Montfort Associação Cultural

27 de dezembro de 2011

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A aproximação da Maçonaria e do Comunismo com a Igreja Católica, no período de 1917 a 1991 – Parte III-b: As teses condenadas do Modernismo

Autor: Marcelo Fedeli

Leia a série de artigos: Parte IParte IIParte III-aParte III-bParte IV-aParte IV-b

Por Marcelo Fedeli, Montfort.org.br

 

F – TESES DO MODERNISMO FORMALMENTE CONDENADAS PELA IGREJA

 

S. Pio X definiu o Modernismo como “a síntese de todas as heresias”. Assim sendo, o Modernismo reassumiu heresias milenar e secularmente reprovadas pela Igreja, acrescentando àquelas as suas próprias teses heréticas especificamente condenadas no Decreto Lamentabile sine exitu [3/07/1907] e, pouco depois, na Encíclica Pascendi Dominici Gregis [8/9/1907], ambos documentos promulgados pelo Papa S. Pio X [1903 -1914].

 

O Papa Gregorio XVI condenou o indiferentismo religioso, a liberdade de consciência e de imprensa

Mais próximo ao surgimento do movimento do Modernismo, porém, o Papa Gregório XVI [1831-1848] na Encíclica Mirare Vos [1832] defendeu a imutabilidade da doutrina e da disciplina da Igreja, condenando o indiferentismo religioso, a liberdade de consciência e da imprensa, teses estas tão caras tanto à Maçonaria como ao Modernismo, que pouco depois iria eclodir.

 

O Papa Pio IX condenou a conciliação com o Liberalismo e a civilização moderna

Por sua vez também o Papa Pio IX [1848 -1878] na Encíclica Quanta Cura e, especialmente no documento Syllabus, condena 80 erros desde a não aceitação da existência de Deus [erro 1], ao erro 80: “O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o progresso, com o Liberalismo e com a Civilização moderna”, passando por uma série de outros erros que os Modernistas irão difundir no final do Século XIX e no decorrer do Século XX.

 

O Concílio Vaticano I – convocado pelo Papa Pio IX, iniciado em 1869 e interrompido em 1870 – decretando dogmaticamente a infalibilidade papal em matéria de Fé e de Moral, também será duramente criticado pelos sequazes do Modernismo que não aceitavam o primado do Papa sobre o Colegiado: queriam uma Igreja liberal e democrática. Além disto, o Concílio Vaticano I , dentre outros ensinamentos, salientou que a doutrina da fé revelada por Deus não é uma invenção filosófica a ser aperfeiçoada pelo engenho humano, mas foi entregue como um divino depósito para a Esposa de Cristo para ser fielmente guardada e declararada infalível”, portanto totalmente contrária à tese da evolução dos dogmas e sobre a Revelação, mais tarde difundidas pelo Modernismo.

 

Leão XIII condenou a concepção liberal do Estado e o Americanismo

Posteriormente o Papa Leão XIII [1878-1903] na encíclica Immortale Dei [1885] condena a concepção moderna e liberal do Estado, bem como a indiferença religiosa, defendendo que a origem do poder está em Deus e não no povo, bem como que a religião de Cristo é a única verdadeira que a Igreja, fundada por Nosso Senhor, conserva e ensina através dos séculos.

 

Ainda o Papa Leão XIII na carta Testem benevolentiae [1899] condena a heresia do Americanismo, cujos princípios serão retomados pelo Modernismo, como por exemplo, que a “Igreja deve adaptar seus ensinamentos conforme o espírito da época, abrandar um pouco a sua antiga severidade e fazer algumas concessões às novas opiniões”.

 

Oficialmente, o primeiro documento da Igreja condenando formalmente o Modernismo foi o Decreto Lamentabili sine exitu, acima citado, no qual são elencadas 65 proposições heréticas em geral defendidas pelo Pe. Alfred Loisy, imediatamente seguido pela encíclica Pascendi Dominice Gregis que, além de expor magistralmente todo o sistema do Modernismo, condena também o agnosticismo, a imanência religiosa, o decorrente sentimento religioso, e a evolução do dogma, dentre outras heresias.

 

Diferentemente da maioria das heresias anteriores, a heresia do Modernismo mesclava maligna e serpentinamente verdades e erros de modo a facilitar a sua difusão nos meios católicos e, ao mesmo tempo, servir também de eventual defesa dos seus adeptos quando criticados pela Santa Sé ou mesmo quando desmascarados. Assim agindo os modernistas não apresentavam suas teses num conjunto ordenado para revolucionar a Fé, conforme expressão do Papa S. Pio X, ou seja, negando todos os artigos dogmáticos do CREDO definido no Concílio de Nicéia, mas maliciosamente os minavam a partir do primeiro artigo, ao defender a impossibilidade de se provar a existência de um ser único e absoluto, “Deus, Pai, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis” defendendo, gnóstica ou panteisticamente, a existência da divindade estratificada no Universo.

 

Ora, negando a existência de Deus Pai, como seria possível aceitar o Verbo, Deus-Filho, a Sabedoria Encarnada, Nosso Senhor Jesus Cristo e, conseqüentemente, o Espírito Santo?…E como aceitar a Encarnação do Filho no seio da sempre Virgem Maria?…E a Redenção?…. para que?… se todos temos uma centelha da divindade que, segundo a fórmula do Pe. Maurice Zundel, [aliás, muito admirado e elogiado por Montini] torna o “HOMEM = DEUS”?… E como aceitar o julgamento “dos vivos e dos mortos” se, seguindo a evolução da divindade, todos estaremos amalgamados novamente na divindade original, sendo que o inferno “está vazio”, como dirão claramente mais tarde alguns teólogos modernistas, incluindo até o filósofo Jean Guiton, amigo íntimo de Paulo VI?.

 

E por que crer só na Igreja Católica, se a religião é uma forma de manifestação da divindade imanente no homem, tornando, portanto, todas as manifestações religiosas de igual valor relativo? E por que crer na comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na vida eterna?…

 

Evidentemente os modernistas não expunham a sua heresia de modo transparente, como acima apresentamos, mas, negando o 1º artigo do CREDO, acabavam negando todo o CREDO. Assim, não afirmavam claramente a inexistência de Deus, pessoal e distinto do Universo, mas defendiam não ser possível provar objetivamente a sua existência, e enveredavam para a velho conceito gnóstico da divindade.

 

As principais teses heréticas defendidas pelo Modernismo e condenadas pelo Papa S. Pio X foram:

 

1 – o Dogma é uma forma de expressão provisória, portanto sujeito à evolução constante, pois a religião e a revelação são uma criação natural do subconsciente.

 

Com base neste princípio, os modernistas criticavam todos os Concílios ocorridos na História da Igreja, pelo caráter dogmático de todos eles, bem como os papas que os convocaram. [Curiosamente, o único Concílio sobre o qual os modernistas de hoje não admitem absolutamente crítica alguma é justamente o único concílio não dogmático da História: o relativista Concílio Vaticano II, por eles, contraditória, mas absolutamente dogmatizado].

 

2 – a Bíblia e a Revelação não são de inspiração divina; trata-se de uma criação puramente humana, reunindo fatos míticos ou simbólicos e como tal deve ser estudada e criticada;

 

3 – as intervenções de Deus na História, tanto miraculosas como proféticas, são descrições criadas por experiências ou emoções interiores e pessoais;

4 – o Cristo da Fé não é o mesmo Cristo da História e a sua divindade não deriva dos textos dos Evangelhos;

5 – o valor expiatório da Redenção pela morte de Cristo é fruto da teologia da cruz elaborada pelo “apóstolo Paulo”.

6 – a não é um fato objetivo mas sim relacionado ao sentimento religioso de cada indivíduo;

 

Negando as Escrituras, a Verdade revelada, o Modernismo nega fundamentalmente:

 

a – a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que [segundo aquela heresia ] é fruto da consciência cristã, bem como a conseqüente Redenção e todo o seu caráter expiatório [contrariando, como vimos, o segundo artigo do CREDO e os demais artigos correlatos relativos ao Espírito Santo, a Anunciação, a Encarnação e a Virgindade de Nossa Senhora. Quanto a estes itens veremos mais adiante o que afirmava claramente Jean Guiton, o amigo de Paulo VI].

 

c – a instituição da Igreja por Cristo, bem como o primado de Pedro repassado aos demais pontífices. Assim, a Igreja é fruto de contingências históricas, humanas, devendo evoluir e se adaptar continuamente às diferentes épocas;

 

d – os Sacramentos não foram instituídos por Nosso Senhor, mas pelos apóstolos, e servem somente para manter viva na consciência cristã a presença de Cristo;

 

e – Ciência e Fé são totalmente distintas; assim o crítico pode negar aquilo que, como crente, admite. Dessa forma o dogmatismo da Igreja não se concilia com a Ciência.

 

f- o Magistério da Igreja não comunica aos homens a verdade revelada por Deus.

 

Uma decorrência lógica da negação da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Redenção, será também a negação da presença real de Cristo na Eucaristia.

Este princípio influirá decisivamente na criação da futura Missa Nova de Mons. Bugnini e Paulo VI, substituindo a Missa Gregoriana, que não acentua particularmente o caráter propiciatório da celebração incruenta do Santo Sacrifício do Calvário, bem como a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. Assim, os modernistas tudo farão para impor a nova Missa — pois LEX ORANDI, LEX CREDENDI — idéia que discreta e paulatinamente se difundiu em inúmeros mosteiros europeus nas primeiras décadas do Século XX, justificando o profético lamento do então Cardeal Pacelli ao Conde Enrico Pietro Galleazzi, em 1936, já citado nesta apresentação, mas que repetimos pela sua importância :

 

 “Suponha, meu caro amigo, que o comunismo seja apenas o mais visível dos órgãos de subversão contra a Igreja e contra a tradição da revelação divina, então nós vamos assistir a invasão de tudo o que é espiritual, a filosofia, a ciência, o direito, o ensino, as artes, a imprensa a literatura, o teatro e a religião. Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma” [...].

 

Ouço em redor de mim os inovadores que querem desmantelar a Capela Sagrada, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar seus ornamentos, dar-lhe remorso de seu passado histórico.

 

Pois bem, meu caro amigo, estou convicto que a Igreja de Pedro deve assumir o seu passado ou então ela cavará sua sepultura”

 

“…um dia virá em que o mundo civilizado renegará seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a crer que o homem se tornou Deus, que seu Filho é apenas um símbolo, uma filosofia como tantas outras, e nas igrejas os cristãos procurarão em vão a lâmpada vermelha em que Deus os espera”[Mons. Georges Roche e Philippe St. Germain, Pie XII devant l´Histoire, Laffont, Paris, 1972, p 52 – 53; e outros já citados acima . Negrito e sublinhado nossos].

 

[Isto tudo em 1936!... E hoje?... Onde se encontra a “lâmpada vermelha em que Deus” nos espera em grande parte das moderníssimas igrejas, idealizadas para tão bem esconder o Tabernáculo, o Sacrário, onde se encontram substancialmente o Corpo e o Sangue de Cristo?]…

 

O Modernismo, embora idolatrando o HOMEM, combatia a devoção particular aos santos, especialmente a devoção à Nossa Senhora, como veremos ao longo deste trabalho. Esta será também uma característica daquela heresia, que seus sequazes tentarão fazer triunfar na Igreja no decorrer do Século XX. E isto com a esfarrapada desculpa de que tais devoções poderiam desviar a devoção a Cristo, justo eles que não acreditavam na divindade de Nosso Senhor, nem na necessidade da Redenção e nem na presença real de Nosso Senhor na Eucaristia…

 

Apesar das condenações formais de S. Pio X, infelizmente o Modernismo continuou com sua maligna ação na Igreja após a morte daquele Papa [1914]. Muitos dos seus sequazes, alguns com obras colocadas no INDEX, conseguiram evitar suas excomunhões. Outros, particularmente eclesiásticos da Itália, quer por ‘desterros’ voluntários ou por estratagemas diversos, acabaram passando incólumes pelas condenações formais de S Pio X, retornando posteriormente ao seu antigo país e influenciando, direta ou indiretamente, a formação religiosa do então Pe. Angelo Giuseppe Roncalli e do seminarista Giovanni Battista Montini, futuros Papas do Concílio Vaticano II, em cujos pontificados tanto a Maçonaria como o Comunismo se aproximaram — e muito — da Igreja. Veremos estes casos mais adiante.

 

Por ora, trataremos das condenações da Igreja à Maçonaria e ao Comunismo.

[Continua]

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