Religião

Uma velha heresia perfeitamente atual: o Americanismo
Orlando Fedeli


Em fins do século passado, uma nova doutrina escandalizava os católicos: era o americanismo. Ela foi condenada em 1899 por Leão XIII na Carta Apostólica "Testem Benevolentiae", dirigida ao Cardeal James Gibbons, Arcebispo de Baltimore e Primaz dos Estados Unidos. Apesar dessa condenação, os erros americanistas foram retomados e largamente difundidos por outros movimentos, como por exemplo o "Sillon" e o modernismo, ambos condenados por São Pio X.

Lidos hoje, os escritos americanistas causam uma impressão de surpreendente atualidade. São velhas doutrinas reprovadas, que deparamos presentemente em sermões, em conferências e documentos de eclesiásticos e leigos de prol. O que ontem foi condenado, hoje é ensinado. Teria a Igreja mudado? Sua verdade não é sempre a mesma? Teria razão o redator da nota de apresentação do Pe. Comblin na capa do seu livro sobre a "teologia da Revolução", quando afirma: "Mas a heresia de ontem é muitas vezes a verdade de amanhã" (J. Comblin, "Théologie de la Révolution", Ed. Universitaires, 1970)? Certamente não. A Igreja tem uma doutrina imutável, e se alguém muda de doutrina já não é mais católico.

A história do americanismo está ultimamente ligada à do Padre Isaac Thomas Hecker.

Nasceu ele em Nova York em 1819. Sua mãe era metodista, e o metodismo muito o influenciou durante toda a vida.

Aos quatorze anos começou a preocupar-se com política e filosofia e trocou o metodismo pelo kantismo. Aos 24 anos, entrou para o falanstério de Brook Farm - comunidade construída segundo as teorias do filósofo Fourier - onde embebeu-se ainda mais das doutrinas filosóficas de Kant e sociais de Saint- Simon, tendo passado antes por todas as seitas protestantes da América, e militado no Partido Trabalhista de seu Estado natal, de tendências comunistas.

Converteu-se depois ao Catolicismo e foi pedir o batismo ao Bispo de Nova York, sendo batizado em 1o de agosto de 1844. Ele mesmo dizia: "Eu me esgueirei na Igreja" (Maignen, p. 89).

Hecker julgava-se então guiado diretamente pelo Espírito Santo. Afirmava que há muito tempo tinha visões e inspirações sobrenaturais e que a voz de Deus lhe falava.

Em 1845, Hecker entrou para a Congregação Redentorista. Levou semanas para aprender o "Pater" em latim. Passou três anos sem conseguir ler ou estudar. Ele não tinha diretor espiritual, como nunca teria depois, porque dizia que o próprio Espírito Santo o dirigia.

Hecker ficou na Congregação de Santo Afonso de Ligório até 1857, quando foi excluído por ter violado os votos de pobreza e de obediência, ao ir a Roma sem licença dos Superiores e às próprias expensas.

Em 1858, fundou a Congregação dos Paulistas, uma comunidade livre e sem votos. O fundador, com efeito, era contrário aos votos religiosos e queria um novo tipo de Sacerdote, adaptado ao modo de ser de "homens cheios de uma justa confiança em si mesmos", como via os norte-americanos (Maignen, p. 66).

O Padre Hecker passou os seus últimos dezesseis anos de vida com muitas doenças. Depois de morto suas idéias tiveram grande influência nos Estados Unidos, e mais ainda na França. O liberalismo católico, com todos os movimentos que dele nasceram, acolheu as chamadas teses americanistas do Padre Hecker e dos Padres Paulistas; o terreno estava bem preparado para os novos erros.

Em 1894, veio a lume nos Estados Unidos a "Vida do Padre Hecker", de autoria do Padre Elliot, da Congregação dos Paulistas, e com uma introdução de Monsenhor Ireland, Arcebispo de Saint Paul de Minnesota.

A obra teve pouca repercussão nos Estados Unidos. Três anos depois foi publicada em Paris em tradução do Padre Klein, jovem professor do Instituto Católico, cujo prefácio resumia as idéias de Hecker. Essa tradução repercutiu enormemente na França e também no Vaticano.

Os americanistas, como eram chamados os seguidores do Padre Hecker, tinham provocado já grande celeuma ao participarem do Parlamento das Religiões que reuniu em Chicago, em 1893, católicos, protestantes, judeus, budistas, muçulmanos, espíritas, etc.

Em fins de 1898 correu a notícia de que o Papa publicaria um documento a respeito do caso. Monsenhor Ireland partiu para Roma em janeiro para, dizia-se, tentar impedir o pronunciamento papal.

Entrevistou-se ele com Leão XIII, e declarou depois que o Papa lhe asseverara que o documento não sairia.

Em fevereiro de 1899, porém, veio a lume a Carta Apostólica ao Cardeal James Gibbons, Arcebispo de Baltimore, datada de 22 de janeiro, a qual condenava o americanismo.

* * *

Por ocasião do quarto centenário da descoberta da América, o boletim do Instituto Católico de Paris publicou um artigo de Monsenhor Keane, Reitor da Universidade Católica de Washington, antigo discípulo do Padre Hecker e um dos mais destacados líderes da corrente americanista. Nesse artigo o autor perguntava: "Já que um traço distintivo da missão dos Estados Unidos é, pela destruição das barreiras e das hostilidades que separam as raças, o retorno à unidade dos filhos de Deus há muito divididos, porque não se poderia fazer qualquer coisa de análogo no que concerne às divisões e hostilidades religiosas? Porque os congressos religiosos não conduziriam a um congresso internacional das religiões, onde todos viriam a se unir numa tolerância e numa caridade mútuas, onde todas as formas de religião se levantariam juntas contra todas as formas de irreligião?" (Maignen, p. 212).

O espírito americanista inspirava estas linhas repassadas de um ecumenismo irenista que salta por cima de qualquer diferença dogmática, contanto que se consiga a "união no amor".

No Congresso Científico Internacional dos Católicos, reunido em Bruxelas em 1894, o mesmo Monsenhor Keane dizia: "Há um esforço incontestável da humanidade em direção a costumes mais suaves, a um maior florescimento da caridade. Mas o fim da religião não é unir o homem a Deus e a seus irmãos? A religião é a caridade! Mesmo quando não nos pudéssemos entender quanto às crenças, não seria possível entrar em acordo quanto à caridade?" (Maignen, pp. 213 e 215).

A tese exposta é a de que mais importante do que os dogmas é a caridade, como se fosse possível a verdadeira caridade sem a fé. Vê-se bem que essa caridade, esse amor de que fala Monsenhor Keane, capaz de realizar a união de todas as religiões acima das diferenças doutrinárias, não é o amor ao homem por amor de Deus. É o amor do homem pelo homem e não passa de filantropia maçônica.

E continua o ecumênico Bispo americanista: "Já não seria pouca coisa dar mesmo aos cristãos esta lição: que para amar a Deus, não é necessário odiar seu irmão que não o ama como nós; que, para ser fiel à nossa Fé, não é preciso mantermo-nos em guerra com os que compreendem a Fé de modo diferente de nós" (Maignen, p. 216).

O igualitarismo levava-o a nivelar todas as religiões. É o que confirma as palavras de Monsenhor Redwood, Arcebispo da Nova Zelândia, no Parlamento das Religiões, reunido em Chicago em 1893: "Em todas as religiões há um amplo elemento de verdade, posto que de outro modo elas não teriam coesão. Penso que este Parlamento das Religiões promoverá a grande fraternidade da humanidade e, para promover esta fraternidade, ele promoverá a expressão da verdade. Eu não pretendo, enquanto católico, possuir toda a verdade ou estar em condições de resolver todos os problemas que se põem ao espírito humano. Sei apreciar, amar e estimar todo elemento de verdade existente fora deste grande corpo de verdades. A fim de destruir as barreiras de ódio que existem no mundo, devemos respeitar os elementos de verdade e os elementos de moralidade contidos em todas as religiões" (Barbier, p. 246).

É surpreendente como estas palavras se parecem com certos discursos atuais. Os erros são monótonos em suas repetições...

Foi a tese de que todas as religiões são inspiradas por Deus, que Monsenhor Keane defendeu no congresso científico de Bruxelas em 1894: "Pretendeu-se por vezes que os fundadores das religiões pagãs eram enviados do demônio, encarregados de fazer abandonar a verdade e fazer abraçar o erro. Esse é um ponto de vista historicamente falso. A todos Deus deu a verdade em partilha. Quando a pobre família humana se dispersou, esqueceu os princípios religiosos e morais. Então Deus suscitou mesmo entre os pagãos, homens para lembrar a verdade. Tais foram os sábios da antigüidade: Buda, Confúcio, Zoroastro, Sócrates não eram servidores do demônio; eram instrumentos da Providência Divina, viam a verdade, mas somente em parte, misturada com erros; eles fizeram o melhor que podiam. Por que não prestar homenagem à sua boa vontade e a tudo o que é bom e belo em seu ensinamento?" (Barbier, p. 246).

O evolucionismo levava os americanistas a não aceitarem uma religião de dogmas estáticos. Toda a concepção religiosa deles era evolucionista.

Em 1897 foi publicado em Londres na "Contemporary Review", um artigo intitulado "O catolicismo liberal" e assinado por Romanus, o qual constituía um verdadeiro manifesto de partido e uma súmula do americanismo.

Lia-se ali a certa altura: "A doutrina moderna da evolução, considerada com espírito teísta, aplana e afasta todas as dificuldades, mostrando como erros parciais e inevitáveis serviram providencialmente ao avanço do bem-estar espiritual da humanidade. Todas estas verdades novas podem achar seu lugar na Igreja Católica, que não deve ter receio de as aceitar e assimilar, tal como no passado aceitou gradualmente outras verdades novas e mesmo modificações vitais" (Maignen, pp. 309-310).

A conseqüência do igualitarismo, do "profetismo" e do evolucionismo era uma posição interconfessional e irênica.

Os americanistas queriam a união de todas as religiões sem que nenhuma renunciasse a seu credo. Era por isso que o Padre Hecker dizia ser preciso abolir a "alfândega" da Igreja (Maignen, p. 90).

Sua nova apologética, ele a expôs na obra intitulada "Questions de l’âme": "Eu desejaria abrir as portas da Igreja aos racionalistas; essas portas me parecem fechadas para eles. Sinto que sou o pioneiro que abrirá o caminho. Eu me esgueirei na Igreja como de contrabando" (Maignen, p.89). E mais adiante: "Eu quisera ajudar os católicos com a mão esquerda e os protestantes com a mão direita" (p.90).

Esse ecumenismo do Padre Hecker não se limitava aos protestantes, cismáticos e racionalistas. Ele se estendia também aos hindus, muçulmanos e pagãos. Não lhe faltava razão ao se dizer um pioneiro. Sabemos bem que outros o seguiram mais tarde.

"O profundo sentimento da imanência divina, que têm os hindus, o impressionava, e ele via na união tão íntima de Deus com o homem pela Eucaristia, um dos principais meios pelos quais nossa fé poderia atingi-los no futuro. Quanto aos muçulmanos, que havia estudado no Egito, eles o tinham impressionado pela intensidade de sua crença no Deus único", escreve dele um admirador, o Padre Dufresne (Maignen, pp. 68-169).

O Padre Victor Charbonel - um dos corifeus do americanismo na França, que mais tarde apostataria da Igreja - planejou reunir em Paris, durante a Exposição universal de 1900, um congresso das religiões. Querendo resumir em algumas linhas o princípio fundamental do congresso (que não chegou a se realizar), escrevia na "Revue de Paris": "Não se poderia tentar o que se chamaria a união moral das religiões? Far-se-ia um pacto de silêncio quanto a todas as particularidades dogmáticas que dividem os espíritos, e um pacto de ação comum quanto ao que une os corações, pela virtude desmoralizadora e consoladora que há em toda fé. Seria o abandono do velho fanatismo. Seria a ruptura desta longa tradição de chicanas que mantém os homens aferrados a sutis dissenções de doutrina, e o anúncio de tempos novos, onde os homens teriam menos a preocupação de se separarem em seitas e igrejas, de cavar fossos e levantar barreiras, do que a de espalhar por uma nobre concórdia o benefício social do sentimento religioso. Chegou a hora desta suprema união das religiões" (Delassus, pp. 142-143).

Era natural que os americanistas tivessem simpatia por todos os heresiarcas. Também estes teriam sido inspirados por Deus. Seu erro não teria sido o de professar novos dogmas, e sim apenas o de romper a unidade. Monsenhor Keane, em seu discurso de Chicago já várias vezes citado, afirmou o seguinte com relação a esse ponto: "Homens de boa fé e ardorosos encarnaram boas e nobres idéias em organizações separadas da Igreja e criadas por eles. Tinham razão em suas idéias, estavam errados em sua separação" (Delassus, p.138).

"Chegou a hora desta união suprema das religiões, escrevia o Padre Charbonnel na "Revue de Paris". Entre os crentes de fé diversa, ou mesmo entre crentes e filósofos, está-se cansado de querelas odiosas, de polêmicas - "polemos", guerra! - nas quais as mais nobres convicções perdem sempre o que faz sua grandeza: a tolerância serena. Eis o projeto. É um sinal dos tempos ter-se podido simplesmente expô-lo. Não se teria conseguido isso há dois anos atrás. Porque, enfim, o congresso universal das religiões será, em nossa velha Europa, o primeiro concílio em que não terá havido anátemas" (Maignen, p.243).

O Padre Charbonnel não acreditava mais na Igreja Católica, pois já não tinha nada de comum com esta a sua pan-igreja. Pouco depois, decorrência natural de tantos erros, ele renegou oficialmente a fé de seu batismo e abandonou a comunhão católica. Quantos hoje não defendem as mesmas idéias! Quantos, hoje, levados por um falso ecumenismo, deixaram de ser católicos, para passarem a ser fiéis da "nova Igreja Universal", ao lado de cismáticos, hereges, judeus e pagãos!

O Padre Hecker e seus seguidores viam com maus olhos tudo que significava desigualdade e sujeição de um homem a outro. Todos os homens, guiados diretamente por Deus, seriam iguais. O Espírito falaria em cada homem. Conseqüentemente a direção espiritual e a obediência religiosa seriam desnecessárias, e constituiriam mesmo um entrave à ação do Espírito. Mais ainda, a obediência seria contrária à dignidade humana.

No Congresso Eclesiástico de Reims de 1896, tão simpático às teses do americanismo, houve quem exclamasse: "Entre nós, a hierarquia mata o indivíduo" (Barbier, p.316).

Os americanistas eram naturalistas. O importante para eles não era o Céu e a vida sobrenatural, e sim o mundo presente e o aperfeiçoamento natural do homem.

O Padre Naudet, por exemplo, dizia em Angers, em 1895: "Cidadãos e cidadãs, eu sou da Igreja de hoje e de amanhã, não da Igreja de há cem anos... O paraíso, eu o quero dar imediatamente enquanto espero o outro". O Padre Naudet enganou-se: ele era da Igreja não "de amanhã", mas de quase cem anos depois. Ele já era de Igreja "pós-conciliar", da Igreja Nova.

Como nota Henri Bargy, a religião dos americanistas era "uma religião da humanidade enxertada no Cristianismo". Ela "não mais ensina a morrer, mas a viver, ela é uma escola de energia prática. [ ... ] A religião se preocupa cada vez mais em salvar a sociedade e cada vez menos em salvar os indivíduos. Em lugar do Paraíso, ela oferece uma recompensa: o aperfeiçoamento social. O Cristianismo torna-se uma mutualidade, reduz-se a uma fraternidade" ("La religion dans la societé aux Etats-Unis", 1902, apud Barbier, pp.243-244).

O americanismo foi muito bem definido como sendo o culto da humanidade.

O Padre Naudet afirmava que "a formação do Clero é por demais exclusivamente clerical e insuficientemente humana. Habitua-se por demais o jovem a não ver em seu futuro ministério senão o papel sobrenatural, ou mais exatamente o lado puramente religioso" (Delassus, p. 174).

No fundo, o que pedia o Padre Naudet é que nos Seminários se ensinasse menos Teologia e mais sociologia e economia. Hoje esta reforma está feita em numerosos lugares: nestes, os eclesiásticos deixaram de lado o sobrenatural e o cuidado das almas, e pretendem entender da produção de cebolas...

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O americanismo foi condenado por Leão XIII, mas não morreu. Ele continuou vivo no "Sillon", suas mesmas idéias, com outras afins, ressurgiram no modernismo. Morreu o modernismo?

O que mais impressionava nos textos dos autores americanistas - insistimos - é a sua atualidade. Lendo-os tem-se a impressão de que foram escritos por adeptos da Igreja-Nova "pós-conciliar". Americanismo, sillonismo, modernismo, progressismo, "profetismo", teologia da libertação, não passam de ramos de uma mesma árvore. São tentáculos do mesmo polvo que há séculos procura envolver a Igreja. Contra essa heresia, devemos invocar Aquela que é o Trono da Sabedoria e o Auxílio dos Cristãos, Aquela que esmagará afinal a cabeça da antiga serpente.

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    Para citar este texto:
"Uma velha heresia perfeitamente atual: o Americanismo"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/religiao/velhaheresia/
Online, 20/08/2017 às 02:58:12h