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O clone de Hitler
Victor Peregrino
Há coisa de vinte anos fez relativo sucesso no
cinema e na TV um filme denominado “Os Meninos do Brasil”, adaptação de livro
homônimo, cujo tema era a presença, no Brasil, do Dr. Joseph Mengele, o monstro
de Auschwitz, notório por suas experiências “científicas” com seres humanos
vivos.
Naquela peça de ficção, o médico nazista vivia em
nosso país com nome suposto, dedicando-se, ainda, ao mesmo gênero de
experiências com a reprodução humana, mas agora com o objetivo de criar um clone
de Adolf Hitler, a fim de promover a ressurreição do partido
nacional-socialista.
Embora o enredo fosse classe “B”, com
inverossimilhanças primárias e inexatidões geográficas e históricas típicas de
Hollywood, não deixa de ser curioso o seu caráter quase “profético” em alguns
pontos.
Com efeito, pouco tempo depois descobriu-se que
Mengele vivera de fato no Brasil, sob falsa identidade, escapando às redes das
organizações anti-nazistas e do serviço secreto israelense, sob o disfarce pouco
criativo de “pacato senhor alemão”, morador de uma chácara na aprazível estância
de Atibaia, São Paulo. Aqui viveu, possivelmente sem temor nem remorsos, e
morreu por afogamento, vindo sua identidade a ser estabelecida apenas
postumamente, por exames médico-legais.
Quanto a experimentos científicos, nada, nem
bons, nem maus; mesmo porque nosso país nutre uma notória aversão pela pesquisa
e pelas ciências naturais em geral, preferindo os poucos neurônios que aqui
medram dedicar-se à área “social”, geralmente pela clonagem de idéias francesas.
O outro ponto em que o filme mostrou-se
visionário foi na antecipação do “progresso científico” na área da biologia
reprodutiva.
Num laboratório secreto em meio à selva, à la
“Doktor Mabuse”, o cientista louco cinematográfico dos “Meninos do Brasil”
executava a fertilização in vitro de um óvulo esvaziado do próprio
material genético e preenchido com o ADN de Hitler. O citoblasto era depois
multiplicado, dando origem a vários embriões, posteriormente implantados em
outras tantas voluntárias de “pura raça ariana”. Perdão pela descrição obscena.
No entanto, obscenidades maiores perpetram-se
atualmente, em plena luz do dia, em laboratórios moralmente assépticos de
ilibadas instituições de pesquisa e acreditadas multinacionais farmacêuticas,
sob os aplausos unânimes da mídia, que as alardeia como nada menos que a
redenção da humanidade dos males da doença, da velhice e da morte.
Ultimamente voltaram os órgãos de imprensa a
exigir a liberação, no Brasil, da pesquisa com células-tronco embrionárias, como
já sucede em “todos os países adiantados”, sob pena de cairmos num irremissível
atraso tecnológico.
Trocado em miúdos, o que se pretende é a produção
de embriões humanos para fins de pesquisa, ou seja, para serem sacrificados,
aproveitando-se sua células para, teoricamente, criar órgãos artificiais não
passíveis de rejeição. Com isso, diz-se, poderiam ser curadas doenças
degenerativas e outras causadas por perda ou lesão de tecidos especializados.
“Mas isso não seria maravilhoso?” – argumenta o
cantochão da mídia – “o fim do diabetes, do Mal de Alzheimer, da paralisia e da
doença coronariana, e até, quem sabe, da velhice e da morte? Somente os mais
reacionários inimigos da humanidade, imersos nas trevas do obscurantismo
anti-científico, podem opor-se a tão esplêndido progresso”. Há pouco, até, um
articulista do semanário “Veja” defendia a liberação da “pesquisa” com embriões
humanos, propondo, ironicamente, para apaziguar os “fundamentalistas
religiosos”, que estes ficassem eximidos de beneficiar-se com os avanços da
medicina dela resultantes.
Brilhante. Na mesma linha de raciocínio
utilitarista e aético, por que não, para acabar com a fome, liberar também a
antropofagia? Para calar os “objetores de consciência” viria a advertência, nos
rótulos de mortadela e de salsicha, de que as mesmas podem conter “proteínas
humanas”, nos moldes do que já sucede com os produtos de soja geneticamente
modificada.
Curiosamente, a campanha midiática coincidiu com
a tramitação, no Congresso Nacional, da nova lei de biossegurança, que traz, de
contrabando, a famigerada liberação da pesquisa com embriões congelados, como se
fosse um consenso da comunidade científica a absoluta necessidade desse crime
para o avanço da medicina.
Bem ao contrário, sabe-se que a pesquisa com
células-tronco – presentes também na medula óssea dos adultos e no sangue do
cordão umbilical dos neonatos - pode prosseguir sem o sacrifício de vidas
humanas, e que nada está assegurado quanto ao resultado de tais investigações na
cura de doenças.
Trata-se, isto sim, de mera hipótese de trabalho,
que pode ou não resultar em algum progresso na área médica, fato que é
cuidadosamente omitido no estardalhaço propagandístico da imprensa, para o qual
a cura de todos os males já constitui favas contadas, dependendo apenas da
aprovação da pesquisa com embriões. Aliás, os modestos avanços já alcançados
foram-no com células-tronco adultas, extraídas do próprio paciente.
De resto, ainda mais curioso é o açodamento com
que se procura liberar pesquisas com seres humanos, quando a ciência não é capaz
de ostentar um único caso de clonagem terapêutica bem sucedido em animais,
invertendo assim totalmente a ordem de qualquer investigação médica séria, que
primeiro testa os novos métodos in anima vile, para somente após
comprovada sua efetividade e segurança experimentá-los em pessoas.
Quanto às falaciosas promessas da “ciência”, a
mera sugestão de imortalidade neste mundo evoca, de imediato, a promessa da
Serpente no Gênesis: “Não, não morrereis, mas sereis como deuses”.
Sob a película dourada do poder sobre a morte e o
engodo mendaz da eterna juventude, sempre se pode enganar a humanidade com o
velho sonho faustiano.
Outrora era a magia a fazer tais promessas;
atualmente, para satisfazer as mentes cépticas do tempo, é mister o disfarce de
uma pretensa “ciência” onipotente, que é antes uma gnose materialista,
autoproclamada capaz de transformar o homem no demiurgo de si mesmo. E, para
realizar o milagre, bastaria pagar um preço irrisório: o sacrifício de algumas
células, mero apêndice temporário e descartável do corpo feminino.
Mas na verdade esse preço é exorbitante – é nada
menos que um sacrifício humano. Mais ainda, é a apostasia universal de toda
espiritualidade, a negação da humanidade do homem e do primado de Deus, tudo
resumido na imolação da vida de uma criança sem nome.
Curiosamente, os extremos se tocam. Ciência e
magia são antípodas: a primeira, epítome da razão e do conhecimento; a segunda,
exemplo de irracionalismo e ignorância. E, no entanto, assim como o sangue dos
inocentes é, para a magia, ingrediente indispensável das poções mágicas de
perene juventude, a “ciência” – ou antes, a religião materialista que usurpou
esse nome - apenas exige, para a cura da velhice, da dor e da morte, uma
pequenina dádiva: vidas inocentes.
Sofismam os apologistas do aborto que um embrião
não é um ser humano. Mas sequer são necessárias razões teológicas ou metafísicas
para desmascarar a falácia desse embuste. Bastam argumentos “ad hominem”,
estritamente materialistas. Basta a dialética de Hegel: se o ser é aquilo que
ele se torna (Wesen ist was gewesen ist), um embrião humano é
inegavelmente um ser humano.
Responda qualquer biólogo às seguintes questões:
1º) Um ovo humano (zigoto) é um ser vivo? 2º) Do ponto de vista genético, esse
ser é um indivíduo único e completo? 3º) Taxonomicamente, esse indivíduo pode
ser classificado como um exemplar da espécie Homo sapiens? Se as
respostas forem positivas, não haverá como negar que um aborto intencional é um
homicídio.
Então, o que a “ciência” nos propõe é que, para o
progresso da medicina, para curar doenças e salvar vidas, impõe-se o homicídio
de alguns indivíduos isolados. O que está de pleno acordo com a ideologia
socialista, para o qual o interesse do indivíduo deve ceder ante o da
coletividade.
Se a proposta fosse feita tendo como sujeitos
indivíduos adultos determinados, colocar-se-ia de imediato a questão ética. Isto
é, para curar-se o diabetes do sr. João da Silva, justifica-se o abate, em
laboratório, do sr. José Severino, cidadão com rosto, nome, RG, título de
eleitor e carteirinha do PT? Parece que qualquer pessoa responderia, indignada,
pela negativa, inclusive o sr. João da Silva (é possível que com alguma
relutância).
Suponhamos, porém, que a vítima fosse um
indivíduo indeterminado, desconhecido, e que ninguém ficasse sabendo da escolha.
Uma morte secreta, quem sabe na distante China, e – abracadabra – a cura
instantânea do sr. João. Não é difícil identificar o tema de “O Mandarim”, de
Eça de Queirós, e quem o leu conhece a escolha que faria, em proveito próprio, o
bacharel mediano. Já se se tratasse de um benefício vago e geral, a concordância
ainda seria problemática.
Imaginemos agora, avançando ainda mais no mundo
das hipóteses, que o bode expiatório da “ciência” pertencesse a alguma “sub-raça“
duvidosamente reconhecível como pertencente à espécie humana, cujo
sacrifício por uma nobre causa, se não fosse uma unanimidade, contaria ao menos
com a indiferença da maioria. E voilà, aí temos a receita nazista e a
justificação do Dr. Mengele.
O embrião é a “sub-raça” ideal. Não tem
rosto humano reconhecível, não vota nem tem voz para protestar, não é sequer
capaz de viver por si mesmo; nenhuma organização anti-racista ou promotora dos
direitos humanos se ergue em seu favor – bem ao contrário. O holocausto
silencioso de milhões de vidas humanas todos os anos a poucos comove, e estes
não têm poder político relevante, que mereça ser levado em conta.
O que se busca, com toda essa campanha em prol da
“ciência”, por vias transversas, é a legalização do aborto, contrária ao
sentimento da sociedade brasileira, mas item prioritário da agenda internacional
de globalização, que não pode atingir seus fins sem a destruição da família, da
moral e da religião.
Tudo se passa como se uma estratégia mundial
estivesse em marcha para suprimir, da civilização ocidental, todo resquício de
cristianismo, o que se patenteia pelo surgimento simultâneo, em todo o ocidente,
como exigência dos “direitos humanos”, dos temas da liberação do aborto, da
eutanásia, da pesquisa com embriões e outras abominações, que têm em comum a
oposição frontal à moral cristã. No entanto, ironicamente, o sucesso dessa
estratégia – se fosse possível - acarretaria o fim dessa mesma civilização, que
não pode subsistir sem a raiz espiritual que a gerou.
Mas também o aborto legal é apenas um meio para
alcançar o objetivo maior, que é a coisificação do ser humano, a sua
transformação em matéria-prima e mercadoria, fungível em riqueza pelo
conhecimento e pelo poder. O genoma humano é uma fonte inesgotável de novos
produtos químicos e biológicos, patenteáveis pela indústria farmacêutica.
A escravidão foi superada. Não vale mais o homem
como “peça” da engrenagem produtiva, só pelo trabalho que pode realizar. Cumpre
que ele venha a tornar-se uma mercadoria em si mesmo, comerciável no retalho de
suas células e de seu código genético.
O poder é o que está em jogo, na verdade.
Derrubado o princípio, chegar-se-á inexoravelmente às últimas conseqüências: diz
um ditado holandês que, abrindo-se num dique uma fenda, bastante para vazar uma
gota, por ela passará o mar. Ou, na versão caipira: “por onde passa boi, passa
boiada”.
Quando a vida humana deixar de ser um Dom Divino
para tornar-se mero fenômeno bioquímico, e depois simples mercadoria, a vida e a
morte de cada um, quem tem o direito de viver ou o dever de morrer, serão mera
questão de conveniência e decisão política. Os donos do poder e do dinheiro
serão também senhores da vida e da morte, e os votos dos políticos – no
Congresso e nos Tribunais – decidirão quem é gente e quem é coisa.
Nesse dia, da fusão de capitalismo e socialismo, nascerá o “admirável mundo
novo”, em que o poder estatal e financeiro será tudo, e o indivíduo humano menos
que nada.
Nesse dia, a “ciência” – ou aquilo que lhe
usurpou o nome - renderá seu tributo ao Dr. Joseph Mengele, um “gênio
incompreendido”, um “homem muito à frente do seu tempo”, um “verdadeiro mártir
do progresso”.
Defenestrado o anacrônico Hipócrates, merecerá
plenamente o Dr. Mengele o título de patrono da “medicina do futuro” – simulacro
da verdadeira medicina, porque desprovida de ética - e a clonagem de Hitler
ter-se-á tornado inteiramente desnecessária.
Libera nos, Domine.
Victor Peregrino
SP, 10/10/04. |