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quarta-feira, abril 4th, 2012 at 2:19pm

A reforma da reforma não tardará

 

  André Roncolato Siano

A Reforma da Reforma acontecerá. Bento XVI, neste que já é um memorável reinado, trouxe às claras uma guerra sub-reptícia que há muito tempo, desde o Concílio Vaticano II, vinha sendo travada nas sombras das sacristias.  E cravou em 2007 um marco decisivo nesta luta, no dia da Santa Cruz, com o Motu Proprio Summorum Pontificum, libertando a Missa de Sempre. A Santa Missa, renovação do sacrifício de Nosso Senhor, nos convida todos a subir até o Calvário com a Virgem Dolorosa. Alegoricamente podemos dizer que o Papa novamente cravou a Crux fidelis – emblema da fé! – no coração da Santa Igreja:

Ó língua, canta a vitória

Do glorioso combate;

E sobre o troféu da Cruz,

Proclama o nobre triunfo,

De o Redentor deste mundo,

Vencer, imolando a vida.

Podemos sem receios cantar, com Fortunato, estas perenes verdades. Cantar a Santa Cruz, que precede as vitórias certas.

Claro que não devemos pensar que não haverá batalhas, não obstante a vitória certa. E claro que os modernistas que estavam até então adormecidos, em certa tranquilidade, pois confiantes de que os gonzos se soltaram dos batentes com o duro golpe do Concílio, começam a despertar e trabalhar, com muita diligência, para minar todo bem que se tem feito para a restauração da vida católica.

Não resta dúvida, porém, que as batalhas mais ferozes estão sendo travadas pela Santa Missa. Cá no Brasil, Terra de Santa Cruz, isso é sobremaneira intenso.

A Missa Nova, festa e ceia. A Missa de Sempre, calvário e sacrifício.  A Missa Nova, o “espaço celebrativo”, lugar para a criatividade insaciável. A Missa de Sempre, o altar da obediência litúrgica e da profunda devoção. A Missa Nova, antropocêntrica. A Missa de sempre, voltada para Deus. A Missa Nova, fiat voluntas nostra. A Missa de sempre, fiat voluntas Tua.

Pois bem, são duas missas e cada uma, em seus símbolos e forma, representam opositivamente, uma teologia, uma eclesiologia e uma doutrina distintas.  Não é possível a conciliação.

O triunfo da Missa Nova é o triunfo da kenosis, do relativismo total, da submissão da Santa Religião aos caprichos dos homens, o reinado do subjetivismo e do rapto dos direitos de Deus. É colocar a vida natural como o bem supremo a ser aproveitado até a impiedade.

O triunfo da Missa de Sempre tem, como consequência, a submissão do homem a Deus, a adesão a Santa Doutrina, a obediência à Verdade, o retorno da verdadeira piedade, o oferecimento a Deus de um culto digno. É o desejo de agradar a Deus nesta vida para salvar a alma.

Roma sabe. Os modernistas também. Também os sedevacantistas, porque não desejam uma solução para a crise que devemos superar.

Roma – e muitos fazem questão de fingir que não veem – há alguns anos, já faz com que a reforma da reforma seja fato. E isso logo se fará sentir aqui também no Brasil, nas novas traduções do Missal para a língua portuguesa, não obstante a resistência momentânea de alguns bem conhecidos bispos e especialistas em liturgia que, por ora, atrapalham o quanto podem o retorno mais rápido do fim do recreio doutrinal.

***

Ainda há poucos dias escrevemos sobre um catastrófico Seminário Nacional de Liturgia, promovido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB e pela Associação dos Liturgistas do Brasil (ASLI) que deve ter deixado muitos padres ‘grillados’.

Créditos da ilustração: Stefano Parra

Pois foi Andrea Grillo o badaladíssimo consultor deste seminário sobre liturgia, convidado de honra da CNBB e ASLI. Como se sabe, ele é violentamente contra a Reforma da Reforma promovida por Bento XVI e, portanto, contra a política vaticana sobre a liturgia. Convidá-lo oficialmente a este evento, equivale, na linguagem eclesiástica, a dizer ao Papa e ao Culto Divino, que os Bispos dos Brasil não estão muito interessados em cooperar com a vontade do Vigário de Cristo.

Para que se tenha uma ideia disso, cito alguns comentários de Andrea Grillo a respeito das conclusões (entenda-se “instruções”) de Mons. Guido Marini em uma conferência sobre liturgia proferida por este último em Genova e Roma:

“Tenho que dizer apertis verbis: a reforma da reforma não é – como tenta sugerir o texto – o aprofundamento do Movimento Litúrgico, nem é de forma alguma a conclusão inevitável de quem tem a presunção de ter encontrado o verdadeiro espírito da liturgia.” (GRILLO, A.  Quali sono le ragioni di una “riforma della riforma”? Cinque domande di un teologo a un Maestro)

Veja como Grillo cricrila irritado contra o Cerimoniário para as Celebrações do Sumo Pontífice porque, em Roma, Marini defendeu uma missa mais próxima de como deve ser e como o Papa pensa: respeitando as normas disciplinares da Igreja e a Tradição. Assim como deve ser a Lectio orante.

Fica, aliás, manifestada a contradição de um modernista como Grillo: mesmo que fosse uma inverdade de Mons. Marini e que o atual Papa nada entendesse de liturgia – o que não é o caso, de maneira alguma – Grillo deveria ficar quietinho visto que, para o modernismo, a “expressão” e o “sentir da comunidade” são ações da participação ativa do “povo de Deus” e portanto louváveis, mesmo as mais tresloucadas, como a missa do futebol na Holanda. Assim, o “sentir” profundamente tradicional de Mons. Marini, que tenta ajudar ao Papa na Reforma da Reforma, deveria ter um apoio grande de Grillo. Mas esse princípio não deve valer para o “sentir” tradicional… Claro!

As cinco perguntas de Grillo a Mons. Guido Marini – este sim um grande liturgista – pretendem-se críticas irrespondíveis contra a Reforma da Reforma. Como Grillo, alguns dos professores de seminários brasileiros têm esses súbitos delírios de vanguarda litúrgica, caindo no autoconceito de que só eles possuem a profunda compreensão do culto divino… e são, com justiça, os proprietários da missa. Nesse ponto eles se esquecem do mais elementar: que ela é de origem divina, e a Igreja é sua guardiã.

Não obstante, tem-se que admitir: é muita valentia de se convidar esse fulano para falar a todos os padres do Brasil. Será que são ingênuos ao ponto de pensar que isso não chegaria a Roma com o devido peso?

***

Seguindo. São muito curiosas essas “associações”, como a ASLI, que a CNBB mantém nas proximidades.  Então, resolvi testar o adágio “diga-me com quem andas…”

A ASLI é muito singular. Trata-se, primeiramente de uma associação civil, dita de professores e liturgistas, que não tem caráter canônico: “ASLI, com caráter jurídico e independente da CNBB, embora, conforme a sua natureza, em estreita ligação com a CNBB.” link  - acessado em 26/03/2012 as 22:48). Ainda: “A decisão de fundar uma instituição com autonomia jurídica, sem perder os vínculos com a CNBB, foi mantida ao longo destes 20 anos.” (ASLI, Estatuto, introdução p. 3) Ora, qual a intenção de uma associação de liturgia sem status canônico e que, ao mesmo tempo, quer manter estreitas relações com a CNBB, senão o de exercer influência sobre os padres e bispos no Brasil, sem ser incomodada ou tolhida pela autoridade eclesiástica?

Não se pode ser suficientemente ingênuo em pensar que, embaixo dessa auréola acadêmica, “imparcial” (ler com a devida ironia), esses professores sejam grandes defensores do respeito ao Culto Divino. É uma tática muito frequente dos modernistas se camuflarem atrás de diplomas e universidades com a intenção de dar ares de autoridade às suas ideias fazendo com que elas se difundam na cabeça do clero – diga-se, doutrinalmente muito mal ensinado – não obstante o quão heterodoxas possam ser estas mesmas ideias.

E já que estamos falando de curiosidades, essa associação tem sede na Avenida Nazaré, 993, ou seja, na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, (imaginem!), onde os padres da Arquidiocese de São Paulo são formados. Interessante, não acham? Pergunto-me:  não seria lá o lugar apropriado para ouvir atentamente os ensinamentos do Papa, em matéria litúrgica, para os por depois em prática?

Se os piedosos leitores tiverem estômago forte, convido a entrar no site da ASLI  e ler alguns artigos ali publicados por doutos professores. E, se puderem, o façam com alguns documentos recentes sobre a liturgia em mãos, como o Redemptionis Sacramentum ou o Lithurgiam Authenticam ou ainda, as instruções da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, como aquela que manda corrigir a tradução do pro multis.  É de arrepiar os cabelos!

O que querem os associados desta ASLI senão trabalhar – enquanto ainda é tempo – para levarem a cabo o moribundo progressismo litúrgico, condenado e combatido pela recente instrução Redemptionis Sacramentum, sobre a qual não encontramos nenhuma referência nos artigos publicados em seu site? Evidentemente aqueles “especialistas” em liturgia, fazem vistas grossas ao que deveria ser praticado e ensinado. Com muito pouca probabilidade de errar, ouso inferir que ensinam e praticam o contrário do que deseja a Santa Igreja, tirando as piores consequências possíveis dos textos ambíguos e fenomenológicos do Pastoral Concílio Vaticano II e do Novus Ordo.

Apenas como um exemplo, veja-se o que afirma o bem conhecido franciscano modernista Frei Alberto Beckhäuser, OFM, com desdém e como se fosse um grande defeito:  “No catolicismo tradicional os ritos têm força, agem por si mesmos, sem compromisso de vida de acordo com o seu sentido. Uma vez recebidos os sacramentos da Salvação, a vida corre paralela. O que importa é garantir o céu após a morte.”  (VISÃO GERAL SOBRE RELIGIOSIDADE / PIEDADE POPULAR E LITURGIA NA TRADIÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA)

Pergunto: pobre frei, o que mais importa além da salvação eterna? O que me valeria ganhar o mundo inteiro se, ao final da vida, viesse a perder minha alma? A única conclusão que se pode tirar é que o professor de liturgia não conhece o Catecismo Católico. Ou conhece! Na primeira hipótese, menos grave, o remédio é mais fácil. Conheço alguns aluninhos de sete anos de idade que poderiam ensinar-lhe as verdades de fé que todo católico deve crer e praticar. Mesmo os professores de liturgia. É possível pensar que não seja esse o caso do frei Beckhäuser, visto ter sido ele, além de doutor em liturgia, assessor para Liturgia da CNBB durante um longo tempo. Daí que ele não seria propriamente um clérigo ingênuo em matéria doutrinal. A segunda situação é mais grave. Só Deus o sabe.

É possível, apenas com essa citação, vislumbrar as ideias que movem essa associação. E certamente essas péssimas ideias litúrgicas sempre estão acompanhadas das outras doutrinas modernistas como a colegialidade, o ecumenismo, o fim do celibato, o laxismo moral etc.

Tomemos o exemplo da Áustria ou Holanda, países em que triunfaram o espírito do concílio e as reformas litúrgicas na mais autêntica forma progressista — o mundo ideal da ASLI.  Muitos padres vivendo em concubinato. Levantes públicos e oficiais de rebeldia dos padres contra os bispos e contra o Papa, perda massiva de fiéis. Escândalos e abusos frequentes. Perda da fé e da piedade. (Aqui, uns anos atrás, um grupo de padres tentou uma rebelião semelhante, entregando uma carta cheia de reivindicações contra a doutrina católica para o Card. Hummes, então Prefeito para o Clero. Um grande constrangimento para o Cardeal.)

E aqui no Brasil? As coisas são movidas de maneira semelhante, pois é este espírito – que atualmente perde força – que movia por muito tempo os cursos de filosofia e teologia, como também o seminário.

Aqui, de maneira mais ou menos velada, nas famosas reuniões do clero, há grupelhos de padres e “teólogos” que se impõe àqueles bispos que querem seguir livremente a vontade do Papa e serem corretos em matéria litúrgica e doutrinal. Para intimidar os bons bispos e também os bons padres, aqueles usam desde o deboche até a tentativa de isolamento prático. Outros ainda, propagam a ilusão de que a tranquilidade pastoral e a carreira eclesiástica dependem da aceitação dos princípios do progressismo litúrgico e doutrinal.

Muito pelo contrário. Olhem para Roma e vejam que a Igreja do futuro é uma Igreja formada por um clero obediente, fiel e corajoso.

Aos bons bispos e padres, eu ousaria dirigir uma palavra, de simples católico que sou: não devem se intimidar e menos ainda temer. Devem seguir serenamente realizando o bom governo e exemplo em matéria doutrinal e litúrgica. O modernismo está, como não poderia deixar de ser, envelhecido e sem forças. Seus mestres não deixaram seguidores. Seu próprio princípio do aggiornamento é auto contraditório.  A reforma da reforma não tardará.

Por fim, uma advertência do Papa Bento XVI, na época Cardeal Ratzinger, aos liturgistas,  ao tratar do desenvolvimento católico da Liturgia, produto do autêntico depósito da fé, sem modificações ou fabricações artificiais como as feitas pelo Novus Ordo:

“É assim que a liturgia é um processo histórico sempre vivo: o novo pode intervir, especialmente novos santos podem ser acrescentados; mas ela permanece constante, mesmo no Ocidente. (…) É uma advertência que se dirige a todos aqueles que se ocupam de liturgia. É nesse espírito de serviço em favor da vida [da vida da liturgia] que se desenvolveu e que gera em nós fé secular,  que eles devem agir, e não como peritos autocráticos que querem inventar e fabricar o que há de melhor.(Card. Ratzinger. Voici quel est notre Dieu, Plon, Paris, 2001).

 

AMDG,

 

André Roncolato Siano


segunda-feira, agosto 29th, 2011 at 2:53am

Por que a “Tradição” não vai à Missa?

Por Eder Silva, Defesa Católica

“Vimos nele [o Motu Proprio] uma resposta do Céu
 à nossa Cruzada de Rosários”
(Dom Bernard Fellay em 01/11/2007)

Introdução

 As manifestações públicas da FSSPX, contrárias à freqüência de seus fiéis às Missas de Motu Proprio, sobretudo a superficial e espantosa recomendação do Padre Régis de Cacqueray [“Não vão à Missa do motu próprio”], suscitaram a intervenção do Instituto do Bom Pastor, na pessoa do Padre Stefano Carusi, cuja argumentação pôs em relevo as contradições e ambiguidades do que se pode chamar de “sabotagem ao Summorum Pontificum do Papa Bento XVI”.

Em reação a esta justa e bem formulada crítica do IBP, os padres do Priorado Padre Anchieta da Fraternidade São Pio X se defenderam direcionando um vago ataque às comunidades ligadas à Ecclesia Dei, especificamente à Fraternidade São Pedro e a Administração Apostólica São João Maria Vianney. No entanto, curiosamente, o que deveria ser um discurso teológico claramente destinado ao Instituto do Bom Pastor, não passou de divagações com insinuações de leviandade, que supomos indiretamente atribuídas ao Padre Carusi.

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sexta-feira, julho 22nd, 2011 at 1:33pm

Manifesto de padres na Áustria: pela desobediência, contra a Missa

Por Marcos Roberto Bonelli

O site de informações Catholic News Service noticiou, no dia 12 de julho, a realização de uma manifestação de mais de 300 padres austríacos exigindo reformas nas práticas da Igreja. Longe de pedirem uma maior clareza no ensinamento das verdades da fé católica, uma maior firmeza na prática dos mandamentos e um clero imitador de Jesus Cristo, feito obediente até a morte, eles conclamam à desobediência.

Os mais de 300 padres austríacos pedem com esta iniciativa, lançada em junho e nomeada “Chamado à Desobediência”, entre outras coisas, que a comunhão seja dada a qualquer um que se aproxime do altar em boa fé, incluindo católicos divorciados que se casaram novamente sem que tenha sido declarada a nulidade do matrimônio anterior, que as normas canônicas que restringem ao clero a pregação da homilia sejam ignoradas e que mulheres possam pregar durante a Missa. Pedem ainda que os padres evitem rezar mais de uma missa nos domingos e dias de festa, realizando, ao invés disto, uma auto-denominada “Liturgia da Palavra”, e de chamar esta Liturgia da Palavra com a distribuição da Santa Comunhão de “uma celebração Eucarística sem padre”, cumprindo assim a obrigação do domingo em épocas de poucos padres.

Uma manifestação pública destas proposições por parte do clero austríaco demonstra bem o quanto muitos princípios incompatíveis com a doutrina católica penetraram no coração daqueles que deveriam proteger os fiéis dos erros modernos e ensinar a verdade.

Não há dúvida de que tal estado de espírito e tal rebeldia sejam frutos, entre outras causas, da reforma litúrgica de Paulo VI.

Monsenhor Klaus Gamber, em um de seus livros mais conhecidos, prefaciado pelo então Cardeal Ratzinger, afirma que a Missa Nova de Paulo VI fora um compromisso pouco feliz com as idéias progressistas, mas não tanto quanto a ala progressista gostaria. Consequentemente, a Missa Nova terminou por não agradar nem aos progressistas, nem aos conservadores, e mostra como se traduziu e se traduz ainda, na prática, o comportamento de ambos os lados:

“Entretanto, apenas cinco anos haviam-se passado desde o Concílio e novamente estruturou-se e submeteu-se à aprovação do papa Paulo VI um novo ordo missae. (…) Desde então a resistência contra o novo rito não cessa de crescer na Igreja. Mesmo cardeais conhecidos, como dissemos, se pronunciaram contra ele. O que é interessante notar é que não são somente os conservadores que não estão contentes com o novo ordo, mas também os progressistas. Quanto a estes, sobretudo porque não se levou em conta certos de seus desejos e porque o conjunto constituía de modo evidente um compromisso não muito feliz.

 Eis porque os progressistas não se fixam ao novo rito e certamente não o farão quanto ao futuro, apesar das advertências de Roma. Eles continuarão fazendo experiências. A confusão litúrgica só aumentará. Os conservadores não compreendem o sentido de todas estas inovações que destroem uma velha tradição sem trocá-la por alguma coisa de realmente nova e, menos ainda, de melhor. Mas a maior parte deles, por escrúpulo de consciência, observam de um jeito ou de outros as “novas rubricas” Com efeito, foi um bom número de velhos padres que contribuiu para que o novo ordo tenha sido instaurado tão rapidamente e sem maiores dificuldades. Eles não queriam passar por ultrapassados e retrógrados aos olhos dos padres jovens” (Mons. Klaus Gamber, La réforme liturgique em question, Éditions Sainte-Madeleine, 1992, pp. 55-56, negritos nossos).

De fato, ano após ano, a reforma litúrgica tem se mostrado bem decepcionante nos seus frutos. Recebida com muito idealismo e com grande esperança por um número imenso de padres e leigos, ela acabou causando uma desolação litúrgica de proporções espantosas.

Ela não trouxe aquela tão esperada renovação da Igreja. Ao contrário, vimos uma destruição de toda a riqueza litúrgica que a Igreja proporcionou largamente aos seus filhos durante milênios. A piedade que nos fora transmitida e a fé que sempre nos fora claramente ensinada sofreram prejuízos imensos.

O novo missal de Paulo VI mostrou-se incapaz de nutrir os fiéis com uma verdadeira piedade e vê-se que ele não exprime a fé com clareza. Com a Nova Missa desejou-se mostrar uma abertura à nova teologia equívoca e ao mundo moderno. O resultado foi uma confusão de proporções imensas. O “Chamado à Desobediência” dos mais de 300 padres austríacos só vem confirmar isto.

É necessário que a missa tridentina seja a norma da fé, “um polo fixo para uma época desnorteada e em perpétua mudança” (Mons.Gamber, ibidem, p. 96).

O papa Bento XVI, com a publicação do Motu proprio Summorum Pontificum concedeu a todos os padres a possibilidade de rezarem a missa tridentina sem que precisem, para isso, da autorização do bispo. Os pastores podem, agora, agir com maior liberdade na tarefa que lhes foi confiada: salvar as almas.

“Porque a todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e ao que muito confiaram, mais conta lhe tomarão” (S. Lucas 12, 48).

Precisamos de pastores que lutem contra os lobos e dêem de comer às ovelhas, não uma doutrina equívoca por meio de orações de um missal fabricado, mas uma doutrina clara e uma missa que produziu santos durante milênios. Precisamos de “bispos que terão a coragem de fazer desaparecer este tumor canceroso que é a teologia modernista implantada no tecido da celebração dos santos mistérios, antes que ele prolifere mais ainda” (Ibidem, p. 95).

Rezemos pelos pastores da Igreja, e corramos ao auxílio deles, se necessário, para que saibam usar bem, e largamente, dos dons que receberam para levar as almas até Deus.


sexta-feira, abril 8th, 2011 at 3:04am

Alteração em Curso: Teologia e Simbologia da Santa Missa

Publicado em Aulas em nossa sede

MONTFORT ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Cursos 2011

Primeiro Semestre

1)       Docente: Prof. Dra. Ivone Fedeli

2)       Objetivo: Estudar as cerimônias da Santa Missa do ponto de vista teológico e simbólico.

3)       Ementa: Sempre com base em textos (dezoito textos, fornecidos ao longo do curso) do Catecismo Romano e nos comentários sobre a Santa Missa de São Leonardo de Porto Maurício e de um erudito Autor Anônimo (La Santa Misa, Ed. Nebli, Madrid, 1975), o curso pretende aprofundar a compreensão das palavras e cerimônias da Sagrada Liturgia da Missa, a fim de incrementar o entendimento e a devoção ao Santo Sacrifício. Na primeira parte do curso será estudada a teologia tradicional da missa. Numa segunda etapa, o significado de suas cerimônias.

4)       Local: Montfort Associação Cultural
Rua Gaspar Fernandes, 650
01549-000 – SÃO PAULO – SP

5)       Telefone para informações: 11 2062 1135 (7:30 ao meio dia).

6)       Horário: 4as. feiras, das 19h30 às 21h00

7)       PROGRAMA NOVO (publicado em 08 de abril de 2011):

Aula Tema Data
1. Da excelência do sacrifício da Missa e de suas relações com a religião e com o culto 15.02.2011
2. Do sacrifício em geral, na Antiga e na Nova Lei 02.03.2011
3. Da celebração da missa desde sua instituição até a promulgação do Missal de Paulo VI 23.03.2011
4. Do nome, divisão, natureza e existência do Sacrifício da Missa 30.03.2011
5. Do valor e dos frutos do sacrifício da Missa
6. Das disposições para oferecer o Santo Sacrifício 06.04.2011
7. Das disposições para assistir ao Santo Sacrifício
8. Dos ritos iniciais: benção e aspersão de água e chegada do sacerdote ao altar 13.04.2011
9. Da preparação pública do sacrifício
10. Da subida no altar 20.04.2011
11. Da instrução preparatória ao Santo Sacrifício 27.04.2011
12. Da oblação ou princípio do Sacrifício – 1 18.05.2011
13. Da oblação ou princípio do Sacrifício – 2 25.05.2011
14. Do Canon 1 01.06.2011
15. Do Canon 2 08.06.2011
16. Do Canon 3 15.06.2011
17. Da Comunhão 22.06.2011
18. Da ação de graças 29.06.2011

 

8)       Programa Antigo (publicado em 10 de feveiro de 2011):

Aula Tema Data
1 Da excelência do sacrifício da Missa e de suas relações com a religião e com o culto 15.02.201
2 Do sacrifício em geral, na Antiga e na Nova Lei 22.02.2011
3 Da celebração da missa desde sua instituição até a promulgação do Missal de Paulo VI – 1 29.02.2011
4 Da celebração da missa desde sua instituição até a promulgação do Missal de Paulo VI – 2 15.03.2011
5 Do nome, divisão, natureza e existência do Sacrifício da Missa 22.03.2011
6 Do valor e dos frutos do sacrifício da Missa 29.03.2011
7 Das disposições para oferecer o Santo Sacrifício 05.04.2011
8 Das disposições para assistir ao Santo Sacrifício 12.04.2011
9 Dos ritos iniciais: benção e aspersão de água e chegada do sacerdote ao altar 19.04.2011
10 Da preparação pública do sacrifício 26.04.2011
11 Da entrada no altar 03.05.2011
12 Da instrução preparatória ao Santo Sacrifício 10.05.2011
13 Da oblação ou princípio do Sacrifício – 1 17.05.2011
14 Da oblação ou princípio do Sacrifício – 2 24.05.2011
15 Do Canon 1 31.05.2011
16 Do Canon 2 07.06.2011
17 Do Canon 3 14.06.2011
18 Da Comunhão 21.06.2011
19 Da ação de graças 28.06.2011

sexta-feira, janeiro 8th, 2010 at 12:00pm

Um segundo escopo do Motu Proprio: a reforma da reforma

PAIX LITURGIQUE, 07 de janeiro de 2010:
A enorme difusão da obra de Monsenhor Nicola Bux, intitulada A Reforma de Bento XVI (1),dá-nos a ocasião de sair o quadro estrito da aplicação do Motu Proprio Summorum Pontifium para fazermos o ponto da situação sobre a “reforma da reforma” que o Sumo Pontífice desencadeou no domínio da liturgia e sobre a relação que, pouco a pouco, se deve estabelecer entre as duas formas da liturgia romana.

A – O projecto da “reforma da reforma”

O segundo escopo do MP, ainda que implícito, nem por isso é menos evidente, se considerarmos seja tudo aquilo o Cardeal Ratzinger escrevera precedentemente sobre este tema, seja o desejo formulado no próprio texto de 2007: o «enriquecimento recíproco» das duas formas que, a partir de agora, coexistem oficialmente. Enriquecimento: a todos é notório que a forma mais «rica» de modo mais evidente é aquela que goza de uma tradição ininterrupta de dez séculos (e até mesmo de dezassete séculos no que respeita à sua parte essencial, o cânone) e cujo valor doutrinal e ritual é pelo menos semelhante ao das outras grandes liturgias católicas. Na sua obra, Nicola Buxescreve o seguinte: «Os estudos comparativos demonstram que a liturgia romana estava muito mais próxima da liturgia oriental na sua forma pré-conciliar do que a liturgia actual». É por isso que, falando seriamente ninguém se lembra de negar que a forma que, em primeiro lugar, deverá ser enriquecida/transformada há-de ser esta liturgia fabricada à pressa há quarenta anos, pois, como sublinha Nicola Bux: «É preciso confessar que a missa de Paulo VI está longe de ter tudo o que vemos no missal de São Pio V».Criou-se o hábito de dar o nome de “reforma da reforma” a este processo de enriquecimento/transformação da reforma de Paulo VI com o objectivo de a tornar mais tradicional tanto no fundo como na forma. Se bem que fosse exagerado dizer que a reforma da reforma é algo que pertence ainda ao domínio dos desejos pios, convém todavia admitir que ela está apenas — um pouco como acontece com a forma extraordinária — no começo.Impõem-se duas observações prévias relativamente ao processo que terá lugar no futuro:

> 1. A reforma da reforma, como o indica a própria expressão, diz apenas respeito à reforma de Paulo VI. De modo algum pode ela induzir uma transformação, supostamente «paralela», da forma tradicional do rito. As duas formas não são de todo comparáveis do ponto de vista da sua relação com a tradição nem do ponto de vista da sua estrutura ritual. Proceder a um bricolage ou a uma composição sobre o rito tradicional seria um verdadeiro torpedeamento com o qual todos sairiam a perder — com isso a reforma da reforma acabaria por ver desabar a sua própria coluna vertebral — e, além do mais, em tempos, uma tal hipótese foi prudente e claramente afastada pelo Cardeal Ratzinger (2).

> 2. Além disso, a reforma da reforma não mira a estabelecer por meio de uma série de reformas feitas por decretos e leis um terceiro missal, a meio caminho entre o missal tridentino e o novo missal (o qual, aliás, é muito mais um conjunto indefinido, diversificado e evolutivo do que um «missal» no sentido tradicional do termo). Ao Cardeal Ratzinger, ontem, e ao Papa Bento XVI, hoje, causa repugnância pôr em prática um movimento de reformas autoritárias e continuadas semelhante — ainda que em sentido inverso — ao que foi realizado pela reforma de Paulo VI. Trata-se, em vez disso, de começar um processo progressivo de aproximação do missal de Paulo VI na direcção do missal tradicional, o que, aliás, é permitido pelo carácter maleável da nova liturgia, alterável a bel-prazer: paradoxalmente, o seu carácter a-normativo permite que se lhe infunda a norma tradicional de que carece. Podemos mesmo perguntar-nos se, no final de um tal processo, ela irá ter um qualquer interesse que não seja o de ser uma mera propedêutica à liturgia tradicional?

B – O livro de Nicola Bux

A importância da publicação deste livro deve-se em primeiro lugar ao peso do seu autor. Mons. Nicola Bux, professor de liturgia e de teologia sacramental no Instituto de Teologia Ecuménico-Patrística de Bari, na Itália, é consultor da Congregação para a Doutrina da Fé e da Congregação para a Causa dos Santos e ainda do Gabinete para as Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, conselheiro da revista Communio e autor de numerosos livros (nomeadamente, Il Signore dei Misteri. Eucaristia e Relativismo — O Senhor dos Mistérios. Eucaristia e Relativismo, Cantagalli, 2005) e de múltiplos artigos (“Sessenta Anos Depois da Encíclica Mediator Dei de Pio XII, Debater Serenamente sobre a Liturgia”, in Osservatore Romano, 18 de Novembro, 2007). Além disso, é um dos defensores mais influentes da reforma da reforma de Paulo VI.

À sua volta poderíamos citar muitos outros nomes, como o do Pe. Alcuin Reid (The Organic Development of the Liturgy, Ad Solem, 2006), Mons. Nicola Giampietro (publicação das memórias do Cardeal Antonelli, Apoc 2004), Mons. Athanasius Schneider (Dominus Est – Riflessioni di un Vescovo dell’Asia Centrale sulla Sacra Comunione, Libreria Editrice Vaticana, 2008), Pe. Aidan Nichols (Liturgie et Modernité, Ad Solem, 1998) ou ainda o Pe. Mauro Gagliardi (Lturgia, Fonte di Vita, Fede & Cultura, 2009). Sem esquecer as iniciativas promovidas pelo Pe. Manelli e pelos Franciscanos da Imaculada ou, claro está, a acção quotidiana de importantes prelados como o Bispo Ranjith, o Arcebispo Burke, o Cardeal Cañizares, etc.

A par disso, o livro de Mons. Bux pôde contar com três prefácios, o do famoso jornalista italiano Vittorio Messori (que realizou o Diálogos sobre a Fé com o Cardeal Ratzinger) para a edição italiana, o do Bispo Marc Aillet, bispo de Bayonne, para a edição francesa, e o do próprio Prefeito da Congregação para o Culto Divino, o Cardeal Cañizares, para a edição espanhola.

Segundo Nicola Bux, a crise que feriu a liturgia romana deve-se ao facto de que a mesma já não se centra em Deus e na Sua adoração, mas antes sobre os homens e sobre a comunidade. «No início está a adoração e, logo, Deus (…) A Igreja provém da adoração, da missão de glorificar a Deus», assim escrevera a este propósito Joseph Ratzinger. A crise da liturgia começa no momento em que deixa de ser uma adoração, no momento em que se reduz à celebração de uma comunidade particular, na qual padres e bispos, em vez de serem ministros, isto é, servidores, passam a ser “líderes”. É por isso que, hoje, «as pessoas pedem cada vez mais respeito para que se garanta um espaço pessoal de silêncio, com vista a uma participação íntima da fé nos mistérios sagrados».

Assim, há que voltar a ensinar a um clero machucado na sua prática e consciência cultuais que a liturgia é sagrada e divina, que ela provém das alturas como a da Jerusalém celeste no Apocalipse. «A este propósito, seria necessário envidar esforços para tentar saber porque é que, afinal e apesar das aparências, a língua vernácula não consegue tornar a liturgia mais compreensível.» Será conveniente reeducar o sacerdote para a realização dos sagrados mistérios in persona Christi, na Igreja, enquanto ministro e não como um animador de uma assembleia fechada sobre si mesma, pois foi nisso que ele se transformou.

C – O projecto da reforma da reforma: proceder com base mais no exemplo do que nos textos de leis

Sem embargo da gravidade dos factos observados pelo Mons. Bux, em particular, e pelos “homens do Papa”, em geral, e isto no seguimento da linha do pensamento do Santo Padre nesta matéria, nem ele nem eles pretendem leis e decretos que, ao jeito daqueles da época de Bugnini, tentassem revirar tudo de maneira autoritária. Mesmo estando hoje a Igreja seriamente doente, em termos litúrgicos, eles preferem agir através do medicamento doce que é o exemplo: o do Sumo Pontífice, em primeiro lugar, e depois, o dos bispos que, à semelhança do Papa, também queiram dar o exemplo.

Deste modo, Bento XVI multiplica, em jeito de beliscões, os gestos correctores; estes, sem dúvida, poderão parecer meras questões de pormenor, mas é também certo que a liturgia não pode deixar de ser constituída por um conjunto de pormenores: a grande dignidade das celebrações pontificais, a beleza dos paramentos da sacristia de São Pedro que têm sido usados de novo pelo mestre-de-cerimónias pontifício, Mons. Marini, a colocação dos grandes e pesados castiçais sobre o altar que vêm esbater o efeito teatral do estar voltado face ao povo, e sobretudo a distribuição da comunhão na boca e de joelhos.

Cabe agora aos bispos fazer o mesmo nas suas celebrações públicas. Sabemos também que, recentemente, com uma ordem emanada a 27 de Abril de 2009, o Cardeal Carlo Caffarra, arcebispo de Bolonha e um dos expoentes teológicos mais valiosos do episcopado italiano, decidiu que «dada a frequência das informações sobre comportamentos irreverentes no momento de receber a Eucaristia», «a partir deste dia, na igreja metropolita de São Pedro, na basílica de São Petrónio e no santuário de Nossa Senhora de São Lucas, em Bolonha, os fiéis deverão receber o Pão Consagrado de um ministro, apenas directamente sobre a língua».

Por seu turno, Dom Athanasius Schneider, juntamente com o Pe. Mauro Gagliardi (3), pedem-nos para lembrar vigorosamente que o modo «normal» é o da comunhão na boca e que a comunhão na mão não é senão um modo «tolerado», ainda que, desde há bastante tempo, este seja o modo maioritário. Este encorajamento tem grande importância para o renascimento da fé na presença real. O respeito pelo divino e pelo sagrado exprime-se através de gestos de reverência, acrescenta ainda Mons. Bux.

Mas há ainda outros pontos constantemente invocados pelos adeptos da reforma da reforma, entre os quais podemos citar os seguintes:

1. A incitação para que se reduza o número dos concelebrantes e mesmo o das concelebrações: «Quando ela [a concelebração] se torna demasiado frequente, a função mediadora de cada sacerdote enquanto sacerdote fica obscurecida.»

2. Fazer com que se diminua pouco a pouco a multiplicação das partes opcionais da missa (em vista estão as orações eucarísticas, entre as quais há algumas doutrinalmente problemáticas).

3. Reintroduzir elementos da forma extraordinária que favorecem o sentido do sagrado e a adoração, tais como as genuflexões, os beijos do altar, os antiquíssimos sinais da cruz do cânone: «O sagrado também se exprime através dos sinais da cruz e das genuflexões» (N. Bux).

4. E ainda muitos outros: lembrar que o sinal da paz é uma acção sagrada e não um gesto de civilidade urbana, reintroduzir em força o uso do latim como língua litúrgica, etc.

Finalmente, e sobretudo, como não nos haveremos de deter a reflectir sobre o encorajamento que se dá ao sacerdote para que celebre voltado para o Senhor, pelo menos durante o ofertório e a oração eucarística. «A medida mais visível da reforma litúrgica», assim escreve Mons. Bux, «foi a mudança da posição do sacerdote em relação ao povo». À luz de tais palavras, é-nos então legítimo estimar que a reforma da reforma se poderá dar por verdadeiramente lançada e já em marcha, logo que o Papa e os bispos se vejam a celebrar regularmente voltados para o Senhor.

D – O forte do projecto de reforma da reforma

No seu livro, Nicola Bux observa que a chave da nova liturgia, tal como ela saiu do gabinete de Bugnini — que foi o autor da reforma litúrgica —, é a adequação ao mundo. É neste preciso ponto que a reflexão por ela operada, em uníssono com aquela dos adeptos da reforma da reforma, se torna mais radical: a essência da liturgia católica é de ser «como que uma crítica permanente que a Igreja dirige ao mundo, ao mesmo tempo que este tenta constantemente convencê-la de que faz parte dela». É aí que urge lembrarmo-nos de que revolução não é o mesmo que reforma: «A reforma não pode ser entendida como uma tentativa de reconstrução que siga os gostos de uma época determinada.»

É por isso mesmo que Mons. Bux cita e comenta à saciedade o Breve Exame Crítico publicado logo após o Concílio pelos Cardeais Ottaviani e Bacci. «Eles lamentavam», lembra ele dando a sua aprovação aos dois cardeais italianos, «a ausência que se sentia do fim ordinário da missa, isto é, o sacrifício propiciatório.» Com efeito, só um cego podia não ver que, de facto, o novo rito da missa tem por efeito uma imanentização da mensagem cristã: a doutrina do sacrifício propiciatório, a adoração da presença real de Cristo, a especificidade do sacerdócio hierárquico e, em geral, o carácter sagrado da celebração eucarística encontram-se expressos nele de maneira muito menos sensível do que no rito tradicional. É por isso que ganham hoje novo vigor as tentativas feitas no sentido de infundir de novo no novo missal as orações que melhor exprimem o seu valor sacrificial, a saber, as do ofertório (ver, por exemplo, o autêntico manifesto neste sentido que foi o livro do padre beneditino Paul Tirot: Histoire des Prières d’Offertoire dans la Liturgie Romaine du VIIe au XVIe Siècle, Edizioni Liturgiche, 1985).

Assim, se há um ponto em relação ao qual é de contar com legislação que faça avançar o projecto de reforma da reforma, com certeza há-de ser este: a possibilidade de introduzir na celebração ordinária as orações do ofertório romano tradicional.

No final, caso este plano venha realmente a ganhar corpo, no seu termo, poderíamos encontrar-nos diante de uma situação inversa à que se constituiu entre 1965 e 1969: como resposta a este período de transformações brutais, altura essa em que tudo mudava num sentido “progressista”, teríamos agora um período de evolução suave em que tudo mudaria no sentido da re-sacralização.

Levar a cabo a reforma da reforma desta maneira seria algo de realmente reformador, no sentido tradicional — e deveras exigente! — do termo “reforma”. Ela haveria de proceder por “contaminação”, para empregarmos um termo familiar para os historiadores do culto, sempre que pretendem falar da influência de uma liturgia sobre outra: neste caso, a da liturgia tradicional sobre a nova liturgia.

De facto, poderíamos mesmo dizer que, a longo prazo, será talvez a forma extraordinária a oferecer a única hipótese de salvação da forma ordinária, precisamente porque a leva a tornar-se cada vez menos ordinária. Ela poderia transformar-se numa espécie de degrau que permitisse aceder à liturgia. Como quer que fosse, ela nunca iria oferecer concorrência à forma extraordinária, ao contrário, fornecer-lhe-ia um meio bem mais vantajoso para a sua difusão e afirmação como forma oficial de referência.

(1) Estando a aguardar uma versão portuguesa, o livro do Mons. Bux está disponível na sua versão original, publicada pela editora italiana Piemme.

(2) Em 2001, nas jornadas litúrgicas de Fontgombault, o Cardeal Ratzinger havia afirmado que, sem dúvida, durante muito tempo no futuro, não se poria a questão de tocar no missal tridentino, essencialmente porque a sua presença e a sua vida actual podiam servir de estímulo para uma evolução do novo missal. Esta «linha» é hoje claramente a que é adoptada pela Congregação do Culto Divino e pela Comissão Ecclesia Dei, onde se crê, por exemplo, ser impossível a introdução do novo leccionário no rito tradicional. O único arranjo que se pode perspectivar para o rito tradicional, de acordo com os liturgistas romanos, seria o da introdução de novos prefácios.

(3) Entrevista concedida a zenit.org, a 21 de Dezembro de 2009(1), dá-nos a ocasião de sair do quadro estrito da aplicação do Motu Proprio Summorum Pontifium para fazermos o ponto da situação sobre a “reforma da reforma” que o Sumo Pontífice desencadeou no domínio da liturgia e sobre a relação que, pouco a pouco, se deve estabelecer entre as duas formas da liturgia romana.


segunda-feira, agosto 24th, 2009 at 12:00pm

A reforma da reforma

Anunciada há vários anos, parece que agora vai afinal ser decretada a reforma da Missa Nova de Paulo VI. É a chamda “reforma da reforma”. Mais exatamente — conforme me sugeriu um velho e fiel  sacerdote franciscano a “Reforma da Deforma”.
O jogo de palavras é bem feito e, melhor ainda, bem aplicado. Pois o que fez Monsenhor Bugnini ao fabricar a Nova Missa de Paulo VI foi uma completa deformação, e até demolição, da Missa de sempre. E Mons.Bugnini deu só o primeiro passo, pois como se admitiu que o celebrante poderia exercer sua “criatividade”, inventando orações e gestos “litúrgicos”, a Missa acabou sendo diferente em cada paróquia, inventando-se inovações selvagens e barbaramente ecumênicas.
No pós Concílio a Sagrada Liturgia católica foi roqueiramente destruída, tornado-se irreconhecível. Virou Missa-show e até espetáculo circense. (O Cardeal Lehman botou nariz de palhaço numa celebração. Nos Estados Unidos um Padre vestiu-se de ursinho e permitiu que uma mulher vestida como um diabo, distribuisse a comunhão).
Contra esses crimes, sempre se manifestou o Cardeal Ratzinger. Eleito Papa, ele deu sinais claros de que ia acabar lentamente, e por etapas, esses abusos e essa destruição.
Claro que, conhecendo a situação lamentável do clero em todo o mundo, sabendo da ignorância imensa causada pela destruição dos estudos nos seminários, vendo a amplíssima infiltração do modernismo no clero pós conciliar, Bento XVI compreendeu que se faria – e se fará — enorme resistência à correção dos abusos e da demolição da Sagrada Liturgia.
O retorno completo à plena ordem litúrgica levará muitos anos.
O primeiro garnde passo dado pelo Pàpa Bento XVI foi a liberação da Missa de sempre, através do Motu Proprio Summorum pontificum, tão pouco acatado, tão obstaculizado pelos Bispos modernistas.
                                                  
Se a celebração da Missa de sempre permitida a qualquer sacerdote, sem precisar permissão do Bispo, está sendo tão combatida, como não será combatido o Papa, quando obrigar os Bsipos e Padres modernistas aplicarem a reforma da deforma que agora se anuncia para logo mais?
 
Porque as mudanças, embora paulatinas, serão profundas. Ver-se-á que grau e que extensão terão as mudanças, quando for conhecido o decreto papal da Reforma da Deforma. Mas já se fala da adoção do latim! Em Missais bilingues!
Imagine-se Padres Marcelo Rossi, Joãozinho, Zezinho e Fãbio de Melo tendo que razr a Missa em latim! E sem rock e sem cancõnetas ridículas!
Como ficarão os Bispos que proibiram a Missa de sempre com a escusa de que os fieis deveriam saber latim?
 
Consta que o cânon da Missa em forma “ordinária“ terá que ser em latim, o sacerdote falando baixo, mantendo-se silêncio completo na Igreja, com proibição de qualquer canto. O rock será banido.
VIVA!!!
Adeus shows-missas!
 
Fala-se até da possibilidade de que o padre terá que celebrar, pelo menos uma parte da Missa, de costas para o povo.
 
Que ranger de dentes será ouvido em muitas sacristias!
Sem dúvida , haverá choro e ranger de dentes. Porque, quando os lobos choram, eles rangem os dentes.
E mordem.
 
O serviço “meteorológico” prevê tempestades eclesiásticas e até “tremores” de terra…
 
Pois é claro que todos compreendem que, isso que agora é anunciado, é só a primeira etapa.
Todos compreendem?
Todos é exagero.
Os sede vacantistas não compreendem. Acharão que o Papa está traindo a Missa de sempre, porque, aliás, ele nem seria Papa.
O próprio Papa Bento XVI—quando era Cardeal- escreveu ao Padre Heins-Lothar Barth, em carta agora publicada, que a reforma seria em etapas, mas que o ponto final seria alcançado quando houvesse de novo um só rito romano. E na forma antiga da Missa!
Antes seria preciso “limpar a Capela de Capri”, como foi escrito no livro- entrevista do Cardeal Ratzinger ao jornalista Peter Seewald, Voici quel est notre Dieu (Eis como é nosso Deus).
Eis a parábola que aparece nesse livro:
 
Peter Seewald.– O escritor Martin Mosebach conta uma pequena história a respeito de uma missa. Isso aconteceu, há muito tempo, na ilha de Capri. Um dia, desembarca um padre inglês, que se fez reconhecer como padre por suas roupas, o que tinha se tornado raro, mesmo na Itália do sul. Quando se tornou claro que o homem de batina queria seriamente celebrar uma missa, todos os dias, se lhe atribuiu, depois de muitas hesitações, uma capela situada num promontório rochoso em precipício sobre o mar, o monte Tibério, sobre o qual estava situado outrora a vila Jovis, uma das numerosas residências do Imperador Tibério. Esta capela era aberta apenas uma vez por ano, no dia 8 de setembro, para a festa da Natividade da Virgem Maria. No resto do ano, ela ficava abandonada aos ratos que cavavam buracos no fundo das gavetas da sacristia.
O Padre inglês, um homem prático, e que não era um grande teólogo, se pôs a caminho. Ele subiu a ladeira ríspida e se deliciou com a bela vista sobre o golfo. Ele teve alguma dificuldade para fazer funcionar a fechadura enferrujada da capela. Ele entrou nesse lugar que cheirava a mofo, acompanhado por um belo raio de sol. A porta metálica do tabernáculo estava aberta, as velas estavam inteiramente consumidos, as cadeiras reviradas, e a sacristia tinha o aspeto de lugar abandonado às pressas. Vasos sujos, uma capa de altar apodrecida, um cálice estilo kitch, toalhas de linho de altar tinha colado umas às outras, um missal caindo aos pedaços. Sim, até mesmo o crucifixo estava torcido.
O padre olhou atentamente tudo isso e refletiu longo tempo. Ele abriu a janela, pegou uma vassoura de palha, que estava caída num canto, e se pôs a varrer toda a capela. Ele pegou o crucifixo, beijou-o e o posou sobre o armário da sacristia. Ele limpou o cálice e reergueu os candelabros. Quando ele descobriu a corda do sino, trepou numa escada no exterior da capela e amarrou a corda a um sino. O encanto estava agora rompido.
Ele colocou uma estola roxa acetinada toda manchada. Derramou um pouco de água que tinha trazido numa garrafa plástica num pequeno pote e se pôs a rezar; ele acrescentou um pouco de sal, fez os gestos de bênção e colocou a água em pequenas pias de água benta em forma de concha ao lado da entrada; poder-se-ia imaginar ouvir a pedra gemer como se ela despertasse de novo. E quando ele badalou o sino com a ajuda da corda, aproximaram-se vindos de longe os primeiros fiéis, mulheres e crianças, e logo a capela ficou cheia.
A missa podia começar. O sacerdote se inclinou diante do altar e começou pelas palavras: Introibo ad altare Dei.
Enquanto o homem de batina purificava o lugar, enquanto ele acendia as velas e benzia a água, quando ele tirava a poeira e expulsava para um canto as ratoeiras, um observador atento, devia ter a impressão que alguma coisa especial se passava. Tal como Abel ou Noé, ele tinha construído um altar antes de sacrificar. E como Moisés, ele delimitou o espaço para o tabernáculo. Era a preparação e a delimitação do espaço sagrado.
Cardeal Ratzinger. – “Esse texto de Mosebach naturalmente é muito poético, mas, no total, a situação em Capri não era tão desesperadora quanto parecia. Mas é verdade que a preparação exterior e interior vão juntas. A missão de São Francisco começou da mesma maneira. Ele ouviu as célebres palavras de Cristo: “É preciso que reconstruas a minha Igreja”. Ele as aplicou inicialmente a essa igreja arruinada, à Porciúncula, que ele restaurou e reconstruiu. Ele notou, em seguida, que ele precisava fazer muito mais: reconstruir a Igreja viva.
Mas este trabalho manual inicial faz parte dessa reconstrução. Ele é muito importante vigiar para que o espaço, a Igreja, seja sempre preparado de novo, que sua santidade interior como a exterior seja sempre perceptível e reconhecível. É verdade que nós temos em todo o mundo, graças a Deus, igrejas maravilhosas cujo caráter sagrado seria necessário reaprender a amar. A chama acesa diante do Santíssimo Sacramento permite-nos perceber uma presença silenciosa permanente. Muitas igrejas, hoje, parecem teatros, dos quais se admira a beleza do passado mais do que como meio de nossas próprias atividades; constata-se então uma perda interior do sentido do sagrado.
“Reencontrar este sentido e preparar este espaço e exterior, não pode ser feito senão sob a condição de entrar na celebração de modo a encontrar o sagrado efetivamente nela”. (Cardeal Joseph Ratzinger, Voici quel est notre Dieu, Plon, Paris, 2.001. Pp. 288 a 294. Tradução do francês de O. Fedeli.
Bento XVI vai começar a limpar a Capela de Capri.
Que farão os ratos quando a vassoura começar a ser usada. Porque os ratos da Capela de Capri, na verdade, são lobos que atacarão o Pastor supremo.
Rezemos pelo Papa Bento XVI ajudêmo-lo, o quanto pudermos na limpeza, ordenação e decoração da Capela de Capri.
Na restauração da Missa de sempre!
São Paulo, 24 de Agosto de 2009, festa de São Bartolomeu.
Orlando Fedeli

 
Ratzinger reforma a Missa. Basta com a Hóstia na mão
de Andrea Tornielli
 
Roma — O documento foi entregue nas mãos de Bento XVI na manhã de 4 de Abril passado pelo Cardeal espanhol Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. Foi o resultado de uma votação reservada, ocorrida em 12 de Março, no curso da reunião «plenária» do Dicastério que se ocupa de liturgia, e representa o primeiro passo concreto em direção daquela «reforma da reforma» várias vezes expressada pelo Papa Ratzinger. Quase por unanimidade os Cardeais e Bispos membros da Congregação votaram a favor de uma maior sacralidade do rito, de uma recuperação do sentido da adoração eucarística, de uma recuperação da língua latina na celebração e do refazer das partes introdutórias do Missal para por um freio aos abusos, experiências selvagens e inoportunas criatividades.
Eles se disseram favoráveis também a confirmar que o modo usual de receber a comunhão segundo as normas não é na mão, mas na boca. É verdade que existe um indulto que permite, que, sob pedido dos episcopados, se distribua a Hóstia também na palma da mão, mas isso deve permanecer um fato extraordinário. O «ministro da liturgia» de Papa Ratzinger, Cañizares, está fazendo estudar também a possibilidade de recuperar a orientação para o oriente do celebrante, pelo menos no momento da consagração eucarística, como era de praxe antes da reforma, quando tanto os fiéis quanto o Padre celebrante olhavam para a cruz e, portanto, o sacerdote dava as costas  à assembléia.
Quem conhece o Cardeal Cañizares, apelidado «o pequeno Ratzinger» antes de sua transferência a Roma, sabe que ele tem a intenção de  levar avante com decisião o projeto, justamente a partir do que estabeleceu o Concílio Vaticano II na constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium, que na realidade foi ultrapassada pela reforma pós-conciliar que entrou em vigor no final dos anos Sessenta. O purpurado, entrevistado pelo mensário 30 Giorni, nos meses passados, havia dito a esse propósito: «Por vezes se mudou pelo simples gosto de mudar a respeito de um passado percebido como totalmente negativo e superado. Por vezes, concebeu-se a reforma como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da Tradição».
 
Porisso, as «proposições» votadas pelos Cardeais e Bispos na reunião plenária de Março prevêem um retorno ao sentido do sagrado e à adoração, mas também uma recuperação das celebrações em latim nas dioceses, pelo menos durante as principais solenidades, assim como a publicação de missais bilingues – um pedido feito a seu tempo por Paulo VI – com o texto latino à frente.
As propostas da Congregação que Cañizares levou ao Papa, obtendo a sua aprovação, estão perfeitamente na linha com a idéia várias vezes expressas por Jopseph Ratzinger quando ainda era Cardeal, como o comprovam os trechos inéditos sobre liturgia anticipados ontem pelo Il Giornale, que serão publicados no livro Diante do Protagonista (Cantagalli), apresentado com antecedência no Meeting de Rimini. Com um nota bem significativa: para a realização da «reforma da reforma» serão necessários muitos anos. O Papa está convencido de que não adianta nada dar passos apressados, nem simplesmente baixar diretivas do alto, com o risco que depois fiquem letra morta. O estilo de Ratzinger é o do confronto e sobretudo do exemplo. Como demonstra o fato que, há mais de um ano, todos os que vão comungar das mãos do Papa, devem se ajoelhar sobre o genuflexório propositalmente preparado pelos cerimoniários
[Tradução da notícita: Montort. texto original em italiano]

domingo, agosto 23rd, 2009 at 12:00pm

Cardeal Joseph Ratzinger: "creio que a longo prazo a Igreja romana deva ter de novo um só rito romano".

     Ao Dr. Heinz-Lothar Barth, 23 de junho de 2003:
     Caro Doutor Barth,
     Agradeço-lhe cordialmente pela sua carta do dia 6 de abril, a qual só agora encontrei tempo para responder. O senhor me pede que me esforce por uma mais ampla disponibilidade do rito romano antigo.
     De fato,o senhor sabe que não sou surdo a tal pedido. Enquanto, meu trabalho a favor dessa causa é bem conhecido. Quanto à questão de se a Santa Sé «readmitirá o antigo rito por toda parte e sem restrições», como o senhor deseja e ouviu murmurar, não se pode responder simplesmente ou dar confirmação sem alguma dificuldade. É ainda grande demais a aversão de muitos católicos, insinuada neles  há muitos anos, contra a liturgia tradicional que com desprezo chamam «pré conciliar». E dever-se-iam fazer as contas com a considerável resistência por parte de muitos Bispos contra una readmissão geral.
     Todavia, bem diversamente seria pensar em uma readmissão limitada. O próprio pedido para a antiga liturgia é limitado. Sei que o seu valor, naturalmente, não depende da quantidade de pedidos com relação às oposições, mas, não obstante, a questão do número de sacerdotes e leigos interessados desempenha um certo papel. Além disso, uma tal medida, apenas 30 anos da reforma litúrgica de Paulo VI, pode ser efetivada somente de modo gradual. Qualquer pressa seguramente não seria uma coisa boa.
     Entretanto, creio que a longo prazo a Igreja romana deve ter de novo um só rito romano. A existência de dois ritos oficiais para os Bispos e para os padres, na prática, é difícil de «gerir». O rito romano do futuro deveria ser um só, celebrado em latim ou em vernáculo, mas completamente na tradição do rito que foi transmitido do passado. Esse rito poderia assumir algum elemento novo que se verificou válido, como as novas festas, alguns novos prefácios da Missa, um amplo lecionário – mais escolhido do que antes, mas não excessivo -, uma «oratio fidelium», isto é, uma ladainha fixa de intercessões que se segue aos Oremus antes do ofertório, onde primeiro tinha a sua colocação.
     Caro Doutor Barth, se o senhor se empenhar em trabalhar pela causa da liturgia desta maneira, certamente não se achará sozinho e preparará «a opinião pública eclesial» para eventuais medidas a favor de um amplo uso dos livros litúrgicos de outrora. Todavia, é preciso prestar atenção para não despertar expectativas por demais elevadas ou maximalistas entre os fiéis tradicionais.
     Aproveito a oportunidade para qgradecê-lo pelo seu apreciável empenho pela liturgia da Igreja romana em seus livros e em suas lições, ainda que cá e lá desejasse eu ainda mais caridade e compreensão para com o magistério do Papa e dos Bispos. Possa a semente semeada pelo senhor germinar e dar muito fruto pela renovada vida da Igreja cuja «fonte e cume», na verdade, a liturgia é, e deve permanecer, o seu verdadeiro coração.
     Com prazer, lhe concedo a bênção que o senhor pediu.
     Joseph, Cardeal Ratzinger

quinta-feira, agosto 20th, 2009 at 12:00pm

A crise conciliar vista da Basílica Vaticana

Concílio Ecumênico Vaticano II: Um Discurso a ser feito, de Monsenhor Brunero Gherardini
     Para aqueles que se interessam pela Teologia, é inegável que a discussão sobre o Magistério do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo e do Magistério que se seguiu a este mesmo Concílio ocupa hoje o centro das atenções e dos estudos daqueles que têm amor pela Igreja e um mínimo de espírito realista para perceber a crise que fulmina o Corpo Místico de Cristo, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. É imprescindível apreciar, então, qual a relação entre a crise doutrinal e moral que assola a Igreja e o Concílio Vaticano II. Trata-se de uma relação de causalidade? Que tipo de causalidade? De ocasionalidade? Pura coincidência?
     Nesse sentido, ou seja, de uma análise verdadeiramente teológico-científica do Concílio Vaticano II, são já numerosas as iniciativas que surgiram nos últimos anos. Podemos citar, por exemplo, a criação do Instituto Bom Pastor com seu dever de crítica construtiva ao Magistério Conciliar; o congresso teológico realizado pelos dominicanos de Toulouse sobre a hermenêutica da ruptura ou da continuidade relativas ao Concílio; a publicação do livro de A candeia debaixo do alqueire do Padre Alvaro Calderon. A última publicação de relevada importância quanto ao último Concílio, porém, é a de Monsenhor Brunero Ghuerardini: Concilio Ecumenico Vaticano II: Un Discorso da Fare. E é preciso reconhecê-lo que ela é quoad clerum ao menos, a de maior importância, dado o autor e a sobriedade com que ele apresenta a sua crítica.
     Monsenhor Gherardini é considerado por muitos como o último teólogo da escola romana, que conta entre os seus grandes nomes os dos cardeais Franzelin, Billot, Parente e outros como o de Monsenhor Piolanti. Monsenhor Gherardini foi o Decano de Teologia da Pontifícia Universidade Lateranense em Roma, sendo responsável pela cátedra do importantíssimo De Ecclesia (Eclesiologia), que é a nosso ver a matéria de maior relevo quanto ao que concerne à crise atual. Monsenhor Guerardini é também cônego da Basílica Vaticana de São Pedro. É, então, de um homem entranhado de romanidade, de respeito à hierarquia e ao Magistério e de um eminente teólogo (que conheceu, além disso, muito bem o mais alto ambiente filosófico-teológico eclesiástico anterior e posterior ao Concílio) o livro do qual vamos agora expor alguns pontos em prol da sã teologia, em prol de nossa Santa Mãe, a Igreja, e em prol da salus animarum.
     Vale destacar, também, a oficialidade que reveste a publicação da obra de Monsenhor Ghuerardini, com prefácios de Dom Mario Oliveri, Bispo de Albenga, Itália e de Dom Ranjith, na época ainda  Secretário da Congregação para o Culto Divino. São, então, um bispo e um arcebispo a quem o Senhor, por mediação do sumo pontífice, confiou uma parte de seu rebanho que aprovam a obra de Monsenhor Gherardini como uma grande contribuição para a serena consideração do Concílio.  Ademais, a publicação é feita pela editora Casa Mariana Editrice, pertencente aos Franciscanos da Imaculada, que cooperam também e à sua maneira para o grande debate doutrinário sobre o Concílio.
     Nesta breve apresentação da obra de Monsenhor Brunero Gherardini: Concilio Ecumenico Vaticano II Um discorso da Fare, não temos a intenção de esgotar todos os pontos de que trata o autor, mas simplesmente provocar as inteligências católicas à leitura do livro – que deve ser traduzido em breve para a língua francesa – e à reflexão séria sobre o tema a partir da exposição de alguns trechos do livro. Não nos cabe agora apresentar em forma de silogismo os argumentos que levam às conclusões do autor, mas tão somente apresentar em linhas gerais os assuntos tais como desenvolvidos na obra.
O Concílio celebrado, mas não considerado teológica e cientificamente
     O livro de Monsenhor Gherardini começa pela constatação de que passados quase cinqüenta anos do último Concílio Ecumênico, a ausência de uma análise crítica e teológica verdadeiramente científica do Concílio Vaticano II é quase completa. No lugar dela o que existiram foram celebrações, comemorações, incensamento do Concílio, seja para afirmar a sua continuidade com a Tradição, seja para afirmar o começo de uma nova era na Igreja. O autor assevera, após esta constatação e passados quase cinqüenta anos de incensamentos ao Concílio, de celebrações intempestivas  e contraproducentes, a necessidade de dar um passo atrás a fim de fazer uma “reflexão histórico-crítica sobre os textos conciliares, que busque as ligações deles – no caso em que efetivamente elas existam – com a continuidade da Tradição católica.” (pag. 17) Fica evidente, dessa forma, o porquê do título do livro: Concílio Vaticano Segundo: um discurso a ser feito.
     Tal reflexão crítica é para o eminente professor um dos “mais urgentes deveres do Magistério eclesiástico, de cada um dos bispos e dos centros culturais católicos para o bem da Igreja; ao dever conjuga-se o direito do inteiro povo de Deus que lhe venha explicitado com clareza e objetividade o que foi o Vaticano II no plano histórico, ético e dogmático” (pag. 17). Ele propõe, em particular na sua súplica ao Santo Padre o Papa Bento XVI, uma grande volta aos textos do Concílio, um trabalho feito sem idéias a priori quanto à continuidade ou à ruptura no que concerne à Tradição, trabalho que objetiva o bem da Igreja e o fim da crise pós-conciliar:  “O grande trabalho que deveria ser feito na desejada colaboração dos especialistas dos vários setores das ciências sagradas, provenientes de todo o orbe católico, poderia ser o de verificar se e em que medida o Vaticano II está ligado efetivamente, e não somente por intermédio de suas declarações, às doutrinas expostas ou pelos concílios, ou pelos Papas ou pelo ministério episcopal e transmitidas pela Tradição à vida mesma da Igreja” (pag. 57).
Vaticano II: Concílio Ecumênico é sempre per se infalível?
     O autor em outro capítulo importantíssimo de sua obra considera a finalidade e a natureza do Concílio a partir do próprio Concílio. O autor destaca antes de tudo a finalidade e natureza do Concílio, a fim de diferenciá-lo dos outros Concílios Ecumênicos e em particular do tridentino e do Vaticano I. A finalidade do Vaticano II é, então, “não definitória, não dogmática, não vinculante dogmaticamente, mas pastoral. E, a partir disso, também quanto a sua natureza específica de Concílio Pastoral.” (pag. 47)
     Ele analisa a Notificação de Monsenhor Pericles Felici quanto à classificação teológica da doutrina expressa no Concílio Vaticano II, o fato da existência de Constituições dogmáticas e de expressões que parecem indicar uma índole de peremptoriedade como “o Santo Sínodo ensina” ou “ensinamos e declaramos”. Levando em conta todos esses aspectos o eminente teólogo conclui que o Vaticano II não pode ser definido, em sentido estrito, dogmático e que as suas doutrinas que não são fundamentadas em definições precedentes não são nem infalíveis nem irreformáveis e por conseqüência não são vinculantes: quem as negasse não seria por esta razão formalmente herege. Por outro lado, “Aquele que o impusesse como infalível e irreformável iria contra o próprio Concílio” (p. 51) Quanto ao fato do Concílio Vaticano II declarar-se como Magistério Supremo, isso não significa que seja infalível ou irreformável. Nós indicamos o artigodo próprio Monsenhor Gherardini no Blog Disputationes Theologicae, no qual ele trata da questão ex professo.  
     A questão do assentimento devido aos diversos graus de Magistério é de suma importância para o entendimento do Magistério Conciliar e parece-nos ser a causa de inúmeros erros, seja dos sede-vacantistas, seja dos conservadores, seja dos “tradicionalistas” que afirmam a priori a obrigação estrita de aceitar integralmente e sem reservas o Concílio Vaticano II. Se alguém quer ser teólogo, é preciso distinguir freqüentemente. É preciso distinguir entre os graus do Magistério e conseqüentemente entre os diversos graus respectivos de assentimento. O intelecto só pode assentir de maneira absoluta à autoridade da evidência ou à evidência absoluta da autoridade, em um ato de fé. Esta evidência absoluta da autoridade está presente somente no Magistério infalível, devido à assistência divina. Daqui não se segue que se esteja livre para contestar abertamente o Magistério não infalível da Igreja, mas segue-se que é possível apresentar, com o devido respeito, nossas dificuldades à autoridade eclesiástica, a fim de que ela se pronuncie de maneira autêntica e definitiva. Não foi outra a atitude de Dom Lefebvre ao apresentar seu estudo Dubia sobre a liberdade religiosa à Congregação para a Doutrina da Fé.
Liturgia: a porta escancarada
     No que tange ao documento conciliar sobre a Sagrada Liturgia – Constitutio Sacrosanctum Concilium -, Monsenhor Gherardini sustenta claramente a presença de significativas premissas sobrenaturais, afirmadas como princípios e de maneira abstrata (pag. 145). Todavia, a presença de inúmeras, largas e imprecisas exceções deixava uma porta aberta a todas as inovações (pag. 145). Uma porta não somente aberta, mas verdadeiramente escancarada. “E se alguém passou por ela para introduzir na Igreja não uma reforma litúrgica que harmonizasse, baseada nas suas fontes, a Tradição eclesial com as desejos do hoje em vista do amanhã, mas uma liturgia destruidora de sua própria natureza e de suas finalidades primárias, o responsável, em última análise é o próprio texto conciliar”. (pag. 147) Embora a Reforma litúrgica não tenha sido obra do concílio, “ela foi feita sob a égide dos princípios conciliares, interpretados à luz daquela abertura na qual o concílio mesmo os colocou.” (pag. 148) Uma reforma baseada na letra e no espírito do Concílio segundo o disposto pela Secretária de Estado no dia 29 de fevereiro de 1964. (pag. 148) Para Monsenhor Gherardini, a culpa é, então, da própria letra do Concílio e por conseqüência dos Padres conciliares, mesmo que seja uma culpa só material.
     En passant, o autor faz ainda referência às doutrinas que permeavam o pré-Concílio e que foram corrigidas por Pio XII, mas que encontraram na Assembléia Conciliar grande apoio e recepção. Entre essas doutrinas que têm forte  impacto sobre a liturgia o eminente teólogo destaca: “uma Igreja de face predominantemente humana, um Corpo Místico predominantemente sociológico, um sacerdócio eminentemente comum, uma eucaristia predominantemente refeição ritual, uma Missa predominantemente assemblear (comunitária), uma liturgia predominantemente em vernáculo e declarada principalmente meio exclusivo de salvação e de apostolado” (pp. 144 e 145) O autor associa ainda a reforma litúrgica ao novo humanismo, declamado por Paulo VI: “também nós, mais que todos os outros, somos os cultuadores do Homem.” (Alocução de 7 de dezembro de 1965). O autor diz: “Não condeno uma pura e simples simpatia pelo homem, mas uma verdadeira devoção wojtyliana pelo homem: durou um quarto de século e quem viveu nele rendeu-se bem conta”. (pp. 156 e 157)
“E agora?” “O que fazer?”
     A liberdade religiosa também é tratada ex professo pelo autor, ainda que de maneira breve, e não somente na Dignitatis Humanae, mas também nos outros documentos Conciliares. Monsenhor Gherardini, grande conhecedor da problemática do liberalismo, visto que coopera na causa de canonização do Bem-Aventurado Pio IX, após analisar o magistério conciliar sobre a liberdade e o magistério anterior, sobretudo a partir de Gregório XVI se pergunta: “E agora?”, “O que fazer?” (pag. 180); “É possível submeter a Dignitatis Humanae a uma hermenêutica da continuidade?” (pag. 187)
     Ele reafirma e nós destacamos que tais perguntas são possíveis somente em razão da não infalibilidade e da não irreformabilidade dessa Declaração Conciliar (que pelo fato de ser uma declaração tem autoridade ainda menor). O autor chega à conclusão de que a Dignitatis Humanae está em continuidade se nós nos contentarmos com uma declaração abstrata de continuidade, mas que sobre o plano histórico e concreto, ele não consegue ver como realizar uma hermenêutica de continuidade. (pag 187). E a razão é clara: a liberdade do decreto Dignitatis humanae não concerne a um aspecto da pessoa humana, mas à essência dessa e, com ela, toda a sua atividade individual ou pública enquanto livre de todo condicionamento político e religioso tem bem pouco em comum com, p. ex., a “Mirari Vos” de Gregório XVI, com a “Quanta Cura” e o “Syllabus” do Bem-Aventurado Pio IX, com a “Immortale Dei” de Leão XIII, com a Pascendi de São Pio X, com o decreto “Lamentabili” do Santo Ofício e com a “Humani Generis” de Pio XII. “Não é, na verdade, questão de linguagem diversa; a diferença é substancial e, portanto, irredutível. Os conteúdos respectivos resultam diversos. Os conteúdos do Magistério precedente não encontram nem continuidade nem desenvolvimento no conteúdo da Dignitatis Humanae(pag. 187) Assim, Monsenhor Gherardini se opõe àqueles que vêm na Declaratio Dignitatis Humanae uma simples aplicação dos princípios tradicionais às circunstâncias atuais, tese defendidapelos conservadores. O autor se diz disposto a aceitar tal posição, mas é inegável a ausência da inderrogável e indiscutível condição do “eodem sensu, eademque sententia” (pag. 188)
Em busca da unidade. Que unidade?
     Monsenhor Gherardini expõe ainda sua análise quanto ao ecumenismo, assinalando a sua formulação ingênua e completamente acrítica nos documentos conciliares. O eminente professor contrapõe o unionismo (volta dos separados à já existente unidade da Igreja Católica) anterior ao Concílio ao ecumenismo de hoje, “que é uma metodologia completamente nova que evita, que foge da condenação e se abre à busca dialógica – e assim plurilateral – da verdade sem presumir-se possuidor da mesma, sem que ninguém a imponha a um outro, no respeito total de cada um.” (pag. 210) E se a Unitatis Redintegratio afirma no seu número 4 que a Igreja Católica possui toda a verdade revelada por Deus e todos os meios da graça, ela afirma também e de súbito que isso não a habilita “a exprimir sob todos os aspectos a plenitude da catolicidade na realidade da vida” (pag. 211)
     Interessante e necessário notar que o autor coloca a causa do ecumenismo no novo humanismo que permeou a Aula Conciliar: “A partir deste momento as fronteiras extremas do antropocentrismo idolátrico tinham sido atingidos. Não estava em questão se o homem acreditava ou não, mas bastava que fosse o ‘centro e o ápice’ (Gaudium et Spes 12) de todos os valores criados, queridos e ordenados por Deus ao seu serviço, subordinados ao desenvolvimento integral de sua pessoa (Gaudium et Spes 59). Logica é a conseqüência: a Igreja tem um único escopo, o de ‘ajudar todos os homens de nosso tempo, seja aqueles que acreditam em Deus, seja aqueles que explicitamente não o reconhecem, a descobrir o mais claramente a plenitude da própria vocação, tornar o mundo mais conforme à eminente dignidade do homem e aspirar a uma fraternidade superior e universal. (Gaudium et Spes 91) ’ (pag. 190). “A base antropocêntrica do diálogo ecumêmico estava, dessa maneira, estabelecida; sobre ela podia-se tranqüilamente erigir o edifício dos ‘princípios católicos do ecumensimo’, com o escopo não de colocar-se em acordo com as diversas e contrapostas denominações cristãs em vista do único rebanho sob um só pastor (Jo 10, 16), mas com o escopo de facilitar o esforço cristão comum a serviço do homem, com cada denominação cristã permanecendo firme no ponto de partida.” (pag. 190)  Tudo isso decorre da má interpretação da afirmação de que “o homem é a única criatura querida por Deus por ela mesma” contida na Gaudium et Spes número 24. A análise aqui feita por Monsenhor Gherardini tira as últimas conseqüências do texto conciliar. Hic taceo.
Uma Igreja do vaticano II?
     Quanto à Eclesiologia presente na Constitutio Dogmatica Lumen Gentium, ele lembra que a serpente esconde-se no meio das vegetações: “latet anguis in herba”. Quer dizer que embora eclesiologia do concílio tenha muitos pontos positivos, há problemas sérios no que concerne ao “subsistit in” e o “subjectum quoque” (a colegialidade), de forma que é possível fazer interpretações que estejam de acordo com a Tradição, mas que a ambigüidade permitiu no pós-concílio a difusão quase exclusiva de interpretações que se opõem à identidade da Igreja de Cristo e da Igreja Católica Apostólica Romana e ao poder supremo de jurisdição, universal, pleno, direto, verdadeiramente episcopal do Romano Pontífice sobre toda à Igreja de Cristo. Ademais, Brunero Gherardini destaca a insistência da afirmação da Igreja como mistério e sacramento a fim de acentuar seu caráter invisível e a total ausência da noção de Igreja como “sociedade perfeita”, quer dizer auto-suficiente, dotada por seu divino fundador com todos os meios necessários para alcançar o seu fim. Assim, também no que se refere à Igreja é preciso uma análise científico-teológica séria do texto conciliar.
“Faz pensar e obriga a tomar uma posição”
     É impressionante como o autor relaciona em seu livro os documentos conciliares com o antropocentrismo e um antropocentrismo de índole anti-racional, dando-se ênfase ao viver juntos em detrimento da verdade e mesmo da verdade revelada. Dando-se preponderância ao sentimento em detrimento da razão, como se assim, abandonando o que lhe é próprio (a inteligência), o homem pudesse se tornar mais humano. E como me disse um Bispo muito bom: “o livro faz pensar e obriga a tomar uma posição”. A frase nos indica duas coisas importantíssimas: 1) o problema referente ao Concílio é inegável e 2) diante desse problema é preciso fazer algo que se evitou fazer durante quase cinqüenta anos: tomar uma posição clara, a partir da análise científica dos dezesseis documentos conciliares.
     E aqui nos unimos à súplica de Monsenhor Brunero Gherardini ao Santo Padre o Papa Bento XVI para que com sua autoridade faça um grandioso e possivelmente definitivo esclarecimento quanto ao Concílio, a partir de uma consideração verdadeiramente científica dos documentos conciliares considerados em si e em sua relação com os outros. E “assim se a conclusão científica do exame levar à hermenêutica da continuidade como a única possível e devida, será agora necessário demonstrar – para além de toda afirmação declamatória – que a continuidade é real, e tal se manifesta somente na identidade dogmática de fundo. Se porém esta, em toda ou em parte, não resultasse cientificamente provada seria necessário dizê-lo com serenidade e franqueza em resposta à exigência de clareza sentida e esperada faz quase meio século” (pag. 256) “Basta, Santo Padre, uma palavra sua para que tudo, sendo ela a Palavra própria, retorne à clareza da pacífica, luminosa e alegre profissão da única Fé na única Igreja” (pag. 257). Não pode deixar de nos acudir a idéia de que a discussão doutrinária com a Fraternidade São Pio X seja a ocasião para tal palavra do Santo Padre. Rezemos para que Nossa Senhora esmague as heresias que triunfaram in castris modernistarum et per eos in sinu Sanctae Matris Ecclesiae.
A quoddam clerico Sanctae Romanae Ecclesiae  
     O livro Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, de Monsignor Brunero Gherardini pode ser obtido escrevendo para CASA MARIANA EDITRICE, Via dell’Immacolata, 83040 Frigento (Av) telefonando ou enviando um fax ao 0825.444015 – 444391 ou então na Chiesa Maria SS. Annunziata, Via Lungo Tevere Vaticano, 1 – 000193 Roma. Tel. 06.6892614 (apertura: 9.00 – 12.00; 16.00-20.00) . Todos os livros de “Casa Mariana Editrice” não têm um preço comercial, mas pode-se fazer uma oferta segunda as possibilidades e bondade do leitor.