Montfort Associação Cultural

10 de fevereiro de 2005

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A Divina Comédia e o homem medieval

Autor: Orlando Fedeli

  • Consulente: Cristina
  • Localizaçao: Rio de Janeiro – RJ – Brasil

NÃO SEI POR SER UMA LEITURA DE DIFÍCIL COMPREENÇÃO , A DIVINMA COMÉDIA PARA MIM, QUE SOU APENAS UMA CURIOSA NOS ASSUNTO REFERENTES A HISTÓRIA, DEIXOU DUAS DUVIDAS QUE COMPROMETEM O MEU ENTENDIMENTO A RESPEITO DO ASSUNTO..

Minha primeira duvida esta relacionada ao fato Importancia do conhecimento da Divina comédia ( ou partedela ) para a compreenção do homem medieval?

Minha segunda duvida se relaciona em como se explica que o poema sacro por excelencia lance mão de figuras ou dados mitológicos e pagãos?

Muito prezada Cristina, salve Maria.

É com prazer que respondo às suas perguntas, pois que a leitura da Divina Comédia é sempre muito agradável para mim. Dou, constantemente, cursos sobre Dante, fazendo a leitura comentada do poema dantesco, duas vezes por semana.

Sem dúvida, a Divina Comédia permite ter uma certa compreensão do homem medieval, não só pelas informações históricas que nos propicia, mas principalmente porque espelha, sob muitos aspectos a cosmovisão tomista e victorina típica do medieval.

Com efeito, embora seja exagerado dizer — como alguns fazem — que a Divina Comédia apresenta o pensamento da Suma Teológica de São Tomás em versos, em muitos pontos, ela dá a argumentação tirada do tomismo. Isto sem esquecer que Dante coloca no céu o grande inimigo de São Tomás, Siger de Brabante, tanto quanto o milenarista Joaquim de Fiore, que ele apresenta como “di spirito profético dotatto”. O que é um absurdo próprio dos beguinos.

Mais claramente, Dante utiliza na Divina Comedia a visão de Hugo de São Victor da felicidade humana fundamentada na luz e na doçura — lumen et dulcedo — isto é, na posse da verdade (lumen) e na posse do bem material (dulcedo). Luz e doçura são as duas coisas que o homem procura sempre. A luz como símbolo da verdade imutável. A doçura, isto é, o bem material, que sendo proporcionado aos sentidos corporais, se apresenta como proporcionado. Isto é como música doce, visto que música é proporção.

Quanto aos elementos pagãos da Divina Comédia, eles se explicam pelo fato de que Dante não era plenamente católico. Ele fazia parte de uma sociedade secreta — Os Fiéis de Amor — cuja doutrina era gibelina. Como todos os Gibelinos, ele colocava o Império acima da Igreja. O Imperador acima do Papa. Dai o ódio de Dante ao Papado e à Igreja rica, à loba, carregando em sua magreza toda a fome de riqueza..

E não se deve esquecer que os Gibelinos eram, muitas vezes, cátaros. Veja, por exemplo, que Dante coloca, no inferno, Farinata degli Uberti como epicurista, quando, de fato, ele foi cátaro, e excomungado como cátaro.

Note você ainda que, no Inferno de Dante, misteriosamente, jamais aparece o termo cátaro. Entretanto, essa era a grande heresia que dominava o tempo em que ele viveu. Até mesmo a colocação dos hereges — e para Dante hereges eram apenas os materialistas epicuristas — é estranha, pois eles não estão colocados entre os fraudulentos, os enganadores que pecaram com o intelecto.

Também é notável como Dante exalta certos poetas conhecidos, hoje, como cátaros, como por exemplo Arnauld Daniel, mestre do “trobar clus” (poesia em código), Sordello, Casella a quem ele faz cantar o poema praticamente esotérico “Ämor che nella mente mi raggiona”, de autoria do próprio Dante.

Isso tudo leva a perguntar se, de fato, não haveria algo por trás “del velame degli versi strani”
Você deve se lembrar da passagem famosa:

“O Voi ch” avete li “ntelletti sani,                                  “O vós que tendes o intelecto sadio,
mirate la dottina che s”asconde                                   olhai a doutrina que se esconde
sotto il velame de li versi strani” (In. IX, 61-63)               por trás dos versos estranhos”.

É verdade que Umberto Eco tentou demonstrar que por trás dos versos estranhos não havia nada (Cfr. L Ídea Deforme, Maria Pia Pozzato et allii, Introduçao de Umberto Eco, ed Bompiani Milano, 1989).

Mas é verdade também que, pelo menos alguns dos próprios discípulos de Eco que redigiram esse livro, acabaram por admitir que algo de secreto havia, de fato, na Divina Comédia. É o que deixa entrever Maria Pia Pozzato, no Prefácio dessa obra — L” Idea Deforme– na página 41.

Em suma, Dante era já um humanista, e como humanista estava imbuído de um amor exaltado pela cultura clássica. E é o que explica a invocação às musas e a Apolo, a citação de Júpiter, e de muitos fatos mitológicos.

Concluindo, deve-se dizer que Dante, embora tenha muito de medieval, já era também um humanista, no mínimo, precursor do Humanismo renascentista, inclusive compartilhando, como Gibelino, do anticlericalismo e do ódio ao papado dos Humanistas do Renascimento.

Tendo você outras dúvidas ou questões sobre Dante, escreva-me, porque este tema me é sempre muito agradável.

In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli

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