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sábado, março 24th, 2012 at 12:55pm

A Anunciação e a cooperação do homem na obra da salvação

Marcos Roberto Bonelli

 

 

“Maria respondeu: Eis a escrava do Senhor; que me seja feito segundo vossa palavra” (S. Lucas 1, 38).

INTRODUÇÃO

Nossa Senhora, apesar das poucas vezes em que aparece na Sagrada Escritura, nos deixou matéria abundante de meditação.

Hoje gostaria de considerar, na curta passagem da Anunciação, transmitida até nós por São Lucas, a conduta de Deus e um exemplo da Santíssima Virgem. Assim poderemos conhecer melhor nossa Mãe, amá-la mais e imitá-la por um zelo prudente e intenso pela salvação das almas.

Maria, depois de ter verificado a missão divina do arcanjo Gabriel, chama o Verbo de Deus até seu ventre, por meio de seu consentimento.

O CONSENTIMENTO PEDIDO

A Providência, apesar de onipotente e podendo agir sozinha, pede a cooperação do homem em toda obra de salvação. É uma honra imensa oferecida à atividade livre do homem. Mas é também um mistério profundo e terrível!

Se já é coisa temível carregar em nossas mãos a responsabilidade de nossa salvação, o que será tomar nelas a responsabilidade da salvação dos outros?

Não somente a salvação pessoal dos homens já adultos pede, sem qualquer dispensa, a cooperação deles à graça que Deus nos dá, mas mesmo a salvação de outras pessoas depende daqueles homens escolhidos por Deus como instrumentos de sua graça: instrumentos voluntários e livres, que Deus não obriga!

Com que energia São Paulo exprime esta lei: “Como crerão naquele em quem não ouviram falar? E como ouvirão falar nele se não há quem lhes pregue?” (Rom. 10, 14).

A fé supõe a pregação. Esta supõe o pregador, e o pregador é livre.

Vejamos também o imenso e temível poder dos pais, dos professores, das pessoas que convivem num mesmo estado de vida, para perder ou para salvar outras almas!

Daí se segue uma dupla conclusão:

1. Ajuda-te a ti mesmo, e o céu te ajudará. Este provérbio se aplica à nossa própria vida espiritual. A correção de nossos vícios, a santidade, nunca serão obtidas sem nossa vontade. Essa boa vontade é, seguramente, uma graça, mas ela é também a cooperação livre a uma graça anterior.

2. Devemos trabalhar na salvação de nossos próximos. Nossos atos e ações sempre foram santificadores, levando o outro para o bem, para algo melhor? Foram tão fervorosos quanto poderiam ter sido?

Esta festa da Anunciação é uma ocasião propícia para tomarmos a resolução de nos darmos sem reservas à salvação das almas. Consideremos estas palavras de São Paulo: “Muito livremente eu daria o que possuo e me consumiria totalmente por vossas almas; e, entretanto, vós não me amais tanto quanto eu vos amo” (2 Cor. 12, 15).

O CONSENTIMENTO DADO

Como Nossa Senhora dá o seu consentimento?

Simplesmente, sem falsa modéstia nem timidez. Cheia de confiança em Deus, ela aceita a missão mais alta, os maiores deveres que podem ser imaginados.

Mas ela os aceita como a escrava do Senhor.

Eis a escrava do Senhor; que me seja feito segundo vossa palavra”. A dignidade de Mãe de Deus toca o infinito. Aos olhos de Maria, esta dignidade é uma forma de servir Deus.

Eis aí uma humildade prodigiosa, o caráter principal da cidade celeste, fundada “pelo amor de Deus, até o desprezo de si mesmo” (S. Agostinho, Cidade de Deus, l. XV, c. 28).

Se nós soubéssemos, nós também, tomar esta forma de servir a Deus! Nossas alegrias e nossas penas, nossos sucessos e perdas, nossa elevação e nossas humilhações, todas as nossas atividades: em tudo nós teríamos um imenso mérito e uma imensa felicidade!

OS EFEITOS DO CONSENTIMENTO DE MARIA

Nossa Senhora disse sim.

Ela é suficiente. Logo que esta simples palavrinha foi pronunciada, Deus, que se agrada em fazer grandes coisas sem um grande aparato exterior, realizou a obra de sua onipotência.

O anjo, antes, inclinava-se a uma virgem. Agora, ele devia adorar a Deus encarnado em seu ventre: “E o Verbo se fez carne”.

Como temos aqui um motivo imenso para louvar a Deus! E como temos motivo, também, para agradecermos a Nossa Senhora que, por seu consentimento, tornou-se Rainha dos Apóstolos e a maior bem-feitora dos homens!

Assim lhe foi concedido pela graça de Deus, e todo louvor que damos a Maria vai para Deus.

Cultivemos também um ardente desejo de fazer o bem em todas as ocasiões que aparecerem. Salvar uma alma, eis aí um dos objetos de maior dignidade que mereça nossos esforços.

Não existe resultado mais sublime a alcançar, nem frutos mais doces para colher. Porém, estejamos bem convencidos de que somente a graça de Deus pode nos permitir fazer o bem e sermos verdadeiramente de proveito para nosso próximo.

Esta festa da Anunciação é uma ocasião excelente para pedirmos a Nossa Senhora para não estarmos entre aqueles homens que só mereceram esquecimento, porque passaram sobre a terra sendo inúteis, mas para pertencermos àquela classe de homens que foram e são cheios de caridade e de misericórdia, cujas obras de piedade permanecem para sempre. Peçamos a Nossa Senhora para pertencermos à sua linhagem:

Dentre eles nasceram aqueles que deixaram um nome, para que nós possamos narrar suas glórias. E existem aqueles dos quais não há lembrança, desapareceram como se não houvessem existido; se tornaram como se nunca tivessem nascido, bem como seus filhos depois deles. Os primeiros eram homens piedosos, cujas virtudes não foram esquecidas. (…) Seus corpos foram sepultados em paz, e o nome deles vive de geração em geração. Os povos comentarão sua sabedoria, a assembleia publicará seus louvores” (Eclesiástico 44, 8-10; 14-15).


sábado, março 17th, 2012 at 8:17pm

Maria, fonte de nossa confiança

 Rafael Acácio

 

Não estou eu aqui, que sou tua Mãe?

Nosso Senhor, conforme narrado no evangelho de São João (Jo, 19, 27), se dirige à sua Santíssima mãe dizendo “Mulher, eis aí o teu filho!” e, logo em seguida, voltando-se ao discípulo amado, complementa “Eis aí tua mãe”.

Jesus Cristo, em sua bondade infinita, pouco antes de morrer, nos deixou uma mãe espiritual. Por isso, diz Santo Afonso de Ligório, não é por acaso que todos que possuem devoção a Santíssima Virgem Maria não conseguem chamá-la de outro modo senão de “mãe”.

Essa preciosa Mãe que nos foi entregue no calvário, nos ama tanto que pediu a Deus a nossa salvação desde o momento em que ela consentiu que o Verbo Eterno se fizesse seu filho.

Vendo a Santíssima Virgem o amor do Eterno Pai para com os homens, em querer seu filho morto pela nossa salvação, e o amor do Filho em querer morrer por nós, Maria, consentiu com toda Sua vontade, que seu filho morresse pela salvação da humanidade.

Assim, quando Nosso Senhor disse a sua mãe “mulher, eis aí teu filho” pode ser interpretado, conforme ensina Santo Afonso, como se o Salvador dissesse: Mulher, eis aí o homem que em consequência da oferta que tu fazes de minha vida pela sua salvação, já nasce para a graça; eu te declaro sua mãe.

Maria é, portanto, nossa mãe. É por meio dela que alcançamos as graças necessárias para nossa salvação.

Foi no calvário, entre tantas dores, que a Mãe de Deu ofereceu seu Divino filho a nós. Foi no calvário que nossa Santa Mãe nos gerou para a vida na graça. Depois do amor de Deus, pode existir amor maior que o de Maria? Diz Santo Afonso que se o amor que todas as mães têm aos filhos, todos os esposos a suas esposas, e todos os santos e anjos a seus devotos, se unisse em um só amor, não chegaria a igualar o amor que Maria tem a uma só alma.

Felizes são aqueles que são filhos de Maria! E, como filhos, depositamos total confiança nela. Devemos ter uma esperança convicta de que nossa boa Mãe vai nos dar tudo que é necessário para nossa salvação.

Nossa Senhora é a estrela que devemos seguir para não afundarmos nas tempestades da vida. Confiando em nossa amabilíssima mãe evitamos o naufrágio e chegamos ao seu Divino filho, nosso salvador.

Durante a vida, continuamente estamos expostos às tentações pecaminosas que o demônio põe em nossos caminhos para perder nossas almas. Por muitas vezes nos encontramos em situações de tristeza ou desânimo, além de muitos pecados, como a inveja e o orgulho. Se, diante de uma tentação, buscarmos sozinhos enfrentar o pecado que o demônio nos apresenta, certamente perderemos essa luta, mas, se acompanhados de Nossa Mãe, que nos toma pela mão nas situações difíceis da vida, venceremos.

Na luta contra a tentação, nossa principal arma é a devoção na Rainha dos Céus. É preciso invocá-la sempre e confiar que ela cuidará de nós.

Nesse sentido, diz São Bernardo, em um belíssimo sermão:

 

Quando te assaltarem os ventos das tentações, quando vires aparecer os escolhos da desgraça, olha para a estrela, invoca a Maria.

Se és sacudido pelas ondas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja, olha a estrela, invoca Maria.

Se a cólera, a avareza, as seduções carnais vierem sacudir a leve barca de tua alma, levanta os teus olhos, olha para Maria.

Se, perturbado pela lembrança atroz de teus crimes, envergonhado pela vista da imundice de tua consciência, aterrorizado pela ameaça do juízo de Deus, começas a submergir no remoinho da tristeza e no abismo do desespero, pensa em Maria.

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca a Maria…”.

 

A confiança em Nossa Senhora é nosso meio mais eficaz contra as tentações do mundo e contra as adversidades da vida.

A Virgem Maria, ao aparecer para o jovem Juan Diego em Guadalupe, nos ensina, dentre outras coisas, que devemos ter absoluta confiança em sua proteção.

Disse nossa doce Mãe:

 

 “Escuta e entende bem, meu pequeno filho, que nada te assuste, que nada te aflija. Não deixes teu coração perturbado. Não temas esta ou qualquer outra enfermidade ou aflição. Não estou aqui, eu que sou tua Mãe? Não estás debaixo de minha proteção? Não sou a fonte de tua alegria? Não estás sob o manto, na cruz dos meus braços? O que mais podes querer? Que nenhuma outra coisa te perturbe ou aflija…”.

 

O que mais podemos querer, tendo Maria por Mãe?

Estando junto a Nossa Senhora, não há motivo para tristeza, desespero, desânimo, ou qualquer outra inclinação negativa. Junto da Santíssima Virgem estamos amparados, pois estamos com nossa Mãe, que nos conduz ao Céu.

Devemos, portanto, nos recomendar continuamente a Santíssima Virgem, para que ela nos tenha sempre sob sua proteção: “Sub tuum praesidium confugimos, sancta Dei Genitrix!” (Sob tua proteção nos refugiamos, ó santa Mãe de Deus).

Também São Luis Maria Grignon de Montfort, em uma de suas canções, nos convida a cultivar a confiança em nossa Doce Mãe.

Diz a canção de São Luis:

Je mets ma confiance,

Eu coloco minha confiança,

Vierge, en votre secours;

Virgem, no vosso socorro;

Servez-moi de défense,

Servi-me de defesa,

Prenez soin de mes jours;

Cuidai dos meus dias;

Et, quand ma dernière heure

E, quando minha última hora

Viendra fixer mon sort,

Vier determinar minha sorte,

Obtenez que je meure

Obtenha que eu morra

De la plus sainte mort.

Da mais santa morte.

Ah! Soyez-moi propice

Ah! Sejai-me propícia

Avant que de mourir,

Antes de morrer,

Apaisez sa justice,

Apaziguai sua justiça

Je crains de la subir;

Receio o sofrimeto;

Mère pleine de zele,

Mãe cheia de zelo,

Protégez votre enfant,

Protejei vossa criança

Je vous serai fidèle

Eu vos serei fiel

Jusqu´au dernier instant

Até o último momento

Voyez couler mes larmes,

Olhai correr minhas lágrimas,

Mère du bel Amour;

Mãe do belo Amor

Finissez mes alarmes

Ponde um fim aos meus medos

Dans ce mortel séjour:

Neste lance mortal

Venez romper ma chaine,

Vinde romper minhas cadeias

Pour m´approcher de vous,

Para me aproximar de vós

Aimable Souveraine,

Amável soberana,

Que mon sort serait doux!

Que minha sorte será doce!

Sainte Vierge Marie,

Santa Virgem Maria,

Asile dês pécheurs,

Asilos dos pecadores,

Prenez part, jê vous prie,

Tomai parte, eu vos suplico,

A mes justes frayeurs:

Aos meus reais temores:

Vous êtes mon refuge,

Vois sois meu refúgio,

Votre Fils est mon Roi,

Vosso Filho é meu Rei,

Mais Il sera mon juge,

Mas ele será meu juiz,

Intercédez pour moi.

Intercedeis por mim.

A dessein de vous plaire,

Desejando-vos agradar

O Reine de mon coeur!

Ó Rainha do meu coração

Je promets de rien faire

Eu prometo nada fazer

Qui blesse votre honneur:

Que fira vossa honra

Je veux que, par hommage,

Eu quero que, por homenagem,

Ceux qui me sont sujets,

Aqueles que me estão sujeitos

En tous lieux, à tous ages,

Em todos os lugares, de todas as idades

Prennent vos interêst.

Sirvam a vossos interesses

Vous êtes Vierge Mère,

Vós sois Virgem Mãe,

Après Dieu, mon support;

Depois de Deus meu apoio;

Je sais qu´il est mon Père,

Eu sei que ele é meu Pai,

Mais vous êtes mon fort:

Mas vós sois o meu forte:

Faites que dans la gloire,

Fazei que na glória,

Parmi lês bienheureux,

Entre os bea-aventurados,

Je chante La victoire

Eu cante a vitória

Du Monarque dês cieux.

Do Monarca dos céus

 

 

Coloquemos, portanto, toda nossa esperança no doce coração de Maria!

 

Que ela cuide de todos nossos interesses, até o último momento de nossas vidas!

 

Que nossos atos, ainda que miseráveis, sejam entregues às mãos de Deus pela Virgem Maria, que é pura misericórdia.

 

Invoquemos sempre essa estrela de graça, para nos manter firmes na fé Católica, guiando-nos ao porto da Salvação!

 

Que a Virgem Maria, nossa Soberana Mãe, nos guie para a vida eterna, para que possamos, juntos, cantar a vitória do Monarca dos Céus!

 

 

Doce Coração de Maria, sede nossa salvação,

Rafael Acácio.


quarta-feira, dezembro 7th, 2011 at 7:09pm

Porei uma inimizade entre ti e a mulher: a Imaculada Conceição de Nossa Senhora

Marcos Roberto Bonelli

 

Eu estabeleço uma inimizade entre ti e a mulher,

 entre tua posteridade e a posteridade dela”.

(Gênesis III, 15)

 

Designa-se há muito tempo, com o nome de Protoevangelho, essa passagem do terceiro capítulo do Gênesis no qual Deus, surpreendendo nossos primeiros pais, Adão e Eva, logo após terem pecado, fulminou o castigo merecido contra o demônio, que os havia instigado à desobediência.

Um grande número de autores defende que a mulher e sua posteridade abençoada designam direta e exclusivamente a Virgem Maria e o fruto de seu ventre, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Esta opinião é a que prevaleceu na bula de definição do dogma da Imaculada Conceição:

Assim a Santíssima Virgem, unida com Cristo em um vínculo estreitíssimo e indissolúvel, juntamente com ele e por ele, exercendo uma eterna inimizade contra a serpente venenosa e triunfando plenissimamente dela, esmagou sua cabeça com seu pé imaculado” (Pio IX, bula Ineffabilis Deus).

Também na bula Munificentissimus Deus, de Pio XII, que proclamou no dia 1 de novembro de 1950 o dogma da Assunção, lemos que:

É necessário, antes de tudo, nos lembrarmos de que desde o segundo século a Virgem Maria fora unida pelos Padres ao novo Adão como a nova Eva, sobre um plano inferior, mas em uma união estreita com ele, no combate contra o inimigo infernal. Ora, este combate, como é anunciado com antecedência no Protoevangelho, devia terminar numa vitória plena sobre o pecado e a morte, que estão sempre associados nos escritos do Doutor das nações [São Paulo]”.

O Protoevangelho esboça, então, o plano divino de redenção do mundo.

 

O decreto da cólera divina

O decreto de cólera que Deus pronunciou nesta circunstância nos faz odiar o pecado e louvar sua misericórdia.

Esforcemo-nos por imaginar a consternação e o terror que tomaram Adão e Eva neste momento decisivo, e que os deixa imóveis sob o olhar de Deus ofendido, de quem eles buscaram fugir inutilmente.

Eles vêem sua condenação, os bens que perderão, a infelicidade que pesará sobre eles, os males que envolverão toda sua posteridade.

A única causa de tudo isso?

O pecado.

Pecado que se apresentou com a aparência de um conhecimento novo, de um fruto agradável!

Temos aqui uma verdade inegável: todo sofrimento provém do pecado. É por ele que a morte entrou no mundo (Romanos V, 12), e a morte é o modelo de todo mal temporal.

A consternação de Adão e Eva, após o pecado, nos oferece uma imagem bem viva do desencantamento que costuma seguir ao pecado, sobretudo daqueles cometidos por sensualidade. É uma viva imagem, sobretudo, do desespero irremediável que virá sobre o pecador quando, após esta vida, ele se apresentar diante de Deus, que ele não temeu nesse mundo!

Reconheçamos no pecado o grande inimigo de nossa felicidade, e que esta persuasão seja viva o suficiente para nos afastar de toda fascinação pelo mal.

Mas guardemos bem isto: este princípio vale para o pecado mortal e para o pecado venial. O caminho do pecado venial, das negligências voluntárias e da tibieza é um caminho oposto ao da felicidade.

Consideremos também como Deus tem razão de estar irado.

Quantos bens e dons desprezados! Que lei fácil e justa, transgredida pelos nossos primeiros pais!

Porém, antes do castigo, Deus faz entrever sua graça, prometendo a luz que dissipará as trevas.

Como é admirável a imensidade da misericórdia divina em relação a nós!

Devemos corresponder a esta misericórdia com uma confiança total, mesmo após nossas quedas. Vejamos que foi, depois da grave transgressão de Adão, antes da vinda de Cristo e sem ter sido implorado – pior ainda, ouvindo as fracas justificativas de Adão e Eva após terem pecado – que Deus se obrigou a nos dar um Redentor, através uma promessa de misericórdia e perdão.

 

O estabelecimento da inimizade

Insistamos a respeito da hostilidade entre a mulher e a serpente.

Vejamos o que ela nos ensina sobre a Virgem Maria e aproveitemos o ensinamento que contém para nós.

Colocando em destaque a inimizade que Ele constituirá entre uma mulher e o demônio, Deus revela que virá uma mulher cuja marca característica será a de estar em guerra contra Satanás.

Uma tal guerra implica uma separação radical, uma oposição completa e perpétua.

Ora, o demônio personifica a tentação e o pecado, porque nos instiga a cometê-los.

Esta futura mulher, consequentemente, se distinguirá por estar totalmente livre do pecado e imune de toda tentação.

Seria possível que esta mulher começasse sua existência contraindo o pecado original, contra o qual Deus havia garantido uma revanche gloriosa?

Eis como a inimizade predita entre a mulher e a serpente implica na Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Eis como, desde o começo, a esperança do mundo foi a esperança de ver nascer uma mulher preservada do pecado original.

Notemos como a grande consolação do gênero humano foi prometida sob a forma de uma hostilidade e de uma guerra.

Nosso papel nesta vida não é o de ter uma paz mentirosa e cheia de armadilhas, mas o de lutar energicamente contra o demônio e seu espírito – o espírito do mundo – para ter uma consolação mais nobre, que vem do esforço generoso e da vitória.

Mas esta luta deve ser feita com o sustento de uma fervorosa devoção para com a Sempre Virgem Maria. Todos os atos de amor que oferecemos a Ela são uma declaração de guerra ao nosso inimigo mortal.

 

O anúncio da vitória

Esta hostilidade anunciada por Deus é uma inimizade vitoriosa. Ela irá até um triunfo completo: a serpente infernal terá sua cabeça esmagada.

Porém, esta vitória possui duas características:

a) A mulher será vitoriosa na sua posteridade abençoada. Ela triunfa porque é a Mãe de um Filho a quem foi dado esmagar a cabeça da serpente. Nossa Senhora deverá tudo a Jesus Cristo e aos seus méritos.

Mas este aspecto da vitória, se é glorioso para o Filho, também o é para a Mãe. A Virgem Maria pertence menos à descendência dos seus primeiros pais, vítimas do inferno e de suas armadilhas, e é antes o princípio de um novo Adão, triunfador do demônio.

Sendo filha do primeiro Adão, Ela deveria herdar o triste pecado original. Mas sendo a Mãe do Libertador e associada a Ele, Ela não deve começar pela servidão.

A necessidade do contágio deve ceder diante da necessidade superiora da imunidade.

Moralmente unida a Jesus, Maria deve ser Imaculada.

A vitória vem depois de lutas e se encontra misturada com derrotas parciais, que a linhagem da mulher irá, conforme a imagem da Sagrada Escritura, padecer no seu calcanhar.

Vemos esta derrota parcial, este calcanhar ferido, na humanidade de Cristo pregado na cruz, na traição dos hereges, nas impiedosas injúrias feitas contra Nossa Senhora, na triste perda das almas arrastadas na revolta fatal do demônio.

Mas o demônio não ferirá nem Deus mesmo, nem seus anjos, nem seus santos. Deus só é vulnerável nas suas criaturas humanas e Ele só permite que elas sejam machucadas no calcanhar, ou seja, durante a curta provação desta vida terrena, no corpo e nos bens exteriores. Na alma, somente se elas o consentem voluntariamente, deixando-se seduzir.

Mais ainda: os sucessos do inimigo são compensados por vitórias esmagadoras.

A cruz de Cristo esmaga a cabeça da serpente, as heresias levam à proclamação dos dogmas, as ofensas lançadas contra a Santíssima Virgem abrasam o zelo de seus filhos e faz com que suas prerrogativas sejam vistas claramente, a derrota dos maus faz com que seja manifestada a virtude e a felicidade dos bons.

Temos uma nobre segurança, que deriva de uma superioridade invencível. Enquanto estivermos com Nossa Senhora e nossa Mãe, poderemos desafiar nossos inimigos.

No meio de tantas tribulações pelas quais passa a Igreja, é um pensamento de grande conforto!

Mas pensemos também que estas feridas no calcanhar atingem nossos irmãos, nossos próximos. Com Nossa Senhora estamos seguros, mas isto não pode nos deixar indiferentes à infelicidade deles.

Combatamos com Nossa Senhora contra a serpente infernal, fazendo o que pudermos para colocar os que estão à nossa volta sob Seus cuidados. Ensinemos a verdadeira devoção a Nossa Senhora, movamos os outros homens a conhecer e a amar a Santíssima Virgem, a qual retribui com generosidade incomparável, até mesmo o menor louvor que lhe damos.

Não há outro caminho mais fácil de salvação: “Ela esmagará tua cabeça”.


sexta-feira, outubro 14th, 2011 at 1:11am

Os Caminhos de Maria Santíssima – Parte 1

Ivone Fedeli

 

Neste mês de outubro, dedicado pela Igreja ao Santo Rosário, oferecemos a nossos leitores a primeira parte de um artigo sobre Nossa Senhora tomada como modelo de virtudes, com reflexões inspiradas no Evangelho, no mesmo espírito das meditações que tradicionalmente devem acompanhar a recitação do rosário.

Os Caminhos de Maria Santíssima – Parte 1

 

 Ipsam sequens, non devias.[1]
São Bernardo, Segundo Sermão sobre o Missus est

 

  1. 1.     Caminhos

 

São Luís de Montfort, em seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, afirma que “os predestinados mantêm-se nos caminhos da Santíssima Virgem, isto é, imitam-na, e nisto são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo assim o sinal infalível de sua predestinação, como lhes diz essa boa mãe: “Beati qui custodiunt vias meas (Prov 8, 32) – Beatos os que praticam as minhas virtudes e caminham sobre as pegadas da minha vida, com o socorro da divina graça.”[2]

 

A metáfora do caminho como itinerário espiritual é clássica não apenas nos escritores eclesiásticos, como São Bernardo, Santo Afonso de Ligório[3], São Luís de Montfort e Santo Antônio Maria Claret[4], mas nos próprios livros sagrados. São Jerônimo, por exemplo, em uma de suas cartas atribui um sentido místico, de itinerário espiritual, à longa peregrinação dos israelitas no deserto, considerando cada etapa do caminho uma etapa da vida da alma.

 

Também o salmo 118, entre outros, utiliza a metáfora do caminho para expor longamente qual deve ser itinerário do homem neste mundo para atingir a bem-aventurança. “Felizes os que se mantêm sem mácula no caminho, os que andam segundo a lei do Senhor”. Beati immaculati in via qui ambulant in lege Domini…[5]

 

Ao comentar esse salmo, Santo Agostinho observa que ele apresenta uma dificuldade particular, justamente porque parece muito simples.

 

“Relativamente aos outros [salmos, todos já comentados por ele, que deixou este para o fim]”, afirma o Doutor de Hipona, “na verdade de difícil compreensão, embora o sentido seja obscuro, evidencia-se a própria obscuridade. Neste, nem ela; porque apresenta tal superfície que se acredita bastar ler e ouvir, sem se precisar de um comentador”.[6]

 

O mesmo se poderia dizer do pequeno texto de São Luís de Montfort que citamos acima. Por um lado, é claríssimo. Manter-se nos caminhos de Maria Santíssima, imitá-la. Não é difícil compreender, que “felizes são aqueles que, sem se deixar seduzir por uma falsa devoção, guardam fielmente os vossos caminhos, os vossos conselhos e vossas ordens!”. Não é o primeiro sentido da frase “é mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as ações olhar Maria como um modelo acabado de todas as virtudes e perfeições”[7] que nos escapa. Não, como diz Santo Agostinho do Salmo 118, o sentido primeiro é claro.

 

A dificuldade, como no salmo, vem da investigação mais profunda. Andar nos caminhos de Maria? Que caminhos? Quais são os caminhos dela? Imitá-la? Em que sentido? Como podemos nós, pobres pecadores, imitar a Imaculada? Que imitação é possível de sua maternidade divina ou de sua assunção gloriosa?

 

E por outro lado, quão pouco é o que nos diz o Evangelho sobre Maria Santíssima. Sua “humildade profunda que a levou a esconder-se, a calar-se, a submeter-se a tudo e a colocar-se em último lugar”, essas mesmas características dificultam a investigação daquilo a que São Luís de Montfort chama “os caminhos de Maria”. O próprio santo o afirma no Segredo de Maria, ao dizer que Maria Santíssima é a “pérola preciosa”, o “tesouro escondido do Evangelho”[8] e, em outro lugar, que “apenas o Espírito Santo pode fazer conhecer a verdade escondida sob a figura das coisas materiais”.[9]

 

Porém, nada disso deve ser razão de desânimo. Pelo contrário, se “a glória de Deus é esconder a palavra porque não se devem dar pérolas aos porcos, nem atirar aos cães as coisas santas”[10], “a glória dos reis – do homem, que pela razão é rei da criação e pela graça é filho de Deus –  investigar o texto”.[11]

 

São Gregório Magno em seu Comentário ao Cântico dos Cânticos explica de modo magistral como a investigação das metáforas e alegorias da Sagrada Escritura nos pode conduzir ao conhecimento das verdades doutrinárias, morais e espirituais que o Espírito Santo depositou nelas:

 

“A alegoria oferece à alma afastada de Deus [nesta vida mortal, em que não vemos Deus face a face] uma espécie de máquina que a faz elevar-se para ele. Por meio dos enigmas, reconhecendo nas palavras alguma coisa que lhe é familiar, ela compreende, no sentido das palavras, o que não lhe é familiar e, graças a uma linguagem terrestre, separa-se da terra. Pois, atraída por alguma coisa de conhecido, compreende alguma coisa do desconhecido. É, com efeito, dessas realidades que nos são conhecidas, e que se fazem as alegorias, que se revestem os pensamentos divinos; então, ao reconhecer a aparência exterior das palavras chegamos à inteligência interior”.[12]

 

Embora São Gregório esteja falando, especificamente, da grande alegoria do Cântico dos Cânticos, que trata das relações de Deus com sua Igreja e com cada alma em particular, o mesmo princípio se aplica a todos os textos da Sagrada Escritura, mesmo àqueles que narram fatos históricos.

 

Assim, por exemplo, São Paulo vê nos filhos de Abraão, um da escrava, outro da livre[13] uma prefigura dos filhos da Sinagoga, escrava, e da Igreja, livre. Bem como, São Luís de Montfort utiliza a história da bênção de Jacó, conseguida por sua mãe Rebeca, para deduzir e explicar os princípios da verdadeira devoção a Maria Santíssima, que ensina em seu Tratado.[14] São apenas dois exemplos entre os inúmeros que poderiam ser citados.

 

Também nós, desejosos de compreender melhor os caminhos de Maria Santíssima, para mantermo-nos neles, para imitá-la, como ensina São Luís de Montfort, podemos interrogar a esse respeito o texto da Sagrada Escritura, buscando uma compreensão mais profunda, que nos leve a um amor mais ardente.

 

  1. 2.     Sete caminhos

 

 

No texto dos Evangelhos por sete vezes encontramos a Santíssima Virgem efetivamente a caminho. Por sete vezes o texto nô-la mostra descolando-se de um lugar para outro. Assim, tomemos esses trechos como ponto de partida de nossa investigação. Que Nossa Senhora, em caminho, nos mostre os caminhos que devemos seguir, nos mostre como imitar, em nossa miséria, sua inigualável grandeza, como manter-nos, sem nos desviar, sem sair da via, nas sendas que ela tomou.

 

 

Sete vezes, como dissemos, o Evangelho nos diz que Maria Santíssima se põe a caminho: a primeira, logo após ter concebido em seu seio puríssimo, o Verbo de Deus, quando, “se levantou e foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá”[15]; em seguida, na ocasião em que, por força do edito de César Augusto, “também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com sua esposa, que estava grávida”.[16]

 

Pela terceira vez, Nossa Senhora se põe a caminho, segundo o texto sagrado, porque “concluídos os dias da purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram-no [ao Menino Jesus] a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor”[17] e de novo, desta vez em circunstâncias trágicas, quando, depois da visita e da partida dos Reis Magos, “um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar.”[18]

 

Findo o perigo, com a morte de Herodes, uma quinta vez vemos a Santíssima Virgem a caminho, desta vez porque “o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel [...] e ele, levantando-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel”.[19]

 

A sexta vez em que o Evangelho nos mostra Maria Santíssima caminhando é quando “Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem. Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos. Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele.”[20]

 

 

Por fim, o sétimo caminho tomado pela Santíssima Virgem de que nos fala o Evangelho é a via crucis, o caminho do Calvário, embora sem mencioná-la explicitamente. Diz o texto: “Seguia-o uma grande multidão de povo e de mulheres, que batiam no peito e o lamentavam”[21], multidão entre a qual, com certeza, se encontrava a Santíssima Virgem, suposição tanto mais razoável quanto é confirmada pela tradição antiquíssima da Via Sacra, que consagra uma de suas estações ao encontro de Jesus com sua Mãe. E confirmada, ainda, pelo próprio texto do Evangelho, ao dizer que “junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.”[22]

 

 

Examinemos, em primeiro lugar, as razões deste número simbólico, o sete. Segundo a tradição exegética, cuja interpretação se fundamenta particularmente na interpretação dos números dada por Santo Agostinho[23], “os números, na maioria das vezes, não querem transmitir uma quantidade exata, um dado preciso, mas sim expressar uma realidade, um valor teológico, um dado simbólico”[24], embora o símbolo jamais possa contrariar o sentido literal.[25]

 

 

Portanto, se o Evangelho nos apresenta a Santíssima Virgem caminhando por sete caminhos, não devemos tomar esse número como casual. Pelo contrário, tanto mais que o sete é um número de grande significado simbólico.

 

 

Segundo Frei Acílio Mendes, OFM, sendo o número 7, soma de 4 com 3,

 

 

“Por isso é o número perfeito, indica o máximo da perfeição (Nm 23,4; Mt 15,36); grande quantidade (Is 30,26; Pr 24,16; Mt 18,21); totalidade (Ap 1,4); indica séries completas como no Apocalipse: 7 Cartas (Ap 2-3); 7 Selos (Ap 6,1-17); 7 cabeças (Ap 12,3). O Cordeiro imolado recebe 7 dons (Ap 5,12). O sábado é o sétimo dia; Deus fez a Criação em 7 dias; a festa de Pentecostes acontece 7 vezes 7 dias depois da Páscoa. Cada sétimo ano é sabático (descanso para a terra e libertação dos oprimidos – Lv 25) e depois de 7 vezes 7 anos vem o Jubileu. Não se deve perdoar 7 vezes, mas 70 vezes 7 (Mt 18,22). É importante ver que no Apocalipse aparece a metade de 7, isto é, 3,5 (Ap 11,9). Às vezes diz-se: um tempo, dois tempos, meio tempo (Ap 12,14; Dn 7,25), isto é três anos e meio. Também pode ser 42 meses (Ap 11,2), é igual a 1.260 dias (Ap 12,6), isto é, sempre a metade de 7. É a duração limitada das perseguições. É o tempo controlado por Deus.”[26]

 

 

Num artigo sobre o número do homem, mencionado no Apocalipse, também o Prof. Orlando Fedeli afirma que:

 

 

O número sete – é bem sabido – significa totalidade. Com efeito, quando os Apóstolos perguntaram quantas vezes deviam perdoar o ofensor, Cristo lhes respondeu que deviam fazê-lo 70 x 7 vezes, para significar sempre, todas as vezes. O sete simboliza totalidade porque ele é composto de 3 + 4, significando pois ordem total; espiritual (3) e material (4). Por isto, este número cabe bem a Cristo, Deus e Homem, que contém toda a ordem, divina e humana. Não é então sem razão que o Apocalipse apresenta Cristo como “aquele que tem os sete espíritos de Deus” (Apoc.,) e que caminha entre os sete candelabros. O número sete corresponde a muitos totais. Sete são os sacramentos, sendo que três imprimem caráter (Batismo, Crisma e Ordem) e quatro não. Sete são as virtudes, sendo que três são teologais (Fé, Esperança e Caridade) e quatro são cardeais. Sete são os dons do Espírito Santo e sete são os vícios capitais. Sete são as cores, sendo que três são fundamentais e quatro resultam da combinação delas. Sete são as notas da escala, e três delas formam um harmônico. Sete eram as matérias da escola medieval, divididas em: Trivium (lógica, gramática e retórica) e Quadrivium (aritmética, geometria, música e astronomia), sendo que o Trivium era formado pelas ciências que regem a formação e manifestação do pensamento e o Quadrivium estudava as criaturas sob o ângulo matemático. O número sete pode ser formado com 6 + 1 = 7, e então ele significa a perfeição nas partes com Deus.[27]

 

 

Assim, dada essa característica de totalidade e de perfeição do número sete, seja considerado como soma de três mais quatro, seja como a adição de seis mais um[28], podemos ver nessa apresentação dos sete caminhos da Santíssima Virgem uma espécie de itinerário completo, de modelo perfeito dos caminhos espirituais pelos quais devemos passar para, à imitação da Santíssima Virgem, atingir aquela perfeição a que todos fomos chamados.[29]

 

 

São Tomás de Aquino explica em que sentido somos todos viajantes, em que sentido todos estamos a caminho, esclarecendo, assim, a razão profunda da recorrência dessa metáfora tanto na Sagrada Escritura quanto nos autores eclesiásticos:

 

 

“Somos ditos viajantes porque tendemos para Deus que é o fim último de nossa beatitude. Nesta vida, avançamos tanto mais quanto mais nos aproximamos de Deus, do qual nos aproximamos não pelos passos do corpo, mas pelas disposições da vontade. É a caridade que faz essa aproximação; pois é por ela que o espírito se une a Deus.”[30]

 

Os diferentes caminhos, portanto, são os vários modos pelos quais a caridade se exerce, os diferentes atos através dos quais, aumento no amor, a alma se aproxima de Deus. Ao estudarmos os caminhos da Santíssima Virgem, podemos, legitimamente, ver neles os modelos para nossos próprios caminhos. Podemos, todos, tomar para nós as palavras ditas por Nosso Senhor a Dom Bosco: “Eu te darei a mestra sob cuja orientação poderás tornar-te sábio e sem a qual toda a sabedoria se converte em estultícia.”[31]

 

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[1] BERNARDO DE CLARAVAL, Santo. Sermons sur la Vierge Maria. Seguindo-a, não sairás do caminho. Tradução nossa.

[2] LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Perópolis: Editora Vozes, 2009. pp. 190-191.

[3]AFONSO DE LIGÓRIO, Santo. Via della Salute. “O livro Via della Salute chega a 700 edições. Na coletânea OARX está reunido com os opúsculos: o Settenario di Meditazioni in onore di S. Giuseppe e Novena dei morti. Apud OLIVEIRA, Luiz Carlos. Cristo nas obras ascéticas de Santo Afonso. Dissertação de Mestrado em Teologia com especialização em Teologia Espiritual. Roma: Teresianum – Pontifício Instituto de Espiritualidade, 2000.

[4] CLARET, Santo Antonio Maria. Camino recto y seguro para llegar al cielo. Publicado originalmente em catalão, em 1845, e um ano mais tarde em castelhano, língua em que já tem quase duzentas edições.

[5] Sl 118, 1. na Vulgata, nas versões modernas Salmo 119.

[6] AGOSTINHO DE HIPONA, Santo. Comentário aos Salmos. São Paulo: Paulus, 1998. V. 3, p. 370.

[7] LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Op. cit. no. 260.

[8] Cfr. LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. O Segredo de Maria, no. 70.

[9] Cfr. LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Tratado da Verdadeira Devoção, no.261.

[10] Cfr. Mt 7,6.

[11] Prov 25, 2.

[12] GREGÓRIO MAGNO, Santo. Commentaire sur le Cantique des Cantiques.Paris: 1984.

[13] Cfr Gl, 4.

[14] Cfr. LUÍS GRIGNION DE MONTFORT, Santo. Tratado da Verdadeira Devoção, no. 183 e ss.

[15] Lc 1, 39.

[16] Lc 2, 4-5

[17] Lc 2, 22

[18] Mt 2, 13.

[19] Mt 2, 20-21

[20] Lc 2, 42-45

[21] Lc 23, 27

[22] Jo 19, 25

[23] Cf. AGOSTINHO DE HIPONA, Santo. De Musica

[24] MENDES, OFM. Frei Acílio. Os números na Bíblia. Texto completo em: http://www.cantodapaz.com.br/blog/11-significado-dos-numeros-na-biblia/

[25] Cf. TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. I – I, q. 1. Aa 9-10.

[26] MENDES, OFM. Frei Acílio. Op. cit.

[27] FEDELI, Orlando. O número do homem. Texto completo em: http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=religiao&artigo=numero

[28] O três significa a perfeição espiritual, enquanto o quatro a perfeição material. Assim, são três as Pessoas Divinas, três as virtudes teologais, três as potências da alma, por exemplo, enquanto são quatro, por exemplo, as estações do ano, os pontos cardeais e as virtudes cardeais. O seis significa a perfeição das partes, por ser sempre tanto a soma quanto a multiplicação dos três primeiros números, enquanto o um, como é evidente, é o número que significa Deus.

[29] Cf Mt 5, 48.

[30] TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. II-II q.24 4 e 7

[31] BOSCO, São João. Memórias do Oratório Festivo.

 


terça-feira, julho 5th, 2011 at 3:37pm

Brasília – Aula com a Profa. Ivone Fedeli e Prof. Edivaldo Oliveira nos dias 09 e 10/07/2011

MONTFORT ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Cursos 2011

Caríssimos Amigos,

Salve Maria!

Convidamos a todos para as aulas da Profa. Ivone Fedeli e Prof. Edivaldo Oliveira nos dias 09 e 10/07/2011 em Brasília.

Temas:

Educação Católica

A importância da Ficção na Formação

Devoção a Nossa Senhora e a São José.

Data e Horário: 

 09/07: 11 às 18h

10/07: 08:30 às 18h

Os interessados poderão obter informações sobre o local com:

Alexandre Pinheiro alexppinheiro@uol.com.br