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CONSPIRAÇÃO NA HISTÓRIA
EXEMPLOS DO ANTIGO TESTAMENTO
Orlando Fedeli
A tese conspirativa da História é rejeitada pelos liberais,
pois é incompatível com sua crença na bondade natural do homem. De outro lado, ela é
exposta de modo ridículo por certa literatura anti-maçônica, que em tudo vê ações
secretas, conciliábulos, maquinações fantasmagóricas, intrigas rocambolescas e que
imagina simbologias cabalísticas misteriosas nas coisas mais simples. Foi a cosmovisão
conspirativa que Umberto Eco caricaturou na obra "Il Pendolo de Foucault".
Trata-se de duas posições antagônicas. Uma nega quaisquer
conspirações, porque o homem é bom e a conspiração pressupõe maquiavelismo e maldade
inexistentes. Outra em tudo vê o mal, vislumbrando o maçom embuçado, o judeu marrano e
revolucionário, o terrorista atrás de cada esquina da História. Ambas pecam por
excesso. E se de fato existe uma conspiração na História, tanto o liberalismo ingênuo,
quanto o imaginativo anti-maçonismo direitista ajudam a ocultá-la: o primeiro pela sua
tola negação; o segundo pelo excesso caricato.
Conspirar vem do latim conspirare, que
significa literalmente aspirar com outros, aspirar coletivamente, isto é,
trabalhar junto com outros para obter um fim.
Sendo o homem um ser racional e social, é natural que ele
procure se associar a outros para alcançar finalidades que, sozinho, não pode atingir.
Literalmente, o homem está sempre conspirando. Quando ele organiza uma festa ou um jogo
com amigos, ele aspirou junto, conspirou. Quando se inscreve num curso ou organiza uma
firma com sócios, ele conspirou, isto é, aspirou junto com outros alcançar o saber ou o
lucro.
Se um grupo de bandidos organiza um assalto, um seqüestro,
uma revolução, eles também estão conspirando. Nestes casos, em que se visam fins
ilícitos, é claro que a conspiração tem que ser secreta. Ninguém organiza pública e
abertamente um cartel como o de Medellin. Mascara-se uma associação criminosa com fins
publicamente inocentes. Quer a associações com objetivos criminosos secretos quer a
sociedades secretas, a ambas cabe, em sentido próprio, o termo conspiração.
Entretanto, o homem comum tem dificuldade para crer em
conspirações. É custoso para a inocência e a honestidade imaginar a malícia e o
crime. Elas tendem a verem tudo correção e liceidade. Acresça-se a isso o romantismo
sentimental, a influência das idéias liberais sobre a bondade do homem, a dificuldade ou
incapacidade da maioria das pessoas em arquitetar planos a longo prazo e a crença na
inexistência ou na aposentadoria do demônio, e se compreenderá como hoje é difícil
mostrar que na História desde os primeiros tempos há uma enorme
conspiração diabólica para perder as almas.
O que torna explicável a História é a luta entre duas
conspirações, a conspiração de Deus e a do demônio. Para salvar as almas, Deus
organizou a divina "conspiração" da Igreja. Para perdê-las, o demônio
organiza aquilo que o Papa São Gregório Magno chamou nos Morales de Anti-Igreja.
É o que Santo Agostinho descreveu com maestria na Civitas Dei:
"Dois amores deram nascimento a duas cidades: a cidade
terrestre procede do amor de si até ao desprezo de Deus; a cidade celeste procede do amor
de Deus levado até ao desprezo de si" (De Civit. Dei, lib. XIV, c. 28).
Esta mesma idéia é descrita por Santo Inácio como a
batalha das duas bandeiras, a de Cristo contra a do demônio. É a luta que o Evangelho de
São João afirma existir entre os filhos da luz e os filhos das trevas, e que fôra
anunciado no Gênesis pelo próprio Deus quando disse: "Porei inimizade entre ti (a
serpente) e a mulher, entre a tua raça e a dela, e ela mesma te esmagará a
cabeça." (Gn. III, 15).
Deus, infinitamente sábio, usa alguns homens para salvar
outros. Também o demônio, astutamente, procura usar homens para perder outros. Deus
organizou a Igreja. O demônio organiza os maus seus filhos numa
anti-Igreja, que, por sua natureza tendo em vista seus fins , tem que ser
secreta.
Dissemos que desde os primeiros tempos houve uma
conspiração diabólica para perder as almas. Neste artigo, não pretendemos fazer uma
demonstração exaustiva de que na História, desde todos os séculos como disse
Leão XIII na Humanum Genus os maus se articulam para combater o bem, a
Igreja e a Cristo. Queremos apenas chamar a atenção para alguns sinais dessa
conspiração nos tempos anteriores a Cristo tendo como base a própria Sagrada Escritura.
Com isso visamos abrir os olhos de mentes católicas que recusam-se a ver que há uma
conspiração na História, ou que imaginam ingenuamente que a conspiração começou em
1714 com a constituição maçônica feita por Anderson, conforme dizem os livros
maçônicos e anti-maçônicos.
* * *
Na Escritura se lê que, com a permissão de Deus, Satanás
destruiu os bens de Jó, matou seus filhos e causou-lhe uma grave chaga da cabeça aos
pés. Para fazer estes males, está escrito que Satanás, além de utilizar forças
naturais (raios, furacões), instigou os Sabeus e organizou os Caldeus em três
esquadrões (Jó I, 13-20). Deus revelou nesse texto que o demônio, com Sua permissão,
pode usar quer os fenômenos naturais quer os homens e até organizar povos inteiros
para fazer o mal.
No caso de Jó, a ação diabólica visava apenas um homem.
Mas com a propagação da idolatria, o que o demônio visava era a perda de povos
inteiros, porque é preciso não esquecer os deuses pagãos eram demônios,
como se lê nos Salmos e em São Paulo. "Porque todos os deuses pagãos são
demônios" (Sl. XCV, 5) e "Ou o ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas
que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios" (São Paulo, I Cor. X,
19-20).
Com a idolatria, o demônio dominou todos os povos gentios.
Narra o Evangelho que quando Cristo foi tentado, "o demônio o transportou a um monte
muito alto e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua magnificência. E lhe disse:
Tudo isto te darei, se prostrado me adorares" (Jo. IV, 8-9).
"E o demônio conduziu-o a um alto monte, e mostrou-lhe
num momento todos os reinos da terra, e disse-lhe: Dar-te-ei o poder de tudo isso, e a
glória desses (reinos) porque eles me foram dados, e eu os dou a quem me parece.
Portanto, se tu me adorares, todos eles serão teus" (São Lucas IV, 5-8).
Cristo repeliu a tentação, dizendo que só a Deus devia se
adorar, mas não negou o que Satanás afirmava: que todos os reinos do mundo eram dele na
época em que Cristo veio à terra. Eram seus pela idolatria, porque ao adorar os ídolos
todos esses povos adoravam ao próprio demônio. Tanto eram dele que seus reis e
dirigentes maquinavam planos contra Deus e contra o seu Cristo. Conspiravam e Deus
se ria de suas pretensões.
"Por que razão se amotinam as nações, e os povos maquinam
planos vãos? Os reis da terra sublevam-se e os príncipes coligam-se contra o Senhor
e contra o seu Messias. Quebremos (disseram) as suas cadeias e sacudamos de nós seus
laços. Aquele que habita nos céus ri-se, o Senhor zomba deles" (Sl. II, 1-4).
E Israel estava incluído no "tudo isso é meu"
afirmado por Lúcifer, quando tentou a Cristo?
A cegueira com que se negaram a ver a luz de Cristo mostra
que sim. Ademais o próprio Cristo afirmou que os fariseus, que eram os dirigentes do povo
judeu, eram filhos do demônio. "Vós sois filhos do demônio e quereis satisfazer os
desejos de vosso pai (...) o pai da mentira" (João VIII, 44).
Como e quando o pai da mentira dominou os judeus?
A destruição de Jerusalém por Nabucodonosor no VI século
a.C. comprova que já então os judeus se tinham entregue ao demônio. Deus mostrou então
ao profeta Ezequiel, em visão, que permitira tal castigo pelos pecados de idolatria
cometidos secretamente pelos sacerdotes e dirigentes do povo. A descrição da visão
lembra um enredo de mistério.
"E conduziu-me à entrada do átrio e olhei, e eis que
havia ali um buraco na parede. E disse-me: filho do homem, escava a parede. E tendo
eu escavado a parede, apareceu uma porta. E Ele me disse: entra e vê as péssimas
abominações que estes aqui cometem. E tendo entrado, olhei, e eis que havia ali imagens
de toda a sorte de répteis e de animais, a abominação de todos os ídolos da casa de
Israel estavam pintados na parede por toda a roda. E setenta homens dos anciãos da
casa de Israel estavam em pé diante destas pinturas, e Jezonias, filho de Safar, também
em pé no meio deles; e cada um tinha na sua mão um turíbulo; e o fumo do incenso, que
deles saía como uma névoa, elevava-se para o alto. E Ele me disse: vês bem, filho do
homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, o que cada um
deles pratica no segredo de sua câmara; porque eles dizem: O Senhor não nos vê, o
Senhor desamparou a Terra" (Ez. VIII, 7-13).
Em seguida Deus lhe faz ver que até mesmo "entre o
vestíbulo e o altar" havia quem "adorava o sol que nascia" (Ez. VIII, 16).
Nessa curiosa visão, Deus mostra que os sacerdotes de
Israel, nas trevas, em segredo, se entregavam à idolatria. Para chegar ao
local dos seus crimes havia que utilizar passagens secretas... Na superfície, os
sacerdotes ensinavam a religião verdadeira. Nas trevas, em segredo, praticavam outra.
Quase 600 anos antes de Cristo, os sacerdotes e chefes judeus haviam renegado a religião
verdadeira, ocultamente.
Se eles agiam secretamente é porque o povo ainda era
suficientemente fiel para não tolerar a idolatria pública. Contudo, Deus destruiu
Jerusalém punindo todo o povo pelo pecado dos chefes, porque o crime dos governantes
afeta a nação enquanto tal.
Continuamente se lê nas profecias que a apostasia do povo é
atribuída especificamente aos sacerdotes, anciãos e governantes judeus.
"Verdadeiramente o ponteiro mentiroso dos escribas
gravou a mentira" (...) "desde o profeta até o sacerdote todos forjam a
mentira" (Jer. VIII, 8-10).
Foram os sacerdotes que perderam a fé, duvidando da
Escritura e adorando Baal. O Deus invisível estava além das nuvens, distante. O ídolo,
o demônio, lhes parecia mais próximo e acessível.
"Os sacerdotes não disseram: `Onde está o Senhor?'. Os
depositários da lei não me conheceram, e os pastores prevaricaram contra mim, e os
profetas profetizaram em nome de Baal, e seguiram os ídolos" (Jer. II, 8).
Ao invés de cuidar do povo, seus dirigentes o maltratavam e
desencaminhavam. "O Senhor entrará em juízo com os anciãos de seu povo e com os
seus príncipes; porque vós devorastes a minha vinha, e as rapinas feitas ao pobre
encontram-se em vossa casa" (Js. III, 14).
"Porque os pastores obraram loucamente, e não buscaram
o Senhor; por isso não entenderam e todo o seu rebanho se dispersou" (Jer. X, 21).
"Foram confundidos os da casa de Israel, eles e os seus
reis, os príncipes e sacerdotes, e os seus profetas, os quais diziam a um pau: `Tu és
meu pai'; e a uma pedra: `Tu me geraste.'" (Jer. II, 26-27).
"Coisas espantosas e estranhas se tem feito nesta terra:
os profetas profetizam a mentira, e os sacerdotes aplaudiam-nos com as suas mãos;
e o meu povo amou essas coisas" (Jer. V, 30).
"E aos profetas de Jerusalém vi imitar os adúlteros
(ou idólatras) e ir após a mentira; e fortificaram a mão dos malvados para que
nenhum se convertesse de sua malícia" (Jer. XXIII, 30).
"Porque dos profetas de Jerusalém é que se derramou a
corrupção sobre toda a terra" (Jer. XXIII, 15).
Esses textos curiosíssimos afirmam sempre que foram os
chefes, os sacerdotes e os profetas que perderam o povo de Deus, acreditando na mentira
(no singular) e adorando ocultamente os ídolos.
Não adiantava, porém, conspirar ocultamente, pois o Deus
que tudo vê, conhece as maquinações secretas e os mais íntimos arcanos dos corações:
"Poderá alguém ocultar-se em lugares ocultos, sem que
eu o veja? (...) Eu ouvi o que disseram os profetas, que em meu nome profetizavam a
mentira (...) profetas que vaticinaram a mentira (...) os quais querem fazer
que meu povo se esqueça de meu nome" (Jer. XXIII, 24-27).
Portanto, os castigos infligidos por Deus ao Reino de Judá
foram causados por uma apostasia oculta concertada pelos sacerdotes que pretendiam
corromper o povo ensinando a mentira em nome do Deus da Verdade.
Que houve uma conspiração no sentido etimológico e
próprio está declarado na Sagrada Escritura pelo profeta Isaías que registra estas
palavras de Deus:
"Porque o Senhor Deus me falou assim, (tomando-me) com
sua mão poderosa e avisando-me para não seguir pelo caminho deste povo dizendo: `Não
digais: Conspiração; porque tudo o que este povo diz é uma conspiração"
(Isaías VIII, 12).
A finalidade dessa conspiração está explícita em
Jeremias:
"E o Senhor me disse: Uma conjuração se descobriu
entre os varões de Judá, e entre os moradores de Jerusalém. Tornaram às antigas
maldades de seus pais, que não quiseram ouvir minhas palavras; e estes também foram
após deuses estranhos para os servir; a casa de Israel e a casa de Judá romperam a
aliança que eu fiz com seus pais" (Jer. XI, 9-10).
A conspiração dos chefes de Israel e Judá foi feita para
levar o povo eleito à idolatria, isto é, a cultuar o demônio.
"Por esta causa ouvi a palavra do Senhor, homens
escarnecedores que dominais sobre o meu povo, que está em Jerusalém. Porque vós
dissestes: `Nós fizemos um concerto com a morte, e fizemos um pacto com o inferno (...)
porque pusemos nossa confiança na mentira, e pela mentira fomos
protegidos" (Isaías XXVIII, 14-15).
A conspiração dos dirigentes judeus no Antigo Testamento
para levar o povo a adorar os ídolos foi selada com um pacto com o próprio inferno, isto
é, com o demônio. A conspiração era diabólica porque visava levar à adoração do
demônio e era dirigida por ele.
"E puseram os seus ídolos na casa em que o meu nome foi
invocado para o profanarem" (Jer. XXXII, 34). Pois ao demônio não basta ser
adorado: ele quer profanar o Templo de Deus, fazendo colocar a abominação no lugar
santo.
Todo esse mal era resultado de uma adesão consciente à
mentira, uma vontade decidida a fazer o mal que levava os conspiradores a arquitetarem e
estudarem o modo mais eficaz para levar o povo ao pecado.
"Jerusalém (...) confiou na mentira" (Jer.
XIII, 25).
"Abraçaram a mentira e não quiseram voltar" (Jer.
VIII, 5).
"Habituaram a sua língua a dizer a mentira; estudaram
como haviam de fazer o mal." (Jer. IX, 5) e imitaram "os maus costumes das
nações" (Jer. X, 2).
Por que dizem os profetas continuamente que os dirigentes
judeus abraçaram, registraram e ensinaram a mentira, empregando o termo no
singular?
Isto deve ser relacionado com a afirmação de Cristo, que
chamou o diabo de "pai da mentira" (São João VIII, 44), na ocasião de
sua grande discussão com os fariseus, aos quais chamou de filhos do demônio, isto é, os
membros da raça da serpente (Gen. III, 15). Qual é essa mentira por excelência de que o
demônio é pai?
Deus é a Verdade e, como Ele é um, há uma só Verdade.
Nota essencial da fé verdadeira é a unidade (S. Paulo, EF. IV, 5-13). Ora, o demônio
ataca a única fé com mil heresias diversas, pois que é próprio do erro a
multiplicidade e não a unidade. Contudo, se estudarmos as heresias, veremos que há nelas
algo subjacente comum a todas, a par de seu ódio e sua negação da Verdade única. Isto
faz com que na multiplicidade infinda dos erros haja uma certa forma de unidade (unidade secundum
quid), escondida sob os mitos e mentiras dos sistemas heréticos. Esse substrato
comum, matriz de todos os erros, nega as verdades mais profundas e fundamentais a respeito
de Deus, isto é, do Ser. O substrato comum a todas as heresias é a Gnose. Ela é a
mentira por antonomásia. É a revolta anti-metafísica.
O termo Gnosis, em grego, significa conhecimento. Essa
doutrina pretende dar ao homem um conhecimento salvífico, redentor, ao lhe proporcionar:
1) o conhecimento da essência divina;
2) o da natureza secreta e divina do homem;
3) o conhecimento do que são o mal e o pecado. (cfr H. C. Puech, Enquête de la Gnose, Gallimard, Paris,1978, vol. I, pp.
168-236; Robert M. Grant, La Gnose et les origines cheretiènes, Seuil, Paris, 1964, pp.
18-19)
A respeito da unidade gnóstica subjacente às diversas
seitas heréticas convém ler o que diz S. Irineu no Adversus Haeresis, Migne, vol.
VII; S. Hipólito de Roma, La Gnose et le temps, Gallimard, Paris, vol., p. 235;
Serge Hutin, Les gnostiques, pp. 6-9; Robert M. Grant, op. cit., p. 17.
O que a Gnose pretende conhecer, antes de tudo, é a
essência da divindade, ou seu processo interior.
Ora, nos Provérbios, sintomaticamente Deus previne contra
essa pretensão, dizendo:
"Assim como não faz bem o mel àquele que o come em
demasia, assim o que quer sondar a majestade (divina) será oprimido pela sua
glória" (Prov. XXV, 27). Se Deus repreendeu essa pretensão, é que já nos tempos
do Antigo Testamento havia entre os judeus quem procurasse "sondar a majestade
divina", como faziam os gnósticos.("Sabemos que já no
período do Segundo Templo uma doutrina esotérica era ensinada em círculos
fariseus" (G.G. Scholem - A mística judaica - Major trends in jewish
mysticism - Perspectiva. S. Paulo, 1972, p. 41)
Para a Gnose, Deus não é aquele que é (Ex. III, 14), e sim
um constante vir-a-ser. Ele seria a mudança. Ora, é interessante que Deus tenha
prevenido os judeus contra essa mentira dizendo: "Pois eu sou o Senhor e não mudo",
"Ego enim Dominus et non mutor" (Mal. III, 6).
Para várias seitas gnósticas, a divindade original é
chamada contraditória ou dialeticamente de Tudo e Nada ao mesmo tempo. Na Grécia, essa
divindade era o Pan (tudo) e Bythos (o vazio). Na India é Brahman (tudo) e o Nirvana
(nada absoluto). O Bhagavad Gita diz que essa divindade é ser e não-ser, é aquele que
está além" (Bhagavad Gita, XI, 37).
"Eu sou o ser e o não-ser" (Bhagavad Gita,
IX, 19).
Nos fragmentos heraclitanos se lê: "Um único ser, o
único sábio, quer e não quer ser chamado Seus" (Heráclito, Frag. 32, Diels. ).
O gnóstico Basílides dizia que o nome do que existia e não
existia era nada (S. Hip., Philosophoumena, I, 21, VII, 20-21, vol. II, p.
103).
Na Cabala se ensina que o Em-Sof é o nada (cfr. G. G.
Scholem, Major trends in jewish mysticism - A mística judaica, Perspectiva, S,
Paulo, 1972, pp. 12-13). G. G. Scholem diz que "ser e não-ser não são senão
diferentes aspectos da realidade divina que no fundo é um super-ser" (G. G. Scholem,
Les origines dela Kabbale, p. 448).
Ora, é curioso notar que Deus repreende, no Antigo
Testamento, aqueles que confiaram no nada:
"Os vossos lábios falaram a mentira e a vossa língua
profere a iniqüidade. Não há quem invoque a justiça, nem há quem julgue segundo a
verdade, mas confiam no nada" (Isaías LIX, 3-4).
A Gnose afirma que o homem possui no mais íntimo de seu ser
uma partícula divina, uma centelha de Deus, uma Funkenlein, como dizia mestre Eckhart.
Por isso, a essência última do homem seria divina. O homem seria um deus decaído que
era preciso libertar das prisões da materialidade, da racionalidade, da moral.
Quando todas as partículas divinas esparramadas pela
natureza de novo se reunirem, a divindade voltaria a existir e ela teria a forma de um
Homem. Por isso, para o maniqueísmo, o Homem primordial era o próprio Deus:
"Antes de tudo, convém sublinhar que o Homem primitivo
é apenas uma hipóstase do Pai da Grandeza, o próprio Deus (...). O Homem primitivo é
portanto idêntico a esta Alma (de Deus) ou, como diz o maniqueu Faustus a S. Agostinho,
ele é feito "da substância de Deus, sendo isto mesmo que é Deus" (H. C.
Puech, Le manicheisme, in Histoire Générale des Religions, vol. III, p.
96).
Na India, o deus Supremo , Brahman, era chamado de Homem
(Puruska).
"Tu és o imperecível supremo que é preciso conhecer.
Tu és o supremo apoio de todo o universo, tu és o eterno guardião da lei antiga, para
mim, penso, tu és o sempiterno Homem (Bhagavad Gita X, 12).
"Tu conheces a ti mesmo, por ti mesmo, ó Homem supremo,
fonte dos seres, Senhor das criaturas, Deus dos deuses, Regedor do mundo (Bhagavad Gita
X, 15).
"Tu és o deus principal. ó Homem antigo (...) tu
permeias o Universo, ó forma infinita (Bhagavad Gita, XI, 38).
A Cabala, por sua vez, identifica o Deus manifestado nos
sefirots como sendo o Homem Primordial, o Adam Kadmon. Para provar isto, um dos argumentos
usados é que, segundo o método da guematria, as letras que formam o nome de Deus - iod,
he, vau, he (IHWH) - tem valor numérico de 45. Ora, as letras que formam a palavra Adam
(alef, dalet, mem) dão um total de 45 também. Logo (??), Adão é igual a Deus pois
ambos valem 45 (cfr. G. G. Scholem, A cabala e seu simbolismo, p. 125).
O misterioso livro gnóstico judaico, o Schiur Komá,
descreve o corpo de Deus como sendo o de um imenso homem que se identifica também com o
Universo. Assim Deus, Universo e Homem seriam uma coisa só (Cfr. G. G. Scholem, Major
trends in jewish mysticism - tradução portuguesa A mística judaica, Perspectiva, São
Paulo, 1972, pp. 64-65).
Portanto, a mesma divindade que textos de religiões e
autores gnósticos chamam de Nada, intitulam também Homem.
Vimos já que Deus, em Isaías, exprobou os seguidores da
mentira que "confiam no nada" (Is. LIX, 3-4). Esse mesmo profeta clama a palavra
de Deus contra os judeus:
"Cessai, pois, de confiar no homem, em cujas
narinas (não) há (senão) um sopro, porque somente Deus é o que é excelso" (Is.
II, 22).
Não se diga que há nesse texto apenas e tão somente um
conselho de ordem moral. Esse versículo é a conclusão de um texto acerca das causas de
humilhação dos maus no dia do juízo, no qual Deus repreende a casa de Jacó - o povo
judeu - por estar cheio de superstições como os filisteus (v. 6); de ter enchido o país
de ídolos que serão esmigalhados no dia do juízo (v. 10-18) e que então os que
traíram Deus lançarão fora os seus ídolos (v. 21).
O versículo citado opõe a confiança no homem à confiança
em Deus excelso. Ele associa idolatria e confiança no Homem. Deus, por Isaías, clama
então contra os que "confiam no Nada" e contra os que confiam no Homem,
exatamente no Nada e no Homem, que Gnose e Cabala afirmam ser nomes de Deus.
Para a Gnose, a evolução divina se faz por um processo
dialético, visto que Deus e todo ser são formados por dois princípios contrários e
iguais.
Para Heráclito, "Deus é dia e noite, inverno e verão,
guerra e paz, abundância e fome" (Diels. 12 B, 67).
"Vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice são
a mesma coisa: são muitas metamorfoses" (Diels. 12 B, 88).
Vimos que para o Bhagavad Gita Deus é "ser e não
ser", ao mesmo tempo (Bhagavad Gita XII, 37; IX, 19). Sabe-se bem que no
maniqueísmo, o dualismo de Deus e o dualismo metafísico são claramente ensinados (cfr.
H.C. Puech, Le Manicheisme, in Histoire Générale de Religions, vol. III, p. 96, 1ª
coluna).
Como a Gnose, a Cabala afirma que em Deus há dois
princípios opostos: o do bem e o do mal (cfr. G.G. Scholem, A mística judaica, ed. cit.,
pp. 237-291). "Tudo o que é demoníaco tem sua raiz em alguma parte do mistério de
Deus" (G.G. Scholem, A mística judaica, p. 240). Essa noção dualista de Deus foi
explicitada mais claramente pelo sistema cabalista de Isaac Luria de Safed e por Natham de
Gaza (cfr. G.G. Scholem, Sabbatai Sevi, The mystical Messiah, pp. 301-302, Princeton
University Press, Princeton, New Jersey, 1975).
Em conseqüência decorrem daí não só um dualismo
metafísico, que afirma a igualdade de contrários, como também um dualismo dialético no
campo da moral, que faz identificar santidade e iniqüidade, virtude e pecado. A Mischnah
(Berahot IX, 5) afirma que se deve amar a Deus de todo o coração, isto é, com os bons e
maus impulsos.
"Man is bouns to bless (God) for the evil even as he
blesses (God) for the good, for it is written. And thou shalt love the Lord thy God with
all thy heart and with all thy soul, and with all thy might. (Deut. VI, 5). With all thy
heart (lebab) with both thine impulses, thy good impulses and thine evil impulses."
(The Mischnah, Oxford University Press, Oxford, 1980, 1ª ed., 1933, trad. Herbert
Dowley).
O dualismo metafísico e a moral dialética próprios da
Gnose e da Cabala fazem identificar ser e não ser, bem e mal, luz e trevas, verdade e
mentira, virtude e pecado. Ora, a prova de que já no Antigo Testamento essa dialética
dualista gnóstica se infiltrara secretamente entre os judeus está em Isaías, onde o
Deus que exprobou a adesão dos escribas e sacerdotes à mentira, diz: "Ai de
vós que ao mal chamais bem, e ao bem mal, que tomais as trevas por luz e a luz por
trevas, que tendes o amargo por doce e o doce por amargo." (Is. V, 20).
Essa inversão completa de verdade e de moral perpetuou-se
secretamente entre os judeus até o tempo de Cristo e depois no Talmud, que afirma
"que o mais perfeito cumprimento da lei está na sua violação".
Segundo o messianismo cabalista, o reino do Messias trará a
abolição da lei e mesmo a sua inversão, tornando lícito o que era proibido (cfr. G.G.
Scholem, A mística judaica, p. 181 e p. 314).
Na era messiânica haveria "the abolition of the norm of
permitted and forbidden pure and impure" (G.G. Scholem, Sabbatai Sevi, The Mystical
Messiah, p. 321). Se havia uma conspiração de fundo gnóstico já no Antigo Testamento,
fica claro porque Nosso Senhor Jesus Cristo preveniu os fariseus dizendo-lhes: "Não
julgueis que vim destruir a lei ou os profetas, mas sim (para os) cumprir. Porque em
verdade vos digo que, enquanto não passar o céu e a terra, não desaparecerá da lei um
só jota ou um só ápice, sem que tudo seja cumprido" (Mt. V, 17-18). E ele condena
a seguir aqueles que violam mesmo um dos mínimos mandamentos da lei e "ensinam
assim os homens" (Mt. V, 19).
Finalmente, Cristo afirma que os fariseus, por causa de sua tradição,
anularam a lei: "Vós, por causa de vossa tradição, tornastes nulo o mandamento de
Deus" (Mt. XV). "É em vão que me honram, ensinando doutrinas e mandamentos de
homens" (Mt. XV, 9).
Ora, a Cabala judaica pretendia ser uma doutrina revelada por
Deus a Moisés e transmitida por tradição oral, tanto que Cabala quer dizer tradição.
Não se estranhe então a afirmação de que já no Antigo Testamento, os rabinos judeus
haviam abandonado a Verdade revelada para seguir a mentira da Gnose (que entre os judeus
se chama Cabala). Os textos da Escritura que citamos indicam isso. Mas, para os que
confiam no Homem, veja-se a confirmação do que dizemos na palavra de um homem que é o
maior conhecedor de Cabala em nosso dias:
"Sabemos que já no período do Segundo Templo uma
doutrina esotérica era ensinada em círculos farisaicos." (G.G. Scholem, A mística
judaica, p. 41).
* * *
Por tudo isso, fica bem claro que os judeus se desviaram de
sua missão e abandonaram a Revelação e a Lei de Deus devido a uma conspiração
diabólica dirigida pelos sacerdotes e escribas.
Resta perguntar: terá essa conspiração diabólica, visando
perder as almas, cessado com o advento de Cristo? Ou terá ela se tornado mais oculta
ainda, mais feroz e mais diabolicamente hipócrita?
Os que negam a existência da "conspiração" dos
maus na História, ou são ingênuos, ou... são membros dela. |