Religião-Filosofia-História



Vimos que, para Frei Guilherme, assim como para muitas seitas medievais -e cremos que também para Eco- a corrupção da Igreja fora ocasionada por seu enriquecimento, que a transformara da primitiva Ecclesia Spiritualis e pobre, na Igreja rica, poderosa, hierárquica e dogmática da Idade Média. utilizando a simbologia dos Fraticelli, a Igreja apostólica, virginal e pobre, se transformara na meretriz do Apocalipse, na prostituta de Avignon.

Essa transformação fizera da Igreja a aliada e defensora dos ricos e poderosos, eternos exploradores dos pobres, segundo a primária concepção do marxismo e da Teologia da Libertação.

Nesse sentido, a luta entre a ortodoxia e a heresia é concebida apenas como uma máscara da luta de classes, tida como chave única do labirinto da História. Ortodoxia e heresia seriam palavras vãs. As causas da heresia não deveriam ser buscadas no orgulho, muito menos na ação do demônio, insufladores das disputas teológicas bizantinas e fantasmagóricas - sempre avassaladores da vinha de Cristo- e sim na questão econômica. A heresia seria o grito de revolta dos pobres contra seus exploradores, os ricos e poderosos, detentores dos privilégios derivados do poder e da riqueza. O heresiarca traduzia o grito de dor dos famintos de ideal utópico. Aos deserdados, o pseudo-profeta herético prometia o Reino de Deus na terra, Reino no qual haveria igualdade de direitos, abolição da lei e do direito de propriedade, amor livre, felicidade e fartura.

"Raspada a heresia encontrarás o leproso", isto é, o miserável marginalizado(R.237). "O erro - diz Frei Guilherme - está em acreditar que primeiro venha a heresia, depois os simples que a ela se dão (e nela se danam). Na verdade, primeiro vem a condição de simples, depois a heresia"(R.234).

Marx ou Genésio Boff não explicariam o problema diversamente.

Para exemplificar essa tese, Eco apresenta em seu livro dois casos concretos: o de Salvatore e o da aldeã que prostitui seu corpo à lubricidade dos monges para poder viver, e que acaba sendo morta como feiticeira, que nunca foi.

Salvatore tornou-se herege por causa de "todos os anos que jejuara" [forçadamente]. Na aldeia em que nascera, "o ar era ruim (...) e os campos apodreciam" e o povo passava tal fome que se chegara à antropofagia e ao crime para sobreviver (Cfr. R.219).

A pobre camponesa sem nome que se vendia por um coração de boi aos monges corruptos, à noite, na cozinha da abadia, fazia isso - diz Frei Guilherme- "Para por algo na boca". "Quem sabe com irmãozinhos para alimentar"(R.294), imagina Eco, um instante emocionado por esses irmãozinhos que habitam entre a demagogia e o romantismo. Afinal "noblesse oblige"... E Eco paga seu tributo ao marxismo com a demagogia, e à sua natureza italiana com uma pitada de sentimentalismo.

Esses camponeses pobres trabalhavam para a Abadia medieval vendendo-se, isto é, alienando-se à Abadia para viver de seus restos, aproveitando o estrume que escorria do mosteiro santo. Por vezes, conta Salvatore, esses camponeses explorados se revoltavam contra seus exploradores e seguiam um líder - em geral um padre apóstata ou um falso profeta- que lhes prometia o paraíso na terra. Era o que ocorrera com os Pastoureaux, que saíram pelo mundo a saquear e a matar os judeus.

O ingênuo Adso pergunta então "se não era verdade, porém, que os bens eram acumulados pelos senhores e pelos bispos, através dos dízimos, e que, portanto, os Pastoureaux não estavam combatendo seus verdadeiros inimigos", ao atacar os judeus(R.225). Ao que Frei Guilherme retruca: "Quando os inimigos verdadeiros são demasiado fortes, é preciso então escolher inimigos mais fracos. Refleti que por isso os simples são assim chamados. Somente os poderosos sabem sempre com muita clareza quem são os seus verdadeiros inimigos. Os senhores não queriam que os pastorzinhos pusessem em risco seus bens e foi uma grande sorte para eles que os chefes dos Pastoureaux insinuassem a idéia de que muitas das riquezas estavam junto aos judeus."

"Perguntei quem tinha enfiado na cabeça da multidão que era preciso atacar os judeus. Salvatore não lembrava"(R.225. O sublinhado é nosso).

Eram pois a exploração e a luta de classes que provocavam as explosões heréticas que a classe dominante procurava desviar, incitando as massas ao anti-semitismo, ou melhor ao anti-judaísmo.

Paradoxalmente, vemos então que o os marxistas - que são dos que mais se riem da tese conspirativa da História, defendida por muitos direitistas- têm, eles também, a visão de que na História há uma conspiração maquiavélica dos plutocratas capitalistas, que enfiam mentiras na cabeça do povo... para colecionar moedas...

A explosão de revolta dos pobres famintos que desembocou na torrente anárquica e criminosa dos Pastoureaux e dos Dolcinianos, narrada por Salvatore, parece a Adso "a epítome esplêndida de muitos eventos e movimentos que tornavam fascinante e incompreensível a Itália daqueles tempos"(R.227).

Fascinante, mas incompreensível porque não explicava o fundo do mistério da História, e porque não permite sair de seu labirinto. Por isso Frei Guilherme teoriza sobre a luta de classes que conduz não à luta pela posse de moedas mas à luta pela posse do poder, já que o dinheiro é meio e não fim. Ele recorda a Adso a alegoria do povo de Deus: "Um grande rebanho, ovelhas boas e ovelhas más, refreadas por cães mastins, os guerreiros, ou o poder temporal, o Imperador e os senhores, sob a direção dos pastores, os clérigos, os intérpretes da palavra divina"(R.234).

Pastores (o Clero, o poder espiritual), e os cães (os nobres, o poder temporal) viveriam, na Idade Média, às custas das ovelhas (o povo). Entretanto, por vezes, "os pastores combatem com os cães, porque cada um deles quer os direitos dos outros."(R.234).

É curioso que, nessa visão dialética da História, a narrativa de Eco se aproxima mais da concepção dos teólogos da Libertação do que de Marx. Para ele - como para Frei Boff - a palavra pobre não significa apenas os desprovidos de bens materiais, os economicamente explorados. Pobres seriam todos os marginalizados e excluídos da sociedade, por qualquer razão que seja (econômica, política, intelectual, racial, sexual, sanitária, cultural, religiosa, etc), e seu símbolo medieval seria o leproso.

"Todas as heresias são bandeira de uma realidade de exclusão. Raspada a heresia encontrarás o leproso. Toda a batalha contra a heresia requer apenas isso: que o leproso (o marginalizado, o oprimido) continue como tal "(R.237).

O ex-Frei Boff - agora Genésio - tem linguagem muito parecida com essa: "Pobre é aquele a quem se nega o direito de viver e de garantir a vida ".

"Quem eram os pobres no tempo de Jesus? Eram os lascados, como hoje. Era o cego, o coxo, o leproso, gente faminta a quem Jesus tem de dar comida, era o explorado de sempre(...)". "Pobre é o explorado através de todos os tempos"(L. Boff, Pelos pobres, contra a pobreza,52). Até parece que Eco se inspirou em Boff, ou que o franciscano leu e adotou as teses dos Fraticelli.

Prossegue Frei Guilherme: "Falávamos dos excluídos do rebanho de ovelhas. Por séculos, enquanto o Papa e o Imperador se estraçalhavam em suas diatribes de poder, eles continuaram a viver à margem, e eles os verdadeiros leprosos, de quem os leprosos são apenas a figura disposta por Deus para que nós compreendêssemos essa admirável parábola, e dizendo "leprosos" compreendêssemos "excluídos", pobres, simples, deserdados, erradicados dos campos, humilhados das cidades. [Como esse discurso se parece com o de Frei Boff ou com o do PT ! ]. Não compreendemos, e o mistério da lepra ficou a nos obcecar porque não reconhecemos sua natureza de signo. Excluídos que eram do rebanho, todos eles estavam prontos a escutar ou produzir toda pregação que, remetendo-se à palavra de Cristo, efetivamente pusesse sob acusação o comportamento dos cães [os nobres] e dos pastores [os clérigos] e prometesse que um dia eles seriam punidos. Isso os poderosos sempre souberam. A reintegração dos excluídos impunha a redução dos próprios privilégios, por isso os excluídos que tomavam consciência de sua exclusão deviam ser tachados de hereges, independentemente de sua doutrina"(R.236-237. Sublinhado e comentários entre colchetes são nossos).

Por isso, a luta entre ortodoxia e heresia "raramente diz respeito à fé, e mais freqüentemente à conquista do poder". "É por isso que a Igreja de Roma acusa de heresia todos os seus adversários? [pergunta Adso]. Ao que assente Frei Guilherme, dizendo: "É por isso, e por isso que reconhece como ortodoxia a heresia que pode reconduzir para seu controle, ou que deve aceitar porque se tornou muito forte e não seria bom tê-la como adversária"(R.237).

Desse modo, tem-se a doutrina completamente relativizada. Não haveria nem ortodoxia, nem heresia objetivas. O que haveria, na Idade Média, segundo Eco, seria uma pura manipulação dos textos sagrados para a manutenção do domínio econômico de uma classe.

Contra tal domínio, revoltaram-se os explorados, organizando-se em seitas.

"É por isso, naturalmente, que a rebelião ao poder (Sic na tradução) manifesta-se como apelo à pobreza, e rebelam-se contra o poder os que são excluídos da relação com o dinheiro, e cada apelo à pobreza suscita muita tensão e muitas controvérsias, e a cidade inteira, do bispo ao magistrado, sente como inimigo próprio quem prega demais a pobreza. Os inquisidores sentem cheiro do demônio onde alguém revoltou-se contra o cheiro do esterco do demônio" [o dinheiro](R.153).

O verdadeiro cristianismo exprime-se nessa revolta do pobre [do marginalizado, do excluído], contra o rico. Era a voz do próprio Deus que saía da boca do pobre como grito de rebelião, declara Frei Guilherme.

"Não teria sido um bom franciscano, se não pensasse que os pobres, os deserdados, os idiotas, os iletrados falam freqüentemente com a boca de Nosso Senhor"(R239). Seguindo a mesma linha de pensamento, o franciscano Frei Boff declara que o pobre é "sacramento universal de necessidade absoluta" (L.Boff, Da Libertação, Vozes, Petrópolis,1985,90); "fora da opção pelos pobres não há salvação"(L. Boff, idem, 63). e Pelos pobres, contra a pobreza,11); e que o pobre é a fonte magisterial da Teologia da Libertação, pois Deus "identifica-se com os pobres"(L. Boff, O Pai Nosso, Vozes, Petrópolis, 1984, 58).

Para o ex-Frei Boff, um dos principais autores da Teologia da Libertação, "atrás dela há um povo e não livros". (L. Boff e Clodovis Boff Teologia da Libertação no debate atual, Vozes, Petrópolis,1985,12). Ela nasce da práxis e não da Teologia teórica. Dela "só entendem dois tipos de pessoas: os pobres e os que lutam pela justiça. Ou seja: os que têm fome de pão e os que têm fome de justiça (e se solidarizam com os primeiros)".(L. Boff e Clodovis Boff Teologia da Libertação no debate atual, idem, p.17). "Diria até que para muitos é preciso passar pela experiência viva e direta da pobreza e da luta do povo por superá-la, para chegar a entender essa Teologia"(L. Boff e Clodovis Boff, idem, p.18. O sublinhado é nosso).

Coisas parecidas diz Eco pela boca de Frei Guilherme:

"Os simples e camponeses" - os pobres, diria Frei Boff - são "portadores de uma verdade diferente daquela dos sábios" (R.329). "Os simples percebem uma verdade própria e talvez mais verdadeira que aquela dos doutores da Igreja"(R.329).

O grande problema, porém, é como transformar a revolta irracional e mística numa teoria racional que a dirija para seu fim, sem perder o vigor do impulso popular místico e sem desnaturar a verdade da práxis numa teoria estéril porque distante da realidade? Como conciliar a verdade dos simples com a dos doutores?

"O que é preciso fazer ?

"Dar ciência aos simples? Muito fácil ou muito difícil. E depois qual ciência? Aquela da biblioteca de Abbone? (Isto é, a ciência da Igreja, a ciência oficial dos exploradores do povo?) (R.239).

"Como ficar perto da experiência dos simples mantendo, por assim dizer, sua virtude operativa, a capacidade de operar para a transformação e o melhoramento do mundo? "(R.240).

Esse problema de como unir o instrumental lógico da ciência com a mensagem autêntica dos pobres e marginalizados seria solucionado por uma nova filosofia, - uma nova magia natural [seria o marxismo? Ou a Teologia da Libertação?]-:"a nova ciência da natureza devia ser a nova grande empresa dos doutores para coordenar, através de um conhecimento diverso dos processos naturais, as necessidades elementares que constituíam também o cúmulo desordenado mas em seu modo verdadeiro e justo, das esperanças dos simples. A nova ciência, a nova magia natural "(R.240).

A pura revolta, como a de Fra Dolcino, jamais poderá levar a cabo o triunfo dos marginalizados. Racionalizada, ela só ajudará os exploradores a manter o seu domínio.

"O inculto desatino de Dolcino e de seus pares [medievais ou atuais] nunca porá em crise a ordem divina. Pregará a violência e morrerá pela violência, não deixará traço, consumir-se-ão do modo como se consome o carnaval, e não importa se durante a festa produzir-se-á na terra, e por pouco tempo, a epifania do mundo ao avesso [o "world up side down" dos hereges ingleses do século XVI, descrito por Christopher Hill] (R.533).

A verdadeira revolução não pode ser apenas uma erupção de violência. Tem que ser a violência dirigida pela nova magia natural, pela nova ciência -[o marxismo? A Teologia da Libertação ?]- que conciliará práxis e teoria, o intelecto e a violência natural, a razão e a mística.

A nova magia natural ensinará a rir dos temores suscitados pelas crenças religiosas alienantes (inferno, excomunhão) e de suas promessas (céu, bem-aventurança espiritual). O novo livro "poderá ensinar aos doutos os artifícios argutos, e desde então ilustrar como legitimar a inversão. Então seria transformado em operação do intelecto aquilo que no gesto irrefletido do aldeão é ainda e afortunadamente operação do ventre"(R.533).

Portanto, se a luta que se trava na História tem raízes na economia, ela jamais sairá do labirinto por meio da violência: o arrombamento de uma parede do labirinto conduziria apenas a outro corredor do mesmo labirinto, mantendo-se o domínio dos opressores.

A revolta dos explorados para obter a vitória exige o concurso da ciência e do saber que atualmente são utilizados pelos opressores para manter o povo em sujeição.

É preciso pois, antes de tudo, controlar o poder, para depois, por meio do saber verdadeiro libertar os oprimidos. Noutras palavras, é preciso conquistar os poderosos através de suas cabeças, através de suas mentes.

Na Idade Média, quem eram esses poderosos os quais era preciso mais conquistar do que derrubar? Primeiro derrubar, para depois convencer. Convencer para que, eles mesmos, se tornassem defensores dos marginalizados e oprimidos, a fim de instaurar o Reino de Deus na terra, o milênio esperado pelos hereges de todos os tempos ?

 

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    Para citar este texto:
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MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/religiao/labirintos6/
Online, 21/03/2019 às 15:14:14h