quinta-feira, fevereiro 23rd, 2012 at 1:25am

Dolan e a infalibilidade

New York Post

via Le Salon Beige, Benoît et moi,  Raffaella

tradução Montfort

 

Depois de uma viagem movimentada de nove dias, para o Consistório, o Cardeal Timothy Dolan levou sua mãe à audiência especial do Papa com os neocardeais e suas famílias, na Sala São Paulo.

Em meio às aclamações e aplausos, o Cardeal Dolan conduziu sua mãe Shirley, de 84 anos, para apresenta-la ao boss.

“Santo Padre, aqui está minha mãe” e, incapaz de resistir à tentação de fazer uma piada, o Cardeal, de 62 anos, acrescentou que ele é um dos príncipes da Igreja mais jovens e sortudos, por ter ainda sua mãe viva.

“Eu perguntei se ele não queria declara-la First Lady do Colégio dos Cardeais”, disse ele.

Dolan contou que o Papa, que fará 85 anos em abril, endereçou então a sua mãe o maior dos cumprimentos, dizendo: “A senhora tem aparência jovem demais para ser mãe de um cardeal”. Ao que a senhora respondeu – mostrando que o espírito vivo é um traço de família: “Santo Padre, essa é uma declaração infalível?”


terça-feira, fevereiro 21st, 2012 at 8:32pm

Cardeal Cottier: Se o Maligno agita as águas, é que há vitalidade na Igreja

 Paolo Rodari em Pallazzo Apostolico

tradução Montfort

Vatileaks. Cardeal Cottier: “Eu tive um certo pensamento …”

 

 

 ”Estive refletindo … e justamente durante os dias do Consistório, conversando com outros confrades, eu constatei que eu não era o único a ter um determinado pensamento. Que é o seguinte: em toda agitação em torno da Igreja se pode ver a obra do maligno ao trabalho. No sentido de que se a Igreja estivesse dormindo na mediocridade, ou ocupada apenas com intrigas e rivalidades,  o diabo não teria muito a fazer. Mas se ele agita muito as águas, então isso significa que há vitalidade na Igreja que o Maligno quer atacar. E essa vitalidade é a força da fé, é a vida cristã que está se manifestando em todo o mundo. ” Quem disse estas palavras hoje mesmo ao jornal Avvenire [da Conferência Episcopal Italiana] é Cardeal Georges Cottier, 90 anos em abril, por quase vinte anos teólogo da Casa Pontifícia (leia-se: “Cottier: Bento XVI é a coluna que permanece de pé”). Suas palavras de fogo, elas falam da existência, mesmo dentro dos Muros Leoninos, de uma força obscura que leva a Igreja à auto-destruição.

O Padre Gabriele Amorth, o mais antigo exorcista da diocese de Roma, em seu último livro “O Último Exorcista”, fala amplamente do Vaticano e de Satanás. E da batalha que os Papas em particular são chamados a travar. Ele escreve: “Não há provas para dizer que, no Vaticano, esteja Satanás,  no sentido de que não há provas para dizer que há pessoas que no Vaticano realizem rituais satânicos. Pessoas que são voluntariamente escravas de Satanás e que trabalham para estabelecer o seu reino de morte, escuridão e destruição neste mundo. Eu, pelo menos, não tenho provas… Lembro-me entretanto, das palavras de Paulo VI, em 3 de fevereiro de 1977, durante a Audiência Geral: “Não é de admirar se a Escritura duramente nos adverte de que o mundo inteiro jaz sob o poder do Maligno”. Paulo VI fala muitas vezes do diabo. E muitas vezes liga sua figura  à Igreja. Por quê? Talvez porque queira simplesmente advertir a Igreja, pedir-lhe que seja prudente, que fuja às tentações de Satanás. Mas, na minha opinião, há mais coisas. Paulo VI de alguma forma percebe que Satanás está dentro da Igreja, talvez mesmo no Vaticano. E soa o alarme. “

Publicado em terça-feira, 21 de fevereiro de 2012 em Palazzo Apostolico.


terça-feira, fevereiro 21st, 2012 at 1:15pm

Pe.Tenorio – Cinzas de um carnaval: Somos o que seremos

  • Pe. Marcélo Tenorio
Estou em plena terra do carnaval.
Nesses dias que antecederam o chamado “reinado de Momo” e agora em plena festa, ponho-me a pensar na efemeridade da vida. Minha lembrança volta-se à cerimônia tocante e comovente – que deveria impregnar a alma de todos com um sincero desejo de retorno para Deus -  quando o sacerdote, usando vestes de penitência, impõe, em nossas cabeças, as sagradas cinzas com uma admoestação severa e solene:
” Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (Gn 3, 19)
“Lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó te hás de tornar.
Santo Inácio de Loyola, falando sobre o objetivo central do homem nesta terra, dizia ter sido  o homem feito para “amar a Deus e salvar a sua alma”.
“Amar a Deus e salvar a  alma”, deveria ser para todos a única preocupação iminente durante a vida inteira, já que fomos criados para Deus e, perde-lo, por culpa, significa a falência completa, a infelicidade eterna.
Como salvar a nossa alma? Praticando os mandamentos! E todos estão contidos no primeiro: ” Amar a Deus sobre todas as coisas!”
Estamos vivendo em tempos piores do que o do dilúvio. Nesses tempos verdadeiramente das trevas, a humanidade rompeu com seu Criador, a criatura torna-se senhor de sua própria existência. Deus é banido da sociedade e das leis do Estado. Cresce uma nova humanidade que brada aos quatro ventos o seu laicismo : sem religião, sem Deus, sem nada.
No carnaval,  festa pagã e da carne, afloram, de maneira mais escancarada todas as inclinações para o mal. E se existe alguma barreira ainda não rompida, o espírito carnavalesco corrói sem muitas dificuldades toda e qualquer resistência, visto que é comum nesses dias de folia, a abolição de toda ou quase toda moralidade.
Não preciso aqui lembrar  como os santos enxergavam essa festa e como condenavam veementemente esses dias de folia. E olha que eles viveram em tempos remotos, mais tranquilos, quando não havia, ainda, o total declínio dos valores. O que diriam eles hoje?
Os santos levaram a sério a sua meta: “amar a Deus e salvar a alma”. Sabiam eles que tudo isso aqui era passageiro e que, cedo ou tarde, estariam  diante de Deus para um julgamento contra o qual ninguém poderá escapar.
Vivemos no cronos e nele devemos melhorar a cada instante, renunciando sempre ao mal, crescendo na prática das virtudes e eliminando o que não presta em nós.
S. Paulo gostava de comparar a vida espiritual, à busca da santidade, que exige renúncias, com o atleta que prepara-se a vida inteira, no labor constante, para poder ganhar a coroa da vitória. Ora, se alguém é capaz de fazer isso por glórias passageiras, não deveria nós, cientes do nosso fim terreno, já que somos pó, empenharmos para , amando a Deus sobre todas as coisas, salvar a nossa alma?
Fala-nos a “Imitação de Cristo”:
“Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te
preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe.
Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da
memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida
do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver
em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora
da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte.
Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás
preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é
incerto, e quem sabe se te será concedido?..” ( Cap 23)
É no cronos que devemos batalhar para salvar a nossa alma, pois na eternidade estaremos para sempre como  sairmos deste mundo. Na amizade de Deus ou Dele afastados eternamente.
Por esses dias fui visitar ,numa cidade não tão distante daqui ,uma religiosa pela qual tenho grande apreço. De uma inteligência privilegiada, perspicaz, conversava sobre tudo e sabia compreender bem a alma humana. Poliglota, tradutora e eficaz em tudo que se dispunha realizar. Depois de  anos que não a via, fui informado, aqui, que começara o seu declínio, ficando esquecida já no início do mal de alzheimer. Dirigi-me até lá, ao convento. Encontrei-a aparentemente bem, mas já não era mais a mesma. Esquecida completamente de muitas coisas ..Percebi então que começara o seu declínio que a levará ao ocaso evidente.
Refleti bem sobre isso tudo. Nossa vida é “poeira que passa”. cedo ou tarde estaremos em nosso ocaso. E o que vale é termos aproveitado bem o tempo que Deus nos deu para que ascendêssemos a Ele.
“Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes…”
“Lembra-te que és pó!”…
Como nos recordava o Pe. Antônio Vieira num dos seus sermões quaresmal, sabemos que nos tornaremos pó. Claro. Vemos a morte a nos rodear. Olhamos para o que ela fez com os outros, com os nossos entes…O que restou deles? Apenas o pó, nada mais. Mas duas tragédias nos tomam de inopino: a ilusão de que nunca nos tornaremos pó, e a cegueira que nos impede enxergar o pó que já somos.
“Lembra-te que és pó….e que em pó de hás de tornar!”
Seremos aquilo que já somos.
Multidões brincam, despreocupadamente, um carnaval avassalador, que destrói tudo o que é cristão, tudo o que é virtude e que nos aproxima de Deus. Quantos pecados! Quantas blasfêmias!
Se no tempo dos santos antigos essa festa já era nociva à alma, hoje afirmamos ser impossível dela participar sem se afastar de Deus, pelo pecado.
Claro que muitos dirão: ” É radical demais, esse discurso. Temos que nos divertir também! O importante é não ter maldade! Cada um faz o seu carnaval! O cristão brinca como cristão!..
Enganosa e falsa essas afirmações que provém de pessoas que querem servir ” a dois senhores”, como se fosse possível, servindo às trevas, querer também servir ao Reino de Deus.
Não existe meio termo para a mensagem do Evangelho e não existem santos sem radicalidade. Ninguém pode ser ” meio honesto”, ” meio casto”, “meio verdadeiro”. Ou é ou não é! Este é o preço e a exigência que Nosso Senhor nos faz.
“Seja o vosso falar ‘sim, sim; não, não’. O que passar disso é de procedência maligna” (Mateus 5:37).
E ainda:
“E, se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os dois seres lançado no inferno.” ( Marcos 9:47)
Ora, o carnaval em tudo que ele contem é impraticável para todo aquele que deseja o céu. Impraticável sobretudo para os cristãos que devem assemelhar-se em tudo a Cristo.
Há como brincar o carnaval de forma cristã? Não!  A abundância de comida para um obeso ou alguém que está de dieta não inibirá os desejos, muito pelo contrário. Pode-se ir até com boa intenções, mas as músicas, os gestos sensuais, os trajes imorais e as práticas pagãs destruirão por completo toda e qualquer inocência.
Diante de tanta profanação do corpo que é templo do Espírito Santo, de tanta imoralidade, de tantas almas que se perdem, de tanta irreverência contra Deus, fiquemos com o exemplo dos santos: aproveitemos o Kairós – o  cronos – o tempo presente que nos foi dado.
S. Domingos Sávio, em tenra idade foi capaz de dizer e viver: ” ANTES MORRER QUE PECAR”
Saibamos o que somos e o que seremos: Pó, apenas pó…nada mais que isso!
E do pó lançado à terra..um dia, surgirá e vida novamente
“Assim também agora vós tendes tristeza, mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar.” João 16.22

sábado, fevereiro 11th, 2012 at 9:07pm

Tradução: A “tese Ocariz” contraditada também pela “tese Ratzinger”

O artigo abaixo, publicado em 11.02.12 pelo Diácono Daniel Pinheiro, IBP, no blog Disputationes Theologicae, é apresentado em tradução Monfort.

Cardeal Ratzinger : “[A Instrução Donum Veritatis] afirma – talvez pela primeira vez de maneira tão clara – que existem decisões do magistério que podem não constituir a última palavra sobre uma matéria enquanto tal, mas um encorajamento substancial em relação ao problema, e sobretudo uma expressão de prudência pastoral, uma espécie de disposição provisória. Sua substância permanece válida, mas os detalhes sobre os quais as circunstancias dos tempos exerceram uma influência podem ter necessidade de retificações ulteriores. Sob esse aspecto, pode-se pensar tanto nas declarações dos Papas do século passado sobre a liberdade religiosa, quanto nas decisões antimodernistas do começo deste século” (L’Osservatore Romano. Edição semanal em língua francesa, 10 de julho de 1990, p.9) [1].

 

Monsenhor Ocáriz: “O Concílio Vaticano II não definiu dogma algum, no sentido que não propôs mediante ato definitivo qualquer doutrina. Contudo o facto de que um ato do Magistério da Igreja não seja exercido mediante o carisma da infalibilidade não significa que ele poderá ser considerado «falível» no sentido que transmite uma «doutrina provisória» ou «opiniões influentes». Toda expressão de Magistério autêntico deve ser acolhida como é verdadeiramente: um ensinamento dado por Pastores que, na sucessão apostólica, falam com o «carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8), «revestidos da autoridade de Cristo» (Lumen gentium, n. 25), «à luz do Espírito Santo» (ibid.). (Osservatore Romano, 2 de dezembro de 2011, p.6)

 

O Cardeal Ratzinger afirma claramente que existe um Magistério que é provisório e dá um exemplo. Esse Magistério, segundo o Cardeal, não é a última palavra sobre uma matéria, ou seja, não se trata evidentemente de um Magistério infalível, mas de um Magistério puramente autêntico, que poderia ser falível sob certos aspectos e sujeito a retificações. Esse Magistério poderia ser a expressão de prudência pastoral, uma contribuição em relação ao problema. Ora, a prudência é provisória. As decisões prudenciais podem e, às vezes, devem mudar conforme as circunstâncias. Elas inclinam em direção a uma posição sem, no entanto, proibir ou condenar outra posição. Trata-se, portanto, de um Magistério exercido em um dado momento, para as circunstâncias desse momento, podendo portanto mudar se as circunstancias mudam. O Cardeal não afirma que todo Magistério não infalível é explicitamente provisório, mas que existe também um Magistério desse tipo. Classicamente, chama-se essa espécie de Magistério provisório aquele que afirma que tal doutrina é tuta vel non tuta. Esse Magistério não quer liquidar a questão, mas indica que tal doutrina, no contexto contemporâneo a esse ato do Magistério, pode ser ensinada sem perigo para a fé e a moral ou que, ao contrário, ela não pode ser ensinada sem colocar em risco a fé e a moral. Assim, por exemplo, uma tese filosófica pode ser condenada como non tuta, não porque o Magistério a considere falsa de uma maneira absoluta, mas porque nas circunstâncias dadas (considerando em particular o estado em que se encontram a teologia, a filosofia ou a ciência nesse dado momento) não se chega a conciliá-la facilmente com o Depósito Revelado e é, portanto, imprudente sustenta-la. Com o tempo, o Magistério pode condenar definitivamente essa teoria ou afirmar sua compatibilidade com a Revelação. Nesse quadro, poderia ser citada a condenação de Galileu, ao qual tinha sido pedido que não ensinasse de maneira peremptória o que, na época, era uma tese não comprovada. Em principio, portanto, um Magistério puramente autêntico e provisório pode existir, como afirma o Cardeal Ratzinger. Que seja o caso do Magistério contra a liberdade de consciência no século XIX e do Magistério contra o modernismo no começo do século XX, isso é, pelo menos, muito duvidoso [2].

 

Uma análise da afirmação de Monsenhor Ocáriz não é fácil, já que seu texto não é claro. Quer ele simplesmente dizer que o Magistério do Vaticano II não pertence a essa espécie de Magistério falível provisório? Magistério que existiria, aliás, mas não no último Concílio? Pode-se interpretar assim sua afirmação ambígua: “o facto de que um ato do Magistério da Igreja não seja exercido mediante o carisma da infalibilidade não significa que ele poderá ser considerado ‘falível’ no sentido que transmite uma ‘doutrina provisória’ ou ‘opiniões influentes’”? Deste modo, afirma ele que um ato do Magistério (puramente) autêntico não transmite necessariamente uma doutrina provisória, ainda que ele possa fazê-lo? Ou, no sentido contrário, quer ele dizer que nenhum ato do Magistério (puramente) autêntico pode ser provisório? Sua última frase parece indicar sobretudo isso, já que, para explicar a afirmação de que o Vaticano II não é provisório, ele acaba por englobar todo o Magistério autêntico: Toda expressão do Magistério autêntico deve ser acolhida como é verdadeiramente: um ensinamento dado por Pastores que, na sucessão apostólica, falam com o «carisma da verdade» (Dei Verbum, n. 8), «revestidos da autoridade de Cristo» (Lumen gentium, n. 25), «à luz do Espírito Santo» (ibid.).” Mons. Ocáriz parece mais portanto excluir a possibilidade de qualquer Magistério provisório, contrariando o Cardeal Ratzinger, a prática da Igreja e a doutrina comum dos teólogos.

 

É preciso aliás afirmar que um Magistério não infalível permanece sempre com um certo caráter provisório pois, de outra forma, se teria um Magistério sempre definitivo, imutável, irreformável, enfim, infalível. A distinção entre falível e infalível, dada pela própria Igreja, não teria nenhum sentido. Esse caráter provisório pode ser expresso, seja diretamente (ou explicitamente) pelo Magistério quando ele afirma que uma doutrina é tuta vel non tuta ou indiretamente (ou implicitamente) quando o Magistério afirma uma doutrina (ensinando sua verdade) ou a condena (ensinando sua falsidade), sem por isso liquidar definitivamente a questão. É preciso acrescentar que esse caráter provisório pode ter vários graus. E esse Magistério puramente autêntico, mesmo se ele não é diretamente ou explicitamente provisório, não é de jure infalível e permanece reformável. É um ensinamento que pode, portanto, conter erros, mesmo se isso permanece bastante raro, e ele não pode de modo algum, em consequência, exigir um assentimento absoluto pelo simples fato de que se trata de um ato magisterial da autoridade eclesiástica.

 

Diácono Daniel Pinheiro

 

[1] No texto original italiano, o termo traduzido por “encorajamento” é “ancoraggio”, o que significa antes “ancoragem”, cfr. Osservatore Romano 27 de junho de 1990, p.6. Notamos essa discordância entre os textos em circulação. Entretanto, o sentido do texto não é alterado.

 

[2] Esse magistério não é do Magistério Extraordinário Infalível, mas é, muito provavelmente, do Magistério Ordinário Pontifical Infalível, fundado sobre a própria Revelação. Esta posição tem, além disso, sólidas razões doutrinárias e teológicas em seu apoio. A respeito da liberdade religiosa, enviamos ao estudo de Dom Antônio de Castro Mayer.

  

 

 


quinta-feira, fevereiro 9th, 2012 at 12:38pm

O SEMEADOR, O PLANTIO E OS GRILLOS

Publicado em Artigos da Montfort

André Roncolato Siano

Nosso Senhor sempre usava das parábolas pois, ao mesmo tempo em que pelo uso das coisas quotidianas podia ensinar aos simples seus deveres morais, podia, igualmente, pelos uso dos símbolos, ocultar dos maus as profundas verdades da revelação confiadas à Igreja, para que ela, Mãe e Mestra, fizesse o justo uso de seu poder.

Cristo, Nosso Senhor, nos Evangelhos, diz mais de uma vez palavras sobre a semeadura. Uma destas parábolas é sobre as sementes jogadas pelo semeador, que ora caem em meio aos abrolhos, ora ao longo do caminho, ora em meio às pedras e ainda algumas em terra fértil.

Respectivamente, as primeiras, são sufocadas pelos espinhos, as que caem próximas ao caminho são devoradas pelas aves, ainda as que estão em meio aos pedregulhos morrem por não terem raízes profundas. Mas as que caíram em terreno fértil germinam e dão frutos.

A Igreja, durante os séculos, vem imitando Nosso Senhor, até os dias de hoje. Em nossa época, o Papa Bento XVI está semeando a boa semente litúrgica, principalmente a semente do Vetus Ordo a qual, no Motu Proprio Summorum Pontificum, é apresentada à Igreja como um remédio eficaz na contenção dos abusos litúrgicos – que se tornaram regra em praticamente todas as paróquias brasileiras, salvo heroicas exceções – e como farol seguro nas névoas de uma crise litúrgica e doutrinal sem precedentes na Igreja. Como na parábola de Nosso Senhor, a semeadura do Papa encontra vários terrenos. E os terrenos férteis aqui no Brasil, já se mostram numerosos. Estes terrenos são os corações de muitos bons padres e alguns excelentes bispos que compreendem bem essa empresa e põe em prática, com coragem e amor à Igreja, a Santa Liturgia da Forma Extraordinária, mesmo sabendo das incompreensões que sofrerão.

Pois bem, é ai que entram os grilos!

Grilos que, como se sabe, não existem na parábola de Nosso Senhor. Para nossos amigos – e inimigos – leitores que não estão familiarizados com a jardinagem, os grilos são aqueles bichinhos estridentes, primos dos gafanhotos, que tentam estragar as plantações e o trabalho do semeador principalmente quando estão no começo, pois que as plantas são mais tenras e vulneráveis. Enfim, é o bicho que tenta estragar a semente que já brota em solo fértil.

Na semana passada, a CNBB realizou o “Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium” (1), alinhadíssimo com a agenda daquela minoria de bispos simpatizantes do progressismo cafona latino americano, como se pode notar pela fóssil terminologia adotada para o evento, por exemplo: “a Releitura da Sacrosantum Concilium, no Contexto do Concílio Vaticano II e nos Documentos Latino-Americanos.” ou então, “em busca do rosto e do lugar da liturgia na vida e na missão da Igreja como serviço para a vida plena em Cristo e ao acontecimento do Reino de Deus.” O mau-gosto aqui não é o mais importante. Mas permite antever a proximidade dos setores progressistas, ou seja, daqueles setores que promovem sistemática e propositalmente a baderna litúrgica, com o tal seminário de liturgia.  

 

Andrea Grillo

 

 

 

Pois essa ala, como principal assessor do simpósio, convidou o professor de Teologia Sacramental na Pontifícia Faculdade Teológica da Universidade de São Anselmo em Roma, e no Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, Andrea Grillo. Embora, na realidade, na Universidade Santo Anselmo esse professor tenha uma importância que, digamos, beira a irrelevância.

 

Grillo é radicalmente contra o Motu Proprio Summorum Pontificum, contra as determinações do Universae Ecclesiae e evidentemente contra a Missa Antiga. Ele, ousadamente, defende que a benevolência e justiça do Papa Bento XVI para com a Igreja e a Missa Tridentina não passam de uma “pretensão de paralelismo ritual (…) o que – já à primeira vista – se revela incoerente, ineficaz e gravemente perigoso para a comunhão eclesial.” (2) [destaques nossos, mas palavras absurdas dele].

 

Ou seja, como, num evento tão importante para a liturgia promovido pela CNBB, o principal assessor é um obstinado opositor do trabalho de restauração litúrgica do Papa? Como se dá tal destaque a um professor que emite opiniões públicas veementemente contrárias à vontade do Papa? Que combate os Cardeais – como o Cardeal Cañizares – que trabalham diligentemente para estabelecer a ordem litúrgica, solapada pela rebeldia inexplicável daqueles padres que deveriam proteger a pureza do culto?

 

Essa é uma atitude curiosa, visto que imprime certo desconforto para a Conferência dos Bispos.

 

O grilo, diferente do gafanhoto, não é tão intempestivo. Faz seu trabalho de forma mais sutil e sua presença só se nota, muitas vezes, pelos seus estalidos irritantes. O Professor Grillo faz seu trabalho usando de linguagem cheia dos rebuscamentos acadêmicos, para distrair dos argumentos. Por exemplo, é difícil compreender o que ele quer dizer quando afirma: “O Concílio promove uma Reforma para que todos possam sentir o ritual como linguagem ‘própria’(2). Se meditarmos brevemente sobre isso, o sentido mais plausível da insinuação do “prestigioso” Grillo é que todos, e cada um, devem passar a se sentir donos e proprietários do ritual. Isso explica porque cada um faz o que bem entender nas missas, desde o padre até a gerente da igreja, onde o céu é o limite da criatividade. Exatamente o que a Instrução Repentionis Sacramentum condena: “[18.] Os fiéis têm direito a que a autoridade eclesiástica regule a sagrada Liturgia de forma plena e eficaz, para que nunca seja considerada a liturgia como «propriedade privada, nem do celebrante, nem da comunidade em que se celebram os Mistérios».”

 

Grillo estrila contra a volta do Rito Tridentino também com o argumento da “tradição”: “o rito que brotou da Reforma Litúrgica é “mais antigo” do que o tridentino, porque tenta se encaminhar para a superação do individualismo – tanto clerical quanto laical – que caracteriza tão fortemente aquela versão moderna do rito romano que é o rito tridentino. . Não apresenta provas de que o Novus Ordo tenha características da forma de celebração da Igreja primitiva, mesmo porque hoje em dia se sabe que essas provas não existem. Mas com isso cai no arqueologismo litúrgico, moda anos quarenta e cinquenta, o qual, para que se saiba, foi condenado na Mediator Dei de Pio XII. Com seu furor em demolir tudo o havia sido construído em séculos de sabedoria de História da Igreja, este arqueologismo que foi um dos grandes condutores para a crise litúrgica que vivemos.

 

 

 

A ousadia do professor Grillo é bem grande se comparada aos seus argumentos… Ele chega a qualificar, pública e sonoramente, os Atos do Papa com relação ao Vetus Ordo, como “monstruum”! (2) Imaginem os bispos e padres que tiveram estômago para participaram deste evento… em que contradição ficaram!

 

O que nos parece certo, é que a presença de Grillo como principal assessor neste evento da CNBB não é nada casual. Na verdade, foi chamado um progressista bem diplomado para tentar obnubilar as consciências do clero que, pela graça de Nosso Senhor, cada dia mais, consegue enxergar a crise litúrgica a doutrinal que, nestes últimos cinquenta anos, só fez diminuir as vocações, afastar o povo, ameaçando o catolicismo de desaparecimento em algumas regiões do globo.

 

Talvez seja o momento de o clero brasileiro perguntar qual tem sido atividade da CNBB, além de repetir o programa da ONU em suas campanhas da fraternidade. Pois, ela é suficientemente ágil em colocar obstáculos a tudo que é tradicional e piedoso, ao mesmo tempo em que é clara e categórica contra a reforma eclesial querida por Bento XVI. Por outro lado, recebe com diplomacia e bajulações inconvenientes, pessoas como a senadora Marta Suplicy publicamente favorável ao aborto, políticas de controle de natalidade e homossexualismo (3).

 

Evidentemente, Marta não foi à CNBB rezar o Angelus. Nem tão pouco, os bispos são ingênuos a ponto de não saber que qualquer acordo com essa gente é apenas uma armadilha para tiranizar a Igreja e a doutrina de Cristo. Então, o que Marta foi fazer lá? Segundo ela mesma: “- Eu disse para o Crivella: fizemos um acordo com a CNBB e vocês vão ficar do lado do Bolsonaro? – contou Marta…” (3). A divulgação da desastrosa recepção da militante “pró-cultura da morte”, afinal, foi motivo de uma nota “explicativa” (4) rocambolesca, por parte da CNBB, com o intuito de desmentir o acordo mas, além da nota não explicar nada, pior, não condena a PLC 122/2006 que legitimará a perseguição dos católicos brasileiros.

 

Muito desagradável para os bispos constatar, nesse episódio, o desrespeito ao ensinamento do Papa, que dissera aos bispos da Região Nordeste essas claríssimas palavras: “Caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (Evangelium Vitae, 82) (5)

 

CNBB, doce com os inimigos da Cruz, áspera com os bispos que desejam viver na clareza doutrinal. Obstinada e clara contra a Missa Antiga e os católicos tradicionais, tolerante e cheia de mimos com os políticos anticatólicos.

 

Já não seria hora de os bispos diocesanos – que tem todo o direito e dever de interferir nesta instituição, a qual não tem natureza teológica (6), e, que, ao que tudo indica, está servindo a outros fins que não a Fé – agirem pelo direito de seguir pacificamente o Papa, sem serem incomodados por atrevidos cri-cris modernistas?

 

Utilizemos o inseticida da clareza doutrinal e cuidemos da plantação, para que se possam produzir frutos trinta por um, cinquenta por um.

 

Na festa de São Cirilo de Alexandria, bispo.

 

AMDG,

 

André Roncolato Siano

 

 

 

(1)   Começa o Seminário Nacional de Liturgia em comemoração aos 50 anos do Sacrosanctum Concilium

 

 

 

(2)    Andrea Grillo – Por uma Ecclesia verdadeiramente Universa (Unisinos, entrevista por Moisés Sbardelotto)

 

 

 

(3)  CNBB e Marta fazem acordo sobre projeto que criminaliza homofobia 

 

 

 

(4)  Nota de Esclarecimento

 

 

 

(5)   Discurso de Bento XVI aos Bispos da Região Nordeste V em 28.10.10.

 

 

 

 

 

(6)   Motu Proprio Apostolos Suos.

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, fevereiro 7th, 2012 at 7:14pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 3 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano - parte 1 e parte 2.

Mário Silva Martins

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, na qual naufragam inúmeras almas. Com frequência, se dá o fato curioso de que uma alma, que acaba de tomar a determinação de ser “humilde de coração” ou de “aceitar com alegria qualquer espécie de humilhações”, pouco depois queixa-se imensamente se alguém cometeu a imprudência de lhe causar um pequeno incômodo ou uma humilhação involuntária e insignificante.

Para ajudar a prática da humildade, recomendamos a leitura do Filotéia, ou Introdução à vida devota, de São Francisco de Sales, que trata dela na terceira parte de sua obra.

Os autores espirituais nos oferecem três meios principais para chegar à verdadeira e autêntica humildade de coração:

a) Pedi-la incessantemente a Deus

Todo dom perfeito vem do alto e desce do Pai das luzes” (S. Tiago I, 17).

A humildade perfeita é um grande dom de Deus, que Ele costuma conceder aos que o pedem com oração incessante e fervorosa. É um dos pedidos que deveriam ser feitos com maior frequência em nossas orações.

Dom Columba Marmion recitava a Ladainha da Humildade

Dom Columba Marmion costumava, com frequência, recitar uma “ladainha da humildade”. Ainda que a eficácia da oração não esteja ligada a uma fórmula determinada, muitas almas tiram grande proveito de uma oração já estruturada. Por isso copiamos imediatamente abaixo o texto usado por Dom Columba Marmion:

Senhor, tende piedade de nós; Jesus Cristo, tende piedade de nós; Senhor, tende piedade de nós.

 

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-nos.

Jesus, manso e humilde de coração, atendei-nos.

 

Do desejo de ser estimado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser amado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser buscado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser louvado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser honrado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser preferido, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser consultado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser aprovado, livrai-me, Senhor!

Do desejo de ser elogiado, livrai-me, Senhor!

 

Do temor de ser humilhado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser desprezado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser rechaçado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser caluniado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser esquecido, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser ridicularizado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser debochado, livrai-me, Senhor!

Do temor de ser injuriado, livrai-me, Senhor!

 

Ó Maria, Mãe dos humildes, rogai por mim!

São José, protetor das almas humildes, rogai por mim!

São Miguel, que fostes o primeiro a combater o orgulho, rogai por mim!

Todos os santos justificados pela humildade, roguem por mim!

 

Oração.  Ó Jesus, cujo primeiro ensinamento foi este: ‘Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração’, ensinai-me a ser humilde de coração como Vós”.

b) Colocar os olhos em Jesus Cristo, modelo de humildade

Jesus Cristo nos deixou exemplos sublimes de humildade, eficacíssimos para nos mover a praticar esta grande virtude, apesar de todas as resistências de nosso amor próprio desordenado. Nosso Senhor mesmo pede que tenhamos os olhos nele: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (S. Mateus XI, 29).

A vida de Nosso Senhor pode ser dividida em quatro etapas e, em todas elas, a humildade brilha com caracteres impressionantes:

1) Na sua vida oculta:

a) Antes de nascer: se aniquilou no ventre de Maria; se submeteu a um decreto caprichoso de César; à pobreza; à ingratidão dos homens (“e os seus não o receberam”)…

b) Em seu nascimento: pobre, desconhecido, de noite, num presépio, com pastores e animais…

c) Em Nazaré: vida escondida, trabalhando manualmente, pobre aldeão, sem estudos em universidades, sem deixar brilhar um só raio de sua divindade, obedecendo São José e Nosso Senhora, talvez até mesmo a um patrão depois da morte de São José…

Motivos abundantes para fazer com que morramos de vergonha por nosso orgulho.

2) Em sua vida pública:

a) Escolhe seus discípulos entre os mais simples: pescadores e um publicano!

b) Busca e procura converter não só ricos como Lázaro e José de Arimatéia, mas também  os pobres, pecadores, afligidos, as crianças, os pouco favorecidos.

c) Vive pobremente, prega com simplicidade, usa figuras e comparações humildes ao alcance do povo, não busca chamar a atenção…

d) Faz milagres para provar sua missão divina, mas sem qualquer ostentação, exige silêncio, foge quando querem fazê-lo rei…

e) Inculca continuamente a humildade: a parábola do fariseu e do publicano, a simplicidade da pomba, a pureza das crianças, “Não busco minha própria glória”, “Não vim ser servido, mas servir”.

Ecce Homo de Juan De Juni (1560)

3) Na sua paixão:

a) Um triunfo tão simples no domingo de Ramos, com um pobre burrinho, com ramos de oliveira, mantos que se estendem a seus passos, povo humilde que o aclama, os fariseus que protestam…

b) Lava os pés dos discípulos, inclusive os de Judas! É traído no Getsemani: “Amigo, a que viestes?”, amarrado como um malfeitor perigoso, abandonado por seus discípulos…

c) Esbofeteado, ridicularizado, insultado, escarrado, açoitado, coroado de espinhos, vestido de branco como um louco, Barrabás lhe é preferido…

d) Na cruz: blasfêmias, risadas: “Pois não era o Filho de Deus?”. Podia ter feito a terra engoli-los, mas aceita o espantoso fracasso humano…

4) Na Eucaristia:

a) À mercê da vontade de seus ministros, exposto, contido no sacrário, visitado, esquecido…

b) Completamente escondido: na cruz ainda se deixava ver na sua humanidade…

c) Falta de respeito, afrontas, sacrilégios, profanações horríveis, sacerdotes que não tomam cuidado com as partículas que se desprendem das hóstias e mesmo com hóstias inteiras, fiéis que vêem a hóstia como um pão qualquer…

Sem dúvida, a consideração frequente destes sublimes exemplos de humildade que nosso divino Mestre nos deu tem enorme eficácia para conduzir-nos até a prática heroica desta virtude fundamental.

Os santos não ousavam sonhar com grandezas e triunfos humanos vendo seu Deus tão humilhado. Uma alma que deseja verdadeiramente santificar-se deve ver, definitivamente, o seu nada e começar a praticar a verdadeira humildade de coração, seguindo Nosso Senhor: “Quem quiser vir depois de mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga” (S. Lucas IX, 23).

c) Imitar Nossa Senhora, Rainha dos humildes

Depois de Jesus, Nossa Senhora é o modelo mais sublime de humildade. Sempre viveu na atitude de uma pobre escrava do Senhor. Raramente fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas próprias de uma mulher na pobre casa de Nazaré, aparece no Calvário como mãe do grande fracassado, vive escondida e desconhecida sob os cuidados de São João depois da ascensão de Nosso Senhor, não faz qualquer milagre, não se sabe exatamente onde morreu…

Sob seu olhar maternal devemos praticar a humildade de coração para com Deus, para com nosso próximo e para conosco.

Para com Deus, submetendo-nos a Ele e adorando-o sempre, agradecendo-o por tudo o que temos, trazendo sem cessar em nosso espírito que viemos do nada, do limo da terra, que sozinhos não podemos nada e dependemos absolutamente de Deus.

Por isso, nossa origem mais ou menos nobre ou importante neste mundo não tem valor algum, vindo do limo da terra. Pesar nossas qualidades é uma perda de tempo: tudo o que somos e temos vem de Deus e podemos perder tudo do dia para a noite. O orgulho é uma grande mentira e Santa Teresa de Ávila dizia que a humildade é andar na verdade (Moradas sextas 10, 7).

Para com o próximo, admirando nele, sem inveja ou ciúmes, os dons naturais e sobrenaturais que Deus lhe deu, não observando intencionalmente seus defeitos, desculpando suas faltas com caridade, salvando ao menos a boa intenção e considerando-nos inferiores a todos. As incontáveis vezes nas quais não aproveitamos as graças que Deus nos deu são motivos mais que suficientes para que cada um de nós se tome verdadeiramente como o último dos pecadores, “o pecador por excelência”, como dizia o publicano em sua oração. Qualquer outra pessoa teria sido mais fiel com as graças que temos recebido.

Finalmente, para conosco, amando nossa miséria, nunca esquecendo que, se cometemos um só pecado mortal, fomos resgatados do inferno, éramos prisioneiros do demônio. Nunca nos humilharemos o suficiente. Aceitemos as ingratidões, o esquecimento, o desprezo da parte dos outros. Nunca falemos de nós mesmos, nem bem, nem mal. Se falarmos mal existe o perigo de hipocrisia. Somente os santos sabem fazê-lo bem. Se falarmos bem, existe o perigo da vaidade e soa mal diante de quem nos ouve. A melhor coisa a fazer é calar, como se não existíssemos no mundo.

E assim, quanto mais uma alma subirá até Deus pela prática das boas obras e pela oração, tão mais estável estará pelo profundo fundamento da humildade, referindo a Deus tudo o que é, tem e recebe.

A humildade é andar na verdade, e a verdade nos libertará.


quarta-feira, fevereiro 1st, 2012 at 4:20pm

A Beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual – Parte 3

Publicado em Artigos da Montfort

Este artigo é uma continuação de A beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a Sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual (parte 2), e Parte 1

Pierre de Craon Lejeune

Nos artigos anteriores nós estudamos duas definições de beleza, uma de Santo Alberto Magno e outra de Santo Tomás de Aquino. Diferentes nos termos, elas são perfeitamente complementares entre si.

Vimos que a beleza está fundamentada em critérios objetivos, presentes na realidade das coisas: matéria e forma, ordem, proporção, perfeição. Uma vez que Deus dispôs todas as coisas com medida, número e peso” (Sabedoria 11, 21), só nos resta uma conclusão a tirar: o mundo visível manifesta com abundância as maravilhas da bondade de Deus.

A beleza da criação está, portanto, por todas as partes. Mas, por vezes escondida aos nossos sentidos e contida no decurso quotidiano das coisas, ela muitas vezes só se revela às pessoas que sabem observar com atenção.

Lembramos que a beleza tem uma relação estreitíssima com a inteligência. O conhecimento da beleza pertence essencialmente ao intelecto. Ordem, proporção, perfeição são conceitos contidos na noção de beleza e que só podem ser percebidos pela inteligência.

Todavia, por causa da união do corpo com a alma, para que o homem conheça a beleza de algo necessariamente atuam os sentidos (sobretudo a visão e a audição) e a imaginação. Daí dizermos que os olhos e os ouvidos têm seu agrado nas coisas belas.

Mas isto não significa que somente as pessoas de grande capacidade especulativa, intelectuais, dedicadas ao estudo e que possuem um diploma universitário são capazes de distinguir o feio do belo. Atualmente os universitários, em sua grande maioria, possuem os gostos artísticos mais bizarros… Quem nunca passou perto de um muro pichado e depois não se deu conta de que passava ao lado (ou dentro) de uma faculdade?…

Todos os homens têm inteligência. Alguns, ainda que sejam lavradores e pedreiros, ainda que não sejam grandes especuladores, a cultivam bem. São capazes de produzir coisas belas, simples ou mesmo grandiosas. Outros, mesmo se estudam numa universidade (sobretudo se estudam numa universidade…), podem cultivá-la mal. Acham que grafite, pichação, é arte. Admiram Stravinsky. Vestem-se com bermuda, chinelo, camiseta regata, falam palavrões, fumam maconha. Constituirão a elite intelectual do país…

Um lavrador pode ter pouca habilidade intelectual, encontrar dificuldade em distinções finas, em sistematizações abstratas. Porém, se possuir princípios corretos, verá o mundo e as coisas que existem nele com clareza. Saberá distinguir o feio do belo. Uma pessoa que tenha diploma, se possuir princípios tortos, julgará algo bom como mau e vice-versa.

Depois de termos estudado, em nossos artigos anteriores, a objetividade da beleza – extremamente contestada hoje – começaremos agora a analisar os cinco elementos necessários à sua existência concreta.

Com isso esperamos poder ajudar na formação das inteligências, para que elas estejam mais bem preparadas para distinguir o feio do belo, para separar o joio do trigo na esfera artística, para saber se uma obra de arte é conforme às verdades que a luz natural da razão, sem a Revelação, nos apresenta. Pois, se é importante que uma obra de arte não ensine heresias, também é importante que ela não transmita tolices… Assim, gostaríamos que nossos leitores possam, com maior propriedade, dizer se algo é belo e por que motivo.

Estes cinco elementos são: a variedade, a integridade, a proporção, a unidade e o esplendor.

Alguns responderão que Santo Tomás menciona somente três propriedades necessárias para que algo seja belo: “Para a beleza, três coisas são necessárias: primeiramente, integridade ou perfeição (…); devida proporção ou consonância; e clareza” (Suma Teológica I, q. 39, a. 8). Não contestamos esta afirmação de Santo Tomás. O que faremos é explicitar dois elementos (variedade e unidade), contidos implicitamente entre os três elementos mencionados pelo Doutor Angélico, com a finalidade de tornar nossa explicação mais didática.

Estes elementos estéticos não possuem a mesma importância nem o mesmo papel.

Primeiramente, todos são igualmente necessários, mas nem todos têm uma influência igual sobre a beleza.

Depois, eles não se comportam do mesmo modo nos diferentes gêneros de beleza. Estes elementos se conformam à natureza dos seres nos quais se encontram. A unidade de nossa alma é diferente da unidade de uma sonata ou de uma cena pintada num quadro. O esplendor de um corpo é diferente do esplendor de um anjo.

Além disso, eles exercem entre si uma influência mútua, se completam, fazem um contrapeso entre si e mantêm o equilíbrio do ser.

Finalmente, é necessário saber que dois dentre eles pertencem propriamente ao princípio material das coisas: a variedade e a integridade; dois deles pertencem ao princípio formal: a unidade e o resplendor. A proporção pode ser vista como estando relacionada à matéria e à forma juntamente.

Ao longo de nosso trabalho ficará mais claro como a filosofia escolástica e os princípios de Santo Tomás de Aquino sabem colocar cada coisa no seu lugar, unificando a parte sensível ou material com a parte formal, inteligível, da beleza.

Nos nossos próximos artigos mostraremos a natureza, o papel e o lugar de cada um destes cinco princípios que compõem a beleza.


quarta-feira, fevereiro 1st, 2012 at 3:25am

O fim do recreio doutrinal

 

Comentário André Roncolato Siano

O artigo abaixo escrito por Jean-Marie Guénois, é muito interessante, não obstante a não concordarmos com muitas de suas ideias. O núcleo do artigo, se comparado aos artigos de vaticanistas insuspeitos por suas posições bem liberais, convergem a um mesmo ponto: uma restauração Doutrinal e Litúrgica na Igreja Católica promovida eficientemente pelo Papa Bento XVI. O que se vê e pode se constatar é que, apesar da obstinação dos progressistas e sedevacantistas, este Papa continua a conceder para a Santa Igreja bens inestimáveis. A lição que eles deveriam tirar disso, é que sua resistência é inócua e não perdurará. Basta olharmos para história da Igreja.
 
Por fim – como me disse um estimado professor – para “as caravelas” daquelas boas almas desejosas de lutar pela Igreja e sua doutrina, é uma grande lufada de vento que nos lembra o dever de içarmos nossas velas à toda força para ganhar logo o continente, auxiliando o Papa em sua luta e, assim, anteciparmos sua vitória.
 
Rezemos para que todos nós, e em especial o clero, os bispos e os padres, atendam prontamente esse apelo.
 
Eis o texto:
 

O Fim do Recreio Doutrinal

Fonte Secretum Meum Mihi

Tradução Montfort

Se não é uma vingança da história, parece ser. O quinquagésimo aniversário do Concílio Vaticano II, que a Igreja celebrará em 2012, poderia paradoxalmente marcar o crepúsculo do… “espírito do Concílio”, que, por outro lado, foi sua grande promessa.

Este “espírito do Concílio” era a “abertura da Igreja ao mundo católico e as outras religiões”. “O espírito do Concílio”, era “a marca do Concílio Vaticano II, o traço característico de seu caráter”. Desde meio século era o motor do chamado “progressismo” na Igreja.

Um debate ocorrido recentemente sobre “o último moicano”, promovido por Mons. Doucort, bispo de Nanterre, ilustra de uma maneira bastante exata este atual estado do espírito  e seus limites.

Não obstante, se está modelando algo assim como uma limitação à abertura? Isso seria produto da imaginação? Não precisamente. Basta estudar a “Nota com indicações pastorais para o ano da Fé” que foi publicada em Roma em 7 de janeiro, sábado, pela Congregação para a Doutrina da Fé, para dar-se conta.   Este texto indica a linha que deve ser seguida no “ano da Fé”, proclamado por Bento XVI.

Este ano especial está destinado a dar vigor a fé dos católicos do mundo inteiro. Com efeito, será inaugurado em 11 de outubro de 2012… dia do aniversário de abertura do Concílio Vaticano II. O qual não é um detalhe insignificante.

- A nota pede “um empenho renovado de efetiva e cordial adesão ao ensinamento do Sucessor de Pedro.”.

- Insiste em “o conhecimento dos conteúdos da doutrina católica.”, “aprofundar o conhecimento dos principais Documentos do Concílio Vaticano II e o estudo do Catecismo da Igreja Católica.”

- Espera a “subsídios de divulgação com caráter apologético” (portanto, em defesa da Religião Católica) (n. de r.) como resposta “aos desafios das seitas, ora aos problemas ligados ao secularismo e ao relativismo”.

- Expressa o desejo de que sejam corrigidos os catecismos nacionais, que “não estejam em plena sintonia com o Catecismo, ou revelem algumas lacunas”.

- Fixa como prioridades “o anúncio do Cristo ressuscitado”, “a Igreja, sacramento de salvação”, “a missão evangelizadora no mundo de hoje”.

- Convida a recorrer mais fortemente ao “sacramento da Penitência.”, colocando uma atenção especial  aos “pecados contra a fé.”

- Pretende “intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia”.

- E espera homilias baseadas no  “ ‘o encontro com Cristo’, ‘os conteúdos fundamentais do Credo’, ‘a fé e a Igreja’…”

- Em resumo, a ideia principal, o que poderíamos chamar de “carro-chefe” deste documento, seria realizar um “aprofundimento(SIC!) da doutrina” e “empenhar na nova evangelização, com uma adesão renovada ao Senhor Jesus”. E nada mais.

Devemos considerar, apesar de que em diversos lugares existam recomendações ecumênicas e inter-religiosas, que, entretanto, lendo-se corretamente, não é o mais importante. Estes temas não são prioritários.

Poderia subestimar-se o valor desta “nota” que não tem a autoridade de uma encíclica. O que é certo no plano técnico. Não obstante, esta “nota”, é muito mais que uma nota, porque é a expressão de maneira pragmática de uma política que Bento XVI vem anunciando desde 2005. A política de seu pontificado.

Nove meses despois de sua eleição, deu como sua linha de atuação uma “interpretação” do Concílio Vaticano II, já não baseada na “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” senão, segundo a “hermenêutica da reforma”, o seja, “na continuidade” com a Tradição da Igreja.

Já não se trata de um voto de fé, senão de um programa bem organizado que tem por objeto realizar uma reforma – lenta naturalmente –  interna da Igreja. E sinaliza o final de um “certo recreio doutrinal” onde absolutamente tudo era possível na grande casa católica.

Este programa será seguido? Será antes de tudo bastante criticado: pelos ambientes progressistas como o “responsável da extinção do verdadeiro concílio”; pelos ambientes integristas como o “cúmplice do falso concílio”. É muito duro o ofício do Papa!

Mais além desta dialética simplista, não há que se perder de vista o progresso de fundo que está atravessando hoje a Igreja Católica.  Desta vez, este ponto de vista concorda com o espírito pelo qual esta nota o impulsiona. Alguns veem nele uma simples volta à normalidade, mas, se trata melhor de uma manobra estratégica: A Igreja começa a reacionar contra seu declive no Ocidente. O novo consistório em que serão criados 22 novos cardeais no próximo 28 de fevereiro confirma esta orientação.

Se “o espírito do Concílio” morre, voltará “o Espírito Católico”?

 

Nota:

ONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ: Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé

(http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20120106_nota-anno-fede_po.html, acessado em 31/01/2012).


terça-feira, janeiro 31st, 2012 at 1:30am

A surpreendente convocação do Concilio

 Comentário de Lucia Zucchi

O nonagenário Monsenhor Loris Capovilla, secretário do Papa João XXIII, deu ontem uma entrevista à Radio Vaticana, a respeito da convocação do Concílio Vaticano II, cuja abertura fará cinquenta anos daqui a alguns meses.

Surpreendentemente, o evento que abalou de tal modo a Igreja parece, nas lembranças de Mons.Capovilla, ter sido pensado um tanto casualmente, anunciado com displicência e organizado com tal desapego da parte do Papa, que lembra a indiferença.

 

Outro terminaria o Concilio… Como não se lembrar da palavra de Nosso Senhor: “Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la?  Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar” (São Lucas 14, 28-30) ? Que frase misteriosa essa do Papa! A não ser que o Concílio lhe tivesse sido sugerido por outros, que se encarregariam de leva-lo ao termo desejado.

 

O que resultou desse projeto? O Papa João XXIII queria algo novo… Pois bem, para muitos foi algo radicalmente novo – como uma nova Igreja!  

Há cinquenta anos da convocação do Concilio, Mons. Capovilla evoca os sentimentos de João XXIII

Entrevista à Radio Vaticana

Tradução Montfort

Quando o Papa me falou disso a primeira vez, era Papa há apenas cinco dias. Fez um gesto vago e me disse: “Sobre a minha mesa se despejam tantos problemas, interrogações e preocupações. Eu queria alguma coisa de singular e de novo, não apenas um Ano Santo”.  No Código de Direito Canônico, na época reformado há pouco tempo, há um capítulo chamado “De Concilio Ecumenico”. Mais adiante, me falou disso outra vez e eu fiquei sempre em silêncio.

Veio depois aquela noite de 21 de dezembro de 1958, ele voltou a falar disso e me disse: “Seu superior lhe acenou com esse grande plano, parece-lhe ser uma inspiração do Senhor? Até agora você não disse nem uma palavra…” E tocando-me o braço, disse: “O fato é que você raciocina um pouco humanamente, como um empresário que faz um projeto e chama o arquiteto, os consultores, que se entende com os bancos. Para nós, porém, é já um grande dom de Deus aceitar uma boa inspiração e falar nela. Não pretendo chegar a celebra-lo, a mim basta anuncia-lo” (…)

Também diante de todos aqueles que diziam que isso requeria uma grande coragem, na sua idade, ele respondia que não era ele que deveria faze-lo: “O Concilio, quem o faz é o Senhor, o faz a Igreja no seu conjunto. Nós somos as sentinelas do momento. Depois de um Papa, vem um outro”.


domingo, janeiro 29th, 2012 at 10:59pm

Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo: o fariseu e o publicano (parte 2 de 3)

Este artigo é uma continuação de Uma parábola sobre o correto juízo de si mesmo – Parte 1

Mario da Silva Martins

Um exemplo de humildade: Santa Maria Madalena de Pazzi.

São Francisco de Sales dizia que “a vida dos santos está para os Evangelhos como a partitura tocada por um músico está para a partitura escrita”. De modo que, depois de termos apresentado para o leitor o Evangelho escrito, queremos mostrar agora o Evangelho vivido. Como o Evangelho brilha mais compreensível, mais palpável nas vidas dos santos!

Santa Maria Madalena de Pazzi teve por pai Camillo Geri de Pazzi, cuja família era aliada à família Médicis e, por mãe, Maria Laurência de Bondelmonte, cuja origem não era menos ilustre.

Ela nasceu no dia 2 de abril de 1566, em Florença, e recebeu o nome de Catarina no momento do batismo, em honra de Santa Catarina de Siena, por quem sempre teve terna devoção. À medida que crescia foi crescendo também em santidade, ficando sempre feliz quando podia ouvir a doutrina católica ou conversas piedosas.

Com sete anos, tendo encontrado num livro o Símbolo de Santo Atanásio, ela o leu com tanto gosto que foi correndo mostrá-lo à sua mãe, o que indica que Deus já lhe dava luzes sobre o mistério da Santíssima Trindade.

Aprendeu o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo com avidez, repetindo-os frequentemente e ensinando-os aos pobres. Quando seu pai a levava ao campo, ela agrupava as jovens à sua volta para ensiná-las a doutrina católica.

Cedo ela começou a se aplicar à oração, antes que tivesse idade para ser formada por diretores. Deus mesmo era seu mestre. Buscava os lugares mais solitários e tranquilos da casa para rezar e concebeu um desejo tão grande de agradar a Deus que não tinha mais nenhum gosto pelas doçuras que o mundo busca tão afoitamente. Seu fervor era tanto, que seu confessor viu-se obrigado a permitir que comungasse com 10 anos, o que na época era excepcional. Fez voto de castidade com 12 anos, sendo tão fiel a ele que durante toda a sua vida nunca cometeu algo que pudesse servir de reprovação nesta matéria.

Alguns anos mais tarde, quando seu pai buscará um marido que lhe seja conveniente, ela não dará seu consentimento e pedirá a permissão de abraçar o estado religioso, o que lhe será concedido.

Catarina escolhe então a Ordem do Carmelo, porque nele se comungava quase todos os dias. Ela ingressou na ordem na vigília da Assunção de Nossa Senhora, mas depois de aí passar quinze dias ela se vê obrigada a sair, por obediência ao seu pai. Ele lhe pedia isso com a intenção de prová-la na sua resolução.

Após uma provação de três meses ela obteve, enfim, a permissão de retornar, com a benção de seus pais. Na vigília do primeiro domingo do Advento, em 1582, com 16 anos, ela voltou ao Carmelo e, no sábado seguinte, dia da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, foi unanimemente recebida como religiosa.

Após sua profissão perpétua ela tinha êxtases quase quotidianos, nos quais Deus lhe ditava coisas tão elevadas que seus superiores designaram duas irmãs que as transcrevessem.

Expulsou o demônio do corpo de uma jovem, mandando imperiosamente que saísse. Foi favorecida por Deus do dom de fazer milagres e também profetizava. Predisse ao cardinal Alexandre de Médicis, arcebispo de Florença, que fora visitá-la, que um dia ele seria Papa. Ela renovou sua predição quando este cardeal foi enviado pelo Papa Clemente VIII à França como legado junto ao rei Henrique, o Grande: “Este prelado possui atualmente uma grande honra, mas ele possuirá uma ainda maior. Ele será elevado ao sumo pontificado, mas não terá esta dignidade por muito tempo. Quando desejará abraçá-la, ela passará num instante”. De fato, Alexandre de Médicis, eleito papa com o nome de Leão XI, em 1605, viverá somente 26 dias após sua eleição.

O Padre Lourenço Brancácio, de origem toscana e carmelita observante, escreveu uma biografia desta santa admirável, onde nos relata um de seus exames de consciência:

Na tarde de 6 de abril de 1592, ajoelhada em terra para se examinar do decurso daquele dia, foi arrebatada em êxtase, em que começou a rezar o Salmo Domine, quid multiplicati sunt (Salmo 3), etc. Depois do qual disse também o Salmo Qui habitat (Salmo 90). Este acabado, começou a falar com o amantíssimo Jesus, desta maneira:

Ó Jesus meu, qual foi hoje o primeiro pensamento que tive? Sinto muito, que não foi de vós. Temi que já fosse passada a hora de chamar as vossas esposas [chama assim as religiosas do convento] para vos louvarem: e não foi de apresentar-me à Vossa Majestade e glorificar-vos. Depois disso fui para o coro a fim de oferecer-me a vós: porém não o fiz resignando-me em tudo, e por tudo, à vossa vontade. Ó benigníssimo Deus, que misericórdia eu poderei receber de vós, pois me não entrego toda a vós? Tende de mim misericórdia, ainda que eu a não mereça, senão antes mil infernos.

Depois, quando comecei a vos louvar, me deixei levar mais da pena de ver algumas que faltavam nas cerimônias e com as inclinações devidas, que do cuidado de vos honrar e oferecer os meus louvores, em união com os louvores que vos dão os Espíritos bem-aventurados [os anjos]. Bem tenho de quê vos pedir misericórdia, ó grande Deus, pois no que tão imediatamente toca a vós, que são vossos louvores, cometo tantas imperfeições.

Depois, quando cheguei a receber vosso precioso Corpo e Sangue (que devia ser com todo o afeto que me era possível), me pesa de que não tive intenção de recebê-lo em memória de vossa Paixão sagrada, como vós dissestes, nem tampouco tratei de unir a minha alma convosco, mas somente de como faria aquietar o meu coração.

Bem cedo ouvi a palavra divina; porém, mais considerei se era verdade que nos fossemos, como vós fazíeis dizer ao vosso Cristo [chama os pregadores e confessores de “Cristos do Senhor”], do que no amor que me mostráveis. Mas, Senhor meu, eu não sei outra coisa mais que vos pedir misericórdia.

Quando fui receber os frutos de vosso Sangue no Sacramento da Penitência, mais considerei o que havia de dizer ao vosso Cristo, para sossegar o meu coração, do que o benefício que me fazeis em lavar a minha alma no vosso Sangue, e não me confiei de vós, que me daríeis graça com que o meu coração se aquietasse.

O Senhor meu! E quais foram as minhas palavras, que hoje proferi? Foram de repreensão: e o modo pouco pacífico de dizê-las, e suave, foi causa de se inquietar o coração daquela [acusa-se de ter repreendido uma noviça]. E o que pior foi, faltei à caridade, pois vendo o seu coração inquieto, não procurei sossegá-lo, para poder se unir convosco. Eis aqui, Senhor, o que tiro de tanta união e luz que me dais, que se a désseis a qualquer outra criatura, ela vos seria muito mais agradecida. E eu pobre e miserável, nenhum fruto tiro, pois falto à caridade para com vossas esposas. Perdoai-me por amor de vossa Paixão sagrada.

Depois, quando fui falar àquela criatura, acuso-me de que fiz uma grande hipocrisia, fazendo-me ser reputada pelo que não sou. E suposto que fiz aceno às vossas criaturas, não mereci que elas me entendessem. E assim signifiquei ter a minha alma unida convosco [diz isto porque estando no locutório com uma de suas tias, foi alí arrebatada em êxtase; tinha acertado com outras freiras que, quando fizesse certo aceno, levassem-na embora da grade, porque pressentia o êxtase]; e bem sabeis quantas vezes anda distraída fora de vós. Mostrei ser religiosa: e bem sabeis vós o que sou. Clamo a vós misericórdia, e perdão desta grande hipocrisia, e vos ofereço o vosso Sangue, por meu remédio derramado com tanto amor. Se me mandais para o inferno, ó Senhor, como o mereço! O meu devido e próprio lugar será aos pés de Judas, pois tanto vos tenho ofendido.

Fui depois dar o sustento necessário ao meu corpo. Porém, que intenção tive eu de vos agradar e honrar nesta ação? Não me lembrei de apresentar-vos tantos pobrezinhos, que porventura andam muito tempo batendo pelas portas em busca de um bocado de pão, e talvez que não acham quem lhes o desse. E eu miserável e indigna, sem algum trabalho meu (e o que é pior, sem merecimento), me provê a religião [a Ordem Carmelita] de tudo o necessário. E não só cometi contra vós esta ofensa, senão de mais a mais outra, que fui ocasião daquela vossa esposa falar tantas palavras em lugar onde eu sabia não ser lícito falar. Eis aqui, Senhor, como em todas as minhas obras não acho mais que ofensas vossas. Como, pois, poderei aparecer em vossa presença e pedir-vos mercês e graças, e a encomendar-vos vossas criaturas, sendo tantas as minhas culpas que não mereço useis comigo de misericórdia? Porém, Senhor, aquele amor que vos moveu a baixar à terra, e derramar vosso Sangue, ele vos mova a ter misericórdia com a minha alma.

Depois, quando não fui louvar-vos em companhia das outras vossas esposas, foi só por minha culpa. Porque tanto que aquela criatura me disse, que não fosse, logo me acomodei a ficar. Ah Jesus meu! Se ela me pedira outra qualquer obra de caridade, não me acharia tão pronta. Ó Deus meu, como quero eu ter confiança de chegar onde para sempre vos louve em companhia dos Anjos, se tão facilmente falto em vos louvar em companhia de vossas esposas? Eu vos ofereço o vosso Sangue, para que mediante seu valor infinito, me concedais misericórdia.

E nas obras que fiz, que intenção tive, Deus meu, de vos honrar e glorificar; pois vejo que mais me pesa do tempo que vós com vosso favores me levais, do que do tempo em que falo em vos oferecer a minha alma? É verdade que fiz sinal àquelas vossas virgenzinhas de que era hora de silencio, mas não considerei quanto mais obrigada era eu a estar em silêncio unida convosco.

Depois, quando houve de invocar o Espírito Santo, estava com a mente tão desviada de vós, que me não lembrava o como se havia de fazer: de sorte que as outras que não têm tanto tempo de religião, tiveram mais prudência que eu. Eis aqui, meu Jesus, como em todas as obras tenho faltas. Como poderei, pois, aparecer em vossa presença, tendo-vos tão ofendido? Torno a oferecer-vos o vosso Sangue, que só mediante o seu valor, espero perdão.

E que grande falta foi aquela outra, quando houve de fazer aquela obra? Por poupar-me a um pouco de trabalho em dar alguns passos, faltei ao que era obrigada a fazer, e vali-me de outra que me fizesse caridade, e eu não fiz caridade com a minha alma. Mais interesse tive em não me cansar um pouco, do que em que vós não vos afastásseis de mim. Em todas as minhas obras acho defeitos. Porém vós, não olhando para vossas ofensas, senão para vossa bondade, de novo me atraístes a vós, onde me destes tanta luz, que se a désseis a outra qualquer alma, faria mais fruto, do que em mim miserável.

Depois fui dar refeição ao meu corpo, e não me lembrei de tantos pobrezinhos que não têm de que sustentar-se, e a mim, Senhor, me dais provisão com tanta largueza. De novo vos apresento vosso Sangue por tantas ofensas, que contra vós cometo.

Ai de mim, Jesus meu, que estamos no fim do dia, e não fiz coisa alguma sem ofensa vossa! Pois agora, que farei? Ó meu Deus, se tanto vos tenho ofendido neste dia, não quero eu acrescentar mais outra ofensa, qual seria não confiar em vossa misericórdia. E suposto, Senhor, que a não mereço, todavia o vosso Sangue, que por mim derramastes, me fará confiar em vós, que me haveis de perdoar”.

E o seu biógrafo, no relato de sua vida, continua:

Feito este exame, ainda sem sair do êxtase, se retirou a um lugar oculto do Convento, onde tomou uma aspérrima disciplina [isto é, flagelou-se], em castigo destes levíssimos defeitos. Deste modo examinava esta alma a sua consciência cândida, e assim a sacudia do mínimo pozinho que a pudesse manchar”.

O reconhecimento de nossa miséria

Depois de vermos este exame de consciência de uma santa, como aparecerão diante de Deus as distrações voluntárias que temos durante nossas orações e nossos terços, recitados com a pronúncia toda atropelada, com os olhos curiosos de ver o que se passa a nossa volta, com falta de modéstia do corpo e cheios de impaciência no espírito, interrompendo-o pelo menor motivo?

Como aparecerão as missas que assistimos sem preparação, tendo a memória ocupada com muitas coisas que não têm importância na hora da missa? E os padres que rezam missa com tanta negligência na observação dos ritos, com pressa e inquietação?

Como aparecerá o modo com que tratamos nossos próximos, quando estimamos maliciosamente suas ações ou, o que é pior, suas intenções? Como aparecerá nosso interesse por seus defeitos naturais e morais, nossas desculpas para não ajudá-los nas suas necessidades, o fato de criarmos atrito com eles por um motivo leve e mesmo por nenhum motivo ou por amor próprio ferido?

E nossas palavras de queixas, mentirosas, inúteis, de orgulho, de elogio próprio, murmurações? Como aparecerão nossos pensamentos tidos longe da presença de Deus, nossas obras feitas com intenções menos retas?

E se não encontramos tantas faltas assim em nosso exame, é porque nos falta diligência em fazê-lo e humildade. Se uma grande santa como Santa Maria Madalena de Pazzi, que tinha todas as suas ações bem cercadas pela santa regra do Carmelo, encontrava no fim do dia tantas coisas para se penitenciar, o que será de nós, que vivemos no mundo? Assim como não há rio que não recolha lodo, galhos e folhas nas suas margens, assim também não há homem que não cometa faltas nas suas relações com os outros homens ao longo de um dia.

E, se neste exame de consciência, Santa Maria Madalena de Pazzi pede perdão a Deus até de coisas que não são pecados e que não são coisas a serem acusadas em confissão, mas de coisas que podiam ter sido feitas com maior perfeição, o que será de nossa negligência em fazer penitência pelas faltas grandes que cometemos?

Não há dúvida de que nenhum de nós tenha qualquer motivo para se orgulhar e para se crer virtuoso. Ao contrário, depois de examinarmos nossas consciências – e nelas encontraremos misérias em maior número e gravidade do que as que Santa Maria Madalena de Pazzi via em si mesma e das quais fazia grandes penitências –, devemos nos humilhar diante de Deus e nos inclinar à compaixão das misérias e desgraças do próximo, considerando-as de certo modo como próprias, enquanto prejudicam nosso irmão e enquanto podemos nos encontrar em situação semelhante ou pior: “Por que tu olhas a palha que está no olho de teu irmão, e tu não vês a trave que está no teu olho?” (S. Mateus VII, 3).

Que grande exemplo de humildade nos dá Santa Maria Madalena de Pazzi. Ela compreendeu bem a parábola do fariseu e do publicano.

Deus mesmo manifesta em máximo grau a sua onipotência compadecendo-se misericordiosamente de nossos males e remediando nossas necessidades.

A humildade e a caridade andam juntas. Tendo maior luz de nossas misérias, compadeçamo-nos também das de nossos próximos e busquemos ajudá-los, sobretudo pelo exemplo. Quantos de nós, para não dizer todos, fomos levados ao amor de Deus e a uma vida melhor depois de conhecermos alguém exemplar, que mostrava na sua vida a luz e a beleza que existem em servir a Deus, e que suportou nossas misérias com paciência e misericórdia para nos conduzir até um lugar mais alto?

A prática da humildade

O reconhecimento teórico de nosso nada diante de Deus e de que, por causa de nossos inúmeros pecados, não temos direito nenhum de presumir de nós mesmos em nosso interior ou diante de nossos semelhantes, é coisa fácil e simples.

Mas o reconhecimento prático destas verdades e as consequências que saem delas e que atingem nossa conduta diante de Deus, de nós mesmos e de nossos próximos é uma das coisas mais árduas e difíceis da vida cristã, onde naufragam inúmeras almas.

Assim, para dar ao leitor alguns instrumentos que permitam a obtenção desta virtude tão fundamental da vida cristã e sua prática, apresentaremos, na próxima parte (e última) deste artigo, os principais meios para chegar à verdadeira humildade de coração.