Montfort Associação Cultural

16 de janeiro de 2011

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As tentações de Cristo

Autor: Bruno Oliveira

  • Consulente: Maicon de Souza
  • Localizaçao: Vitória – ES – Brasil
  • Escolaridade: 2.o grau concluído
  • Profissão: Corretor de Seguros
  • Religião: Católica

Prezados Amigos,
Salve Maria!

Fico muito feliz pela continuidade deste apostolado, nunca deixem de lutar, a Igreja precisa de filhos como vocês.

Lendo o evangelho de S. Mateus IV.1-11 que diz:

“”Então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 2 Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome. 3 Então, o tentador se aproximou e disse a Jesus: «Se tu és Filho de Deus, manda que essas pedras se tornem pães!» 4 Mas Jesus respondeu: «A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.’ «

5 Então o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o na parte mais alta do Templo. 6 E lhe disse: «Se tu és Filho de Deus, joga-te para baixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.’ « 7 Jesus respondeu-lhe: «A Escritura também diz: ‘Não tente o Senhor seu Deus.’ «

8 O diabo tornou a levar Jesus, agora para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e suas riquezas. 9 E lhe disse: «Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar.» 10 Jesus disse-lhe: «Vá embora, Satanás, porque a Escritura diz: ‘Você adorará ao Senhor seu Deus e somente a ele servirá.’”
11 Então o diabo o deixou. E os anjos de Deus se aproximaram e serviram a Jesus.

Me surgiram algumas dúvidas, a primeira é a seguinte;

Jesus tendo a plena consciência de ser Deus, por qual motivo satanás insistia tentar colocar nEle dúvidas sobre a sua divindade. Por acaso o diabo almejava verdadeiramente fazer Deus duvidar de sua divindade?
Satanás acreditava realmente que Deus poderia cair em tentação? Ou prostar-se diante dele e o adorar em troca dos reinos deste mundo?
Por que Cristo precisou ser tentado?

Que S. Luis de Montfort esteja com vocês sempre, que Nossa Senhora e São Miguel Arcanjo os defenda, e que Nosso Senhor dê vida longa a Associação Cultural Montfort.

 

Muito Prezado Maicon,
Salve Maria,
 
     Agradecemos muitíssimo suas orações, pois compreendemos que sem oração não podemos nos manter junto à Cruz de Cristo, fiéis à Verdade ao lado de Nossa Mãe Santíssima.
 
     Muito perspicaz sua dúvida. É claro que se o demônio conhecesse, de fato, que Cristo era Deus e homem, ou seja, que era – e é – a união de duas naturezas, humana e divina, em uma única substância, o demônio não tentaria a Cristo. Mas o “príncipe deste mundo” tentou a Cristo, e por isso podemos inferir que ele não conhecia essa verdade sublime e elevadíssima que é a Encarnação.
 
     É isso o que nos ensina São João Crisóstomo nas Homilías sobre San Mateo:
 
al no saber claramente el misterio inefable de la encarnación ni quién era el que tenía allí delante, intenta tender otros lazos, con los que pensaba saber lo que para él estaba escondido y oscuro” página 238 edição da BAC.
 
     Dado que o demônio quis tentar a Cristo ele o fez da maneira mais astuta possível. Tentando detectar uma fraqueza em Cristo o demônio nos revelou seu modo de agir, a maneira pela qual o “príncipe deste mundo” atrai homens para o seu reino, e é isso que estudaremos mais em detalhes.
     
As tentações são narradas em três evangelhos, em São Mateus (Capítulo 4; 1 – 11), em São Marcos (Capítulo 1; 12 e 13) e em São Lucas (Capítulo 4; 1 – 13).
 
São Marcos:
 
E logo o Espírito o impeliu para o deserto. E esteve quarenta dias e quarenta noites; e era tentado por Satanás; e estava com as feras , e os anjos o serviram.”
 
 
São Mateus
São Lucas
1ª Tentação
E, aproximando-se (dele) o tentador, disse-lhe: Se és filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães. Ele, porém, respondendo-lhe, disse: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Disse-lhe então o demônio: Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se converta em pão. E Jesus respondeu-lhe: Está escrito: O homem não vive só de pão, mas de toda a palavra de Deus.
2ª Tentação
Então o demônio transportou-o à cidade santa, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque está escrito: Confiou aos seus anjos o cuidado de ti, e eles te tomarão nas mãos, para que não tropeces com o teu pé na pedra. Jesus disse-lhe: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E o demônio conduziu-o a um alto monte, e mostrou-lhe, num momento, todos os reinos da terra, e disse-lhe: Dar-te-ei o poder de tudo isso, e a glória destes (reinos), porque eles foram-me dados, e eu dou-os a quem me parece. Portanto, se tu me adorares, todos eles serão teus. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e a Ele só servirás.
3ª Tentação
De novo o demônio o transportou a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua magnificência. E lhe disse: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. Então Jesus disse-lhe: Vai-te, Satanás, porque está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e a ele só servirás.  Então o demônio deixou-o; e eis que os anjos se aproximaram, e o serviram.
E levou-o a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque está escrito que Deus mandou aos seus anjos que tivessem cuidado de ti, e que te guardassem, e que te sustivessem em mãos, para não magoares o teu pé em nenhuma pedra. E Jesus, respondendo, disse-lhe: (Também) foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus. E, terminada a tentação, retirou-se dele o demônio até outro tempo.
 
     O que podemos concluir:
 
1. O uso exclusivo da escritura (sola scriptura), com abandono de seu espírito (que concilia e fundamenta a verdade de todos os textos sagrados) não é uma nota distintiva somente dos protestantes, mas também do modo de agir do demônio, ambos usam citações da sagrada escritura para negar a verdade ensinada por Deus.
 
 2. Fenômenos preter naturais não podem ser tomados como critérios de verdade, afinal o demônio transportou Cristo para lugares longínquos de modo instantâneo, por isso ainda que tais fenômenos (ou experiências) sejam verdadeiros, não podem ser tomados como critérios distintivos da verdadeira religião.
No entanto conhecemos pelo evangelho que Cristo utilizou-se dos milagres para nos ensinar a verdade, como no caso do paralítico:
 
E, vendo Jesus a fé que eles tinham, disse ao paralítico: Filho, tem confiança, são-te perdoados os teus pecados. E logo alguns dos escribas disseram dentro de si: Este blasfema. E, tendo Jesus visto os seus pensamentos, disse: Por que pensais mal nos vossos corações? Que coisa é mais fácil, dizer: São-te perdoados os teus pecados, ou dizer: Levante-te e caminha? Pois, para que saibais que o Filho do homem tem poder sobre a terra de perdoar pecados: Levanta-te, disse então ao paralítico, toma o teu leito, e vai para tua casa.” São Mateus 9; 2 -6.
 
Então, como poderemos conhecer quando tais fenômenos são vindos de Deus ou do demônio? Sempre deveremos analisar o propósito, pois, quando o milagre tem como finalidade ensinar uma verdade, como no caso do paralítico, temos uma ação ordenada; porém, quando o prodígio tem como finalidade a vanglória, a soberba ou outro vício, temos então algo desordenado.
 
“Ora é desordenado que alguém, para sustentar o corpo, podendo recorrer a auxílios humanos, queira procurar para si alimento miraculosamente. No deserto, onde não era possível encontrar alimento de outra maneira, o Senhor proporcionou miraculosamente o maná aos filhos de Israel. Do mesmo modo Cristo alimentou miraculosamente as multidões no deserto. Mas para acudir à própria fome, Cristo poderia prover de outra maneira, que não fazendo um milagre, quer fazendo como João Batista, como se lê no Evangelho de Mateus, quer dirigindo-se às aldeias próximas. Por isso, pensava o diabo que Cristo, se fosse apenas um homem, pecaria se tentasse fazer um milagre para matar a fome.” Suma Teológica de Santo Tomás IIIª, Q. 41, a.4, sol 1.
 
     Portanto devemos analisar a finalidade, e não a experiência em si.
 
     Com as sagradas escrituras aprendemos que o demônio utilizou-se dos vícios da gula, vanglória e soberba para vencer Adão. Sendo assim deveria incitar suas tentações contra Cristo da mesma forma. Cristo então deveria vencer as tentações objeto da queda de Adão. Assim nos argumenta São Tomás:
 
“(…) Primeiro provocou-o com a comida da árvore proibida: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comais de nenhuma das árvores do jardim’?” Segundo, incitou-o à vanglória dizendo: “Os vossos olhos se abrirão”. Terceiro, propôs-lhe a tentação de extrema soberba: “Sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal”.
O mesmo modo observou ao tentar Cristo. Primeiro tentou-o a respeito do que moderadamente desejam as pessoas espirituais, isto é, o sustento do corpo pelo alimento. Segundo, passou àquilo em que as pessoas espirituais algumas vezes falham, a saber, fazer alguma coisa por ostentação: o que pertence à vanglória. Terceiro, propôs-lhe uma tentação própria não mais de pessoas espirituais, senão de carnais, isto é, a ambição de riquezas e de glória mundana “até o desprezo de Deus”. Suma Teológica de Santo Tomás IIIª, Q. 41, a.4, rep.
 
Para os homens que não caem no pecado da gula o demônio reserva um segundo grau de tentações, conforme o evangelho de São Mateus, a tentação de vanglória. E finalmente para aqueles que não vendem sua alma pela gula ou pela vanglória há ainda a derradeira tentação: servidão ao demônio diretamente.
 
     Esse trecho do evangelho nos serve como chave interpretativa para toda a história, afinal há pelo menos três níveis de tentações que distinguirá três hierarquias de homens:
            – há os que são pecadores, principalmente devido às tentações da carne; 
            – outros devido ao vício da vanglória;
            – e há outros ainda, que aceitam cultuar o demônio, se em troca obtiverem o que de direito é de Deus, o governo do mundo.
 
     Assim é o resumo do ensinamento de São João Crisóstomo:
 
Ahora expliquemos brevemente qué significam las tentaciones de Cristo.(…) El que se habitúa con el pecado convierte la piedra en pan. Responda, pues, al demônio cuando le tiende, dicendo: “Que no de sólo el uso de aquella cosa vive el hombre, sino de la observancia de los mandatos de Dios”. Cuando alguno se engríe como si fuese santo, es como llevado al templo, y cuando se crea que está en la cumbre de la santidad, entonces es cuando le coloca sobre el pináculo del templo, y ésta es la tentación que sigue a la primera, porque la victoria de la tentación produce la vanagloria e es causa de jactancia. Pero advierte que Cristo ayunó voluntariamente. El diablo lo llevó al templo para que ti te consagres espontáneamente a la abstinencia, pero por ello no te creas que has llegado a la cumbre de la santidad; huye del orgullo del corazón y no experimentarás tu ruina; la subida al monte es la marcha hacia las riquezas y la gloria de este mundo, como que desciende de la soberbia del corazón. Cuando quieras rico, lo cual equivale a subir al monte, empiezas a pensar en adquirir las riquezas y los honores, y entonces el Príncipe de este mundo te manifiesta la gloria de su reino. En tercer lugar, te ofrece las causas para que, se las quieres seguir, le sirvas, menospreciando la justicia de Dios.” (Catena Aurea, Santo Tomás de Aquino, edição do Curso de Cultura Catolica, Buenos Aires, Vol I. páginas 99 e 100).
           
     Não devemos ser ingênuos e achar que esse contexto aplica-se somente à época de Cristo. Ora, na história observamos que existiram homens que perdem sua alma e dignidade pela gula, como Esaú, que vendeu o direito de primogenitura por um prato de lentilhas, dando uma importância excessiva ao pão; ou ainda como os Teólogos da Libertação que aparentam não lembrar-se do que Cristo nos ensinou “nem só de pão vive o homem”. Há ainda homens que perdem sua dignidade pela vanglória como Imperador Aureliano, que proclamou-se Dominus et Deus em 274. E, por fim, identificamos na história homens que expressam sua adoração ao demônio, como Baudelaire e outros tantos artistas românticos e modernos. Constatamos ainda mais próximos de nós essa adoração pervertida no rock.

     O
paralelo que fazemos das tentações de Cristo pode e deve ser estendido até os dias de hoje, de uma forma bastante profunda. Podemos, efetivamente, compreender melhor a história do mundo à luz desse paralelo.

S. Mateus e S. Lucas narram três tentações de Jesus, nas quais se espelha a luta por causa da sua missão, bem como se introduz, ao mesmo tempo, a questão sobre o sentido da vida humana enquanto tal. O núcleo de toda a tentação – isso se torna visível aqui – é colocar Deus de lado, o qual, junto às questões urgentes da nossa vida, aparece como algo secundário, se não mesmo de supérfulo e incômodo. Ordenar; construir o mundo de um modo autônomo, sem Deus; reconhecer como realidade apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, tendo-o como uma ilusão: aqui está a tentação que de muitas formas hoje nos ameaça.” Página 41 – Jesus de Nazaré Joseph Ratzinger.

 
“Se hoje tivéssemos de escolher, teria Jesus de Nazaré, o filho de Maria, o filho do Pai, alguma possibilidade? Será que conhecemos mesmo Jesus? Será que O compreendemos? (…) Ele [o demônio tentador] apenas nos propõe que nos decidamos por aquilo por aquilo que é racional, pela primazia de um mundo planejado e organizado, no qual Deus pode ter o seu lugar como uma questão privada, mas que não pode imiscuir-se nas nossas intenções essenciais. Soloviev dedica ao Anticristo o livro “O caminho aberto para a paz e o bem-estar do mundo”, que de certo modo se torna a nova Bíblia e que tem como próprio conteúdo a adoração da prosperidade e do planejamento racional.” Páginas 51 e 52 idem. O paralelo então se dá não somente com os primeiros tempos (Adão), mas também com os últimos tempos.
           
Vale lembrar que muitos autores, além do Papa, identificam uma profunda relação entre os princípios da modernidade e os ensinamentos do diabo, e colocam, por exemplo, a lenda do final da Idade Média do Dr. Fausto (o homem erudito que vende sua alma ao demônio Mefistófeles) como um arquétipo do projeto da modernidade. Isso é apontado por MichaeI Jaeger na obra “Fausto” de Goethe [1749 - 1832] (um dos escritores mais importantes da literatura alemã), ou ainda, por Octávio Paz [1914 – 1998], que comenta a proximidade entre a revolta presente na modernidade e o anjo da rebeldia: Lúcifer. 

     Concluímos assim que a tentação do demônio está hoje muito mais presente do que poderíamos pensar, e em todos os seus estágios.

           
     Para concluir a reposta não poderia deixar de mencionar as palavras de São João Crisóstomo para nos alimentar de esperança e nos lembrar o que nos aguarda: a vitória com Deus Nosso Senhor no Céu. Amemos e pratiquemos, portanto, os ensinamentos do Santo:
 
Aprended de ahí que también a vosotros, después que hayáis vencido al diablo, os recibirán los ángeles entre aplausos y os acompañaran por dondequiera como una guardia de honor. De este modo, en efecto, se llevaron los ángeles a Lázaro, salido que hubo de aquel horno ardiente de la pobreza, del hambre y de la estrechez más extrema. Ya os lo he dicho antes: muchas son las cosas que aquí muestra Cristo de que hemos de aprovecharnos nosotros. Como quiera, pues, que todo esto ha sucedido por nosotros, emulemos e imitemos también su victoria. (…) Cada día emplea sus mismas artes con cada uno de sus siervos, no sólo en los montes y soledades, sino también en las ciudades, en las públicas plazas, en los tribunales; y no sólo nos ataca por sí mismo, sino valiéndose también de hombres de nuestro mismo linaje. ¿Qué tenemos, pues, que hacerNegarle absolutamente fe, taparnos los oídos, aborrecer sus adulaciones y volverse tanto más resueltamente las espaldas cuanto mayores promesas nos haga.Páginas 244 e 245 das Homilías sobre San Mateo (BAC).

In Corde Jesu, semper, 
Bruno Oliveira

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