
TV: AMIGA OU INIMIGA?
M.I.P. Miranda
O naturalismo a tal ponto impregna a mentalidade moderna que,
mesmo aqueles que não o professam, são muitas vezes levados a considerar, quando avaliam
algo, apenas os benefícios ou prejuízos materiais, deixando de lado tudo o que envolve
considerações de ordem espiritual.
Um exemplo desse enfoque naturalista ocorre quando se discute
a televisão. Normalmente são invocados contra ela - e não sem razão - os danos que a
permanência diante do aparelho ocasiona à saúde física (por exemplo, aos órgãos
visuais ou ao desenvolvimento muscular das crianças) ou à saúde mental (como causa de
irritabilidade, insônia, apatia, etc.).
E, no entanto, a televisão é feita para os homens e estes -
quem se lembrará dos velhos catecismos? - possuem além de corpo, alma. Alma que
compreende, quer e sente; livre, mas não independente dos agentes externos. Capaz de
virtudes e de vícios.
A televisão age, pois, não apenas sobre os corpos, mas
também, e principalmente, sobre as almas. Sobre a inteligência, sobre a vontade e sobre
a sensibilidade humanas. De que modo? Com que efeitos? Favorecendo a prática da virtude
ou conduzindo ao vício?
*** ***
A televisão não respeita nem os olhos, nem os ouvidos, nem
a memória, nem a inteligência, nem a vontade do telespectador; mas o telespectador
respeita a televisão, consagra-lhe seu tempo e seu dinheiro, sacrifica-lhe sua saúde,
seus afetos, seu lazer, suas obrigações.
ENTENDER, REFLETIR, LEMBRAR
Deus criou o homem inteligente para que ele conhecesse a
verdade. Assim, a inteligência não se deve aplicar indiferente e desordenadamente a
todos os objetos, mas de modo organizado e hierárquico àqueles capazes de conduzí-la a
seu fim último, o conhecimento da Verdade Absoluta.
Por sua própria natureza, a razão humana atua através da
análise, distinguindo e ordenando os objetos que lhe são apresentados, extraindo deles
as idéias, abstratas em si mesmas, mas estreitamente ligadas aos sentidos, uma vez que é
através das sensações que o homem percebe o mundo exterior.
Na TV, as imagens se sucedem freneticamente, sem ordem e sem
objetivo. Passivamente a inteligência recebe informações que não a interessam e que,
de forma geral não a conduzem a nenhum ponto. Como quem comesse, sem fome, alimentos
inúteis para seu corpo.
As idéias, filhas das imagens transmitidas continuamente
pela tela, não têm profundidade, uma vez que o profundo só se atinge quando há pausa
num ponto determinado; as imagens da TV não param nunca; não permitem reflexão nem
análise; o olho mágico da televisão não perscruta; ela passa velozmente pelas
superfícies, viciando a inteligência ao dificultar a prática da reflexão.
*** ***
O "saber" supõe o uso da reflexão e do
julgamento, a televisão, devido à sucessão rápida e ininterrupta de imagens luminosas
não concede tempo para a reflexão nem para o julgamento; ela só pode engendrar crenças
sem fundamento razoável, ou pior, julgamentos temerários para o bem ou para o mal.
(Turgeon, J.P. - La télévision, p.20)
*** ***
Mas, o conhecimento não é sempre bom? Conhecer, qualquer
coisa e de qualquer modo, não é sempre melhor do que ignorar?
Nem sempre. É o que ensina São Tomás (cfr. Suma Teológica
2-2 q.167 a.1). Por exemplo, quando "alguém deseja conhecer a verdade das criaturas
sem ordenar esse conhecimento de Deus", cai no vício da curiosidade.
Um segundo efeito da televisão é o vício que poderíamos
chamar, em linguagem corrente, pretensão ou vaidade. Dos sentidos humanos, o mais
relacionado com o conhecimento é a visão. De tal modo que, naturalmente, temos certeza
da veracidade dos fatos que presenciamos. Ora, a televisão produz a ilusão da presença.
O telespectador vê o fato e, por isso, tem a impressão de que possui a verdade a
respeito dele, emitindo vaidosa e precipitadamente juízos a respeito de todas as coisas,
crendo ingenuamente conhecer aquilo de que só lhe mostraram um aspecto, um ponto de
vista.
Por fim, ainda no que tange ao conhecimento, a TV é também
prejudicial à memória. Aquilo que se adquire facilmente, perde-se também facilmente.
Sendo o conhecimento proporcionado pela TV inteiramente superficial, ele se esvai sem
dificuldade. Um estudioso do assunto usa uma comparação interessante:
"O telespectador é semelhante a alguém que põe a mão
sob um jato d'água. A água corre rapidamente entre os dedos. Se o jato d'água pára só
ficam na mão algumas gotas. A televisão dá a impressão de proporcionar grande
conhecimento, enquanto se a está assistindo. Mas o que sobra quando termina o programa?
Quase nada" (J.P.Turgeon - La télévision).
A única coisa que escapa a essa regra, pela repetição, é
a propaganda. Dos anúncios, sim, o telespectador se lembra.
*** ***
Não são as idéias mostradas racionalmente que tem a força
de mover uma multidão, são os impulsos. A televisão não mostra as idéias de um modo
racional, pois utiliza imagens que são apenas uma parte da vida, e que são, por maior
boa vontade que se tenha, escolhidas, condicionadas, recriadas... (Melon-Martinez, E. - La
télévision, p. 231-232)
*** ***
JÁ QUE VOCÊ ESTÁ AÍ...
Quando nos sentamos diante de uma tela de TV, renunciamos,
durante um tempo maior ou menor, à nossa própria vida, para entregarmo-nos à vida de
outros.
O mesmo não acontece, entretanto, quando vamos, por exemplo,
ao teatro, ou quando nos dedicamos à leitura de um livro? Sim e não.
O livro fala diretamente à inteligência e, desse modo, as
sensações ou emoções que produz não são tão impressionantes e dominadoras.
O teatro, e mesmo o cinema, integram-se num ritual de
preparação, de ida, que os isola da vida cotidiana, marcando seu aspecto ficcional.
Assim, ainda que o livro, o cinema, o teatro, nos envolvam,
somos senhores deles e eles estão sob nosso domínio.
A TV, ao contrário, domina nossos sentidos, penetra nossas
casas, mistura-se a nossa intimidade, habita nosso ambiente. Não podemos desviar os
olhos, não podemos dar ouvidos a outra coisa, não podemos falar, e isso de modo
contínuo, sem isolamento, sem excepcionalidade.
*** ***
Uma vez que a preguiça nos domina, ela se transforma numa
verdadeira tirania, uma escravidão cujas correntes se fazem sentir cada vez que movemos
um membro. (Pe. Faber)
*** ***
A TV torna passivos os seus adoradores. Eles não precisam da
vontade. Só precisam apertar um botão, e outros estarão querendo, agindo, vivendo e
morrendo por eles. Inexoravelmente a TV conduz à preguiça. Não são sintomáticos os
aparelhos que permitem ao viciado trocar de canal sem ter o exaustivo trabalho de
levantar-se? E que não conhece a figura molemente sentada em sua poltrona que,
"..já que você está aí...", pede a cada um que entra na sala os objetos de
que necessita, incapaz de mover-se para o que quer que seja?
Também a intemperança é excitada, e de modo violento, pela
TV, através da propaganda. A temperança é a virtude cardeal que nos leva a usar dos
prazeres com moderação. A propaganda, por seu lado, leva a desejar o prazer sempre e
cada vez mais, eliminado toda a medida.
O QUE ESCO???? NÃO VÊEM...
A TV isola o homem de seu ambiente. Ela o domina, tirando-o
de seu círculo. "O telespectador é semelhante a alguém que usa binóculos. Ele vê
bem o que está longe, mas não vê nada do que está perto" (J.P. Turgeon - op.
cit.).
A comunicação é absolutamente necessária à amizade e ao
amor. Cortando a comunicação entre os membros da família, a TV destrói, ao mesmo
tempo, o afeto entre eles. As pessoas sabem o que se passa do outro lado do mundo, mas
ignoram o que se passa no coração dos que vivem ao seu lado.
*** ***
O homem apaixonado pela televisão recusa-se a dar seu tempo
e seu coração àqueles que o cercam; durante horas, ele prefere apiedar-se ou alegrar-se
com situações fictícias ou longínquas; ele priva, assim, seu próximo da compreensão
e da simpatia que tem para oferecer. É aí que começa o processo da separação e da
solidão... Vivendo diante de seu aparelho de televisão, o telespectador dá as costas
aos outros. (Turgeon, J.P. - Le telespectateur, G-13).
*** ***
Um último aspecto que também é precioso considerar, embora
não pertença à essência mesma da televisão, é o nível moral dos programas.
No Brasil, esse nível - que sempre foi criticável - tem
caído ultimamente de modo assustador, transformando alguns programas em pura pornografia.
Mesmo quando não se vai tão baixo, é praticamente impossível encontrar um programa que
não entre em choque com a moral católica no que tange à virtude da pureza. Cada vez
mais o telespectador é conduzido pela TV ao desprezo de todo o pudor e de todo o freio.
As pessoas acostumam-se a considerar os homens como meros animais, inteiramente dominados
pelas paixões e pelos instintos.
*** ***
O telespectador mais aceita do que escolhe. As informações,
as impressões vêm a ele, não é ele que as procura. E então ele se torna vítima de
uma armadilha: como as imagens o fascinam, ele imagina compreender facilmente a mensagem
veiculada.
Esquecendo que as imagens possuem uma carga afetiva, que elas
comunicam uma mensagem sob forma de impressão, o telespectador tende a receber as
impressões como idéias claras e precisas, sem perceber que a televisão se situa num
nível onde o conhecimento está sempre aliado a uma certa emoção. Interpretando as
impressões como explicações substanciais, o telespectador corre o risco de se
sub-alimentar. (Benoit, F. - O homem diante da televisão, p.27)
*** ***
TEMPLO DE DEUS
As considerações que alinhamos acima de modo nenhum esgotam
o assunto. A TV operou, desde seu surgimento, uma verdadeira revolução na moral, nos
costumes, nos hábitos familiares, nas relações de amizade. Ela contribuiu em larga
escala para o afastamento de Deus, que se acentua cada vez mais em toda a sociedade.
O que quisemos foi apenas fazer refletir sobre alguns de seus
efeitos nas almas dos telespectadores. Àqueles que a cada dia recebem em seus lares,
alegre e despreocupadamente, as imagens da TV, gostaríamos de recordar as palavras de
São Paulo: "Não sabeis que sois templos de Deus?" (ICor 3,16). É nosso dever
preservar e enobrecer nossa alma, morada da Santíssima Trindade, templo do Deus
altíssimo. |