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Pergunta

** Peixes no Dilúvio

De: Marta
Enviada em: Quinta-feira, 04 de setembro de 2003
Localidade: São Paulo, SP
Religião: Católica
Idade: 47
Escolaridade: 2.o grau completo

Prezado Sr Fábio Vanini.

Saúde.

Se fora da Arca não há salvação, por que os peixes salvaram-se.

Choveu 4,4 trilhões de quilômetros cúbicos de água necessários para cobrir a terra quinze côvados acima dos mais altos montes. Essa quantidade de água é suficiente para inverter a salinidade da água do mar. Além disso, quando o mar está subindo ele vai salgando as águas dos rios. Morrem os peixes de água salgada e morrem os peixes de água doce. Ninguém disse que eles morrem afogados. Morrem pela alteração na salinidade da água do mar. Não falei em ursos polares que voam até a Mesopotâmia. Eles vieram andando orientados (ou tangidos) por anjos. Não questiono se animais pecam ou não. O fato é que Dilúvio exterminou animais, mas peixes, supostamente não. Por que esta exceção? Se nenhum pecou, então não se destrua nenhum. Se todos se corromperam, então destruam-se todos. Em Gn 6:7 Deus diz-se arrependido de haver criado homens e animais. Por que este Santo Ódio não se aplica a peixes ? Os animais não serão redimidos ? Não está escrito que o leão comerá palha e viverá em paz com o boi ?

Saudações Marta

Resposta

Cara Sra. Marta, salve Maria,

A senhora se diz católica mas está se iludindo com um dos maiores erros protestantes, que é o livre exame das Sagradas Escrituras. Porém, cuidado para não cometer um erro mais bruto ainda, que é leitura incompleta ou parcial da Bíblia. Trataremos disso ao longo da carta.

Quando digo que a Arca de Noé é figura da Igreja Católica, pois quem está fora dela não se salva, não me refiro aos animais, óbvio, mas às almas. Repito: Não há redenção para animais, apenas para homens. A redenção de Cristo se aplica, subjetivamente, àqueles que livremente a aceitam com fé. Animais não tem inteligência e vontade, potências da alma que nos levam a querer um bem conhecido. Portanto, e definitivamente, esqueça a redenção de qualquer criatura que não seja da espécie humana.

Quanto à meteorologia: onde, nas Sagradas Escrituras, está escrito que choveu esse universo de água, que a senhora conta? É certo que o livro do Gênesis diz, que "todos os mais elevados montes que há sob o céu, ficaram cobertos". Mas também diz: "A água elevou-se quinze côvados acima dos montes, que tinha coberto" (Gn 7, 20). Ou seja, outros montes possivelmente não foram cobertos. Estamos diante de um uso possível de figura de linguagem, semelhante a quando Deus diz que "estendeu sua mão", "inspirou no seu rosto um sopro", "arrependeu-se de ter feito o homem", etc. Deus não tem mão, nem pulmões, nem pode errar e se arrepender depois. Assim, a elevação das águas acima dos montes não obriga a crer que todos os continentes foram submersos. Para provar-lhe isso, tomo uma outra passagem, com informações mais precisas. Após cessar o dilúvio, sabemos que a arca de Noé parou no monte Ararat ao sétimo mês, no vigésimo sétimo dia do mês (Gn 8, 4). As águas continuaram a baixar e, no primeiro dia do décimo mês, portanto mais de dois meses depois, "apareceram os cumes dos montes" (Gn 8, 5). Portanto, temos mais uma passagem que mostra que os montes cobertos não são o Everest ou o K2, pois o Ararat parece ser o primeiro a ser descoberto pelas águas. Sabemos que, atualmente, denomina-se monte Ararat ao monte mais elevado da região da Armênia. Logo, ele deve ter emergido antes dos outros, evidenciando o que relata o texto sagrado.

Agora, supondo que os peixes tivessem morridos TODOS, por causa da salinidade, como a senhora defende. Me parece que a senhora tem pouca instrução ictiológica, pois qualquer aquarista sabe que há muitas espécies de peixes que habitam águas doces ou salgadas simultaneamente. O lebiste é um caso típico.

Já foram encontrados tubarões de água salgada há dezenas de quilômetros para o interior do Rio Amazonas. Além disso, há uma infinidade de espécies de peixes que habitam as águas salobras, onde a salinidade varia muito e bruscamente, conforme a maré.

Portanto, muitos peixes sobreviveriam facilmente durante o dilúvio.

Temos também, no livro do Gênesis, o que está dito: "Exterminarei da face da terra o homem que criei, desde o homem até aos animais, desde os répteis até as aves do céu" (Gn 6,7). O texto grifado se refere às categorias de animais que seriam exterminadas. E Noé tomou "das aves, segundo sua espécie, e das bestas, segundo sua espécie, de todos os répteis da terra, segundo sua espécie" (Gn 6,20), porém não tomou nenhum peixe, segundo sua espécie. E da arca saíram "todos os animais que estão contigo, de todas as espécies, tanto de aves como de bestas, e de todos os répteis, que andam de rasto sobre a terra, e saí para a terra" (Gn 8,17). E continua dois versículos adiante: "E também saíram da arca todos os animais selváticos e animais domésticos, e os répteis, que andam de rasto sobre a terra" (Gn 8, 19). Novamente, não são mencionados os peixes, Sra. Marta, que são tão citados no relato da criação.

A senhora afirma: "Se nenhum pecou, então não se destrua nenhum. Se todos se corromperam, então destruam-se todos". Lembre-se que quem pecou foi Adão e as conseqüências desse pecado é que corromperam a natureza das criaturas. Nenhum animal pecou, nem pode pecar, não havendo necessidade para a justiça de exterminá-los a TODOS em absoluto. O pecado do homem tem culpa infinita, e nem o extermínio de todo o Universo seria o suficiente para pagar essa dívida.

Portanto, não há necessidade absoluta de se exterminar os peixes e todos os animais para satisfazer a justiça de Deus.

O texto de Isaías (65, 25) diz que: "O leão e o boi comerão palha". Ora, no céu não há necessidade de alimento, como ensina S. Tomás (Suma Contra os Gentios, Livro IV, cap. 83), pois os corpos serão incorruptíveis. Logo, o profeta Isaías não poderia estar falando sobre a cadeia alimentar dos animais no céu.

O profeta faz alusão, como em suas outras profecias, à vida de Cristo e da Igreja Católica. Logo, a tal profecia traz os animais como símbolos de determinados tipos de homens. O leão, com sua majestade, simboliza um rei qualquer e o boi, por causa do trabalho e da canga que ele carrega, representa o servo. Ambos, rei e servo, se alimentarão dum mesmo alimento, que é a hóstia, quando viesse a Igreja de Cristo.

Sra. Marta, São Pedro, na sua primeira carta (3, 20-21) explica que a arca de Noé é figura do sacramento do batismo, sem o qual ninguém pode ir para o céu. Ora, animais não podem ser batizados e o centro da criação e da redenção é o homem. É certo que Cristo mandou pregar o evangelho a toda a criatura e Santo Antônio pregou aos peixes, num de seus mais famosos milagres. Contudo, garanto que os peixes naturalmente não ouviram a pregação de Santo Antônio, e se algum padre por aí começar a ensinar o catecismo para cães e gatos, deverá ser levado rapidamente ao hospício. Ensinar a todos, como Cristo mandou, exige que, quem ouve, seja uma criatura de natureza racional, o que exclui qualquer animal ou planta.

Espero ter podido ajudá-la.

In Corde Iesu,

Fábio Vanini.

 


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