Montfort Associação Cultural

26 de outubro de 2011

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A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (parte 2)

Pierre de Craon Lejeune

INTRODUÇÃO

No último artigo lançamos algumas bases para uma análise sólida sobre o que é a beleza.

Definimos o que é ordem, porque sem ela algo não pode ser belo. Depois apresentamos a definição de beleza dada por Santo Alberto Magno, que se apoia claramente, com o uso dos conceitos de matéria e forma, na filosofia de Aristóteles. Finalmente, expusemos com um certo numero de detalhes as partes desta definição.

Vimos que a matéria-prima é uma espécie de realidade imperfeita que é indiferente para constituir qualquer coisa e que, nas mudanças naturais e quotidianas dos corpos, recebe, sob a influência dos agentes naturais, seja uma forma substancial, seja outra, que a determinam a ser homem, planta, cavalo, pedra, etc. Quando um destes seres (compostos de matéria e forma) desaparece, a matéria-prima permanece e passa à uma nova forma substancial, constituindo um novo ser. Uma folha de papel, sob a ação do fogo, deixa de existir para dar lugar a cinzas. A matéria-prima permaneceu, mudou a forma substancial. Consequentemente, mudou o ser.

Ela é chamada de matéria-prima (primeira) para distingui-la da matéria usada na fabricação dos compostos artificiais, que é chamada matéria segunda. É o caso da madeira para a cadeira, do mármore para a estátua, que já são completos por sua natureza quando recebem determinações acidentais que fazem deles uma cadeira ou estátua. Foi o exemplo que demos para fazer com que os leitores compreendessem melhor o que era matéria-prima, partindo antes da matéria segunda: estudamos primeiro o que é o mármore numa estátua para depois compreendermos o que é a matéria-prima no mármore.

Também vimos que a forma substancial é o princípio específico de um corpo. Sua função é de constituir com a matéria-prima tal ou tal corpo. Isto quer dizer que, sendo a matéria-prima indiferente a constituir qualquer ser composto, é a forma que, por sua união com ela, a diferencia, a especifica, determinando que seja pedra, cachorro, madeira, etc.

Por último, analisamos o que era o resplendor da forma e a proporção da matéria, com alguns exemplos concretos para ilustrar os princípios muito abstratos que expusemos, e mostramos como se unem para formar um ser belo.

Neste artigo veremos outra definição de belo, apresentada por Santo Tomás de Aquino, discípulo de Santo Alberto Magno. Apesar de diferentes na enunciação, elas são perfeitamente complementares e concordam uma com a outra.

Depois de assentada a íntima relação que existe entre a beleza e a inteligência, buscaremos saber: se somente o intelecto pode conhecer a beleza ou se os sentidos também têm a capacidade de conhecê-la; se existem sentidos mais nobres que outros; se alguns deles são mais intimamente relacionados com a razão; o que faz com que a inteligência se interesse pela beleza das coisas.

Todas estas questões, e as respostas de cada uma delas, nos ajudarão a compreender mais claramente a definição de belo dada por Santo Tomás de Aquino.

A DEFINIÇÃO DE BELO DADA POR SANTO TOMÁS DE AQUINO

Na sua obra mais conhecida, a Suma Teológica, Santo Tomás apresenta uma definição de beleza que chama nossa atenção pela sua simplicidade quase infantil:

São ditas belas aquelas coisas que agradam a visão” (Suma Teológica I, q. 5, a. 4, ad 1).

A primeira impressão que o leitor poderia ter é de que, nesta definição, expõe-se o óbvio e de que nela não há muita especulação e elevação de pensamento. Porém, veremos que não é assim. Mostraremos que ela contém muita sabedoria e buscaremos fazer com que ela resplandeça.

1. Beleza e inteligência

Como vimos no artigo anterior, algo só é belo se tiver ordem entre as partes que o compõem e quando manifesta claramente o que é. Ora, a ordem e o ser só podem ser conhecidos pela inteligência. As abelhas constroem seus alvéolos com uma ordem admirável, mas são incapazes de saber que o fazem, porque não têm inteligência.

Assim, ficou provado que a apreciação da beleza tem uma relação estreitíssima com o conhecimento intelectual.

2. Somente a inteligência percebe a beleza?

Quando a beleza é material, então ela é percebida direta e primeiramente pelos sentidos. Mas a inteligência, vindo em seguida, descobre no objeto conhecido uma beleza mais íntima, mais profunda, que os sentidos não podem perceber.

Quando a beleza é imaterial, então somente a inteligência pode conhecê-la.

Alguns filósofos ensinaram que os sentidos externos são incapazes de qualquer conhecimento. Muitos ensinam que os cinco sentidos externos se limitam a nos indicar aquelas coisas que são úteis ou prejudiciais à vida física do homem. Tal é o ensinamento de Malebranche:

Que se conceba bem que nossos sentidos só nos são dados para a conservação de nosso corpo; é necessário que nos fortifiquemos neste pensamento” (Malebranche, A busca da verdade, tomo I, cap. VI e XX).

Pior ainda: que o homem deve ficar muito atento ao que lhe chega pelos cinco sentidos e duvidar deles, sendo para a inteligência a fonte de incontáveis ocasiões de erro. Este é o pensamento de Descartes.

De acordo com Santo Tomás, ao contrário, os sentidos têm uma dupla missão: a de permitir ao homem e ao animal o sustento da vida física e, no homem, a de servir ao conhecimento intelectual (como veremos, em detalhe, mais abaixo).

A experiência quotidiana nos mostra isso. Os animais, ainda que sejam destituídos de inteligência, possuem diversos meios de conhecimento, em vários casos extremamente desenvolvidos. O cachorro conhece seu dono, a formiga conhece o caminho de volta para seu formigueiro, os pintinhos conhecem sua mãe.

Isso nos mostra que os sentidos são meios de conhecimento, o que não quer dizer que sejam confundidos com a inteligência.

O conhecimento não exige necessariamente uma faculdade intelectual, pois ele pode ter como objeto as propriedades materiais, vistas sob um aspecto material e não acompanhado de nenhuma reflexão.

Existe ainda um motivo particular para dar aos sentidos do homem a capacidade de conhecer: nossa razão, conforme nossa experiência quotidiana nos demonstra largamente, é muito fraca para agir sozinha.

Nossa inteligência tem uma grande necessidade da ajuda dos sentidos.

Por isso, no homem, o conhecimento sensível é tão rico e palpável que nós o usamos como comparação para explicarmos nossas reflexões mais claras. Por isso, também, nosso conhecimento parece imperfeito quando não é ajudado pelos sentidos. É assim que, no artigo anterior, ilustramos os princípios abstratos que expusemos com figuras e fatos do quotidiano: as imagens de um caracol, de uma flor, dos vitrais de uma catedral.

Um professor de geometria que explicasse o teorema de Pitágoras somente por uma descrição verbal jamais ensinaria com eficácia. Mas sua explicação será certamente mais eficaz e pedagógica se ele desenhar na lousa o triângulo do qual ele trata, usando-o para ilustrar o que ensina.

Não concedemos aos sentidos a capacidade de conhecer a beleza naqueles aspectos imateriais que ela possui e que só a inteligência pode conhecer: compreender a disposição e a ordem das partes de um ser, a finalidade desta ordem, etc.

Unicamente dizemos que também existe uma beleza material, o que é evidente, e que ela entra no domínio dos sentidos. A música e a poesia, uma pintura e uma escultura, devem passar antes pelos nossos olhos e ouvidos para chegarem à inteligência.

Quando meus olhos vêem uma rosa, eles não sabem o que é proporção, conveniência, nem o que é uma rosa, etc. Se me limito à informação que os olhos dão de um rosa, ela será bem superficial. Devo, então, recorrer à minha inteligência para atingir aquilo que meus olhos, sozinhos, são incapazes de conhecer: seu ser, a ordem de suas partes, o porquê desta ordem, etc.

Mas o brilho das cores, o tamanho do objeto e algumas outras informações de um ser fazem parte de sua beleza. São informações exteriores e sensíveis que meus olhos podem perceber.

A beleza conatural ao homem é aquela que agrada a inteligência pelos sentidos.

3. A inteligência e os sentidos

Nossa linguagem atribui beleza às coisas percebidas pela visão e pela audição, mas não àquelas coisas percebidas pelos outros sentidos externos. Um cheiro pode ser agradável, um sabor pode ser delicioso, mas não se diz que uma refeição ou que um aroma sejam belos.

Como explica Santo Tomás, a causa deste fato é que a visão e a audição são os sentidos mais estreitamente ligados à inteligência, que busca a clareza e a ordem.

O tato, o paladar e o olfato se encarregam primeiramente e principalmente das necessidades da vida corporal e nos ajudam a sobreviver, mas a visão e a audição percebem objetos que são bem mais próximos da inteligência e que nos permitem desenvolver a vida intelectual. É porque temos olhos e ouvidos que podemos ler, discutir, observar o que se passa a nossa volta, comunicar o que pensamos, receber conselhos, etc. Sem um destes sentidos, a transmissão de conceitos e de pensamentos torna-se mais difícil, e ser cego e surdo acarreta dificuldades enormes na realização destas atividades. Santo Tomás chama estes sentidos de “os mais cognoscitivos”:

Por isso se referem ao belo aqueles sentidos que são mais cognoscitivos, como a visão e o ouvido ao serviço da razão, pois falamos de belas imagens e de belos sons” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica I-II, q. 27, a. 1, ad 3).

Como a audição e a visão são os sentidos mais estreitamente ligados à inteligência, é por eles que a inteligência melhor se informa a respeito da ordem e da proporção que existem num ser, uma vez que todas as informações que estão contidas na nossa inteligência passaram antes pelos sentidos.

A beleza, sendo percebida pela inteligência, estará relacionada com aqueles sentidos que mais transmitem informações à razão: a audição e a visão.

Porém, a vista é mais nobre que a audição, e isso por dois motivos.

Primeiramente, porque ela é mais espiritual do que os outros sentidos.

O termo “espiritual” não possuía no século XIII o sentido restrito que tem hoje. Ele conservava ainda uma ligação com sua origem etimológica (de spirare = respirar). Assim, falava-se do ar aspirado e expirado na respiração dos animais, do ar atmosférico e do vento, dos vapores e, em geral, de qualquer coisa ou impulso sutil e invisível. Não era contraditório, em função do sentido que o termo “espiritual” ainda guardava no século XIII, falar que “ a visão é um sentido mais espiritual que os outros”. Por transladação era aplicado também a Deus, aos anjos e à alma humana, devido ao fato de serem invisíveis e incorpóreos. Porém, para estes últimos, os termos mais restritos preferidos eram “incorpóreo” e “imaterial”.

Assim, na audição, o som é causado por uma percussão e vibração do ar, causadas por um movimento local do objeto que emite som. No odor há alteração, pois é necessária certa modificação do objeto pela ação do calor para que exale cheiro (um objeto desprende odores em maior intensidade nos dias quentes do que nos dias frios, por exemplo). No tato, a mão se esquenta quando entra em contado como o objeto quente. Quanto ao paladar, a língua se impregna com a humidade dos sabores (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 78, a. 3).

Mas a cor e a luz agem sobre o olho sem que qualquer modificação corporal acompanhe sua ação de ver. O objeto visto não perde nada de sua cor, nem entra em contato direto com os olhos, nem precisa mover-se para ser percebido. Sob este aspecto, podemos dizer que a visão é mais espiritual que os outros sentidos.

Ainda que esta análise pudesse ser precisada levando em conta as informações obtidas posteriormente pelas ciências naturais (Física, Química, Biologia), ela permanece conforme ao que observamos numa primeira análise do mundo em que vivemos.

O segundo motivo é que a visão é o sentido que nos dá, dentre todos os cinco sentidos, mais quantidade de informação.

É mais espiritual e manifesta mais coisas” (Santo Tomás de Aquino, Comentário à Primeira Epístola aos Coríntios, c. XII, lição 3).

Daí a superioridade da visão sobre os demais sentidos, sua relação muito próxima com a vida intelectual e sua importância no conhecimento da beleza das coisas.

4. A inteligência e o conhecimento da ordem existente nos seres

Quando a inteligência conhece algo e suas qualidades, particularmente pelos sentidos da visão e da audição, ela vê a conveniência da ordem existente no objeto conhecido.

Santo Tomás de Aquino, em outro lugar de sua Suma Teológica, nos diz que:

A beleza consiste numa certa claridade e na devida proporção. Ambos são encontrados radicalmente na inteligência” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 180, a. 2, ad 3).

Quando Santo Tomás escreve que a claridade e a proporção são encontradas radicalmente na inteligência ele quer dizer que a inteligência é a origem, a fonte de toda ordem e de toda claridade que existem. Assim como o tronco, os ramos, as folhas, flores e frutos da árvore saem da raiz, também de modo semelhante a ordem e a clareza que existem nas coisas saem da inteligência de quem as fez, estão contidas radicalmente na inteligência do artista, têm no intelecto do artista a raiz delas. Quem não atribuísse uma causa inteligente a uma obra ordenada seria considerado um insano. Ninguém pode dizer que uma casa fora construída pelo acaso e não por um arquiteto. Por isso, Santo Tomás continua:

Ambos são encontrados radicalmente na inteligência, à qual pertence ordenar nas coisas a claridade e a proporção” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 180, a. 2, ad 3).

A inteligência do homem tem a capacidade de ordenar e de dar claridade às coisas, de relacionar as partes de um conjunto. Ela ama o ser, ela ama a ordem e a unidade, ela ama a clareza. Por isso, quando a inteligência é colocada diante de um objeto ordenado e claro, onde a forma resplandece, ela imediatamente é atraída para ele e fica interessada, admirada.

Semelhante atrai semelhante.

Deus, ser infinitamente inteligente, criou tudo com ordem e claridade:

Mas tu dispusestes todas as coisas com medida, número e peso” (Sabedoria 11, 21).

Toda forma, pela qual cada coisa tem o ser, é uma certa participação da claridade divina. (…) Cada realidade é bela e boa de acordo com sua própria forma” (Santo Tomás de Aquino, Comment. in lib. de Divin. Nomin., c. 4, lect. V).

Toda forma é um vestígio, um raio da Inteligência criadora impressa em cada ser criado.

O homem, pela inteligência que tem, percebe a ordem e a clareza das coisas criadas. Quando a inteligência do homem, capaz de ordenar suas próprias obras, descobre ordem também em coisas que não fez (feitas seja por Deus, seja por outro homem), então fica atraída por elas.

A inteligência se agrada com o belo porque nele ela encontra luz.

As pessoas que sabem que as coisas belas saíram de uma inteligência e que se relacionam com o seu autor percebem e saboreiam mais a beleza das coisas.

Um católico vê melhor a beleza das coisas do que um ateu, e os santos vêem melhor a beleza da criação do que as pessoas que vivem apegadas ao pecado.

De acordo com Santo Tomás, então, uma verdadeira percepção da beleza das coisas é uma ação da inteligência, única que pode perceber a ordem que existe entre as coisas e no interior delas.

Insistimos muito na relação entre beleza, inteligência, ordem, ser, finalidade, porque atualmente a quase totalidade das pessoas crê que algo é belo somente porque desperta bons sentimentos, porque simplesmente causa uma sensação agradável, de relaxamento ou algo parecido. Elas estão saturadas de princípios subjetivistas e aplicam estes princípios na arte, nas suas ações e julgamentos.

O veneno subjetivista espalhado na Filosofia após Kant empurrou os filósofos a buscar na emoção aquilo que constituía o essencial da percepção da beleza.

Mas, como mostramos, esta noção de beleza não é compatível com a realidade. Esta noção subjetiva de beleza é falsa.

4. “Aquilo que agrada a visão”

Quando Santo Tomás de Aquino escreve que “são ditas belas aquelas coisas que agradam a visão” (Suma Teológica I, q. 5, a. 4, ad 1), ele tem em mente a estreita ligação que existe entre a visão o conhecimento.

Com efeito, existem vários tipos de visão:

a) Existe a visão física, que é o sentido externo da visão, realizada pelos olhos.

b) Mas existe a visão intelectual, à qual fizemos alusão no artigo anterior quando dissemos que o ser das coisas é uma certa luz (Cf. Santo Tomás de Aquino, Comment. in Liber de causis, prop. 6, lect. 6).

Quando conhecemos bem alguma coisa, dizemos que ela está clara para nós. Ora, se está claro é porque tem luz, mas desta vez trata-se não da luz material do sol, mas da luz da verdade.

A visão, por ser o sentido mais espiritual e mais universal (que nos dá mais informações), age de maneira muito semelhante à inteligência.

O que a luz do sol é para a visão física e para o olho, de modo semelhante e análogo é a luz da verdade para a visão intelectual e para a razão.

Quando a ordem e a verdade de um ser resplandecem diante da inteligência, quando um ser agrada a visão do homem, que não é dotado somente de olhos materiais, mas também de inteligência, então dizemos que algo é belo.

Também Santo Agostinho afirma a relação da beleza com a inteligência e sua estreita relação com a visão:

Toda a beleza do corpo consiste, com efeito, em uma certa proporção de suas partes, cobertas por um colorido agradável. Ora, quando esta proporção falta, o que choca a vista, é porque há algo que falta ou algo de excessivo” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus, l. 22, c. 19).

Ora, o olho, por si mesmo, não é capaz de julgar nada. Somente a inteligência é capaz de julgar se há excesso ou falta de proporção.

Se a vista fica chocada com a falta de proporção, é porque a inteligência, com a qual a visão está estreitamente relacionada, percebe a falta de proporção e, consequentemente, a falta de ordem naquilo que se apresenta a ela.

É a inteligência e o sentido, constituindo como que uma coisa só, que percebem a beleza em algo.

Vemos, agora, que na percepção da beleza material, não devemos separar nem os sentidos da inteligência, nem a inteligência dos sentidos.

Os sentidos, sem a inteligência, parariam no envelope exterior da beleza. A razão, sem os sentidos, não atingiria esta porção inferior e passageira, mas interessante e viva, da beleza física.

5. Conclusão

Santo Alberto Magno, na sua definição, quis ressaltar a objetividade da beleza, fruto da ordem, da proporção e do resplendor daqueles princípios que constituem os seres: matéria e forma.

A estética de Santo Alberto Magno se revela, assim, marcada pelo selo de um rigoroso objetivismo, onde a beleza não é definida de modo algum em função da percepção que alguém tem dela. A virtude, por exemplo, possui por si mesma uma certa claridade que faz com que ela seja bela, mesmo que ninguém a perceba.

Um ser não sofre qualquer mudança quando é conhecido por alguém, mas a clareza e o esplendor são inerentes ao objeto (Santo Alberto Magno, Super Dionysium IV, 76; in Opera Omnia, XXXVII/1, p. 185).

A beleza pode ser conhecida por este esplendor que lhe pertence, mas o fato de ser conhecida é algo que não muda a constituição, o ser do objeto conhecido.

Algo belo permaneceria tudo o que ele é, guardaria toda sua força e seu brilho, mesmo quando não houvesse um espectador que fosse capaz de contemplá-lo.

Mas este espectador existe: o homem.

A beleza é percebida pelo homem quando atinge certo grau de resplendor que cause agrado à visão, à inteligência do homem, por manifestar claramente a ordem de um ser e suas qualidades.

Santo Tomás, pressupondo toda a teoria aristotélica sobre a matéria e a forma, sobre o resplendor da forma e a proporção da matéria, pressupondo toda a objetividade da beleza apresentada por Santo Alberto Magno, seu mestre, nos ensina que ela se revela à inteligência do homem pelos sentidos, principalmente pela visão; que a beleza conatural ao homem é aquela que agrada a inteligência pelos sentidos; e que na percepção da beleza material, não devemos separar nem os sentidos da inteligência, nem a inteligência dos sentidos.

Tudo isso leva Santo Tomás de Aquino a escrever, de modo tão breve, mas tão sábio, que “são ditas belas aquelas coisas que agradam a visão”.

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