Religião-Filosofia-História



Do ponto de vista natural, a História, como todo labirinto, esconde seu caminho real e apresenta aos olhares dos homens uma multidão de caminhos falsos, que as ilusões, os erros e os vícios humanos consideram ilusoriamente como verdadeiros.

Somente no Juízo Final saber-se-á qual foi o caminho traçado pela Providência entre o Éden e o Paraíso celestial. Até lá, pode-se apenas vislumbrar esse caminho através das luzes da Filosofia cristã da História. Mesmo com o auxílio da Revelação, o percurso desenhado por Deus na História - caminho certo por linhas tortas - nos parece pouco claro enquanto vivemos. E, no entanto, ele foi traçado por Deus para conduzir o homem ao céu e para sua maior glória. E é bem falsa a opinião expressa por Eco de que a História conduz ao Nada.(Cfr. R.562).

Vimos que o autor de O Nome da Rosa procura simbolizar a História nos acontecimentos da Abadia. Ora, no enredo do livro, podem-se distinguir várias séries de acontecimentos de natureza diversa, que se imbricam uns nos outros, formando o que ele chama de labirinto maneirista (Cfr. P. 46), caso conduzam a um fim, ou rizoma, caso não levem a lugar nenhum.

Todos os labirintos menores do enredo do livro se entre relacionam para constituir o labirinto global da obra, símbolo do grande labirinto da História. Cada labirinto, isolado dos demais, conduz a um beco sem saída, ou melhor, a um outro labirinto ainda mais complicado e mais profundo. Cada um, isolado, é um falso caminho. Um só é o caminho verdadeiro, mas ele só pode ser encontrado se levados em conta os falsos, por menos importantes que sejam. E estes só se explicam com a chave do caminho real do labirinto mais profundo.

Na história relatada por Eco, podemos distinguir as seguintes séries de acontecimentos, símbolos dos diversos labirintos constitutivos do grande labirinto da História.

 

1 - O labirinto dos eventos

As pequenas tragédias, os acidentes, as pequenas lutas, triunfos e derrotas, os crimes, as doenças, enfim, os fatos ocasionais do quotidiano, de per si, não determinam, nem explicam a orientação do curso da história. Entretanto, seu encadeamento pode provocar, sem intencionalidade, mudanças profundas. Eles não explicam a História, mas só podem ser compreendidos inteiramente à luz dela.

Eco representa tais eventos na seqüência de passionais ocorridos na Abadia. Ele confessa que escolheu eventos de natureza policial para melhor despistar os leitores ingênuos e superficiais que, arrastados pela narrativa dos crimes e de suas pistas, se vêem num intrincado e misterioso labirinto. Os crimes não explicam o mistério da Abadia, assim como os eventos quotidianos não explicam a História. Pelo contrário, é a História que explica os eventos individuais diários. É o mistério mais profundo da Abadia que explica os crimes.

 

2 - O labirinto religioso

Subtilmente o leitor ingênuo é levado a suspeitar de que os crimes passionais foram praticados por razões religiosas pelos hereges infiltrados na Abadia. Eco monta um emaranhado intrincado de heresias em que se misturam Espirituais, Fraticelli, Dolcinianos, Irmãos do Livre Espírito, Cátaros, Beguinos, Valdenses, Flagelantes, Pastoureaux, etc, e no qual Adso - e o leitor comum, desconhecedor da História da Igreja - se perde com facilidade. Tal é a complexidade da luta entre a Igreja e as seitas, entre inquisidores e hereges, que Eco leva o leitor a pensar que ortodoxia e heresia se eqüivalem, e que suas disputas, apresentadas como bizantinices ridículas, são meros pretextos para a Igreja manter o seu domínio sobre o rebanho e melhor explorá-lo economicamente.

A questão ortodoxia -- heresia seria apenas uma camada superficial da História bastando cavar um pouco para descobrir, subjacente às questiúnculas teológicas, o problema econômico

 

3 - O labirinto econômico

Pastores e cães de guarda (Clero e Nobreza medievais) lutariam entre si na Idade Média, procurando obter as maiores vantagens na exploração das ovelhas do rebanho (o povo). As seitas heréticas medievais teriam sua gênese na exploração e marginalização de grupos sociais inferiores. Quando um grupo se tornava por demais poderoso, a Igreja legitimava suas opiniões religiosas, a fim de absorvê-lo.

Esta apresentação marxista da luta entre heresia e ortodoxia não explica porém tudo. Ela conduz a um labirinto mais profundo que é a luta pelo poder na sociedade medieval.

 

4 - O labirinto do poder político

Eco toma a luta entre o Papa João XXII e o Imperador Luís II da Baviera - cujas embaixadas se encontram na Abadia - como paradigma da luta entre Igreja e Estado pelo controle da sociedade na História. Papado e Império utilizavam as riquezas, as disputas teológicas, e até os menores eventos quotidianos para mutuamente se combaterem e adquirirem o controle absoluto do poder na sociedade medieval. Nesse combate, utilizava-se também a tática da infiltração na cidadela inimiga. Daí este labirinto político conduzir a outro, mais profundo, que seria o do controle do poder na Igreja.

 

5 - O labirinto eclesiástico

Na Abadia, tomada como exemplo parabólico do mundo e de sua História, desenvolve-se uma luta acirrada pelos cargos de domínio. Disputa-se o posto de abade, o de bibliotecário e o de auxiliar de bibliotecário. Surgem facções. No momento focalizado pela narrativa, o abade, embora italiano, entregara os cargos chaves a monges estrangeiros. A facção dos monges italianos não se conformava com isso, pois pretendia que uma Abadia em terras da Itália fosse governada apenas por italianos.

Além disso, os italianos não se resignavam com a decadência em que caíra a Abadia. Pretendiam fazer algo para deter essa perda de poder e de influência na sociedade, mas dividiam-se quanto à melhor solução para o problema.

Estas disputas são símbolo dos embates pelo domínio do Papado - mesmo nos dias de hoje - entre as diversas facções eclesiásticas, conservadoras, tradicionalistas, progressistas. Luta-se para que seja eleito Papa um candidato de determinada linha doutrinária. Portanto, a luta pelo poder pontifício e pelo controle das Congregações vaticanas - especialmente pela atual Congregação da Doutrina da Fé, o ex-Santo Ofício, controladora do saber na Igreja - se encaixam num outro problema: o doutrinário.

 

6 - O labirinto doutrinário ou do saber

Neste ponto concentram-se as questões mais complexas focalizadas pelo O Nome da Rosa. No tempo em que transcorre o romance - início do século XIV - registravam-se grandes controvérsias filosóficas. A questão dos universais, mais do que nunca, agitava as Universidades. Realistas platonizantes, nominalistas seguidores de Guilherme Ockham, e realistas moderados, como os aristotélico-tomistas, se digladiavam nas cátedras universitárias. O triunfo de uma dessas correntes implicaria em transformações profundas na Igreja, no Estado, na Sociedade, na Cultura e na Ciência. Era o futuro da civilização e da humanidade que estava em jogo.

Entretanto, nessa luta doutrinária, punham-se em foco questões muito variadas e complexas, entre as quais citamos:

- Existe a verdade? Pode o homem conhecê-la com certeza ? - É conveniente dar a conhecer toda a verdade ? E a todos ?

- Deve-se permitir completa liberdade nas questões do saber? Deve-se, pelo contrário, controlar o conhecimento? Quem deve controlá-lo ?

Estas questões conduzem a um outro labirinto: o da alma humana. Considerando a natureza do homem, aquilatando o real valor da razão, encontrar, então, qual o verdadeiro meio para alcançar a ciência e a sabedoria.

 

7 - O labirinto da alma

Depreende-se da apresentação de Eco, que na História haveria apenas duas tendências: a racionalista e a mística, a edipiana e a tirésiana. A primeira defende a tese de que a razão humana, sem a graça e sem a Fé, é capaz de resolver todos os mistérios da natureza e de solucionar todos os problemas. A segunda nega qualquer valor à razão e afirma que a natureza mais íntima do ser não precisa de controle algum, porque é divina, e que tudo que é material é também intrinsecamente mau, devendo ser repudiado e não compreendido ou controlado. Eco nem cita a terceira posição possível, que é a de São Tomás e da Igreja Católica, segundo a qual a razão é boa, mas não entende tudo, necessitando da Fé e da graça; e que, de outro lado, aceita a bondade da criação material e nega a divindade do espírito humano, condenando todo misticismo gnóstico.

Os racionalistas pretendem que a razão humana, sendo capaz de entender absolutamente todas as coisas, todo mistério será descerrado e todo mal será vencido pela Ciência e pela Técnica que, com o tempo, criarão a Utopia. Esta é, pois, uma tendência naturalista, cientificista e otimista.

A ela se opõe, no extremo oposto, a tendência mística que considera a razão humana enganadora e má. Pela razão tudo é definido, e, ao definir as coisas, a razão tudo separa, tudo isola, impedindo a compreensão do todo, destruindo a possibilidade de união de todos os seres numa divindade misteriosa que tudo englobaria. O estilhaçamento do universo realizado pelos conceitos racionais aniquilaria o Todo divino. Como já mostramos, essa é uma tendência gnóstica, que vê o universo material como produto de um Deus mau. Radicalmente pessimista, essa tendência para a Gnose mística condena o mundo e a razão, a carne e a Ciência, a mulher e o riso, o progresso e a vida.

Repetimos: Eco descreve a História como se só pudessem existir essas duas posições. Ele nem cita a posição católica que se opõe a essas duas correntes.

Essas duas tendências, antagônicas entre si e ambas opostas ao pensamento tomista, tem como símbolos típicos Édipo e Tirésias. No livro O Nome da Rosa, a corrente racionalista - panteísta é representada e defendida por Frei Guilherme de Baskerville, discípulo e amigo de Guilherme de Ockham, enquanto a corrente místico - gnóstica é representada pelo monge bibliotecário cego, Jorge de Burgos. eles lutam pela posse do II livro da Poética de Aristóteles, que trataria da comédia e do riso. Em torno dessa questão é que giram todos os demais problemas: o do saber; o do poder na Igreja; o da luta entre o papado e o Império, entre a Igreja e o Estado; o problema da chamada exploração econômica; a luta entre ortodoxia e heresia; enfim, o problema dos crimes passionais ocorridos na Abadia. Em outras palavras, toda a História do mundo teria por ponto axial a luta entre os racionalistas panteístas e os místicos gnósticos, excluída inteiramente a posição da Igreja Católica e do tomismo, que Eco insinua coincidir às vezes com a do gnóstico Jorge de Burgos, outras vezes com o racionalismo.

Nesse conflito, os místicos gnósticos, dominados por seu irracionalismo fanático, estão dispostos a antes incendiar o mundo e a destruir a humanidade do que permitir o triunfo dos racionalistas, continuamente dominados "pela cobiça das coisas novas", como Eco diz duas vezes, citando em italiano as palavras iniciais da encíclica Rerum Novarum: "Rerum Novarum cupidine" (R,217 e 522)

Por isso, Eco afirma, nas Postille, ser necessário que o romance terminasse com o incêndio da Abadia. Para não entregar o livro de Aristóteles sobre o riso ao racionalista Guilherme de Baskerville, para impedir que os racionalistas utilizassem o riso como arma para destruir a Igreja, o cego Jorge de Burgos prefere incendiar a biblioteca e a igreja abacial, microcosmo da época medieval, símbolo do mundo e de sua História.

Penetremos então, agora, nesses sucessivos labirintos de Eco a fim de melhor estudá-los.

 

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    Para citar este texto:
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MONTFORT Associação Cultural
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Online, 21/03/2019 às 15:12:57h