UMA REUNIÃO [IMAGINÁRIA] DO P.T.
M. Garden
Dizem que na natureza nada se cria, tudo se copia. Esse
ditado é válido também para muitos dos inumeráveis artigos escritos pelo mundo afora.
Por volta de 1964, Nelson Rodrigues criou as entrevistas imaginárias. O que nos permite,
agora, criar as reuniões imaginárias. Assim como nas entrevistas imaginárias, nas
reuniões imaginárias todos são francos. Imaginam estar falando com amigos...
***
Nossa reunião imaginária se passou numa sede do P.T., onde
foram discutidas táticas para as eleições municipais paulistas. A reunião foi gravada,
e nós tivemos acesso à fita. A transcrição da mesma encontra-se abaixo:
- Lula: Não é possível, Eduardo, você está
atrasado outra vez!
- Suplicy: Não tenho culpa. Peguei o ônibus errado
de novo.
- Lula: Por que? Seu carro quebrou?
- Suplicy: Não. Não consegui encontrar o carro.
- Lula: Mas assim não é possível. O D. Paulo, a
Luísa [Erundina], o Mercadante, o Boff e a Marta estamos esperando há mais de uma hora!
- Suplicy: Quem é a Marta?
- Lula: Marta é a sua esposa.
- Marta: São recalques da infância, devido à sua
formação na burguesia repressora.
- Erundina: Marta... Não invente. É só falta de
memória. Nada mais.
- Marta: Desculpe. É só ver um gravador que eu já
penso que estou na Rádio CBN enrolando aquela tal de ... Não me lembro o nome dela.
- D. Paulo (com voz firme): Eu não convoquei vocês
aqui para perdemos tempo. Precisamos elaborar um plano de ação eficaz para revertermos o
quadro eleitoral. Do jeito que está, a Luíza vai morrer na praia, como aconteceu com o
Lula nas últimas eleições.
- Suplicy: É muito fácil. Precisamos destacar os
pontos negativos da última administração. Vamos dizer que o atual candidato é das
elites da zona sul e abandonou a periferia. Depois propomos alguma solução. Por exemplo,
a construção de casas populares nos lugares das favelas. Podemos chamar de projeto China
ou Cuba.
- Mercadante: Você não acha que alguém vai dizer
que estamos copiando?
- Suplicy: Bem... O Aluísio tem razão. O nome não
é apropriado. Afinal de contas, já faz quarenta anos que não há eleições em Cuba, e
na China, então, nem se fale.
- Boff: O que você está querendo insinuar? Alguma
crítica ao regime socialista da ilha? Será que você não aprende que esse negócio de
eleição não vale para lá?
- Suplicy: É que eu tenho dificuldade para responder
sobre esse assunto quando alguém me pergunta.
- Mercadante: Ora, faça como nós, diga que o povo é
feliz do jeito que está.
[Ouve-se na gravação uma risada geral].
- Erundina: Realmente, tudo fica mais difícil sem
termos um modelo de sociedade para apresentar.
- Suplicy: Se pelo menos na Nicarágua ....
[Não se consegue identificar as vozes devido à gritaria
geral]
- Todos: Não toque nesse assunto! Pare! Silêncio!
Esqueça esse País!
- Lula: Eduardo, por favor, pense uns quarenta minutos
antes de falar qualquer coisa.
- Suplicy: Mas eu já faço isso.
- D. Paulo: Pela última vez. Chega de conversa fiada.
Vamos ao que interessa. Fui eu quem os chamou e exijo uma solução! Lembrem-se de que sou
eu quem manda aqui. Afinal, esse negócio de igualdade é muito bom para o papel, mas na
prática um tem que mandar e o resto obedecer. Boff, exponha seu pensamento sobre o
assunto em pauta.
- Boff: A verdade é que durante muitos anos nós
utilizamos as condições algumas vezes miseráveis do povo para a agitação social.
Quando alguém tinha fome, ao invés de lhe darmos comida, incitávamos a que se
revoltasse contra aquilo que chamávamos de estrutura capitalista. Em meu livro, descrevo
este problema da seguinte forma:
Assim, quanto mais necessidade alguém ou algum grupo
tivesse, menos queríamos resolver o problema. Pouco nos interessava a solução de
qualquer questão social; pelo contrário, interessava-nos que os problemas crescessem
para que pudéssemos fazer a agitação também crescer. Para nós, afinal, o importante
é que o operário esteja revoltado contra a sociedade, e não que tenha casa e comida.
Esse é um ideal burguês. Portanto, onde não existia um problema, nós o inventávamos.
Cada desgraça da sociedade era uma esperança para nós; cada solução para a sociedade,
uma desgraça. Foi o que ocorreu recentemente. Aconteceu o pior: o atual governo municipal
apresentou solução para dois problemas, habitação e saúde, que sempre foram nossas
bandeiras. Conseqüência: ficamos a ver navios. Fracassamos. Nossa ideologia ruiu mesmo
com o muro de Berlim. A revolução socialista parece mais distante do que nunca.
- Erundina: Sempre radical. Será que você não muda?
- Mercadante: Não existe socialismo sem radicalismo.
Nós agimos certo, e temos que continuar na mesma linha. Temos que bater firme no inimigo.
Pega-se qualquer fato e se exagera ao máximo; repete-se cem ou mil vezes. Dá-se a pior
interpretação possível. Culpa-se o sistema capitalista, a estrutura desigual da
sociedade. Em suma, repete-se os slogans de sempre. Se não for assim, para a Erundina eu
digo FIM.
- Boff: É, Luísa, na verdade eu apenas tenho a
coragem de dizer hoje aquilo que você pensará amanhã. Eu sou você amanhã.
- Mercadante: Quer dizer que amanhã ela estará
acreditando em magia? Ou freqüentando cartomantes?
- Erundina: Opa. Senti uma crítica ao meu governo. Se
criei as feiras místicas, foi porque achei que era o momento adequado.
- Suplicy: E foi por isso que as forças espirituais
me ajudaram na eleição para Prefeito?
[Silêncio durante algum tempo.]
- Erundina: Esse discurso radical é coisa do passado.
Ninguém mais se incomoda quando eu digo que apanhei da polícia na Favela. É claro que
eu gostaria de me apresentar radical como na última eleição, mas de que isso adiantaria
agora? Vejam o Lula. Perdeu no primeiro turno para o Fernandinho, que tinha um programa
neo-liberal de privatizações, estabilização da moeda, liberalização de
importações, capitalista! Pensei até em fazer um filme sobre o assunto. O nome seria
Fernando II - O retorno ao Capitalismo.
[Nova risada geral].
- Mercadante: A orientação tem que mudar. A rejeição a
você está tão grande que eu mesmo não estou contando para a minha mulher que vou votar
em você.
- Suplicy: Eu também não.
- Marta: Como assim?
- Suplicy: Eu só queria dar um apoio ao Mercadante,
pois concordo com ele.
- Erundina: Quando você precisou de meu apoio nas
eleições para Prefeito, pôde contar comigo.
- Suplicy: Não fosse seu apoio, talvez eu tivesse
sido eleito.
- Mercadante: Triste fim para mim. Vice numa chapa sem
futuro. Acho que ninguém mais acredita em nós.
- Suplicy: Não tem importância. Nós continuamos em
Brasília naquela vida boa de sempre. Lá pelo menos ninguém nem percebe que eu chego
atrasado.
- D. Paulo: O desânimo esta proibido. Quem desanimar
está expulso do Partido. Eu decido assim.
- Mercadante: Alguma coisa de concreta precisa ser
feita.
- Erundina: Se você ficar satisfeito, eu mando o
responsável pela campanha embora.
- Suplicy: Coitado [com voz profundamente triste]. Será
mais um desempregado. Pelo menos terá direito ao seguro-desemprego.
- Boff: Isso não adianta grande coisa. Só um milagre
para vender o nosso produto. E se existe alguma coisa em que eu não acredito é em
milagre.
- Lula: E aí, D. Paulo, o que devemos fazer?
- D. Paulo: Parece-me que o Boff tem razão. Nossa
ideologia não pega mais. E nós nunca tivemos programa de governo algum. É sem dúvida
um momento difícil...
- Erundina: Não estaria na hora de você dar uma
força a mais para nós? Vir a público e se declarar...
- D. Paulo: É difícil. Você sabe como é. O chefe
proibiu de eu me meter em política, e eu já não ando muito bem com ele. Já foi
difícil no caso do Boff. Tive que viajar e tratar do assunto pessoalmente.
- Lula: Mas talvez um apoio declarado, seu e da sua
turma, seja nossa última esperança. Não dava mesmo para dar uma forcinha?
- D. Paulo: Não sei não. Talvez quando eu me
aposentar... Vocês sabem, não demora muito.
- Marta: Mas então está tudo perdido.
- D. Paulo: Vamos fazer o seguinte: em vez de elogiar
vocês abertamente, eu critico abertamente os projetos de habitação e saúde da atual
administração. Invento que o custo da obra é cara. Falo que o importante é a união do
povo e que o sistema de mutirões é muito mais eficiente. Mando alguém dizer que as
pessoas estão insatisfeitas com o atendimento médico na Prefeitura e fazemos de conta
que não conhecemos as pesquisas a respeito do assunto. De momento é o que eu posso
fazer. Você, Luíza, procura o Pitangui para ver se ele consegue fazer algum milagre. O
Mercadante continua com esse discurso radical para que os outros pareçam moderados. A
Marta divulga a pornografia como sendo coisa chique, pois um eleitor sem moral tem sempre
maior chance de votar em nós. O Boff está liberado para falar o que pensa, já que
ninguém mais acredita nele mesmo. No mais, é ver como fica e torcer para mais alguma
favela pegar fogo. Voltamos a nos reunir daqui a um mês. Tudo bem?
- Erundina: Ainda acho pouco. Não dá para fazer mais
nada?
- D. Paulo: Na primeira chance que tiver, te dou um
abraço e um beijo. É o máximo de sacrifício.
- Boff: Não sei se resolve, mas por enquanto é o que
podemos fazer.
- Lula: Está certo; voltamos a nos reunir em breve
para nova avaliação. Marta, agora você acorda o Suplicy que a reunião acabou.
- Marta: Eduardo, Eduardo, Eduardo! |