Igreja

A misericórdia eterna cantada na liturgia do Natal
Lucas Parra
     O Natal é, realmente, apenas a primeira manifestação à humanidade da obra salvadora de Nosso Senhor Jesus Cristo, a qual atinge seu ápice com Sua Paixão, Morte e Ressurreição.
     A festa do nascimento do Messias, entretanto, tem uma alegria especial e uma graça particular, por termos “Deus conosco”. Esse é o significado de Emanuel, nome atribuído ao Salvador pelo profeta Isaias, conforme nos refere São Mateus em seu Evangelho:
 
Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que diz: ‘Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porão o nome de Emanuel’, que quer dizer: ‘Deus conosco’” (Mt 1,22-23).
 
     Estando o homem perdido, sem qualquer possibilidade de se ver livre, por si mesmo, do cativeiro do pecado, os patriarcas e profetas e os poucos justos da Antiga Lei, por milhares de anos esperaram e vislumbraram em figuras e sinais a salvação, a qual só poderia vir do alto.
     E a salvação veio do alto por Maria Santíssima: Deus quis nascer de uma Mãe, e somente a Virgem Maria foi achada digna de ser a Mãe de Deus. Somente ela alcançou essa graça fundamental da Encarnação por sua misteriosa e perfeita oração e por seu abismo insondável de humildade, o qual foi capaz de atrair e conter o Infinito.
     O próprio Deus, então, secunda a humildade da sua Mãe e se inclina para resgatar o homem, de um modo que jamais se poderia imaginar: o Criador toma a própria natureza de sua criatura, assume todas as nossas misérias, sofrimentos e limitações –  exceto o pecado.
     Essa misericórdia infinita – esperada e recebida. Essa sequência cerimonial abrange diversas missas e está simbolizada especialmente em três introitos: o do 4º Domingo do Advento (Rorate Coeli) [figura 1], o do dia do Natal (Puer Natus) e o da Apresentação (Suscepimus Misericordiam) [figura 2], conforme descreve Fulvio Rampi, gregorianista e chefe do coro Cantori Gregoriani, em seu comentário ao introito Puer Natus:
 
No dia da festa da Apresentação do Senhor, 2 de fevereiro – que constitui uma conclusão ideal do tempo de Natal – o introito começa com ‘Suscepimus, Deus, misericordiam tuam’ (Nós recebemos, ó Deus, a vossa misericórdia) início no qual encontramos, e não é por acaso, essa fórmula específica de forte acentuação que havia caracterizado a abertura do intoito ‘Rorate Coeli’ do quarto domingo do Advento. A ‘misericórdia’ recebida é o próprio Cristo, entregue pelo Pai como dom à humanidade (‘Puer Natus’ – Um menino nos nasceu) e apresentado pela Virgem Maria ao velho Simeão no templo (‘Suscepimus’). (Comentário ao introito Puer Natus por Fulvio Rampi, gregorianista e chefe do coro Cantori Gregoriani. Disponível em: http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1350655?fr=y (acesso em 22.12.2016), tradução nossa).
 
     Notemos a semelhança o paralelo melódico entre o início dos dois introitos:
 
 
Figura 1
 
 
Figura 2
 
 
     A Igreja, em ocasiões especiais, nos conduz, através dos introitos, a uma maior profundidade na apreciação do mistério celebrado, introduzindo-nos, em algumas festas, no próprio ambiente da Santíssima Trindade, como ocorre no introito Resurréxi da manhã de Páscoa, já comentado em artigo de Edwin Lima.
     Na festa do Natal, a Igreja segue esse modo de proceder. O introito Dominus dixit da Missa da Meia Noite (Missa do Galo) também nos transporta à eterna geração do Verbo e aos eternos desígnios salvíficos de Deus para conosco. Ambos os aspectos estão unidos e são abordados na glosa que apresentamos abaixo, de Dom Ludovic Baron, monge beneditino internacionalmente conhecido por seus comentários às das peças gregorianas, num trecho que é parte de sua obra de três volumes “L’expression du chant grégorien”.
     D. Baron, além de tratar de aspectos musicais e artísticos, que poderão ser aproveitados pelos cantores para aperfeiçoar sua interpretação ao executar a peça, nos traz também elementos que nos incentivam a uma verdadeira meditação, com proveito espiritual:
 
 
Dominus dixit ad me: 
Fílius meus es tu,
ego hódie génui te.
V. Quare fremuérunt gentes: et pópuli meditáti sunt inánia?

[O Senhor disse-me:
Tu és meu Filho,
Eu hoje Te gerei.
V. Por que se amotinam as nações, e os povos maquinam planos vãos?]
 
 
“O Salmo II é exclusivamente messiânico, ou seja, aplica-se apenas ao Messias. É, portanto, Ele mesmo quem fala. Ele afirma Sua geração divina através de uma referência direta à palavra do Pai que O gera. O vocábulo ‘hoje’ deve ser entendido no sentido do eterno presente em que Deus vive e produz o Verbo, como a palavra substancial em que se realiza seu único Pensamento.
No contexto da liturgia, esse introito é como a primeira palavra do Menino-Deus, a palavra pela qual Ele nos diz através da voz da Igreja quem Ele é e de onde Ele vem. Mas a esse testemunho de seu nascimento eterno se acrescenta um outro. No momento em que Ele vem ao mundo, em Belém, Cristo é verdadeiramente gerado: ele nasce do Espírito Santo e da Virgem Maria. O Ego Hodie [‘Eu hoje’] se compreende aqui, portanto, também quanto à Sua geração carnal, obra igualmente de Deus, e a palavra hodie, mantendo todo seu sentido de eternidade, indica o dia preciso em que tal obra se realiza. Por outro lado, Cristo jamais esteve sem seus membros. Gerando o Verbo em seu pensamento único e eterno, o Pai, no mesmo ato, O predestina a ser a Cabeça e o Salvador de toda a humanidade e Lhe dá todos os homens de boa vontade. Assim, nEle, desde toda a eternidade, nós fomos todos pensados, gerados espiritualmente pelo Pai. Quando Ele veio à Terra, ele nos trazia então todos em seu pensamento e no seu amor, de forma que, não obstante espiritualmente, nós também viemos ao mundo realmente, nEle, na noite de Natal: também nós nascidos de Deus, filhos de Deus por predestinação.
Enfim, essa participação na vida de Deus, esse novo nascimento, tornado efetivo no dia de nosso batismo, continua por todo o tempo de nossa vida e se torna mais pleno com cada graça que nós recebemos. Cristo, vindo ao mundo, nos trouxe precisamente essa graça de vida. A liturgia do Natal no-la oferece de novo. Se nós a recebermos, nossa geração divina prossegue. Nós nos tornamos um pouco mais filhos do Pai, e o trecho Hodie genui te toma, para nós, mais que os outros dois, um sentido pessoal e atual. ‘Eu hoje te gerei’.
Quando a Igreja, na noite de Natal, canta essa palavra misteriosa, ela é então primeiramente a voz do Menino-Deus que declara ao mundo sua geração eterna e sua geração carnal; mas, ao mesmo tempo, percebendo que é Cristo que se continua, ela não pode deixar de cantar sua própria geração na eterna misericórdia do Pai, no mistério de Natal e na graça que, no próprio momento em que ela canta, vem em seus membros e os “diviniza” um pouco mais [isto é, faz participar um pouco mais da natureza divina].
A ideia do Salmo [no versículo Quare fremuérunt...] é bem diferente. O salmista, numa visão profética, considera com ironia a amotinação dos povos que em vão se agitam e conspiram contra o Senhor e o seu Cristo. Essa profecia estava em plena realização no momento em que Nosso Senhor nascia. Todo um povo se movia para satisfazer a ambição de César Augusto e o ódio de Herodes estava pronto para estourar contra o novo Rei dos Judeus. Essa profecia não cessou e não cessará mais de se realizar em um lugar ou outro do mundo, de modo que esse versículo é sempre atual.
Notar-se-á o contraste que ele forma com a antífona: a geração do Verbo e a nossa no silêncio da eternidade, o silêncio da noite, o silêncio das almas; e a agitação vã do mundo cheio de ódio, no barulho. A retomada da antífona torna o contraste mais impressionante ainda, ao evocar a continuidade da palavra geradora e a imutabilidade de Deus, apesar de tudo.
 
A MELODIA
 
 
Figura 3
 
 
Há poucas que sejam tão simples. É um menininho que fala e, ainda que Ele nos traga uma palavra de eternidade, é com seus meios humanos que no-la dá.
A Igreja, que lhe empresta a voz, tinha de se adaptar, ao mesmo tempo, à Sua infinita grandeza e a sua infinita simplicidade. Sem descuidar da primeira, ela fez predominar a segunda, permanecendo assim no espírito de todo o mistério que é a revelação da humanidade e da graça de nosso Deus Salvador.
 Dominus dixit ad me... Algumas notas muito simples. Elas não se estendem; uma quinta, é tudo.  Elas oscilam leves, imateriais, mal se movendo; como que além do tempo. Elas não expressam uma alegria vibrante, mas sim a contemplação infinita do Cristo fixada na palavra do Pai, que Ele ouviu no seio de Nossa Senhora no momento da Encarnação e que Ele nos repete na inefável paz de Seu sorriso infantil.  
 
 
Figura 4
 
 
Filius meus es tu... Ainda nada além de algumas notas, mas elas ganham um pouco mais de movimento; é também o Senhor e a mesma alegria e a mesma ternura. Hodie se estende imóvel como o eterno presente e génui te, a palavra geradora, termina numa cadência extremamente graciosa e terna. Não se subtrairia nada à feliz paz dessa última frase vendo-se nela uma nuance de doce autoridade: notem a tristopha sobre a qual se coloca a última sílaba de Ego e a nota dupla de génui te [figura 5] que devia ser uma bivirga bem apoiada. Essa nuance se encontra muito clara sobre o mesmo texto no Alleluia e na Communio [figura 6].
 
Figura 5
           
 
Figura 6
           
Cantar a meia-voz com docilidade e num bom movimento cheio de vida e de alegria.
Apoiar a voz nos punctum que precedem as distrophas de dixit a fim de evitar executá-las duras. O crescendo de Filius meus terá sua intensidade máxima no acento tônico de meus, o qual se procurará não atacar com violência.
Em razão da curta extensão da melodia, os ralentandos, ao fim das frases, serão muito discretos. (Original disponível em: http://musique-liturgique.com/gregorien/contacts/messes-du-temporal/134-nativite-seigneur.html?showall=&start=1 (acesso em 22.12.2016), tradução nossa).
 
     Esperamos assim, ao apresentar o comentário de Dom Baron, poder contribuir para que nossos leitores possam conhecer e amar um pouco mais o Santo Natal.
 
Salve Maria!

    Para citar este texto:
"A misericórdia eterna cantada na liturgia do Natal"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/veritas/igreja/misericordia_natal/
Online, 15/10/2018 às 05:41:25h