Montfort Associação Cultural

28 de novembro de 2011

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A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica, no período de 1917 a 1991 – Parte III-a: Surge a seita secreta modernista

Autor: Marcelo Fedeli

Leia a série de artigos: Parte IParte IIParte III-aParte III-bParte IV-aParte IV-b

Por Marcelo Fedeli, Montfort.org.br

 

E – SURGE A SEITA SECRETA MODERNISTA: PROPULSORA DA IMPLANTAÇÃO DO PLANO MAÇONICO DA ALTA VENDA

 

“Preferiram as trevas à Luz, porque suas obras eram más” [Jo, III, 19]

 

No último quarto do Século XIX surge, no meio eclesial e entre intelectuais católicos leigos, uma linha de pensamento que, com muita astúcia e malícia, misturava verdade e erro, ou seja, água pura com veneno, o que leva sempre à morte. Tratava-se de uma heresia, ou melhor, de um complexo de heresias, que pretendia adaptar a doutrina da Igreja à ciência e à filosofia moderna, para — segundo seus sequazes — salvar a religião e a própria Igreja por meio de uma renovação radical. Em outras palavras, pretendia ‘renovar’ e ‘adaptar’ a Igreja “às exigências da consciência e da civilização moderna, exatamente como vaticinara o apóstata Roca, fundamentando-se numa mescla de falsos sistemas filosóficos, principalmente de Kant, de Schleiermacher, de Hegel, de Feuerbach, de Bergson, de Bloch, na fenomenologia de Husserl, etc. Assim, basicamente, a heresia do Modernismo impunha o subjetivismo, o relativismo, o coletivismo, desprezando o conhecimento racional, a Metafísica, a Escolástica; defendia o Imanentismo, ou seja, a idéia de que a consciência humana possui virtualmente a Verdade, inclusive a divina, que evolui pelo sentimento religioso.

Porém, diferentemente das heresias anteriores, o Modernismo jamais expõe claramente o seu pensamento, mas mescla, hábil e maliciosamente, verdade e erro pretendendo permanecer dentro da Igreja, como uma sociedade secreta, para revolucioná-la totalmente, sem rupturas clamorosas. Na realidade, como afirmou posteriormente o Papa S. Pio X no documento Sacrorum antistitum [1910 ]tratava-se de uma seita secreta [clandestinum foedus”] incrustada no Clero e que “havia pactuado com os principais adversários da Igreja, que estão a ponto de revolucionar a Fé (…)”, atingindo todo o dogma resumido no CREDO e ensinado milenarmente pelo Magistério de sempre da Santa Igreja.

 

[Detalhes da heresia do Modernismo podem ser vistos no estudo “A Religião do Concílio Vaticano II – II Parte ].

 

Os primeiros Modernistas, assim identificados, condenados e excomungados pela Santa Sé, surgiram no final do Século XIX e início do Século XX, em diversos países da Europa, particularmente na Itália, Inglaterra, Irlanda, Alemanha e França, difundindo-se por toda a Europa. Posteriormente, alguns tiveram suas obras condenadas e colocadas no INDEX, mas conseguiram evitar a excomunhão formal. Outros, embora processados como ‘suspeitos’ de modernismo, escaparam da condenação utilizando vergonhosas artimanhas, e permaneceram como verdadeiros vírus no organismo da Igreja, causando-lhe terríveis danos ao longo do Século XX.

Na Itália, os primeiros hereges modernistas condenados pela Igreja foram:

- Padre Salvatore Minocchi [1869-1943], ordenado em 1892, racionalista, procurava conciliar a ciência e a filosofia moderna com a doutrina da Igreja. Em 1901 fundou e dirigiu o jornal Studi religiosi, fechado em 1908 [durante o pontificado de S. Pio X]. No mesmo ano foi suspenso a divinis, e abandonou toda a atividade religiosa, casando-se em 1912 só no rito civil e passando a lecionar História das Religiões. Deixou uma grande quantidade de escritos.

Padre Romolo Murri

- Padre Romolo Murri [1870-1944] ordenado sacerdote em 1893, seguiu o pensamento do filósofo Antonio Labriola, na interpretação do materialismo histórico. Em 1894 foi um dos protagonistas da fundação da FUCI – Federazione Universitária Cattolica Italiana [1896] e do partido Democracia Cristã [1901], junto como Pe. Luigi Sturzo, e da Lega Democratica Nazionale [1905]. Sempre atuando na política de forma independente da hierarquia, apesar das contínuas admoestações do Papa S. Pio X, e após muitas iniciativas daquele Pontífice pedindo-lhe obediência [isto desde 1903], o Pe. Murri foi suspenso a divinis em 1907 e excomungado em 1909, quando fora eleito para a Câmara dos Deputados da Itália, pela LEGA. Em 1943, um ano antes da sua morte, o Papa Pio XII revogou a sua excomunhão.

Padre Ernesto Buonaiuti

- Padre Ernesto Buonaiuti [1881-1946] ordenado sacerdote em dezembro de 1903. No seminário, como regra de então, foi colega e companheiro específico do seminarista Angelo Giuseppe Rocalli [futuro Papa João XXIII] no almoço, na classe, nos passeios. Atacava as regras do seminário as quais qualificava como exemplos de estupidez”. Difundiu teses modernistas no seminário, através de apostilas distribuídas discretamente. Fundou e dirigiu pessoalmente a “Rivista Storico-Critica delle Scienze Teologiche” [1905 -1910] e a “Nova et Vetera” [1908] condenada pelo Vaticano. Nesta, defendia a abertura ao socialismo – apresentada através das Lettere di un prete modernista” [1908] – criticando a posição oficial da Igreja, conforme estabelecida na Encíclica Pascendi Domini gregis, de S. Pio X, que em 1907 condenou o Modernismo.

Escreveu também para a revista “Studi religiosi” [1901-1907], revista sob a direção do Pe. Salvatore Minocchi que difundiu na Itália as teses modernistas do Pe. George Tyrrel, dos franceses do Pe. Alfred Loisy, de Maurice Blondel e de Lucien Laberthonière.

Para ele, a evolução da humanidade, o progresso do homem e suas novas conquistas levam sempre a uma nova compreensão da revelação desvendando novos significados. Assim, os dogmas, segundo Buonaiuti, deviam atender às exigências e inquietações do espírito humano do momento, que são diferentes daquelas da época em que os mesmos dogmas foram definidos.

 

Totalmente contrário à Escolástica, defendia ainda ser dever essencial dos sacerdotes da sua geração eliminar acontradição entre as conclusões das disciplinas morais e históricas aplicadas ao fato religioso e ao fato cristão, bem como as proclamações assim chamadas infalíveis dos últimos concílios ecumênicos, o de Trento e do Vaticano” [Pellegrino di Roma-La generazione dell’esodo, Arturo Carlo Jemolo, di E. Buonaiuti a cura di Mario Niccoli, Laterza 1964].

 

Buonaiuti, como todos os Modernistas, defendia todas as demais heresias reunidas na grande heresia do Modernismo. No livro Peregrino de Roma”, por exemplo, ele considerava Jesus filho do homem e não filho de Deus, afirmando: “Em Jesus revive a herança do profetismo elevada à sublimação e perfeição divina”.

Foi excomungado três vezes: em 1921, 1924 e 1926, como modernista.

Em 1904 o Pe. Ernesto Buonaiuti, juntamente com o Pe. Nicola Turchi, foi padrinho da ordenação sacerdotal de Angelo Giuseppe Roncalli, que sempre admirará Buonaiuti, até à morte deste em 1946.

Diferentemente dos outros países, na Itália o Modernismo se aproveitará também das chamadas ‘questões sociais’ para difundir sua ideologia, participando tanto dos movimentos de operários nas cidades, quanto de lavradores do campo. Este meio de atuação será cada vez mais aprofundado na Itália, no decorrer do Século XX, através de todos os segmentos da Ação Católica. Politicamente, essa ação se dará com a Democracia Cristã unida à corrente socialista. Esse foi o início do ‘Modernismo Social’, posteriormente difundido por muitos países do Ocidente, culminando na Teologia da Libertação e seus conseqüentes movimentos comuno-revolucionários na América Latina e na África.

 

Pe. George Tyrrell

Fora da Itália, na Irlanda, outro influente Modernista condenado e excomungado foi o Pe. George Tyrrell [ 1861-1909]. Ordenado sacerdote jesuíta em 1891, ele criticou a infalibilidade papal definida no Concílio Vaticano I, defendia o direito de cada época de adaptar o pensamento histórico-filosófico do Cristianismo às convicções contemporâneas, afirmava que a Igreja é um organismo puramente espiritual e que a fé não é uma adesão intelectual a um sistema espiritual. Em suma, o pensamento de do Pe. Tyrrell resume todo o Modernismo, pois reduz a religião revelada, cuja ortodoxia foi confiada à Igreja por Cristo, a um imanentismo religioso, cuja contínua evolução deve ser observada por uma estrutura eclesial democrática, portanto não monárquica sob as Chaves de Pedro.

 

Na obra “De Deus aos Homens” [1907] o Pe. Tyrrell elogiava o Americanismo do Pe. Issac Hecker, condenado por Leão XIII que, na carta Testem benevolentiae, de janeiro de 1899, afirmava: “educados nos princípios democráticos queriam inverter a pirâmide da hierarquia conduzindo-a de volta à sua grande base, como coisa que se apóia em fundamentos terrestres e não sustentada pela cabeça nos espaços aéreos”.

Foi expulso dos Jesuítas em 1906 e excomungado em 1907.

Pe. Alfred Loisy

Na França, além do Pe. Laberthonière, do filósofo Edouard Le Roy, a grande figura do Modernismo foi o Pe. Alfred Loisy [1857-1940], ordenado sacerdote em 1879. Em sua ”Memoire I “ , critica a ortodoxia tradicional que afirma a imutabilidade da Verdade a qual, para ele, se define incessantemente e é determinada conforme as necessidades e oportunidades do tempo. Estudou diversas línguas orientais e, em 1885, abandonou totalmente a ortodoxia, porém sem deixar o sacerdócio e a Igreja. Concluiu o doutorado em Teologia em 1890 e passou a criticar a Bíblia e os pontos em que a Igreja fundamentava a sua origem em Cristo. Em 1903, o Santo Ofício colocou cinco obras do Pe. Loisy no INDEX pelos gravíssimos erros que delas emanavam[A carta de Merry del Val a Richard está em La Civiltà Cattolica, 2 de janeiro de1904, p. 98].

Loisy não aceitava o dogma da concepção de Nossa Senhora sem o pecado original, nem o da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, “pois não se enquadram em nenhuma demonstração histórica e nem na realidade da história; tanto a tradição como as Escrituras nada poderão fazer para eles. No máximo, poder-se-á pesquisar o seu significado moral” [A. Loisy, Memorie, cit., II, p. 350].

Com o decreto Lamentabile sane exitu , de 3 de julho de 1907, 65 teses do Pe. Loisy foram condenadas, pois alteravam os dogmas da Igreja sob o pretexto de interpretar as Escrituras conforme a crítica e a história. Alguns meses após, em setembro de 1907, o Papa S. Pio X assinava a encíclica Pascendi dominici gregis, que definia o Modernismo como a reunião de todas as heresias, derivado da filosofia de Blondel, de Laberthonière, da teologia do Pe. Tyrrell, do agnosticismo, da idéia da imanência, do quietismo, da crítica histórica, da teoria do evolucionismo do cristianismo e dos seus dogmas, conforme defendia o Pe. Loisy, embora este não seja citado explicitamente.

Finalmente, após inúmeras vezes recusar qualquer retratação, o Pe. Alfred Loisy foi definitivamente excomungado pelo Santo Ofício no dia 7 de março de 1908, festa de S. Tomás.

 

O excomungado Pe. Loisy, com o apoio de Henri Bergson [Mestre de René Guitton, futuro amigo íntimo de Mons. Montini...como veremos] e de Laberthonière passou a lecionar História das Religiões no Collège de France, Paris, de 1909 a 1932.

 

Aproveitamos para salientar que, durante sua vida, o Pe. Loisy manteve correspondência com muitos sacerdotes. Dentre estes, destacamos, no momento, o Pe. Giovanni Semeria que se tornará um amigo muito íntimo da família Montini e apresentará ao então jovem Giovanni Batista Montini, futuro Paulo VI, uma nova concepção histórica da Liturgia, como veremos mais adiante neste estudo preliminar.

 

Nas cartas trocadas entre modernistas nota-se o aspecto secreto daquela seita que apenas ocultamente afirmava claramente o que pretendia. Assim, por exemplo, o Pe. Loisy escreveu ao Pe. Marcel Hébert: “O velho edifício eclesiástico deverá ruir” [A. Vidler, The Modernist Movement in the Roman Church, New York, Gordon press, 1976, p. 78; apud SISINONO de 15 de setembro de 2011, p. 3].

 

Por sua vez, o Pe. Tyrrell escreveu: “Devemos atacar e ainda atacar a velha carcaça da Igreja romana” [carta de 28 de novembro de 1907, citada por A. Vidller, op cit. p. 78, idem SISISNONO acima citado].

 

O escritor Antonio Fogazzaro

O escritor Antonio Fogazzaro [1842-1911] seguidor do Pe. Loisy, do Pe. Tyrrell e do Pe. Semeria, na linha das reformas na Igreja adaptadas ao tempo, autor da obra IL SANTO – elogiada até pelo presidente norte-americano Theodoro Roosevelt, mas condenada pelo Santo Ofício e colocada no INDEX em 1906 – assim afirmou naquele mesmo livro: “Todos nós queremos ordenar a nossa ação. Maçonaria católica? Sim. Maçonaria das catacumbas[A. Fogazzaro, Il Santo, Ed. Baldini e Castoldi, Milano, 1905, p. 44, apud SISINONO citado acima].

 

Como se nota, S. Pio X tinha toda a razão em classificar o Modernismo também como seita secreta [clandestinum foedus”].

 

A relação dos primeiros modernistas acima apresentada é parcial, podendo ser completada posteriormente.

 

Em capítulo futuro trataremos de outros modernistas que escaparam da excomunhão e continuaram a propagar aquela heresia no seio da Santa Igreja, no decorrer do Século XX. Antes, porém, veremos as principais teses do Modernismo condenadas pela Igreja no início do Século XX.

 

[Continua]

O próximo texto desta série terá como título:

F – TESES DO MODERNISMO FORMALMENTE CONDENADAS PELA IGREJA

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