? (…)

A Igreja está atrasada em 200 anos. Teríamos medo? Medo no lugar de coragem? A fé, a confiança, a coragem são os fundamentos da Igreja. (…) Somente o amor pode vencer o cansaço. Eu o vejo muito com todas as pessoas que me cercam doravante.”

Publicações relacionadas

Notícias e Atualidades: Jovens ausentes nos funerais do Cardeal Martini

Para comentar esta publicação

O site Montfort não permite a inclusão de comentarios diretamente em suas publicacões.

Para enviar comentários, sanar dúvidas, obter informações, ou entrar em debate conosco, envie-nos sua carta.

Saiba mais