I – A SOCIEDADE EM GERAL E A SOCIEDADE MEDIEVAL
II – CAUSAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS DA REFORMA E DO RENASCIMENTO
III – AS TRÊS REVOLUÇÕES DESTRUIDORAS DA SOCIEDADE MEDIEVAL
1a Revolução: A Reforma e o Renascimento (1517)
2a Revolução: A Revolução Francesa de 1789
3a Revolução: Revolução Russa de 1917
IV – ENSINAMENTO DE PIO XII SOBRE AS TRÊS REVOLUÇÕES
V – FORMAS DE GOVERNO INSTITUÍDAS EM CADA REVOLUÇÃO
VI – AS TRÊS REVOLUÇÕES NA FILOSOFIA
1a Revolução na Filosofia: o Cartesianismo
2a Revolução na Filosofia: o Idealismo alemão
3a Revolução na Filosofia: o Marxismo ou Materialismo Histórico
VII – AS TRÊS REVOLUÇÕES NA ARTE
1a Revolução na Arte: o Renascimento
2a Revolução na Arte: o Romantismo
3a Revolução na Arte: a Arte Moderna, negação da própria beleza
VIII – AS TRÊS REVOLUÇÕES NA ECONOMIA
1a Revolução na Economia: o Mercantilismo
2a Revolução na Economia: o Capitalismo
3a Revolução na Economia: o Socialismo e o Comunismo
O apogeu da Cidade de Deus na História realizou-se na Cristandade medieval, durante o século XIII. Foi o tempo das Catedrais, do Feudalismo, das Universidades. Foi o tempo das Cruzadas e da Cavalaria. Foi o tempo em que São Tomás e São Boaventura ensinavam na Sorbonne. Foi o tempo da Suma Teológica. Foi o tempo dos grandes santos, tais como São Francisco e São Domingos.
Não foi, porém, um período sem males. Foi a época de Frederico II, dos hereges cátaros, dos hereges Espirituais Franciscanos, dos Fraticelli e da irrupção do milenarismo joaquimita. Foi a época de Dante e de seus Fedeli d’Amore. Como foi o tempo da edição do Roman de la Rose, livro imoralíssimo — o mais lido da Idade Média — e que dava um programa para destruir a Igreja, defendendo as mais escandalosas teses heréticas que acabaram triunfando na Modernidade.
Neste trabalho, pretendemos dar uma visão de conjunto das Revoluções que destruíram a sociedade medieval, procurando instituir uma sociedade igualitária em lugar da sociedade hierárquica que a Igreja estabelecera na Cristandade medieval.
Muitos autores descreveram as linhas gerais dessas revoluções. Não é, pois, uma tese nova que vamos demonstrar. Leão XIII tratou, em parte, dessa visão histórica na encíclica Parvenu. Monsenhor Gaume foi outro autor que tratou da Revolução com competência, mostrando como ela foi a colocação do Homem no lugar de Deus. Plínio Corrêa de Oliveira deu-nos a exposição das Três Revoluções em aulas, que assistimos como alunos dele, na PUC em 1952, tema do qual ele voltou a tratar no opúsculo Revolução e Contra Revolução.
Não negamos, como é de justiça, que foi ele quem nos abriu, pela primeira vez, essa perspectiva histórica. Deus o pague por isso. Porém é de justiça também que diga que ele nos deu a exposição apenas das Três Revoluções, mas sem nunca tratar da ação da Gnose e do Panteísmo nessas Revoluções. Todo o resto do quadro que vamos expor não o devemos a ele, mas cabe dizer que foi fruto de inúmeros estudos que fizemos, inclusive para combater o Romantismo do próprio Plínio C. de Oliveira. Basta comparar o que escrevemos com o que ele escreveu em Revolução e Contra Revolução para se dar conta do que devemos e do que não devemos a ele.
I – A SOCIEDADE EM GERAL E A SOCIEDADE MEDIEVAL
A Sociedade Medieval, sendo conseqüência da aplicação da doutrina cristã ensinada pela Igreja, tinha que ser hierárquica e não igualitária. Estudamos as razões desse anti-igualitarismo da sociedade católica em nosso trabalho Desigualdade ou Igualdade de Direitos: considerações sobre um mito.
Como toda sociedade retamente organizada, a sociedade medieval era formada por Estados e não por castas como era de regra nas sociedades pagãs.
Havia três Estados na Sociedade Medieval: o Clero, a Nobreza e o Povo, sendo que este era formado pela Burguesia, pelos Camponeses e Artesãos.
Era o que formava a famosa “pirâmide maldita” do linguajar marxista dos professores de cursinho.
Tais professores se esquecem de dizer que, em todos as sociedades, em todos os tempos, existiu sempre essa mesma estrutura.
Toda sociedade é, portanto, necessariamente piramidal, pois os sábios que dirigem serão sempre minoria.
Não há como fugir desse esquema. Uma sociedade horizontal – igualitária — nunca existiu e nunca poderá existir.
E isso é assim pela própria natureza dos homens e das coisas.
Deus fez tudo com desigualdade, por isso toda sociedade é necessariamente hierárquica.
Já Platão mostrara, no diálogo República, que, para existir uma sociedade, é preciso em primeiro lugar, que existam pessoas que produzam os bens necessários à vida. Tais bens são os alimentos e objetos necessários para viver. Portanto, não pode haver sociedade se não houver camponeses que produzam os alimentos, e artesãos que produzam utensílios, móveis, vestes, etc.
Em primeiro lugar, há a necessidade do trabalho agrícola e artesanal.
Ora, se camponeses e artesãos produzirem só o absolutamente necessário para a sua manutenção e a de suas famílias, como eles não podem produzir tudo que precisam, ver-se-ão sem possibilidade de adquirir bens que lhes sejam necessários e dos quais têm falta. Daí, camponeses e artesão serem obrigados a produzir mais do que necessitam, para poderem trocar sobras do que produziram por objetos de que precisam. O comércio nasce dessa necessidade de troca de bens. Portanto, além de camponeses e artesãos nasce quase imediatamente o grupo dos comerciantes, que fazem circular e trocar os bens produzidos.
Porém, onde há bens, surgem logo os que querem se apossar desses bens de modo injusto. Isso exige, então, a proteção desses bens pela força armada. Daí, a existência de um grupo armado para guardar os bens produzidos.
Surge o grupo social militar que tem por fim a proteção dos bens e da propriedade particular. É assim que toda sociedade tem sempre um tal grupo armado para fazer respeitar o direito e a justiça. São os militares, ou nobres, porque devem dar a vida para proteger a justiça e os direitos das pessoas.
Deixar no topo da sociedade a força com o poder supremo, manter no ápice da sociedade os que detêm o uso da espada equivale a colocar a força material acima de tudo, o que gerará abusos. É preciso então colocar acima da força da espada, acima da força material um grupo que controle a força física pela sabedoria. Por isso, mesmo nas sociedades pagãs havia um grupo sacerdotal, considerado mais prudente e sábio para controlar a mera força das armas.
Daí, toda sociedade ser formada,esquematicamente,por:
a) produtores de bens (camponeses e artesãos) e de encarregados de fazer circular os bens através do comércio (comerciantes);
b) militares que guardam o direito aos bens pelo emprego da força militar ( guerreiros ou nobres);
c) supostos sábios, que devem controlar o uso da força material, para evitar abusos.
Tanto isso tem que ser assim, que até a sociedade soviética, que se pejava de ser igualitária, foi obrigada a se render à natureza, mantendo essa estrutura, pois lá também havia a famosa “pirâmide maldita”.
Na URSS, havia:
a) O proletariado (camponeses e operários) produtores de bens necessários à vida, e funcionários encarregados da circulação dos bens, e mesmo um certo pequeno grupo de comerciantes;
b) Os militares que garantiam a “ordem” social;
c) Os “sábios” – Os membros do Partido Comunista que dirigiam e controlavam a força em razão de seu conhecimento ideológico supostamente sábio e verdadeiro.
Portanto, nem na URSS havia, então, a igualdade.
Pena que professores de cursinho, profissionais da mídia e padres de passeata não sejam capazes de ver o evidente.
Será que, no Brasil do PTBrás, no Brasil do mensalão, os canonizados pela CNBB como “católicos à sua maneira”, estabelecerão realmente a igualdade da utopia?
Frei Betto que guiou Lula até lá, conseguiu fazer a república metalúrgica, que daria, a cada operário, direito a uma pizza e a uma cervejinha por semana? Ou picanha com o vinho Romané-Conti ficou só para os privilegiados, para os “sábios” da Granja do Torto? Direito à picanha só para os simpáticos do Torto? Será isso igualdade? Será isso o fim da “pirâmide maldita”?
***
Esse mesmo esquema era o da sociedade medieval.
Na sociedade medieval havia, sim, a pirâmide social natural, na qual os mais sábios, os que tinham maiores responsabilidades e virtudes — necessariamente os menos numerosos — dirigiam os mais numerosos, e de funções menos importantes.
No alto da sociedade medieval estava o Clero, única ordem social instituída diretamente por Cristo, para guiar os homens na prática dos mandamentos — da lei natural — a fim de dar glória a Deus e alcançar o céu.
O Clero era constituído, como até hoje o é, e sempre o será, pelo Papa, Bispos e Padres. Cardeais, Arcebispos, Monsenhores são apenas títulos honoríficos, e não graus da Sagrada Hierarquia estabelecida por Cristo.
O Segundo Estado, ou Ordem, era a Nobreza feudal cujos componentes eram o Imperador, os Reis, os Príncipes, os Duques, Condes e Barões.
O Terceiro Estado era formado pelo Povo, e era constituído pelos Burgueses, Camponeses e Artesãos.
A Burguesia era o grupo dos que exerciam trabalho não manual, e habitava nas cidades, como, por exemplo, os comerciantes, os advogados, os médicos, os professores, etc.
Abaixo deles, estavam os que exerciam trabalhos manuais.
Os Artesãos faziam os instrumentos e objetos necessários para a vida social, enquanto os camponeses cultivavam a terra e criavam o gado.
Os artesãos também possuíam uma hierarquia interna, dividindo-se em Mestres, Companheiros e Aprendizes.
Esquematicamente, a escala social medieval poderia ser assim representada:
Clero
|
Nobreza
|
Povo: Burguesia
|
Camponeses e Artesãos:
- Mestres
- Companheiros
- Aprendizes
Não é aqui o momento de justificar essa organização social, expondo suas funções, sacrifícios, virtudes e direitos. Faremos isso, noutro trabalho. Agora, importa-nos apenas registrar essa organização social medieval, para explicar como se deu a sua destruição.
Todavia, um ponto que convém desde agora salientar é que essa organização social não era de castas, como eram as sociedades pagãs.
Na sociedade medieval, qualquer pessoa podia mudar de grupo social. Assim, qualquer camponês poderia se tornar sacerdote, e passaria para a primeira camada da sociedade. E, entrando no clero, tendo valor, esse camponês poderia alcançar altas dignidades, e até mesmo chegar a ser Papa, como, aliás, aconteceu por diversas vezes, na Idade Média. São Gregório VII, por exemplo, foi o Papa mais importante da Idade Média e tinha origem camponesa, sendo filho de um cabreiro (Régine PERNOUD, 1981, p.101). O Abade Suger era filho de servo da gleba, e, mesmo assim se tornou Abade de São Denis, e foi Regente da França. O Arcebispo de Paris, Maurice de Sully, que ordenou a construção da famosa catedral de Notre-Dame de Paris, era de família pobre. O Papa Urbano VI era filho de um sapateiro.
O Clero foi o grande instrumento de ascensão e promoção social na Idade Média.
O camponês também poderia ascender à nobreza, pela pratica de um heroísmo. Santa Joana d’Arc foi enobrecida por sua proeza militar.
Por outro lado, qualquer pessoa de Estado mais elevado poderia ser rebaixada: um clérigo podia ser reduzido ao estado leigo como punição de certos crimes. Um nobre poderia perder seu título e seus privilégios por causa de crimes, ou, por vezes, por exercer o comércio, visto que a Nobreza consiste em usar todas as qualidades próprias em proveito de outrem, enquanto o comerciante usa de todas as suas qualidades para obter lucro para si. Mas, em Repúblicas que viviam do comércio — como Genova e Veneza — o comércio era obrigatório para os nobres, pois seu esforço redundaria em proveito geral daquela sociedade e daquela República.
Portanto, não havia castas na Idade Média. Esse foi um dos grandes bens que a Igreja proporcionou à civilização na Idade Média: acabar com as castas.
A sociedade medieval tinha, pois, como pilares de sua estrutura, em primeiro lugar, o Papa, aceito como autoridade suprema, pois era o Vigário de Cristo na Terra; e, em segundo lugar, o princípio da desigualdade de direitos, já que se admitia, com o Evangelho e com São Tomás de Aquino, que Deus não fez e não quer os homens iguais, mas semelhantes.
Portanto, para destruir a sociedade medieval, era preciso derrubar esses dois pilares: o Papa e a desigualdade de direitos. E foi o que fizeram aqueles que desejavam destruir a Cidade de Deus, e fazer triunfar a Cidade do Homem.
Substituíram o Teocentrismo pelo Antropocentrismo. Colocaram o Homem no lugar de Deus.
II – CAUSAS RELIGIOSAS E FILOSÓFICAS DA REFORMA E DO RENASCIMENTO
Estaria fora do âmbito dos limites e escopo deste trabalho dar todas as causas que prepararam o triunfo da Reforma protestante sobre o Papado, no século XVI. Mas convém acenar, pelo menos em poucas pinceladas, a alguns dos fatos principais que prepararam a revolta e o êxito de Lutero.
Entre esses fatos, aos quais fazemos apenas alusão, devem ser considerados como mais importantes:
1 — O atentado de Anagni. Em 1203, o Rei da França, Felipe IV, o Belo, mandou seu ministro — um neto de cátaros – Guillaume de Nogaret, atacar o castelo do Papa Bonifácio VIII, em Anagni, contando com a ajuda de Sciarra Colonna, o qual, então, teria esbofeteado o Papa com seu güante de ferro. Esse fato é o próprio símbolo do fim da ordem medieval.
2 — O Cativeiro de Avignon. Felipe IV, o Belo, obrigou o Papa Clemente V a transferir a Santa Sé para Avignon, na Provença, onde os Papas ficaram por cerca de 70 anos, tornando-os, praticamente, “capelães” dos Reis da França. Isto fez o Papado perder o prestígio de juíz imparcial da Cristandade, levando Alemanha e Inglaterra, as principais potências rivais da França, a desconfiarem da autoridade e dos julgamentos papais. E isso favoreceu, duzentos anos depois, a adesão da Alemanha e da Inglaterra ao Protestantismo.
3 — O Grande Cisma do Ocidente. No século XV, houve uma crise no Papado, tendo sido eleitos anti-papas. A Igreja, durante certo tempo, teve dois pretendentes ao papado, e mesmo, em período menor, três papas, um verdadeiro, e dois anti-papas. A Cristandade se dividiu, e a autoridade papal sofreu sério dano, o que preparou a revolta de Lutero.
4 — Heresias precursoras do Protestantismo
Citaremos apenas algumas delas que foram das principais causas preparatórias do Protestantismo:
a) A Gnose irracionalista de Mestre Eckhart (1300), cuja mística e moral foram adotados por Lutero, apesar de terem sido anatematizadas pelo Papa João XXII em 1319. Eckhart defendia até mesmo a santidade do pecado, que também Lutero defenderá.
b) A heresia medieval dos valdenses cuja revolta contra o papado e cuja recusa de venerar os santos serão adotadas pelos protestantes.
c) As heresias franciscanas – Desde o século XIII, as heresias surgidas entre os franciscanos – a dos Espirituais, a dos Pseudo Apóstolos ou dos Fraticelli, a dos Beguinos, defendendo uma Igreja absolutamente pobre, prepararam a revolta protestante
d) O Catarismo que minou a autoridade papal e dividiu profundamente a Cristandade. O catarismo foi propagado sub-repticiamente pelos trovadores do “trobar clus” e pelos poetas pertencentes ao grupo dos “Fedeli d’ Amore”, aos quais pertenceu Dante. A obra Le Roman de La Rose, de Guillaume de Lorris e de Jean de Meung, publicado em 1278, no século XIII, além de ser um livro imoralíssimo, defendia grande número de teses modernas, como o contrato social, o amor livre, e expunha como destruir a Igreja. Dante traduziu em resumo essa obra para o italiano como nome de Il Fiore, e Chaucer a traduziu para o inglês
e) O Milenarismo Joaquimita – Desde o século XIII, os hereges espirituais franciscanos esperavam um grande castigo e o retorno à pobreza da Igreja primitiva. Depois desse enorme castigo, e depois da era de Deus Pai, e da era do Filho, um “Papa angélico” e um “Grande Imperador” instaurariam o Reino do Espírito Santo, ou a era do Amor – a Civilização do Amor — na Terra, reino em que a lei seria abolida, e na qual tudo seria possuído em comum.
f) O Humanismo influenciou também os estudos bíblicos por seu espírito crítico e racionalista, minando a fé no texto da Vulgata. Erasmo foi o exemplo típico desse tipo de Humanismo. O seu Novo Testamento clássico se opôs à Vulgata, tornando-se o grande precursor da Bíblia alemã de Lutero, atacando ao mesmo tempo a patrística, o Papado e a guarda da Escritura pela Igreja.
g) As heresias de Wyclef e de João Huss que foram em grande parte assumidas por Lutero e pelos anabatistas.
h) O Cabalismo “Cristão” que propagou a Gnose judaica — a Kabbalah – nos meios intelectuais e eclesiásticos nos séculos XV e XVI. Pico de Mirandola, na Itália, e Reuchln, na Alemanha foram os grandes difusores da Cabala nos meios reformistas e renascentistas. O cabalismo cristão penetrou no clero que homens como o Cardeal Egidio de Viterbo — o Superior Geral da Ordem a que pertencia Lutero — e o famoso exegeta Cornélio a Lapide aceitaram os métodos cabalistas de interpretação da Sagrada Escritura.
5 — Os erros filosóficos que prepararam a Reforma e o Renascimento.
a) A Filosofia univocista de Duns Scoto
No seu famoso Discurso na Universidade de Regensburg (Ratisbona), Bento XVI apontou o início de toda decadência do Ocidente, na filosofia voluntarista de Duns Scoto.
Disse o Papa Bento XVI:
“Por honestidade, é preciso anotar neste ponto, que, na tardia Idade Média, desenvolveram-se tendências na teologia que rompiam esta síntese entre o espírito grego e o espírito cristão.
Em contraste com o assim chamado intelectualismo agostiniano e tomista, iniciou-se com Duns Scoto uma impostação voluntarística, que afinal levou à afirmação de que, de Deus, conheceríamos apenas a “voluntas ordinata”. Além dela, existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer também o contrário de tudo aquilo que efetivamente fez. Aqui se esboçam posições que, de todo modo, podem aproximar-se daquelas de Ibn Hazn e poderiam levar até à imagem de um Deus-Arbítrio, que não estivesse ligado nem mesmo à verdade e ao bem. A trascendência e a diversidade de Deus vinham acentuadas de modo tão exagerado, que também nossa razão, o nosso senso do verdadeiroo e do bem, não seriam mais um verdadeiro “specquemo” de Deus, cujas possibilidades abissais permaneceriam para nós eternamente inatingíveis e escondidas por trás de suas decisões efetivas.
Em contraste com isso, a fé da Igreja sempre se ateve à convicção que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e a nossa razão criada existe uma verdadeira analogia, na qual, certamente as dissemelhanças são infinitamente maiores que as semelhanças, não todavia até o ponto de abolir a analogia e a sua linguagem (cfr Lateranense IV). Deus não se torna mais divino pelo fato que O distanciemos bem longe de nós num voluntarismo puro e impenetrável, mas o Deus verdadeiramente divino é aquele Deus que se mostrou como “Logos” e como “Logos” agiu, e age, cheio de amor em nosso favor. Certamente, o amor “ultrapassa” o conhecimento, e é por isso capaz de perceber mais do que o mero pensamento (cfr Ef 3,19), todavia, ele permanece o amor do Deus-”Logos”, para o qual o culto cristiano é “espiritual” – um culto que concorda com o Verbo eterno e com a nossa razão” (cfr Romani 12,1). (Bento XVI, Discurso na Universidade de Ratisbona, “O melhor do pensamento grego é “parte integrante da fé cristã”, 12 de Setembro de 2006, http://www.quemesa.espressonline.it/dettaglio.jsp?id=83303)
Resumidamente, Duns Scoto divergiu da Filosofia tomista em alguns pontos fundamentais que darão início ao desmoronamento de toda a Escolástica, quer pelo misticismo de Eckhart, quer pelo racionalismo voluntarista de Ockham:
i) Univocidade do ser: Para Duns Scoto, o conceito de ser seria unívoco, e não analógico, como ensinava o tomismo. Portanto, ou se identificava o mundo a Deus, pela negação da matéria, ou Deus ao mundo, pela negação de todo o sobrenatural. Daí, Duns Scoto negar o princípio da analogia do ser.
ii) Negação da analogia: Esse erro levaria quer ao repúdio do mundo caindo na Gnose, com Eckhart, quer à identificação de Deus com o mundo, caindo no panteísmo racionalista de Ockham.
iii)Voluntarismo: a vontade divina não agiria com base na Sabedoria: Não havendo analogia, Duns Scoto acabava por negar que toda a ação de Deus partia do Princípio, do Verbo. E “No princípio era o Verbo” (Jo I,1). Deus criou tudo em sua sabedoria. Todas as coisas criadas foram feitas pelo Verbo, e sem Ele nada foi feito. Por isso, tudo é inteligível, pois todo ser é verdadeiro. O Verum é um transcendental do ser. Para Duns Scoto isso não seria assim. Para ele, Deus poderia ter feito um mundo ao contrario deste que Ele criou. Toda ordem seria arbitrária e não teria fundamento na Sabedoria de Deus, e Deus poderia ter feito um decálogo oposto ao que deu no Sinai, erro esse que será explicitamente defendido por Ockham. Daí, Duns Scoto colocar a vontade acima do intelecto, o amor acima e independente do Conhecimento. Como disse o Papa Bento XVI em Ratisbona: “Em contraste com o assim chamado intelectualismo agostiniano e tomista, iniciou-se com Duns Scoto uma impostação voluntarística, que afinal levou à afirmação de que, de Deus, conheceríamos apenas a “voluntas ordinata”. Além dela, existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer também o contrário de tudo aquilo que efetivamente fez”. b) O Irracionalismo e a filosofia dialética do gnóstico Mestre Eckhart.
Mestre Eckhart negará a analogia tomista, afirmando existir no ser criado uma intrínseca oposição dialética. Se Deus era Ser, a criatura seria não-ser. Se Deus fosse o nada absoluto, então a criatura seria ser. Ser e não ser se oporiam em todas as coisas, como o ying e o yang da doutrina do taoísmo. Para Eckhart, a razão enganaria o homem. A matéria seria má. Toda intelecção seria absurda e o homem nada poderia desejar, nem mesmo se poderia desejar o céu ou a virtude, nem se deveria desejar amar a Deus, devendo-se atingir um nada sem desejo, como no budismo.
Para Eckhart, só existiria o universal, e jamais o individual, visto que a individualidade provinha da matéria, princípio do mal.
A Filosofia de Eckhart vai ser um misticismo inteiramente gnóstico, que servirá de base para os erros dos Irmãos do Livre Espírito.
Eckhart foi condenado por João XXII já em 1329, enquanto na opinião comum dos historiadores, a Idade Média iria terminar somente em 1453…
c) A filosofia nominalista, racionalista e panteísta de Guilherme de Ockham, foi condenada também por João XXII, anulava toda noção de verdade e de moral universais.
Para Ockham, não existiria o universal, mas apenas o indivíduo. Portanto, a matéria era alçada à condição de única realidade. Nada haveria de universal, nem verdade e nem lei. Ockham vai lançar as bases do materialismo, do racionalismo e do empirismo da filosofia moderna.
De Ockham nascerá a idéia da supremacia da matéria sobre o espírito, do Imperador sobre o Papa; do Estado sobre a Igreja. E Ockham foi contemporâneo e inimigo de Eckhart.
d) As novas doutrina políticas estatistas.
Os erros da filosofia política de Marsílio de Pádua, autor do Defensor Pacis, prepararam o Estado Moderno, absolutamente laico, independente da Igreja e livre de toda a Moral.
Lutero vai defender não só a completa independência do Estado em relação à Igreja e ao Papa, como também vai atribuir ao Soberano poderes religiosos fazendo do Rei um papa em seu reino.
e) A Decadência da Filosofia Escolástica
No século XV, as heresias de Eckhart e de Ockham, assim como os primeiros influxos secretos da Cabala, levaram a Filosofia ao delírio.
Alguns filósofos como Jean de Méricourt e Nicolau d´Autrecourt defenderam a tese da santidade do pecado, que Lutero transformará em tese básica da moral protestante.
f) O Humanismo
A Academia Platônica de Florença, dirigida por Marsílio Ficino, que aceitou e difundiu as doutrinas gnósticas do Hermes Trismegisto, influiu poderosamente no Renascimento. Botticelli, Verrochio, Leonardo, Michelangelo foram artistas que expressaram a Gnose hermética em suas obras de Arte, com o fim de combater a doutrina católica.
Essa influência do hermetismo na modernidade foi de tal grau, que Francês A. Yates afirmou: “Foi a magia, com o auxílio da Gnose, que começou e imprimiu à vontade um nova direção” (Francês A. Yates, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Editora Cultrix, São Paulo, 1995, p. 180).
[Para distinguir o que dizemos do que foi ensinado por Plínio Corrêa de Oliveira, lembramos que jamais esse autor fez qualquer alusão a muitas dessas causas precurssoras da Reforma e do Renascimento. Era como se elas nunca tivessem existido. Especialmente ele omitia — creio que por desconhecimento histórico – as causas medievais da Reforma. Para ele a Revolução começou no que ele chama de “risonho século XV”.]
III – AS TRÊS REVOLUÇÕES DESTRUIDORAS DA SOCIEDADE MEDIEVAL
Tendo visto o esquema da sociedade medieval e as causas mais remotas da Revolução protestante de Lutero, vejamos agora como se concatenaram as três revoluções destruidoras da Sociedade medieval.
Esse quadro é que nos foi explicado por Plínio Corrêa de Oliveira, em 1952, em suas aulas na PUC, e que ele expôs, de modo bem sucinto e muito superficialmente, em seu pequeno opúsculo Revolução e Contra Revolução, editado em 1959, livro que é tido como uma espécie de Bíblia ou Corão da TFP e dos Arautos do Evangelho, todos eles cultuadores de Plínio como santo e profeta de um reino milenarista, que estaria sempre para surgir, e que é sempre adiado para… “o ano que vem… Em Jerusalém”.
Vejamos, então, agora esse quadro das três revoluções:
Antes, porém, uma nota importante: uma Revolução só eclode, quando se dá a síntese dialética do Panteísmo racionalista com a Gnose irracionalista, dando-se o curto circuito dialético-revolucionário.
Em breve, publicaremos um estudo mais profundo sobre o curto circuito da Gnose com o Panteísmo, do irracionalismo com o racionalismo, que dá uma explicação mais clara e mais profunda da Revolução e da ação do demônio na História.
1a Revolução: A Reforma e o Renascimento (1517)
A data de 1517 foi posta, aí, por ser o ano da revolta de Lutero, e a de um ano do período de apogeu do Renascimento.
A Reforma luterana defendeu as seguintes idéias fundamentais:
1 — Igualdade Religiosa.
O luteranismo resultou da síntese dialética da Gnose irracionalista de Mestre Eckhart com a filosofia racionalista do nominalismo de Ockham.
Pelo livre exame da Bíblia, Lutero fez de cada fiel um Papa. Lutero proclamou que cada fiel, ao ler a Bíblia, seria inspirado diretamente pelo Espírito Santo, de tal modo que a interpretação de cada um seria infalivelmente verdadeira. Cada um, lendo a Bíblia, poderia identificar sua razão com o próprio Espírito Santo
Desse modo, o Papa se tornava desnecessário. E não só o Papa, mas também todo o clero. Para quê ouvir a explicação da religião por um membro do clero, se era possível receber sempre a inspiração divina do próprio Espírito Santo?
Cada fiel era o seu próprio Papa, Bispo e Sacerdote.
O Protestantismo, negando a autoridade divina e infalível do Papa, caiu na contradição de tornar todo mundo Papa. Foi o livre exame da Bíblia que derrubou o Clero como classe social. Lutero, negando o poder papal, derrubou o pilar fundamental da sociedade medieval.
2 — Cada Príncipe seria o chefe do Estado e da Religião em seus territórios.
Lutero, por política, para obter a proteção da Nobreza contra o poder do Imperador, tirou a primeira conseqüência do livre exame: cada príncipe seria um papa em suas terras.
Desse modo, ele apoiava as teses de Ockham e de Marsílio de Pádua a respeito da supremacia do Estado sobre a Igreja, do Imperador sobre o Papa.
Isso agradou muito a muitos nobres alemães que estavam em grande crise econômica. Com efeito, os impostos feudais haviam sido fixados para sempre lá pelo século VIII. Com o tempo e com a inflação crescente, especialmente após as descobertas marítimas e o conseqüente enorme afluxo de ouro, os preços aumentaram muito, e como esses nobres recebiam uma renda fixada pelo costume, eles ficaram arruinados.
A esses nobres empobrecidos Lutero oferecia o poder religioso, o que significava dominar as riquezas e terras da Igreja. Naturalmente, muitos nobres se deixaram arrastar pela tentação de se apoderar das riquezas da Igreja, e, por isso, apoiaram a Reforma luterana.
Outros nobres, menos afetados pela crise econômica, apoiaram Lutero, por causa que tinham aderido oas princípios do humanismo pagão, como foi o caso do Duque da Saxônia, o maior protetor de Lutero
3 — Maior liberdade na Moral.
O princípio luterano de que a salvação vinha pela Fé sem as obras, e que quanto mais alguém pecasse, mais provaria que acreditava no perdão de Deus atraiu para Lutero todos os que desejavam pecar à vontade. Padres corruptos apoiaram Lutero, porque ele defendeu o fim do celibato e dos votos religiosos, especialmente o de castidade. Ele defendeu também o divórcio e permitiu até a bigamia do Príncipe Felipe de Hesse. Uma onda de imoralidade arrastou para a Reforma luterana a multidão dos corruptos. Pela Reforma, Lutero não pretendia, de modo algum, a reforma dos costumes corrompidos do clero. Pelo contrário. O que Lutero queria era reformar a Moral dos dez mandamentos, permitindo o que era proibido, tornando lícito, o que era ilícito.
Lutero adotou então a tese gnóstica e cabalista da santidade do pecado, ao lançar seu princípio: “Crê firmemente, e peca muito”. Era a exaltação da mística gnóstica de Mestre Eckhart e dos Irmãos do Livre Espírito que Lutero adotava, unindo o irracionalismo de Eckhart com o racionalismo da filosofia nominalista de Ockham. Foi esse curto circuito racionalista – irracionalista que deslumbrou ambas as correntes heréticas que se digladiavam nas Universidades, e que, agora, se uniram dialeticamente — por um pouco de tempo – na exaltação do profeta racionalista e místico de Wittemberg.
O Renascimento registrou, também ele, a síntese dialética da ciência racionalista, então em desenvolvimento, com a Gnose irracionalista do hermetismo. Leonardo foi exemplo vivo dessa síntese, com seus estudos e invenções científicas, com a magia hermética aprendida por ele através de Marsílio Ficino, na Academia Platônica de Florença.
O Renascimento e o Humanismo defenderam idéias correlatas, senão idênticas, o primeiro nas Artes, o segundo nas letras e na Filosofia.
Reforma e Renascimento foram o primeiro triunfo do Antropoteísmo, da Religião do Homem – do Humanismo — que viria a alcançar seu triunfo final no Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, quando Paulo VI declarou:
“Reconhecei-lhe pelo menos este mérito, ó vós humanistas modernos, que renunciais à transcendência das coisas supremas, e saibais reconhecer o nosso novo humanismo: nós também, Nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem“(Paulo VI, Discurso de Encerramento do Concílio Vaticano II,