Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
26/06/2004
Carta aos Senadores sobre o Projeto de Lei da Biossegurança, com temas
referentes à Bioética
Ex.mo. Sr.Senador da República
Excelência,
Os Bispos Católicos do Conselho Permanente da CNBB, reunidos em Brasília,
de 22 a 25 de junho de 2004, desejam fraternalmente saudar Vossa Excelência.
Acompanhamos, com vivo interesse, os trabalhos legislativos do Senado.
Constatamos que está em votação, em fase adiantada, o Projeto sobre
Biossegurança com temas referentes à Bioética (PL n.2.401-A-2003).
Os últimos decênios vêm apresentando grande progresso no campo da
biogenética e da biotecnologia, abrindo perspectivas, tanto no sentido da
cura de certas doenças como também no aprimoramento da nossa vida na terra.
Contudo, com as esperanças, erguem-se novas interrogações e preocupações.
Estas interrogações não são apenas científicas, mas sobretudo de cunho
ético.
Queremos louvar o empenho dos Senadores que, ao longo dos últimos anos,
se têm dedicado ao conhecimento da problemática, por meio de debates e
seminários. Isto bem mostra como os representantes eleitos pelo povo têm
consciência do peso de suas decisões, mormente daquelas que dizem respeito
às manifestações da vida em suas múltiplas formas.
Alegramo-nos com as conquistas da ciência que permitem sanar certos males
oriundos de causas genéticas e outras, e com a crescente expectativa da
biotecnologia agir eficazmente na superação de deficiências e enfermidades.
O progresso da ciência e da tecnologia abre novas possibilidades para que
possamos levar adiante a missão que o Criador nos confia.
Neste sentido, nos congratulamos com as pesquisas recentes e o uso
responsável de células-tronco encontradas no cordão umbilical, na medula
óssea e um pouco espalhadas por todo o corpo humano. Incentivamos a
continuação das pesquisas, visando descobrir outras fontes para se obter
células-tronco, sem recorrer aos embriões humanos.
A vida humana, que é fim em si mesma, deve ser respeitada sempre, desde a
sua concepção até o seu termo. Não é lícito jamais sacrificar uma vida
humana já presente no embrião em benefício de outra. É necessário, portanto,
rejeitar com firmeza a produção de embriões, e a utilização de embriões já
existentes, tanto para pesquisas, quanto para eventual produção de tecidos e
órgãos.
Preocupa-nos a maneira apressada com a qual certas pessoas e entidades se
pronunciam em relação à denominada terapia gênica, como se por meio dela
pudessem ser sanados todos os males do mundo. A vida saudável não se reduz
aos genes nem aos organismos, mas remete a relações sociais, econômicas,
políticas, afetivas e espirituais. Há pessoas e grupos que mais parecem
vendedores de ilusão de vida fácil do que preocupados com a saúde e a vida
de todos.
Ainda que devamos buscar minorar os sofrimentos provenientes de falhas
genéticas, de acidentes e de doenças degenerativas, preocupa-nos,
igualmente, a exploração emocional oriunda da exposição na mídia de
portadores de necessidades especiais.
Diante destes pressupostos e baseados no Evangelho da Vida, confiamos que
os Senhores Senadores não se deixarão dobrar pela pressão de grupos que
investem na biotecnologia para auferir lucros.
A liberação, sem mais, de embriões para obter células-tronco, se nos
afigura não como sinal de progresso, mas como sinal de uma postura antiética
sem precedentes na história, porque sacrifica vidas humanas.
Por que não conceder a esta questão tão importante o tempo necessário
para a justa ponderação dos aspectos complexos, científicos e morais, sem
precipitar decisões com graves conseqüências? Em muitos países de avançada
tecnologia, a questão permanece em profundos estudos e debates.
Na certeza de que nossos legisladores hão de se orientar pelo valor
supremo da vida humana na elaboração das leis, pedimos a Deus que os guie no
alto desempenho de sua missão legislativa.
Atenciosamente, agradecemos a Vossa Excelência o empenho pessoal na
defesa desta causa em prol do padrão ético do povo brasileiro.
Pelo Conselho Permanente,
a Presidência da CNBB,
Cardeal Geraldo Majella Agnelo,
Arcebispo de São Salvador da Bahia e
Presidente da CNBB
Dom Antônio Celso de Queirós
Bispo de Catanduva-SP e
Vice-Presidente da CNBB
Dom Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São Paulo
e Secretário-Geral da CNBB