Posts Tagged ‘ Cardeal Ratzinger’

sábado, fevereiro 11th, 2012 at 9:07pm

Tradução: A “tese Ocariz” contraditada também pela “tese Ratzinger”

O artigo abaixo, publicado em 11.02.12 pelo Diácono Daniel Pinheiro, IBP, no blog Disputationes Theologicae, é apresentado em tradução Monfort.

Cardeal Ratzinger : “[A Instrução Donum Veritatis] afirma – talvez pela primeira vez de maneira tão clara – que existem decisões do magistério que podem não constituir a última palavra sobre uma matéria enquanto tal, mas um encorajamento substancial em relação ao problema, e sobretudo uma expressão de prudência pastoral, uma espécie de disposição provisória. Sua substância permanece válida, mas os detalhes sobre os quais as circunstancias dos tempos exerceram uma influência podem ter necessidade de retificações ulteriores. Sob esse aspecto, pode-se pensar tanto nas declarações dos Papas do século passado sobre a liberdade religiosa, quanto nas decisões antimodernistas do começo deste século” (L’Osservatore Romano. Edição semanal em língua francesa, 10 de julho de 1990, p.9) [1].

 

Monsenhor Ocáriz: “O Concílio Vaticano II não definiu dogma algum, no sentido que não propôs mediante ato definitivo qualquer doutrina. Contudo o facto de que um ato do Magistério da Igreja não seja exercido mediante o carisma da infalibilidade não significa que ele poderá ser considerado «falível» no sentido que transmite uma «doutrina provisória» ou «opiniões influentes». Toda expressão de Magistério autêntico deve ser acolhida como é verdadeiramente: um ensinamento dado por Pastores que, na sucessão apostólica, falam com o «carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8), «revestidos da autoridade de Cristo» (Lumen gentium, n. 25), «à luz do Espírito Santo» (ibid.). (Osservatore Romano, 2 de dezembro de 2011, p.6)

 

O Cardeal Ratzinger afirma claramente que existe um Magistério que é provisório e dá um exemplo. Esse Magistério, segundo o Cardeal, não é a última palavra sobre uma matéria, ou seja, não se trata evidentemente de um Magistério infalível, mas de um Magistério puramente autêntico, que poderia ser falível sob certos aspectos e sujeito a retificações. Esse Magistério poderia ser a expressão de prudência pastoral, uma contribuição em relação ao problema. Ora, a prudência é provisória. As decisões prudenciais podem e, às vezes, devem mudar conforme as circunstâncias. Elas inclinam em direção a uma posição sem, no entanto, proibir ou condenar outra posição. Trata-se, portanto, de um Magistério exercido em um dado momento, para as circunstâncias desse momento, podendo portanto mudar se as circunstancias mudam. O Cardeal não afirma que todo Magistério não infalível é explicitamente provisório, mas que existe também um Magistério desse tipo. Classicamente, chama-se essa espécie de Magistério provisório aquele que afirma que tal doutrina é tuta vel non tuta. Esse Magistério não quer liquidar a questão, mas indica que tal doutrina, no contexto contemporâneo a esse ato do Magistério, pode ser ensinada sem perigo para a fé e a moral ou que, ao contrário, ela não pode ser ensinada sem colocar em risco a fé e a moral. Assim, por exemplo, uma tese filosófica pode ser condenada como non tuta, não porque o Magistério a considere falsa de uma maneira absoluta, mas porque nas circunstâncias dadas (considerando em particular o estado em que se encontram a teologia, a filosofia ou a ciência nesse dado momento) não se chega a conciliá-la facilmente com o Depósito Revelado e é, portanto, imprudente sustenta-la. Com o tempo, o Magistério pode condenar definitivamente essa teoria ou afirmar sua compatibilidade com a Revelação. Nesse quadro, poderia ser citada a condenação de Galileu, ao qual tinha sido pedido que não ensinasse de maneira peremptória o que, na época, era uma tese não comprovada. Em principio, portanto, um Magistério puramente autêntico e provisório pode existir, como afirma o Cardeal Ratzinger. Que seja o caso do Magistério contra a liberdade de consciência no século XIX e do Magistério contra o modernismo no começo do século XX, isso é, pelo menos, muito duvidoso [2].

 

Uma análise da afirmação de Monsenhor Ocáriz não é fácil, já que seu texto não é claro. Quer ele simplesmente dizer que o Magistério do Vaticano II não pertence a essa espécie de Magistério falível provisório? Magistério que existiria, aliás, mas não no último Concílio? Pode-se interpretar assim sua afirmação ambígua: “o facto de que um ato do Magistério da Igreja não seja exercido mediante o carisma da infalibilidade não significa que ele poderá ser considerado ‘falível’ no sentido que transmite uma ‘doutrina provisória’ ou ‘opiniões influentes’”? Deste modo, afirma ele que um ato do Magistério (puramente) autêntico não transmite necessariamente uma doutrina provisória, ainda que ele possa fazê-lo? Ou, no sentido contrário, quer ele dizer que nenhum ato do Magistério (puramente) autêntico pode ser provisório? Sua última frase parece indicar sobretudo isso, já que, para explicar a afirmação de que o Vaticano II não é provisório, ele acaba por englobar todo o Magistério autêntico: Toda expressão do Magistério autêntico deve ser acolhida como é verdadeiramente: um ensinamento dado por Pastores que, na sucessão apostólica, falam com o «carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8), «revestidos da autoridade de Cristo» (Lumen gentium, n. 25), «à luz do Espírito Santo» (ibid.).” Mons. Ocáriz parece mais portanto excluir a possibilidade de qualquer Magistério provisório, contrariando o Cardeal Ratzinger, a prática da Igreja e a doutrina comum dos teólogos.

 

É preciso aliás afirmar que um Magistério não infalível permanece sempre com um certo caráter provisório pois, de outra forma, se teria um Magistério sempre definitivo, imutável, irreformável, enfim, infalível. A distinção entre falível e infalível, dada pela própria Igreja, não teria nenhum sentido. Esse caráter provisório pode ser expresso, seja diretamente (ou explicitamente) pelo Magistério quando ele afirma que uma doutrina é tuta vel non tuta ou indiretamente (ou implicitamente) quando o Magistério afirma uma doutrina (ensinando sua verdade) ou a condena (ensinando sua falsidade), sem por isso liquidar definitivamente a questão. É preciso acrescentar que esse caráter provisório pode ter vários graus. E esse Magistério puramente autêntico, mesmo se ele não é diretamente ou explicitamente provisório, não é de jure infalível e permanece reformável. É um ensinamento que pode, portanto, conter erros, mesmo se isso permanece bastante raro, e ele não pode de modo algum, em consequência, exigir um assentimento absoluto pelo simples fato de que se trata de um ato magisterial da autoridade eclesiástica.

 

Diácono Daniel Pinheiro

 

[1] No texto original italiano, o termo traduzido por “encorajamento” é “ancoraggio”, o que significa antes “ancoragem”, cfr. Osservatore Romano 27 de junho de 1990, p.6. Notamos essa discordância entre os textos em circulação. Entretanto, o sentido do texto não é alterado.

 

[2] Esse magistério não é do Magistério Extraordinário Infalível, mas é, muito provavelmente, do Magistério Ordinário Pontifical Infalível, fundado sobre a própria Revelação. Esta posição tem, além disso, sólidas razões doutrinárias e teológicas em seu apoio. A respeito da liberdade religiosa, enviamos ao estudo de Dom Antônio de Castro Mayer.

  

 

 


segunda-feira, dezembro 26th, 2005 at 12:00pm

Há um Cardeal Excomungado. Seria ele um brasileiro?

Cardeal Brasileiro entrega a O GLOBO o seu diário particular do Conclave

 
 
     Contrariando a lei da Igreja que pune com excomunhão a revelação do que acontece no Conclave, um dos quatro cardeais brasileiros, que foram eleitores no último Conclave que elegeu o Cardeal Ratzinger como Papa Bento XVI, entregou ao jornal O GLOBO, o seu caderno de notas diárias, redigido durante o Conclave (artigo de O GLOBO: Cartas quase marcadas no Vaticano).
 
    As informações da notícia de O GLOBO, publicado na véspera de Natal, são bem pormenorizadas, indicando autenticidade da revelação.  Além disso, as informações e o tom em que são dadas visam claramente sabotar a autoridade do Papa Bento XVI, apresentando-o como um manipulador, inquinando sua eleição com a mancha da politicagem.

 
    No último Conclave, compareceram quatro Cardeais brasileiros: Dom Cláudio Hummes, Cardeal Arcebispo de São Paulo, que a imprensa brasileira apresentou então como “papabile”, o que era um palpite de um nacionalismo absurdo, mas no qual o Presidente Lula embarcou, imprudente e inconvenientemente, dando também o seu palpite-voto, nada diplomático (explica-se a gafe de Lula: ele nada entende de diplomacia, e é amigo pessoal do Cardeal de São Paulo, que outrora protegeu as greves petistas do ABC).

 
    O segundo eleitor foi o Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Scheidt, que demonstrou um certo melindre ao ser conhecido o voto de Lula pró Cardeal Hummes. O terceiro foi o Cardeal Dom Majella, Arcebispo  de Salvador, Primaz do Brasil e Presidente da CNBB. Finalmente, compareceu também ao Conclave o Cardeal Dom José Freire Falcão.

 
    Pela notícia, fica impossível identificar o responsável pelas revelações. Qualquer ilação conclusiva seria precipitada e teria pouca base. Por isso não fazemos ilações e nem tiramos conclusões ou suspeitas.

 
    Porém convém lembrar que Dom Falcão foi sempre mais conservador e parece mais ligado à corrente de Ratzinger, e Dom Scheidt, deve ter ficado muito contente que Dom Hummes não tenha sido votado. Dom Majella já trabalhou na Cúria Romana e consta que ele tem pretensões de voltar a trabalhar lá. Provavelmente ele votaria com a Cúria que estava com Ratzinger. Resta Dom Hummes, que o texto cita em terceira pessoa, e que foi ligado à Teologia da Libertação, portanto desgostosa com Ratzinger que a condenara.

 
    Desses quatro Cardeais, Dom Majella já se pronunciou, hoje, dia 26, dizendo-se “admirado” – teria sido melhor dizer-se escandalizado — com a inconfidência de um de seus irmãos no cardinalato. Esperam-se as manifestações dos outros três.

 
    Entretanto, como dissemos, os dados da notícia não permitem identificar o responsável pelo extravasamento das informações secretas do Conclave, e qualquer ilação seria precipitada. Inclusive a fonte da revelação poderia deixar pistas indicando outro Cardeal que não o verdadeiro responsável, para proteger o real infrator.

 
    Ademais, dizer que foi um Cardeal brasileiro que entregou o diário, não exclui a possibilidade de que o autor do Diário seja um estrangeiro que, para se proteger, procura lançar a suspeita sobre um brasileiro inocente. Portanto, nada se pode concluir, por enquanto.       

 
    Uma questão importante é indagar qual a causa dessa violação gravíssima da lei da Igreja. Pessoas de pouca compreensão pensarão que o Cardeal inconfidente visou dinheiro: teria vendido o seu diário do Conclave.

 
    É claro que um cardeal normalmente não se move por dinheiro ao tomar uma atitude como essa.
 
    O comentário de que o conclave foi político, dizendo que não foi o Espírito Santo que guiou os Cardeais eleitores, parece caber mais ao jornalista que deu a notícia do que ao Cardeal agora excomungado, pois esse comentário revela e explora a ignorância popular sobre a atuação do Espírito Santo nas eleições papais .
 
    É evidente que um Cardeal, que freqüenta há décadas as reuniões eclesiásticas, como as da CNBB,  sabe perfeitamente como a política, — e até a política petista –,  entra nas votações, mesmo do clero. A CNBB está recheada de Bispos petistas, isto é, marxistas.

 
    O Espírito Santo guia a eleição do Papa, não no sentido de que inspire diretamente os Cardeais, (o que é só possível), mas sim de que permite que seja eleito um bom candidato, como uma graça para Igreja e para o povo fiel. Mas também, por vezes, permite ser eleito um péssimo candidato, para castigo dos fiéis. O Espírito Santo se aproveita da bondade ou da malicia humana, para premiar ou castigar a humanidade, permitindo a eleição de um Papa santo ou sábio, ou a eleição de um cardeal péssimo.  
 
    Porque os há.
 
    Inclusive Cardeais que violam as leis da Igreja mais graves, que acarretam a excomunhão.    

 
    No Brasil, teríamos então, hoje, um Cardeal excomungado?…   
 
    Qual seria então a verdadeira razão dessa infração tão grave, cometida por um Príncipe da Igreja?   

 
    Esse Cardeal foi movido por um interesse muito mais elevado – ou baixo — do que o dinheiro.  
 
    Como o Papa Bento XVI acaba de fazer um decreto contra os homossexuais nos seminários e no clero, e como também fez um Discurso à Cúria, condenando os que seguem o chamado “espírito do Concílio Vaticano II”, acusando-os de quererem romper com a Igreja, quem sabe Cardeais dessa ala tenham movido um deles a fazer essa indiscrição gravíssima sobre o conclave, acusando o Cardeal Ratzinger de ter manobrado para conseguir sua eleição. O que, diga-se de passagem, muitos Papas fizeram nos Conclaves que os elegeram.
 
    Se essa violação do segredo do Conclave foi causada pela ala modernista avançada, defensora da Teologia da Libertação, esse será, talvez, só um primeiro passo de uma campanha orquestrada contra o Papa Bento XVI.

 
    Há lobos em Roma…  
 
    Tanto que até o símbolo de Roma sempre foi uma loba.
 
    Há sim lobos em Roma…
 
    Rezemos pelo Papa. Para que ele tenha a coragem de enfrentar os lobos, como ele mesmo o pediu, quando foi eleito
 

    Um santo Natal ao Papa Bento XVI e aos Cardeais eleitores dele.

 

 

 

 

 
 

São Paulo, 25 de Dezembro de 2005.    

Orlando Fedeli