ELEMENTOS MESSIÂNICOS NA SEITA ISMAELITA DE
ALAMUT
Orlando Fedeli
I - Introdução
O ismaelismo reformado de Alamut surgiu no século
XI graças à figura legendária de Hassan ibn Sabbah, conhecido no Ocidente como "o
velho da montanha".
Na fortaleza de Alamut - o ninho da águia, em 1126, Hassan
Sabbah estabeleceu a sede de uma seita que estendeu sua influência por amplas regiões do
Oriente, e que só terminou com a conquista de Alamut pelos mongóis, em 1256.
O esoterismo islâmico apresenta duas correntes principais:
o shiismo e o ismaelismo. E se "La doctrine ismaéliène" é "la
forme par excellence de la gnose en Islam" ["A doutrina ismaelita é a forma
por excelência da gnose no Islam"] (Henry Corbin, Histoire de la Philosophie
islamique, vol. I, p. 118 - Gallimard, Paris, 1964), a seita de Alamut, um dos ramos do
islamismo, é, talvez, a mais tipicamente gnóstica do ismaelismo.
A tomada da fortaleza de Alamut pelos mongóis de Houlagou
acarretou a destruição da biblioteca e dos escritos de Hassan Sabbah, por ordem do
historiador Djouénny, a serviço de Houlagou. Desde então, só restou a lenda de Alamut
que cercou a figura de Hassan Sabbah de um anedotário rocambolesco, misterioso, que
dificultou o conhecimento histórico real de sua doutrina.
As recentes descobertas de textos de Hassan Sabbah, entre
remanescentes do ismaelismo na Índia, permitiram um conhecimento mais definido do
pensamento gnóstico do Velho da Montanha. Deve-se isto aos trabalhos de Ivanow e de Henry
Corbin; este último, um adepto ocidental do shiismo.
Ainda assim, os danos produzidos pela destruição
mongólica foram tais, que muitos pontos da doutrina e da história de Hassan Sabbah
continuarão para sempre indecifráveis, contribuindo, desse modo, para que as brumas da
lenda e do mistério continuem envolvendo a fortaleza de Alamut e a figura enigmática do
Velho da Montanha.
II - O esoterismo islâmico
Para se entender o problema do esoterismo islâmico é
preciso considerar duas coisas:
1- um problema interno e fundamental do Islam, que é o da
exegese corânica.
2- as influências externas que contribuíram para a formação da gnose maometana.
1 - O problema da exegese corânica
O Islam é uma religião que tem por base um livro
sagrado, que teria sido revelado por Allah a Maomé.
Maomé era analfabeto, e ditou a revelação a seus
discípulos ao longo de muitos anos. Das notas de seus discípulos é que ter-se-ia
elaborado o Corão.
O Islamismo é uma religião profética, e ele não se
constitui como uma sociedade religiosa eclesial. O Islam não é uma Igreja. Ele não
possui nem clero, nem uma hierarquia docente, como a que existe na Igreja Católica; e,
principalmente, no Islam não há um papa que detenha a autoridade magisterial suprema.
Isto cria para o Islam um problema doutrinário, semelhante
ao que existe entre os protestantes, a respeito do qual seja o verdadeiro sentido do
Livro. Era fatal surgir o problema da busca do sentido verdadeiro e oculto do Livro, visto
que a linguagem humana, necessariamente, utiliza termos unívocos, análogos e equívocos.
Como determinar, então, num texto, qualquer que ele seja,
o sentido de uma palavra? Não havendo autoridade magisterial para definir o sentido da
Revelação, torna-se fatal, também, a multiplicação de interpretações e,
principalmente, a distinção de dois sentidos fundamentais: um, literal ou exotérico,
para o vulgo; e outro, mais profundo e esotérico, para os mais sábios.
Desta distinção surgirão, evidentemente, dois tipos de
fiéis: os comuns, que se contentam com a "casca" da Revelação; e os
"eleitos", que se alimentam do núcleo da Revelação e que formarão uma elite
ou seita de escolhidos.
No Islam, se distinguem então: a Shariat, ou
religião positiva, exotérica e literalista; e a Hagiqat, religião esotérica que
possuiria o verdadeiro sentido do Corão.
A Shariat, religião positiva, é o símbolo que contém a
Hagiqat, ou simbolizado.
Para conhecer o sentido verdadeiro e esotérico do Corão
seria preciso: ou ter uma iluminação divina pessoal, ou receber a iluminação de um
guia, por meio de uma iniciação.
Em geral, aceita-se que há quatro sentidos fundamentais do
texto corânico. Segundo o Imam Jafar Sadiq, esses quatro sentidos são:
1) a expressão pronunciada ou literal - ibarat, que
é destinada aos homens comuns;
2) o sentido alusivo - isharat, destinado a uma elite;
3) o sentido oculto - lataif, relativo ao mundo supra-sensível, para os
"amigos de Deus";
4) e o sentido ou doutrina espiritual - haqaiq, para os profetas.
Doutrina semelhante teria sido ensinada pelo 1º Imam, isto
é, o primo e genro de Maomé, Ali ibn Abu -Talib:
"Il n'est point de verset corânique qui n'ait
quatre sens: l'éxotérique (Zahir), l'ésotérique (batin), la limite (hadd),
le projet divin (mottala). L'éxotérique est pour la récitation orale;
l'ésotérique est pour la compréhension intérieure; la limite, ce sont les énoncés
statuant le licite et l'illicite, le projet divin, c'est ce que Dieu se propose de
réaliser dans l'homme par chaque verset" (Henry Corbin, op. cit., p. 20).
["Não há verso corânico que não tenha quatro sentidos: o exotérico (Zahir), o
esotérico (batin), o limite (hadd), o projeto divino (mottala). O exotérico é para
recitação oral; o esotérico, para a compreensão interior; o limite, são os enunciados
que estabelecem o lícito e o ilícito; o projeto divino é o que Deus se propõe realizar
no homem por cada verso."]
E o próprio Corbin reconhece que estes quatro sentidos
correspondem aos quatro sentidos clássicos dos exegetas cristãos:
"Littera (sensus historicus) gesta docet, quid
credas (allegoria); moralis, quid agas; quid speras, anagogia" (H. Corbin, op.
cit., p. 15). [A letra (sentido histórico) os fatos ensinam, o que deves crer (alegoria);
sentido moral, o que deves fazer; o que deves esperar, anagogia].
Os doutores cristãos viam nos 3 sentidos mais profundos,
dependentes do primeiro sentido (histórico ou literal), uma imagem da Trindade na unidade
(cf. S. Boaventura - Brevilóquio, Prólogo IV, 2 in Obras completas de S. Boaventura,
vol. I, BAC; Edgar de Bruynes - "Estudios", vol. II, p. 327).
Esta teoria cristã dos quatro sentidos exegéticos parece
que foi adotada também pelos cabalistas judeus, conforme tende a reconhecer Scholem.
"Este aspecto quádruplo da Torá possui uma
similaridade marcante com os conceitos de certos autores da antiga Idade Média, como Beda
(século VIII)... Famosos, neste contexto, são os versos de origem desconhecida citados
por Nicolhas de Lyra, no século XIV:
'Littera gesta docet, quid credas
allegoria,
Moralis quid agas, quod tendas anagogia.'
Derivaram os cabalistas este conceito dos cristãos? A
pergunta tem sido respondida de várias maneiras... Wilhelm Bacher admite a existência de
uma tal conexão histórica, enquanto Perez Sandler, recentemente, tentou provar que a
doutrina cabalística do 'pardès' foi desenvolvida de maneira independente. Ainda
que seja por certo possível que os cabalistas tenham chegado à teoria dos quatro níveis
sem influência externa, simplesmente dividindo a interpretação alegórica em seus dois
aspectos, um filosófico e outro teosófico-místico, estou inclinado a concordar com
Bacher. O aparecimento simultâneo da idéia em três autores cabalísticos, todos eles
vivendo na Espanha cristã, e todos eles trabalhando com a mesma teoria dos quatro
níveis, embora divergindo na respectiva classificação, sugere que tenham deparado em
algum lugar com esta idéia dos quatro significados e a tenham adotado. Somos quase
forçados a concluir que foram influenciados por hermeneutas cristãos. O relato do Zohar
sobre os quatro níveis denota uma semelhança marcante com a concepção cristã"
(Gershom G. Scholem, A cabala e seu simbolismo, Ed. Perspectiva, S.Paulo, 1978, p. pp.
76-77).
Não interessa aqui examinar se a teoria cristã dos quatro
sentidos influenciou também a hermenêutica corânica. Corbin reconhece a importância
que os quatro sentidos cristãos desempenham na hermenêutica do Corão (cf. H.C. en Islam
Sr, vol. I, pp. 151 e 152). Pode ter influenciado ou não.
Os islamitas, assim como os cabalistas, poderiam ter
chegado de per si à mesma solução do problema exegético.
Entretanto, Corbin salienta que no cristianismo o sentido
literal ou histórico é a base para os outros três sentidos, conforme o ensina S.
Boaventura, e que, no Islam shiita, como nas correntes gnósticas cristãs e judaicas, o
fundamental é o sentido analógico (H. Corbin, op. cit., vol. I, p. 16). Mais
ainda, ele reconhece que há algo de comum entre a exegese shiita ou soufi, os chamados
gnósticos cristãos e judeus, e certos esotéricos, como Boehme e Swedenborg. Este algo
comum a todas essas correntes e elementos é a gnose.
2 - As influências externas do Islã
Reconhece-se que o Islam sofreu a influência
cultural, quer do oriente quer do ocidente, em sua estruturação religiosa.
Corbin enumera as seguintes influências:
a) grega;
b) zoroastriana;
c) bizantina;
d) gnóstica.
A influência grega se faz sentir, no Islam, quer por meio
dos textos dos grandes filósofos gregos, quer por tratados de medicina e alquimia.
Um papel importante, nesse sentido, deve ser destacado aos
filósofos neo-platônicos, e particularmente a Proclo. Causa disto foi o fechamento da
escola de Atenas, em 529, por ordem de Justiniano, que levou muitos filósofos
neo-platônicos a se refugiarem no Iran (Corbin, p. 32).
A influência iraniana se manifesta especialmente no
shiismo. Nos raros textos ismaelitas que nos restaram, são nítidos os elementos
teosóficos tomados ao zoroastrismo.
Os bizantinos influíram muito na cultura islâmica não
só pelo contato natural das duas civilizações, como pela presença de elementos
heterodoxos expulsos de Bizâncio, e que se refugiaram em regiões de língua árabe e
persa.
Os nestorianos foram responsáveis pela tradução de
muitas obras gregas para o siríaco e para o árabe. Foram eles que levaram para a cultura
islâmica textos neo-platônicos, tratados de medicina e de alquimia.
Cremos dever salientar a existência de traduções do
pseudo Dionísio e de Orígenes que influíram na exegese e nas doutrinas shiitas sobre a
divindade e sobre a natureza do Imam.
De todas as influências externas no islamismo shiita,
nenhuma talvez supere a da gnose.
"Il faut ajouter ce qui est designé sous le nom de
Gnose. Il y a quelque chose de commun entre gnose chrétienne de langue grecque,
gnose juive, gnose islamique, celle du shiisme et de l'ismaelisme. Plus encore, nous
connaissons maintenant des traces précises de gnose chrétienne et de gnose manichéenne
dans la gnose islamique" (H. Corbin, op. cit., vol. I, p. 39). ["É preciso
acrescentar o que é designado sob o nome Gnose. Há algo comum entre gnose cristã de
língua grega, gnose judaica, gnose islâmica, a do shiismo e a do ismaelismo. Mais ainda,
nós conhecemos agora traços precisos da gnose cristã e da gnose maniquéia na gnose
islâmica."]
Todavia a influência gnóstica foi tal, no Islam, que
Corbin não hesita em qualificar o shiismo e o ismaelismo como movimentos típicos e
essencialmente gnósticos.
"Bien des textes remontant aux Imames révelent
certaines affinités et certains recroisements avec la gnose antique." (H.
Corbin, op. cit., vol. I, p. 47). ["Muitos textos remontando aos Imames revelam
certas afinidades e certos cruzamentos com a gnose antiga."]
"De cette fermentation spirituelle du II/VIII
siècle il ne nous reste que peu des textes; ils suffisent à nous faire pressentir le
lien entre la gnose antique et la gnose ismaélienne." ["Desta fermentação
espiritual do II/VIII séculos restam-nos poucos textos; eles bastam para nos fazer
pressentir o elo entre a gnose antiga e a gnose ismaeliana."]
No livro Omm al-Kitab (O Arquétipo do Livro) há "...
une reminiscence très nette des Evangiles de l'Enfance (faisant déjà comprendre comment
l'imamologie sera l'homologue d'une christologie gnostique). Autres motifs dominants: la
science mystique des lettres (le j'afr), particulièrement goutée déjà dans
l'école de Marc, le Gnostique..." (H. Corbin, op. cit., vol. I, p. 111).
["... uma reminiscência muito nítida dos Evangelhos da Infância (permitindo já
compreender como a imamologia será a homóloga de uma cristologia gnóstica). Outros
motivos dominantes: a ciência mística das letras (o j'afr), especialmente estimada já
na escola de Marcos, o Gnóstico...".]
Tudo isso leva Corbin a definir: "le shiisme est
bien la gnose de l'Islam", e, "forme par excellence de la gnose en
Islam" (H. Corbin, op. cit., vol. I, pp. 46 e 118). ["o shiismo é bem a
gnose do Islã", e "forma por excelência da gnose no Islã."]
III - Origem do Shiismo
O termo shiismo vem da palavra árabe shi'a,
que significa grupo de adeptos.
Originalmente, ela designou os adeptos, que formavam o
partido ou a comunidade de Ali: "Shiat Ali".
Ali ibn Abu Talib era primo e genro de Mohammed (Maomé),
pois se casou com sua filha, Fátima.
Ali, além de amigo de infância de Mohammed, foi dos
primeiros a aceitar a revelação islâmica. Entretanto,
"Il manquait de finesse d'esprit, d'intelligence
politique et de fermeté de caractère, Mohammed s'en était bien rendu compte, qui
l'avait toujours placé après Abu Bekr et Omar, et même quelques autres, et ne lui
reconnaissait que des qualités de bravoure militaire. Du vivant de Mohammed il n'avait
été chargé que de tâches secondaires" (R. Mantran, L'expansion musulmane
[VII-XI siècles], p. 166, PUF, Paris, 1969). ["Faltava-lhe fineza de espírito,
inteligência política e firmeza de caráter, Maomé tinha bem percebido isso, que o
tinha sempre colocado depois de Abu Beckr e Omar, e mesmo de alguns outros, e não lhe
reconhecia senão qualidades de bravura militar. Enquanto Maomé esteve vivo, ele foi
encarregado apenas de funções secundárias."]
Quando Maomé faleceu, em 632, ele mesmo havia designado
Abu Bekr como seu substituto, na tarefa de dirigir as orações, enquanto esteve doente.
Isso, aliado às qualidades naturais de Abu Bekr, facilitou o acordo para sua designação
como Califa. O próprio Omar apoiou a escolha, que sofreu a oposição dos parente de
Maomé, Ali e Abbas.
O califado de Abu Bekr durou de 632 a 634, e ele foi
sucedido por Omar ibn al-Khattab, também ele dos primeiros convertidos ao islamismo.
Omar foi califa durante 10 anos (634 a 644), e, em seu
governo, foram conquistados a Síria, a Mesopotâmia, o Egito e a Armênia, e ele foi
considerado o modelo dos califas (R. Mantran, op. cit., p. 111).
Ele foi assassinado por um escravo descontente por não ter
sido atendido, num pedido (644).
Segundo uma tradição, Omar, antes de morrer, teve tempo
de designar um conselho de 6 membros, para escolher o novo califa, entre os melhores
companheiros de Mohammed.
Entre os principais candidatos estavam Ali e Othman ibn
Affân. Este último foi o escolhido, apesar de não se destacar, quer pela energia, quer
pelo caráter, e sequer pelo prestígio. É certo que foi dos primeiros mekenses a se
converter mas, durante a vida de Maomé, recebeu apenas a incumbência de dirigir um grupo
de islamitas que fugiu para a Abissínia.
A escolha de Othman representava a vitória da aristocracia
de Meka, e particularmente do clã Banou Omeyda, que se opusera durante muito tempo a
Maomé, em detrimento de Ali.
Othman governou de 644 a 656, favorecendo sua família - os
Omeidas - de modo decisivo. Conquistou a Pérsia e estabeleceu o texto oficial do Corão,
embora o tenham acusado de ter supresso passagens contrárias aos Omeidas.
A oposição a Othman se fundava especialmente no argumento
de que só poderiam ser Califas os descendentes ou parentes de Maomé, idéia que vinha
favorecer Ali. Tal propaganda teve penetração na Pérsia.
A demissão do conquistador do Egito, Amr, deu aos
opositores a força de que necessitavam. Em meio aos tumultos surgidos, Othman foi
assassinado por soldados revoltados, enquanto lia o Corão (17 de junho de 656). No mesmo
dia, Ali ibin Abu Talib foi proclamado Califa em Medina, o que despertou as suspeitas de
que ele seria o mandante do crime.
O governador de Damasco, Moawia ibn Abi Soyan, da família
Omeida, reclamou a punição dos culpados, e Ali não o pôde atender. Coraishitas e
medinenses abandonaram Ali, que venceu seus oponentes na "batalha do camelo"
(656).
Moawia, porém, resistia-lhe na Síria. A batalha de Ciffin
não decidiu a questão, pois foi interrompida por negociações, já que Ali aceitara que
uma arbitragem resolvesse quem seria o califa.
Em Edhroh (658), os árbitros condenaram a Ali como culpado
pelo assassinato de Othman, e o depuseram do califado. Moawia, porém, só foi proclamado
califa em 660, e no ano seguinte Ali foi assassinado.
Com Moawia firmou-se a dinastia Omeida, e começou o drama
dos Álidas que daria base ao desenvolvimento do shiismo.
A princípio, o primogênito de Ali, Hassan, reconheceu
Moawia como Califa, mas, depois, ele teria sido envenenado por Moawia.
Quando Yazit I sucedeu a seu pai, Moawia, em 680, Hussein,
segundo filho de Ali, se revoltou, mas foi vencido e morto em Kerbela, sendo massacrados
os seus partidários (10 de outubro de 680). Desde então, a data da morte de Hussein - 10
de mouharren - é o grande dia de luto dos shiitas.
"L'éviction ou l'élimination du califat de Ali et
de ses descendants, l'assassinat de certains d'entre eux ont provoqué chez les partisans
des Alides plus qu'un sentiment de frustration: un désir de vengeance, une volonté de
conquérir ce califat qui leur échappait. De là est née une sorte de mystique
messianique qui a pris parfois des formes ésoteriques quand elle s'est refugiée dans la
spéculation intellectuelle et théologique..." (R. Mantran, op. cit., p. 182).
["A supressão ou eliminação do califado de Ali e dos seus descendentes, o
assassinato de alguns deles, provocaram entre os partidários dos Alidas mais que um
sentimento de frustração: um desejo de vingança, uma vontade de conquistar este
califado que se lhes escapava. Disso nasceu um tipo de mística messiânica que às vezes
tomou formas esotéricas, quando refugiou-se na especulação intelectual e
teológica..."]
Henry Corbin não concorda com esse posicionamento. Diz
ele:
"Il importe encore de dire plus, pour dissiper
l'équivoque crée en Occident par l'emploi abusif d'une terminologie parlant du
"légitimisme shiite", ou du shiisme comme de la cause des
"légitimistes" en Islam. Non pas, la cause des Imams ne représente nullement
un légitimisme dynastique en simple compétition avec quelque dynastie rivale de ce
monde, pas plus, avons-nous dit déjà que la dynastie du Graal n'est en rivalité avec
une dynastie de ce monde ou avec la succession du Siège apostolique. Il l'est dérisoire
de ramener la question à ces termes de rivalité. Il n'y a de rivalité possible qu'entre
deux mondes situés sur le même plan. Or nous avons ici deux mondes différent: le monde
du malakut domine de trop haut le monde de nos compétitions, pour avoir à rivaliser avec
lui" (Henry Corbin, En Islam Iranien, vol. I, p. 79, Gallimard, Paris, 1971).
[" É preciso ainda dizer mais, para dissipar o equívoco nascido no Ocidente pelo
emprego abusivo de uma terminologia que fala de 'legitimismo shiita', ou do shiismo como
causa dos 'legitimistas' no Islam. Nada disso, a causa dos Imames absolutamente não
representa um legitimismo dinástico em simples competição com alguma dinastia rival
deste mundo, nem mesmo, como já dissemos, da dinastia do Graal, que não rivaliza com uma
dinastia deste mundo ou com a sucessão da Sé apostólica. É ridículo reconduzir a
questão a estes termos de rivalidade. Não há rivalidade possível senão entre dois
mundos situados no mesmo plano. Ora, nós temos aqui dois mundos diferentes: o mundo do
malakut domina de muito alto o mundo das nossas competições, para ter que rivalizar com
ele."]
Parece-nos que esse trecho de Corbin revela um temor
excessivo com relação às impressões que o termo legitimismo poderia produzir no
espírito de um francês que estivesse estudando o Islam. Consideramos válido o argumento
de Corbin quanto à inexistência de um espírito de disputa dinástica nos adeptos de um
sistema gnóstico plenamente elaborado e desabrochado, como o do Graal ou o do Shiismo.
Contudo, não se pode negar - cremos - que tenha havido
influência legitimista na mente de Ali e de seus primeiros seguidores. Aliás, a
fundação de uma dinastia fatimita no Egito revela a persistência de um legitimismo
político, pelo menos em certas áreas do Shiismo.
Deste modo, julgamos dever concluir que dois tipos de
causas, principalmente, geraram a gnose particular do Shiismo:
1) Causas doutrinárias, relacionadas com o sentido
verdadeiro do Corão.
2) Causas históricas, relacionadas com a eliminação dos
Alidas de suas pretensões ao califado.
IV - O Imam
O Shiismo nasceu da confluência da exegese
esotérica do Corão com a tragédia de Ali e de seus filhos.
Rapidamente se formou um paralelismo entre o sentido
exotérico do Corão, atribuído a Maomé, e o sentido esotérico - único verdadeiro -
atribuído a Ali.
Distinguiu-se entre Shariat (religião
positiva) e o Walaiat (interpretação escatológica do Imam); falou-se de Zahir
(envelope) e de Bâtin (envolvido, sentido oculto).
Assim como o pneuma divino está aprisionado no corpo,
assim também o sentido secreto (Bâtin) está preso no literal (Zahir). E já que, nas
condições atuais, o Bâtin exige o Zahir, assim também a Walayat exige o Shariat, e o
profeta exige um Imam.
Deste modo, distinguiram-se as funções do Profeta e a do
Imam. O profeta teria a missão de revelar aos homens certas verdades, por ordem de Deus.
Porém, suas palavras deveriam ser interpretadas por um Imam, que explicaria o verdadeiro
sentido oculto do que o profeta dissera, e assim guiaria a comunidade dos crentes para a
salvação. Esta só se alcançaria conhecendo o verdadeiro sentido da Revelação. Mais
ainda, bastaria ter o conhecimento esotérico para se alcançar a salvação. O
conhecimento do sentido esotérico era, por si, salvífico. Ora, esta é uma
característica essencial da Gnose, que se define como um conhecimento salvífico.
"Sous cet aspect le Shiisme est bien la gnose de
l'Islam", diz Corbin (H. Corbin, op. cit., vol. I, p. 46). ["Sob este
aspecto, o Shiismo é bem a gnose do Islam."]
O maometismo aceitava a existência de profetas anteriores.
No decorrer da História, Deus ir-Se-ia revelando progressivamente. A cada dia da
criação teria correspondido um profeta: Adão, Noé, Abraão, Moisés, (Davi), Jesus e
Maomé, teriam sido os 7 grandes profetas. Cada um deles, aprofundando e superando a
revelação anterior, de modo que Maomé seria o sétimo e o maior de todos os profetas.
Para o Shiismo, cada um destes profetas teria tido seu
Imam, e que teriam sido, respectivamente: Set, Sem, Ismael, Aarão, (Jônatas), Pedro e
Ali.
Sempre, a cada profeta sucederia um Imam, pois que ao Shariat
(religião positiva) deveria suceder a Hagikat (religião esotérica verdadeira).
A doutrina shiita diz ainda que cada um dos profetas teve
12 imames. Os imames sucessores de Maomé seriam:
Maomé (632)
Fátima Ali (661)
Hassan (669) Hussein (680)
Ali Zaymol (711)
Mohammed Bakir (733)
Jafar Sadiq (765)
Ismail Musa al Kazim (799)
7º Mohammed ibn Ismail Ali Reza (818)
Mohammed Javad(835)
Ali al Naqui (868)
Hassan al Askari (874)
12º Mohammed al Mahdi (874)
Os seis primeiros Imames (até Jafar Sadiq) são
aceitos quer pelos ismaelitas ou shiitas septimanos, quer pelos shiitas duodecimanos.
O primogênito de Jafar Sadiq (Ismail, o 6º Imam) faleceu
antes que seu pai. Este, então, designou como Imam seu segundo filho, Mussa al Kazem. Com
isso não concordaram alguns shiitas, que afirmavam que o imamato devia ser reconhecido no
filho de Ismail, Mohammed ibn Ismail. Este desapareceu após a morte de seu pai, e os seus
adeptos o consideram o Imam escondido, o Mahdi, que voltará um dia, na parusia final,
para realizar o reino messiânico e a apocatastase. Este grupo ficou conhecido com o nome
de Ismaelitas (do nome de Ismail ibn Jafar).
Os ismaelitas aceitam, pois, 7 Imames e julgam que o
imamato deve ser reconhecido na linha direta da descendência de Ali, de primogênito em
primogênito.
Os shiitas duodecimanos consideram que o Imam, além de ser
descendente do profeta, tem que ser designado pelo Imam antecessor que, pela designação,
reconhece nele a condição de impecabilidade e de infalibilidade, própria aos Imames.
Outra diferença importante entre shiismo duodecimano e o
Ismaelismo está em que os duodecimanos fazem questão de manter o equilíbrio entre o
Zahir e o Batin, isto é, entre o sentido literal e o sentido esotérico do Corão. Para
eles, a eliminação do Zahir acarretaria a destruição da Shariat, com todas as suas
implicações legais e morais, e levaria ao antinomismo. Por outro lado, a eliminação do
Batin conduziria à idolatria da letra, ao puro legalismo "farisaico". Os
shiitas duodecimanos se opõem assim, quer aos radicais ismaelitas, que querem destruir
todo o Zahir - isto é, a casca de noz, para comer só o conteúdo, o Batin - quer aos
literalistas do Corão, isto é, os sunitas.
Tanto os duodecimanos quanto os ismaelitas procuram
justificar suas crenças relacionando o número dos Imames (12 ou 7) com toda uma série
de analogias cósmicas e antropológicas. Assim, os duodecimanos lembram que há 12 signos
no zodíaco; 12 falanges nos dedos da mão (14 falanges considerando também os polegares,
correspondendo aos Imames, além de Maomé e Fátima, isto é, os 14 impecáveis); 12
vértebras dorsais, etc. Os ismaelitas lembram que as vértebras cervicais são 7, como
são 7 os planetas, 7 as cores do arco-íris. Ambas as correntes shiitas entregam-se assim
a especulações numerológicas que revelam influência neo-platônica e cabalista. E
Corbin lembra a relação desses números com as especulações gnósticas (En Islam, vol.
I, p. 55).
Cada Imam seria impecável, infalível, e mesmo divino,
pois que em sua alma haveria uma partícula de divindade. Os 12 Imames teriam uma
essência única em 12 hipostases. Essa essência única seria um "Imam éternel
qui représente le plérome théophanique des Douze." (H. Corbin, En Iran IV,
188). ["Imam eterno que representa o pleroma teofânico dos Doze."]
Segundo Haydar Amoli:
"...que Mohammed et ses descendants (les douze
Imams ) soient une Âme unique et une Essence unique, que par conséquent ils méritent
tous même créance que Mohammed lui même, c'est une vérite manifeste n'échappant à
personne et qui répose sur un triple fondement philosophique théosophique, comme tu
l'apprendras au cours du présent livre" (H. Corbin, En Islam III, 183).
["...que Maomé e seus descendentes - os doze Imames - sejam uma Alma única e uma
Essência única, que, por conseqüência, eles mereçam todos a mesma crença que o
próprio Maomé, é uma verdade manifesta, não escapando a ninguém, e que se baseia
sobre um triplo fundamento filosófico teosófico, como tu o saberás no decorrer deste
livro."]
Os 12 Imames, junto com Maomé e Fátima, formariam o
pleroma shiita dos 14 imaculados. Essas 14 pessoas na terra seriam mero reflexo de 14
entidades supra-terrestres, que Corbin compara com os pares de éons da gnose
valentiniana:
"Médités ainsi dans leur essence et personne
pré-éternelles les 'Quatorze Immaculés' assument un rôle d'être et une position qui
son comparables, en un certain sens, avec les Aions de la gnose valentinienne, et s'il est
vrai de dire que l'imamologie assume en théologie shiite un rôle qui est homologue au
rôle qu'assume la christologie en théologie chrétienne, il faut l'entendre plutôt
d'une christologie de type gnostique, voire d'une christosophie" (H.C., En Islam,
vol. IV, pp. 207-208). ["Meditados assim na sua essência e pessoa pré-eternas, os
'Quatorze Imaculados' assumem um papel de ser, e uma posição que são comparáveis, num
certo sentido, com os Aions da gnose valentiniana, e se é certo dizer que a imamologia
assume na teologia shiita um papel homólogo ao papel que assume a cristologia na teologia
cristã, é preciso entendê-lo mais como uma cristologia do tipo gnóstico, portanto de
uma cristosofia."] Curiosamente, ao Imam se dão epítetos de "segundo
Cristo" e de Elias (cf. H. Corbin, En Islam, vol. I, pp. 19 e 255).
Os shiitas afirmam costumeiramente:
"Le Qoran est l'Imam muet. L'Imam est le Qoran
parlant" (H. Corbin, En Islam, vol. I, 208). ["O Corão é o Imam mudo. O
Imam é o Corão falante."]
Afirmação que recorda fortemente a distinção rabínica
entre Torá escrita e Torá oral.
O Imam maometano vem explicitar o sentido esotérico do
Corão. Mas como este é o selo de todas as revelações anteriores, "L' imâmat
mohammadien est ainsi l'ésotérique de toutes les religions antérieures, mais la
manifestation de cette gnose ne sera complète, à découvert et sans voile, que lors de
la Parousie du Mahdi, le douzième et dernier Imam, comme Sceau de la Walayat
mohammadienne, laquelle est comme telle le Sceau de la Walayat universelle" (H.
Corbin, En Islam, vol. I, p. 255). ["O imamato moamediano é assim o esotérico de
todas as religiões anteriores, mas a manifestação desta gnose não será completa,
descoberta e sem véu, senão quando da Parusia do Mahdi, o décimo segundo e último
Imam, como Selo da Walayat maometana, a qual é como o Selo da Walayat universal."]
Daí o "Prône de la grande Déclaration"
(Sermão da Grande Declaração) Khotbat al Bayan, do 1º Imam declarar:
"Je suis le signe du très Puissant. Je suis la
gnose des Mystères (...) Je suis le Premier et le Dernier (...) Je suis la Face de Dieu
(...) Celui qui dans l'Évangile est appellé Élie..." (H. Corbin, Hist. de la
Ph. I, vol. I, pp. 76-77). ["Eu sou o sinal do Todo- Poderoso. Eu sou a gnose dos
mistérios (...) Eu sou o Primeiro e o Último (...) Eu sou a face de Deus (...) Aquele
que no Evangelho é chamado Eli..."]
O conhecimento que o homem tem de si mesmo, o conhecimento
do Imam, e o de Deus são um só conhecimento. E este seria um conhecimento salvífico.
Está aí bem marcado o caráter gnóstico do Shiismo e do Ismaelismo.
A doutrina shiita sobre o Imam teve que enfrentar problemas
análogos aos da Cristologia católica.
Realmente, assim como Cristo, o Imam teria duas naturezas:
divina e humana. Mas, enquanto o cristianismo aceitou que na única pessoa de Cristo há
duas naturezas integrais, perfeitas (Cristo é inteiramente Deus e inteiramente homem), o
Shiismo repudia a noção de Encarnação. O Imam não é Deus encarnado num homem. No
Imam, haveria uma teofania, e não uma encarnação. Ele não é Deus, mas uma
manifestação de Deus. O Imam também não seria plenamente humano. Por exemplo, segundo
os shiitas, o Imam não teria corpo como os demais homens. Seu corpo não produziria
sombra. Dizem os ismaelitas que o corpo "glorioso" do Imam não tem as
propriedades físicas naturais aos demais corpos, e seria produzido pela matéria astral
mais sublime, precipitada na terra sob forma de orvalho.
"Lorsqu'ils parlent du nâsut ou humanité de
l'Imam, le souci des auteurs ismaeliens est de sugerer que le corps de l'Imam n'est pas un
corps de chair, constitué comme celui des autres humains. Ce corps résulte de toute une
alchimie cosmique opérant sur les corps éthériques (nafs rihiya, l'âme d'éfluve'),
des adeptes fidèles. Ces restes 'étheriques' s'élévent de ciel en ciel, puis
redescendent purifiés invisibles à la perception optique, avec des irradiations
lunaires, et se déposent comme une rosée celeste à la surface d'une eau pure ou de
quelques fruits. Eau et fruis sont consommés par l'Imam du moment et par son épouse, et
la rosée céleste devient le germe du corps subtil du nouvel Imam. Simple enveloppe ou
gaine (ghilef), on le désigne comme jism Kafuri, corps qui a la subtilité et la
blancheur du camphre, c'est ce corps qui constitue l'humanité (nasut) de l'Imam." (H.
Corbin, Hist. de la Ph. pp. 132-133, vol. I). ["Quando eles falam do 'nâsut' ou
humanidade do Imam, o cuidado dos autores ismaelitas é de sugerir que o corpo do Imam
não é um corpo de carne, constituído como o dos demais humanos. Este corpo é o
resultado de toda uma alquimia cósmica operando sobre os corpos etéreos - 'nafs rihiya',
a alma do eflúvio - dos adeptos fiéis. Estes restos 'etéreos' se elevam de céu em
céu, depois voltam a descer purificados e invisíveis à percepção ótica, com
irradiações lunares, e se depositam como um orvalho celeste na superfície de uma água
pura ou de alguns frutos. Água e frutos são consumidos imediatamente pelo Imam do
momento e por sua esposa, e o orvalho celeste se torna o germe do corpo sutil do novo
Imam. Simples envelope ou revestimento - 'ghilef' -, chamado de 'jism Kafuri', corpo que
tem a sutileza e a brancura da cânfora, é este corpo que constitui a humanidade -
'nasut' - do Imam."]
Aliás, é interessante relatar que o primeiro homem,
Adão, teria sido constituído, por Deus, de argila e de uma substância emanada pela
divindade. Tal substância de luz, introduzida em Adão, teria passado de profeta em
profeta até chegar em Abdel Mottalit, antepassado de Maomé e de Ali. Em Abdel Mottalib a
substância de luz se dividiu em duas: a primeira se manifestou em Maomé, e a segunda em
Ali (cf. H. Corbin, En Islam, vol. I, p. 100).
Esta crença é muito parecida com as doutrinas gnósticas
sobre a natureza espiritual do primeiro homem antes de cair em pecado, e que se
reencontram, por exemplo, nos textos do cabalista cristão do século XV, Petrus
Galatinus, e nas românticas visões de Anna katharina Emmerick, tais como foram redigidas
por Clemens Brentano, no século XIX.
Há, pois, um verdadeiro "docetismo" shiita
quanto à pessoa do Imam, embora Corbin não aceite a expressão docetismo, aplicada em
seu sentido comum, ao Imam.
Corbin considera que a união do 'nasut' (humanidade) com a
'lahut' (divindade), no Imam, não levou os shiitas, jamais, à idéia de união
hipostática e de Encarnação. O Shiismo preferiu sempre as soluções gnósticas às
soluções católicas, no que se refere à união de divindade e de corporalidade (cf. H.
Corbin, Hist. de la Ph., vol. I, pp. 74 e 75 e p. 133).
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