Prezada T.C.S., Salve Maria.
Muito obrigado por suas palavras que são por demais generosas. Peço-lhe que reze, para que Deus me conceda a graça de bem responder, quando for interrogada sobre nossa Santa Fé.
Entre as quase duzentas cartas que tenho que responder, resolvi responder à sua pergunta, porque trata da glória de Maria Santíssima, Mãe de Deus e nossa.
Você me pergunta: "Por quê Nossa Senhora é citada pouquíssimas vezes na Sagrada Escritura, Bíblia?"
Essa pergunta é bem respondida por São Luís de Montfort. Para explicar o relativo silêncio sobre Nossa Senhora nos Evangelhos, diz São Luís que concorreram duas razões principalmente: 1) a humildade de Nossa Senhora; 2) o perigo que haveria para os primeiros cristãos de caírem em erro, julgando Nossa Senhora uma deusa, tal era a sua grandeza.
Para povos provenientes do paganismo, o perigo de imaginar Nossa Senhora como divina era real. Por isso, para fazer a atenção dos cristãos concentrar-se em Cristo Deus encarnado, e para evitar o perigo de idolatria, ela se ocultou e Deus a ocultou.
Entretanto, disse-lhe eu pouco acima, esse ocultamento é relativo, porque se se examinam com atenção as palavras que o Evangelho diz de Maria Santíssima, fica-se bem esclarecido sobre o valor inigualável dela.
Assim, por exemplo está dito que o anjo saudou a Virgem Maria. Ora, na Sagrada Escritura, jamais se disse coisa semelhante de ninguém.
Os anjos, sendo criaturas muito mais perfeitas que os homens, quando aparecem a alguém, eles, os anjos é que são saudados, reverenciados, venerados, e não o contrário. Abraão saudou os três anjos que lhe apareceram.O Profeta Daniel nem conseguia ficar de pé diante do anjo que lhe apareceu. Mas o anjo Gabriel saúda Maria Santíssima com palavras incríveis, que, se não estivessem registradas no Evangelho de São Lucas, nunca se imaginaria que pudessem ter sido ditas por um anjo a uma criatura simplesmente humana: "Ave, cheia de graça. O Senhor é contigo" (Luc. I, 28).
Ele a diz cheia, plena de graça e que Deus estava com Ela. Ora, isto significa que Maria recebera tanta graça de Deus que nela era impossível "caber", haver mais graça. Isto é que significa plena de graça.
Deus onipotente, escolheu Maria para ser a Mãe do Verbo de Deus encarnado, Cristo.
Diz São Luís de Montfort que Deus podia dar a Maria todos os bens que quisesse. Diz ainda que era muito justo e conveniente que Ele a criasse com o máximo de qualidades possíveis, para que Ela estivesse, ao máximo possível para uma criatura, proporcionada ao filho que ia ser gerado em seu seio. Que, se é natural que o filho se pareça com a Mãe, como deveria ser perfeita aquela a quem o Verbo de Deus encarnado deveria naturalmente se parecer?
Argumenta ainda São Luís, perguntando: qual o filho que, se pudesse, não daria à sua mãe todas as qualidades? É claro que qualquer bom filho, se pudesse, daria à sua mãe todas as qualidades possíveis. Mas isto ninguém pode fazer, a não ser Deus.
Cristo é por excelência o Filho Bom, e Ele é Deus. Logo, Ele poderia dar à sua Mãe todas as qualidades possíveis. Convinha que Ele o fizesse. Logo, Ele deu a Maria todas as qualidades possíveis num ser puramente humano. Por isso, o anjo a disse "cheia de graça".
E no nome de Maria já há uma insinuação dessa plenitude de perfeição, pois diz São Luis, o maior Doutor mariano: "Deus reuniu todas as águas em um lugar e as chamou de Mária. Reuniu todas as graças numa Mulher e a chamou de Maria.
No Evangelho se mostra ainda toda a grandeza de Maria confessada pela boca de Isabel, que pergunta a ela, quando recebeu a sua visita: ."De onde me vem a dita que a Mãe de meu Senhor venha ter comigo?"(Luc I, 43). Está no Evangelho que os protestantes, na realidade, não aceitam: Isabel chama a Maria "a mãe de meu Senhor", a mãe de Deus.
E Isabel confessa ainda que bastou a voz de Maria para fazer João Batista ser capaz de se alegrar -- isto é de compreender -- ainda em seu seio, que ela estava recebendo a Mãe de Deus, portando o próprio Deus em seu seio virginal.
E o Evangelho demonstra a humildade de Maria e sua grandeza, quando conta as palavras dela: "Porque Deus olhou para a baixeza de sua escrava" (humildade)( Luc I, 48) "Grandes coisas fez em Mim Aquele que é onipotente"(Magnanimidade) (Luc I, 49). Ela reconhece sua baixeza, e que foi Deus que fez nela grandes coisas, que ela humildemente não conta quais sejam. E acrescenta ainda que, por isso, "todas gerações me chamarão de bem aventurada" (Luc I, 48).
Depois, no Evangelho de São Mateus, está dito que os magos "viram o menino com Maria sua mãe" (Mt.II, 11).
Para quem vê o Menino Jesus, Deus encarnado, nada mais deveria ou precisaria ser lembrado. Entretanto, o Evangelho, ditado pelo Espírito Santo, faz questão de dizer que os magos viram o Menino Deus com sua Mãe. De tal modo ela tinha valor, que é citada ao lado de Deus: os magos vira o Menino com sua Mãe.
Porque fora profetizado por Isaías que Deus daria um sinal para que se conhecesse o Redentor, e esse sinal era a Virgem Mãe; "Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal: Uma Virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será Emanuel" (Is. VII, 14).
Por isso, Cristo nasceu de uma mulher, para ficar claro e provado que Ele era um homem. E quis nascer de uma Virgem, para que ficasse claro e provado que Ele era Deus.
E o sinal que Deus nos deu para encontrarmos a Cristo foi a Virgem Mãe, Nossa Senhora,. Por isso não se pode encontrar a Cristo sem Maria. Mentem, pois, os protestantes que julgam ter encontrado a Cristo sem Maria, pois se não O encontram com Maria não é ao verdadeiro Jesus que eles encontram.
Eles, os magos, abrindo os seus tesouros deram incenso, mirra e ouro. Cristo e Maria receberam ouro, sim. Mas, Maria, generosíssima, logo deu o ouro aos pobres, ela que era pobre. E o que prova que ela deu o ouro recebido dos magos?
Que ela logo deu o ouro aos pobres, se prova pelo fato que, quando Ela foi apresentar o Menino Jesus no templo, ela deu como preço de resgate um par de rolinhas, que era o que a Lei exigia de quem fosse pobre (Luc. II, 24).
Foi por meio dela que Cristo nasceu para nós. Foi por meio dela -- pelo seus rogos -- que Ele fez o seu primeiro milagre em Caná, apesar de ainda não ter soado a hora de Ele fazer milagres. Entretanto, tal é o poder de Maria, poder dado por Deus, que Cristo a atendeu mudando a água em vinho. Fez esse milagre para nos mostrar que Ela é a nossa medianeira e advogada, com tal poder de súplica sobre Ele, que ele a atende ainda que não estivesse em seus planos fazer o que Ela pede.
E Cristo a chama de "Mulher" duas vezes: a primeira vez, em Caná da Galiléia (Veja, por favor, no site Montfort, meu artigo sobre as Bodas de Caná); a segunda vez, no Calvário e do alto da Cruz. Na primeira vez , quando instituiu o matrimônio e fez seu primeiro milagre na ordem da natureza. A segunda vez, quando nos redimiu com sua morte na cruz.
E por que Ele a chamou de "mulher"?
Os protestantes vêem nesse chamado um desprezo. Na realidade, Ele a chamou de "Mulher" como Pilatos o chamou de o Homem : "Eis o Homem".
Cristo disse que ela era A Mulher, aquela que fora profetizada no Gênesis quando Deus amaldiçoou a serpente: "Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua raça e a dela, e ela mesma te esmagará a cabeça. E tu lhe armarás traições a seu calcanhar" (Gen. III, 15).
Maria é essa mulher cujo Filho esmagaria a serpente. Deus colocou ódio entre os descendentes dessa mulher -- os filhos da Virgem Maria, que a aceitam por mãe, como Cristo disse no Calvário -- e os filhos do demônio, porque o demônio também tem "filhos"-- não fisicamente, porque ele é um anjo decaído -- mas filhos "espirituais" do diabo, que querem fazer a vontade de seu pai, o demônio.
Não disse Cristo aos fariseus: "Vós tendes por pai o demônio e quereis fazer a vontade de vosso pai" (Jo VIII, 44)?
Logo, na História, há uma luta entre os filhos da Mulher -- a Virgem Maria-- e os filhos do demônio, e Nossa Senhora esmagará a cabeça do demônio, enquanto ele no decorrer da História, continuamente suscita traições aos que são bons.
Você repare, minha cara, como os verdadeiros devotos de Nossa Senhora sofrem, em sua vida, muitas traições...
O próprio Cristo, então, a chamou de a "mulher", porque Maria era A Mulher por excelência, aquela que fora profetizada no Gênesis. Não, a Mulher como se tornou depois do pecado, nem mesmo a mulher "tal qual saiu das mãos de Deus no esplendor da manhã original", como disse um poeta.( Paul Claudel) Porque ele disse mal, disse insuficientemente, porque Maria foi não apenas Eva restaurada, mas muito mais que Eva. Quase infinitamente mais que Eva. Maria foi a mulher por excelência, o ser humano mais perfeito, excetuando-se a santíssima Humanidade de Jesus Cristo, porque Cristo é Deus também, e Maria é uma simples criatura.
Noutra ocasião, do alto da Cruz, Cristo disse a Maria: "Mulher, eis aí teu filho". "Depois, disse ao discípulo"'Filho, eis aí tua mãe"( Jo, XIX, 26-27).
Esse foi o testamento de Cristo, no Calvário: dar-nos Maria Santíssima como nossa mãe, e dar-nos a ela como seus filhos.
"E desta hora por diante, a levou o discípulo para sua casa" (Jo. XIX, 27).
Desde então, quem não toma a Maria por sua Mãe, não tem a Cristo Deus como seu Pai.
Como diz Dante de Maria Virgem:
Vergine Madre, figlia del tuo figlio, Virgem Mãe, filha de teu Filho,
umile ed alta più che creatura, humilde e mais excelsa que qualquer criatura
termine fisso 'etterno Consiglio, objetivo fixo da eterna Sabedoria,
Tu sei colei che l' umana natura Tu és aquela que de tal modo
nobilitasti si che il suo fatore enobrecestes a natureza humana,
non disdegnò di farsi sua fatura, que seu Criador quis fazer-se sua feitura.
Nel ventre tuo si raccese l' anore Em teu seio se reacendeu o amor,
per lo cui caldo, nell'etterna pace por cujo ardor, na eterna paz,
così è germinato questo fiore. assim germinou esta flor (dos anjos e dos santos no céu)
Qui se' a noi meridiana face Aqui és para nós cleríssima face
di cariatate, e giuso, intra i mortali de caridade, e lá em baixo, entre os mortais,
se' di speranza fontana vivace. és de esperança fonte vivaz.
Donna, sei tanto garnde e tanto vali, Senhora, tu és tão grande e tanto vales.
che qual vuol grazia ed a te non ricorre, que quem quiser graça e a ti não recorrer,
sua disianza vuol volar senz' ali seu desejo é o de voar sem ter asas.
:
La tua benignità non pur soccorre A tua benignidade, não só socorre
a chi domanda, ma molte fiate a quem pede, mas muitas vezes,
liberalmente al dimandarpreccorre. generosamente ao pedir precede.
In te misericordia, in te pietate, Em ti misericórdia, em ti piedade,
in te magnificenza, inte s' aduna em ti magnificência, em ti se
reúne
quantunque in creatura è di bontate" tudo quanto na criatura há de bondade" (Dante, Paradiso. XXXIII, 21).
E no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís de Montfort afirma que Deus foi permitindo que a devoção a Maria fosse lentamente desvelada até os últimos tempos, quando Ela terá um papel extraordinário no combate ao Anticristo, pois que no Apocalipse está escrito: "Apareceu um grande sinal no céu uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo de seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça" (Apoc. XII, 1). Visão essa que lembra muito a imagem de Fátima da qual disseram as três crianças videntes: "Era uma Senhora mais brilhante do que o sol", sem saber que estavam repetindo um versículo da Sagrada Escritura: "Quem é aquela, que avança como a aurora quando se levanta, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército em ordem de batalha?" (Cant. VI, 9).
E ela tem a lua, -- o símbolo da mobilidade, do relativismo-- a seus pés, representando como aquilo que é estável, como a verdade esmaga o que é móvel, e relativo, e passageiro.
Ela é representada também pisando a lua e pisando a serpente, porque Deus , sendo ato puro, é absolutamente imutável, enquanto o demônio se retorce, mudando sempre de querer, em seus caprichos, frutos da mentira.
E ela tem uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça, porque embora Maria não tenha tido jamais nenhuma autoridade jurídica na Igreja, e jamais procurou exercer autoridade sobre os doze Apóstolos, os doze a amavam como sua mãe e Senhora.
Eis porque a Bíblia falou pouco explicitamente sobre a Virgem, mas o que falou dela -- embora pouco -- é sublime e elevado.E de ninguém mais foi dito igual.
Quanto a livros sobre Nossa Senhora, recomendo-lhe, mais que todos o "Tratado da Verdadeira Devoção à Nossa Senhora " de São Luís de Montfort. É um livro pequeno e fácil de ser encontrado em livrarias do Brasil. Recomendo-lhe ainda, o Glórias de Maria de Santo Afonso de Ligório. Leia ainda São Bernardo, que foi um grande devoto de Nossa Senhora.
Que Nossa Senhora a guarde em sua proteção maternal, e a faça forte e virtuosa como ela.
In Corde Jesu, et Mariae, semper,
Orlando Fedeli